sábado, 5 de agosto de 2017

DE VOLTA Á FONTE DO MATO




Neste último domingo fui conhecer o Parque da Fonte do Mato. Não sei se é o mesmo projeto da administração do inesquecível prefeito Dr. Alcides Saldanha. Mas, finalmente o sonho dos caçapavanos da Era da Pipa e do Noca está sendo realizado.
Gostei. Aquelas trilhas com pontezinhas artesanais e bancos rústicos, mas confortáveis, de longe em longe, são espaços que encantam o olhar dos visitantes.  Mais adiante, uma arquibancada que promete acomodar futuros espectadores para eventos variados, principalmente musicais, eu espero.
Até ali, no entanto, pensei estar apreciando algo completamente novo, mas ao ver a antiga casinha lá na frente, que foi um marco na paisagem, pois sempre aparecia em fotografias antigas, eu me senti em casa. E a bica despejando água sem parar, formando um riacho a perder de vista, com um murmúrio que parece aquietar a alma da gente! Ah, meu Deus! Senti-me no céu.
Sentei-me e, confortavelmente, fiquei recordando domingos de outrora, quando o passeio preferido da minha família era a ida à Fonte do Mato.
Íamos à frente de meus pais, pelo meio da Rua 7, e eles atrás, de braço, naquele diálogo de eternos namorados que os acompanhou até a morte. Nós com nossos canecos para beber a água pura “in loco”, numa algazarra e cantoria de crianças felizes.
Lembro do mato que cercava a fonte. Era cerrado e cheiroso. Algumas flores que chamávamos de marrequinhas – acho que era sua forma – com elas fazíamos colares e pulseiras. A tarde passava tranquila, e nossas vozes ressoavam à distância. Mamãe repartia o lanche, um bolo ou pão batido. Tento, hoje, fazer um igual, mas perdi a receita.
Meu pensamento não para, e agora é a figura de siá Ernestina que me acode. Seu sorriso bonito, o bambolear das cadeiras, equilibrando na cabeça a trouxa de roupa lavada, passada e perfumada, de volta para as freguesas. Ah!, os amaciantes industrializados de agora não têm o mesmo poder!
Vejo-a e a outras lavadeiras - nunca aos domingos - esfregando e batendo roupas nas pedras ao redor; ouço suas conversas, às vezes algumas discussões. Por espaço, ciumeiras, brigas dos filhos. Siá Ernestina não se envolvia. Era uma dama. Abandonada pelo marido, criou os quatro filhos com a força de suas mãos e o respeito das patroas. Avó do lendário futebolista Caçapava, teve outro filho que também brilhou nesse esporte, o Tinga.
Neste domingo, tive a ventura de viver em três dimensões: apreciando o Parque de agora, prevendo o bem que ele trará no futuro, e lembrando um passado feliz que está sempre presente em meu coração.
                                                Anna Zoé Cavalheiro





