Ocorreu um erro neste gadget

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

NATAL: A ÚLTIMA ÂNCORA







O Natal é a última âncora do ano que finda. Suspensas as amarras, deixamo-nos flutuar rumo ao Ano Novo que desejamos seja melhor do que este.
Mas é tempo de agradecer. As horas voam com os preparativos para o grande aniversário, não há espaço para avaliar o quanto recebemos de graças. Deus seja louvado!
Nessa época, cansados da luta insana que foi o ano que passou, a tentar mudar a cara do mundo, que anda mais para Judas do que cristã, nossas resistências estão no limite, e o coração se derrete como manteiga à mínima provocação.
Agora são as canções natalinas, a decoração das ruas, o enlevo das crianças à espera do Papai Noel! Isto no lado claro da sociedade, das famílias constituídas, salários garantidos, carteira assinada, lucros nos negócios, filhos bem amados e bem assistidos. Porque do outro, é aquele olhar faminto olhando as vitrines iluminadas, desejando tudo o que não podem ganhar, por via legal, é claro!
Se pudéssemos ler seu pensamento nesta hora, quanta revolta contra a vida, o mundo e todos aqueles que os colocaram na atual situação de penúria e desesperança.
Mas a hora é de amor, e nunca como então nossas reservas de roupas, mantimentos e até brinquedos são doados com tanto desprendimento. Sentimos que armazenar coisas materiais não é o importante, mas também percebemos que essas doações não são o suficiente.  As carências dos marginalizados são outras. As novas gerações não aceitam esmolas, elas querem usufruir dos bens e regalias de que se acham excluídos. Pois se todos somos irmãos, a herança que Deus nos legou deve ser repartida equitativamente. Mas as injustiças vêm de tão longe, discriminação racial, classes sociais – os privilegiados e os excluídos , aqueles que mandam e os que têm de obedecer. A parte do leão é sempre a maior.
As mensagens de Natal, via email, expressam os sentimentos das pessoas de boa vontade. Com elas, queremos que todos vivam um alegre Natal, rodeados do carinho de seus familiares e amigos. Que haja para cada família motivos de regozijo pelos sucessos e vitórias alcançadas durante o ano que passou, formaturas, promoções na escola ou no emprego, nascimentos, casamentos, noivados. E que a saudade dos que partiram para sempre não roube o entusiasmo pelas perspectivas que se abrem ao iniciar um novo ano. Mas sirva de um elo mais profundo de amizade entre os que ficaram e comungam das mesmas lembranças.
Natal não é para falar... é para sentir.  É um