Neste último domingo fui conhecer o Parque da Fonte do Mato. Não sei se é o mesmo projeto da administração do inesquecível prefeito Dr. Alcides Saldanha. Mas, finalmente o sonho dos caçapavanos da Era da Pipa e do Noca está sendo realizado.
Gostei. Aquelas trilhas com pontezinhas artesanais e bancos rústicos, mas confortáveis, de longe em longe, são espaços que encantam o olhar dos visitantes.  Mais adiante, uma arquibancada que promete acomodar futuros espectadores para eventos variados, principalmente musicais, eu espero.
Até ali, no entanto, pensei estar apreciando algo completamente novo, mas ao ver a antiga casinha lá na frente, que foi um marco na paisagem, pois sempre aparecia em fotografias antigas, eu me senti em casa. E a bica despejando água sem parar, formando um riacho a perder de vista, com um murmúrio que parece aquietar a alma da gente! Ah, meu Deus! Senti-me no céu.
Sentei-me e, confortavelmente, fiquei recordando domingos de outrora, quando o passeio preferido da minha família era a ida à Fonte do Mato.
Íamos à frente de meus pais, pelo meio da Rua 7, e eles atrás, de braço, naquele diálogo de eternos namorados que os acompanhou até a morte. Nós com nossos canecos para beber a água pura “in loco”, numa algazarra e cantoria de crianças felizes.
Lembro do mato que cercava a fonte. Era cerrado e cheiroso. Algumas flores que chamávamos de marrequinhas – acho que era sua forma – com elas fazíamos colares e pulseiras. A tarde passava tranquila, e nossas vozes ressoavam à distância. Mamãe repartia o lanche, um bolo ou pão batido. Tento, hoje, fazer um igual, mas perdi a receita.
Meu pensamento não para, e agora é a figura de siá Ernestina que me acode. Seu sorriso bonito, o bambolear das cadeiras, equilibrando na cabeça a trouxa de roupa lavada, passada e perfumada, de volta para as freguesas. Ah!, os amaciantes industrializados de agora não têm o mesmo poder!
Vejo-a e a outras lavadeiras - nunca aos domingos - esfregando e batendo roupas nas pedras ao redor; ouço suas conversas, às vezes algumas discussões. Por espaço, ciumeiras, brigas dos filhos. Siá Ernestina não se envolvia. Era uma dama. Abandonada pelo marido, criou os quatro filhos com a força de suas mãos e o respeito das patroas. Avó do lendário futebolista Caçapava, teve outro filho que também brilhou nesse esporte, o Tinga.
Neste domingo, tive a ventura de viver em três dimensões: apreciando o Parque de agora, prevendo o bem que ele trará no futuro, e lembrando um passado feliz que está sempre presente em meu coração.
                                                Anna Zoé Cavalheiro


terça-feira, 30 de maio de 2017

AS NUVENS PASSAM




Brasileiro sofre! Colorado também. Mas as nuvens passam, o sol continua brilhando.
Em meio a notícias ruins, a Rádio Gaúcha deu a palavra à repórter encarregada do setor da Educação, e ela falou do elogiado desempenho de alunos do Colégio Santa Inês, de Porto Alegre, no encontro de Robótica, na Dinamarca. Imaginem, nesse país 1º Mundo, avançadíssimo no Índice de Desenvolvimento Humano, os estudantes gaúchos brilharam, destacando-se entre colegas dos demais países pelos quesitos de trabalho em equipe e respeito aos adversários. Além, é claro, pelos trabalhos apresentados. É um orgulho para nós e uma esperança no futuro de nosso país.
Enquanto lá em cima, no Planalto, os representantes do povo se ocupam exclusivamente em salvar a própria pele, inventando estratégias para “estancar a Lava-Jato”, a educação luta por melhores condições de ensino, professores e pais solidarizam-se, tomam iniciativas para angariar recursos, e alunos empenham-se na própria formação e informação. E a Segurança ainda não achou o caminho para “estancar” a criminalidade. Pois o fundamento de tudo é a Educação.
Nossos campos - plantações e rebanhos - ganham cuidados redobrados de agricultores e criadores para que as safras não sofram prejuízos por falta de incentivos oficiais.
Dá gosto ver, da janela do ônibus, aquela imensidão de verde dos pastos, as plantações crescendo e amadurecendo, e o gado pastando satisfeito. Não faltarão produtos nas gôndolas dos Supermercados. Não somos a Venezuela, graças a Deus.
O inverno nem começou, mas as chuvas vieram atrapalhar as expectativas de as colheitas deste ano alcançarem novos recordes. Estimava-se que o gado teria boas pastagens para seu desenvolvimento. Entretanto, o homem do campo não desiste da luta.
   O brasileiro não perdeu o bom humor, sua característica no DNA nacional. E mesmo diante das enchentes que desabrigam moradores ribeirinhos, procuram minimizar seus efeitos, ajudando de uma maneira ou outra aqueles irmãos sofridos. E entretêm-se ouvindo e contando piadas sobre o momento político que atravessamos.
   Gostei da charge mostrando S. Pedro entretido no whastapp, enquanto um anjinho comentava com outro: “Ele esqueceu de fechar a torneira.”
   Quando o sol apareceu no início da semana, foi uma festa. Os varais encheram-se de roupas lavadas, e o vento também ajudou a secá-las.
As donas de casa vibraram! Janelas se abriram deixando “a luz do céu entrar”. Minha vizinha ocupou-se das flores de seu jardim, sempre tão bem cuidado!
Na rua, nas filas de banco, supermercado, o assunto era o mesmo: o sol.
Por isso eu acredito, e vamos todos acreditar. Nuvens negras se abatem sobre nosso amado país. Mas, como todos sabemos – “as nuvens passam, o céu é sempre azul.”
            Anna Zoé Cavalheiro

Nossos agradecimentos aos estimados leitores pela boa acolhida de nosso livro “Um Olhar para a Vida” na 27ª Feira do Livro.



terça-feira, 9 de maio de 2017

QUANDO EU GOSTAVA DAS SEGUNDAS





Eu gostava das segundas-feiras. Ver a cidade animar-se, abrirem-se as lojas, e poder contar com os serviços essenciais. Consultórios médicos, dentários, repartições, delegacias,  tudo funcionando. Ver as pessoas nas ruas – ao contrário dos domingos parecendo cidade-fantasma - reaparecerem depois de seus descansos no campo ou em balneários...
É verdade que isso ainda funciona. Mas ligar o rádio e ouvir as primeiras notícias do último fim de semana faz a gente tremer. Aumentam escandalosamente os números de mortes violentas - no trânsito até diminuiu de uns tempos para cá – mas os homicídios e latrocínios no Estado superam as estatísticas dos países orientais que estão em guerra. Se no Teerã noticiam dezessete mortes, aqui nos jornais aparecem trinta e cinco ou quarenta. E o medo de identificar algum nome bem conhecido entre as vítimas! Haja calmantes nas farmácias.
Mas nas primeiras horas é preciso atender às mensagens do celular. De gente querida desejando-nos um bom dia, querendo saber notícias e às vezes contando piadas para não desaprendermos a rir. São anjos aqui da Terra que não nos deixam desacreditar totalmente da raça humana. Sentem como nós e ainda guardam os princípios que regulam nossas vidas.
Com eles formamos um grupo cada vez mais unido e nos desejamos mutuamente toda a felicidade do mundo.
Neste verão, muitos desses anjos viajaram para lugares diferentes: um casal da terceira geração da família preferiu esquiar no Colorado, USA. Uma das nossas jovens foi para a Austrália em viagem de estudos; outra visitou parentes em S. Paulo; os mais maduros com suas crianças foram para praias daqui e de Santa Catarina. Uma amiga foi visitar a filha no Rio de Janeiro. Outros mudaram-se para uma casa e estão oferecendo a piscina para o nosso refrigério. As fotos daqui e dali nos levaram até eles.
Tudo que acontece nesse grupo é transmitido diariamente. Assim, ficamos sabendo de aniversários, e mandamos nossos votos de felicidade; de doenças, e são muitos os desejos de rápida recuperação, e correntes de orações.
Na família, costumamos dizer: há sempre alguém de aniversário, outro em apuros – de dinheiro ou amorosos –; ou sumido, seu telefone não atende há duas horas; ou doente.
Outro dia fui eu que causei o susto. Era domingo, tirei o auto da garagem e dei uma carona para uma vizinha. Ela me convenceu a chegar bem rapidinho numa feira de roupas que estava na cidade. Ficava numa rua atrás da Pinheiro Machado. A tal chegadinha durou hora e meia. Minhas manas me telefonavam, e nada de mim. Sobrinhos saíram a campo. Alguém lembrou: ela adora velório, deve estar numa Funerária. Imaginem, quem é que vai gostar? .Nenhuma estava aberta.
Quando consegui telefonar para uma delas, pois na Feira não dava para ouvir nada, foi muito telefone levando a notícia.
Naquela segunda-feira eu fui a notícia no grupo da whatsappe. Piadas não faltaram. E muito engraçadas.


sábado, 6 de maio de 2017

QUEM DERA





Acordei de um sonho tão gostoso! Estava numa festa de inauguração de grandes obras públicas, estradas, escolas, usinas eólicas, creches... Assisti ao desatar das fitas simbólicas pelas autoridades principais. Todo o mundo batia palmas, feliz. Meu coração quase explodia de entusiasmo vendo a retomada do progresso pelas reconquistas que beneficiariam ao povo de nosso amado Brasil.
Já desperta, vi na TV imagens que também me abalaram. Não de regozijo, pelo contrário, de medo. Autoridades inaugurando com discursos – quase pedindo desculpas – mais uma penitenciária de alta segurança no Estado.  Sem fitas para desatar. E ainda mostrando, ao lado, um pavilhão em estado precário, que seria restaurado para produzir mais vagas, prevendo o crescimento da bandidagem. Não me lembro se houve aplausos, mas as fisionomias dos presentes eram de constrangimento
E fiquei pensando nos hospitais públicos fechando leitos, enfermos à espera de tratamento que não vem; escolas em estado precário e ainda saqueadas todos os dias; caminhoneiros atolados perdendo a carga perecível e até passando fome e sede nas estradas da zona norte, no Pará. E aqui também, no caminho que leva ao nosso único porto de mar, à espera de verba para a duplicação que pouparia vidas... Que belo tempo em que se lançavam novos navios ao mar - com brindes de champanhe - para levarem nossos produtos e trazerem o seu retorno em divisas e poder econômico!
Crianças em situação de miséria extrema, obrigadas a trabalhar, prostituir-se ou morrer de fome. Jovens desatendidos e sem perspectivas engajando-se nas gangues e matando outros jovens, por um celular... E os corações das mães na incerteza da volta do filho da escola ou da faculdade...
Quem é que não vê que o Brasil precisa é de educação? Que os “donos” de nosso dinheiro deixem de barganhar por verbas que nunca são suficientes. Educação é nosso maior investimento. Povo educado – não apenas com informação – é povo que respeita as pessoas, o bem público e contribui para o bem comum. Que clama por igualdade, liberdade e respeito ao ser humano.
Estamos no fundo do poço? Mas, como dizia meu avô, daí ninguém cai. Agora é levantar e ir à luta. Temos o exemplo da Colômbia. Medelin era a capital das drogas e das forças rebeldes. Um terror. Pois esse país progrediu vertiginosamente. Hoje Medelin tornou-se uma cidade de primeiro mundo, onde a gente pode andar sem susto. Ali reina o respeito e a cordialidade. Novas obras, restaurações de outras, o reflorescimento das artes. A educação tem atingido os melhores índices de resultados. O povo está em estado de graça. E de paz.
Temos todas as condições para chegar a esse topo. Novas forças começam a surgir entre nós. Gente que pensa e age fazendo o bem. E reage contra as injustiças sociais.
O Gigante – “deitado eternamente em berço esplêndido” – começa a despertar.

                                   Anna Zoé Cavalheiro

Nosso livro continua à venda em nossas residências.


"PROGRAMA DE ÍNDIO"





Cada vez que entro na cidade pela Rua Barão, lembro o incidente da jornalista forasteira que veio a Caçapava para aproveitar um feriado. Saiu daqui só criticando, desde a rua de entrada, com “casas velhas, faltando pintura...” e mais outras particularidades desagradáveis, como falta de restaurantes e hotéis. Sei que ela ficou na lista das pessoas “não gratas”, que jamais deveriam voltar aqui.
Aconteceu também com o famoso Carpinejar – brilhante escritor, na minha opinião – que chegou às duas da tarde numa churrascaria e desejava um churrasco recém saído do espeto.
 Pois é, mas esses programas de última hora, principalmente aos feriados ou fins de semana, sem planejamento, só podem dar no que deu.
Agora, neste feriadão de 1º de maio, soube de um casal que foi a Rivera pensando em fazer algumas comprinhas e, claro, apreciar os afamados assados de lá. Pretendiam passar a noite e, bem descansados, realizar os seus planos no dia seguinte. Mas, qual! Não encontraram vaga nos hotéis, nem nas pousadas. Uma multidão de brasileiros havia pensado o mesmo que eles. E chegara primeiro. Tiveram que pernoitar em Rosário e faltou coragem de retornar para as compras.
Nossa turminha de aposentadas que sempre vai a restaurante aos domingos, resolveu aproveitar a visita da filha de nossa amiga Leila, vinda do Rio de Janeiro onde reside, para dar umas escapadas da cidade. E realizar um velho sonho de conhecer a região da 4ª Colônia. A carioca foi a nossa motorista. Um ás no volante. Também, acostumada a dirigir no Rio, na China, onde morou por cinco anos, nos Estados Unidos e outros lugares, foi uma condutora perfeita. Viagem tranquila, guiada por GPS.
No trajeto, íamos pensando na boa comida da colônia que nos aguardava; nos afamados produtos de lá, cucas, queijos, salames e outras coisinhas deliciosas, e a fome foi aumentando.
Fomos passando por várias cidades pequenas, mas tão limpinhas e de casas bonitas, praças aconchegantes, flores e árvores por todos os cantos. Nenhum cachorro vira-lata nas ruas. Procuramos um restaurante que parecia bem animado. Entramos - e as mesas todas ocupadas – pedindo uma para quatro. A mocinha perguntou se tínhamos reservado. Então, ficamos sabendo que as reservas teriam de ser de uma semana atrás.
Seguimos adiante, e o mesmo acontecia. Turistas bem acomodados almoçando enchiam todos os espaços. E nós... Sem reserva não dá.
Finalmente, depois de passar por mais duas ou três cidadezinhas, vimos na vidraça de um Posto de Combustível, as palavras tão esperadas: “Restaurante “Bifão”. Minha mana se animou: Um “à la minuta” seria muito bem-vindo. Sentadas à mesa, suspiramos aliviadas. Ângela, nossa motorista – era o brotinho da turma - foi-se entender com o dono. E ele logo retornou com os pratos, dois a dois. Eram os tais PF - para nós, o “completo” - que quer dizer: “prato feito”. Pensei que não ia dar conta, mas qual, a fome venceu. Verdade seja dita, estava bem gostoso.
Foi um programa de índio, mas valeu a pena. As paisagens, aqueles montes cobertos de mata virgem, as cidades sem poluição, nem vilas miseráveis, casas bonitas e sem grades, gente educada, um ar puro oxigenando nossos pulmões!... E aquela atendente do Quiosque de Informações Turísticas que telefonou para diversas padarias pedindo que nos recebessem e pudéssemos trazer as gostosas cucas. Que pessoa amável e competente!
Finalmente, um Café Colonial onde a gente se servia à vontade, só pagando por quilo. Assim é mais justo. Pagar o café inteiro sem consumir nem a terça parte não dá.
Concluindo, nosso passeio deixou gratas lembranças. Conhecemos essa parte do Estado tão autêntica em sua maneira de ser, de viver e produzir. Que se auto-sustenta e fica satisfeita com o que contribui para as tradições gaúchas de colonização italiana. E o prazer da companhia de pessoas que a gente ama – a nossa turminha de domingo enriquecida com a presença da Ângela, que aprendemos a querer bem. Foi muito bom!
                           Anna Zoé Cavalheiro

Nosso livro estará na Feira do Livro com desconto.






ATIRE A PRIMEIRA...

Chega! esbravejou seu Armando, desligando a televisão. Na minha casa, não quero mais ouvir ou ler notícias. Só tratam de corrupção e Lava Jato. Gente que parecia a nossa esperança de paz e progresso agora está na lista do Fachin. Até o senador em quem votei está listado, não nessa, mas na Lei Maria da Penha.
Dona Conceição concordou com o marido. Mas disse: Na hora da novela, meu velho, me deixa assistir.
A proibição do chefe de família se estendeu à mesa de refeições: Nada de conversa sobre políticos. A esposa até que gostou do atual estado de coisas. Agora seus dois filhos estavam de acordo. Antes, era preciso pedir com seu jeitinho meigo que não discutissem, um defendendo seu partido, outro acusando.  A última lista – até o momento – derrubou as últimas crenças na honestidade dos eleitos do caçula, que ainda na semana anterior não acreditava nas acusações. Coitadinho, sentiu a mãe, observando seu ar desconsolado.
Na rua, conhecidos se encontram nas esquinas e ficam a comentar os últimos acontecimentos. Seu Osvaldo, notório sonegador de impostos e mau patrão - não assina as carteiras de trabalho dos empregados nem recolhe ao INSS - era o mais ferrenho acusador. Para ele tinham que dar prisão perpétua para “esses ladrões do povo, que deixam doentes morrerem por falta de atendimento, criancinhas passarem fome, adultos desempregados” e por aí afora. Um caminhoneiro se queixava das más estradas que não permitem ou encarecem o escoamento das safras... Um pai de família lamentava o estado precário das escolas, a falta de professores, funcionários e equipamentos.  Os problemas dos jovens sem perspectivas de futuro, entregues por isso às drogas, malandragem e delinquência. A falta de segurança nas ruas, nas estradas, os bandidos comandando a vida dos moradores da periferia, desalojando famílias para instalarem suas bocas de fumo.
As críticas se estenderam ao estado das ruas, calçadas esburacadas. “Outro dia, uma senhora quebrou a perna aí” disse o morador da vizinhança, sem olhar para a frente de sua própria casa, cuja calçada foge a todas as regras de segurança. No meio-fio, o capim crescendo sem parar. Culpa da Prefeitura, todos comentam.
Uma professora, passando ali, foi pensando como é fácil criticar, destruir, mas qual daqueles homens estaria livre de alguma culpa? Se em vez de ficarem falando à toa, pegassem uma enxada e arrancassem o matagal que se alastra enfeiando suas fachadas...
Se os funcionários públicos e privados cumprissem lealmente suas tarefas, em vez de só exigirem seus direitos; se aquela dona de casa queixosa do alto custo de vida deixasse de surrupiar produtos nos Supermercados; se a pessoa que pegou o dinheiro no caixa eletrônico que a velhinha afobada esquecera de recolher, ao avistar uma conhecida e ir abraçá-la. Quando ela se deu conta e voltou, o dinheiro não estava mais lá. E o indivíduo – homem ou mulher – na parada do ônibus nas vésperas do Natal, numa tarde de chuva – em vez de alcançar à dona a sacola que ela esquecera na afobação de embarcar no ônibus, achou melhor ficar com ela. Eram os presentes de Natal para a família, comprados a prestação por longos meses de prazo...
A corrupção dos poderosos é uma avalanche que cai sobre nós, um tsunami que arrasa por onde passa e deixa o povo mais pobre, desassistido, desiludido.
A desonestidade do povo é um micróbio que vai devagarinho minando o organismo, e passa para o DNA das novas gerações.
Qual deles é o mais letal?
E a professora concluiu: Atire a primeira pedra, mas só depois de um criterioso exame de consciência.
                                  
Anna Zoé Cavalheiro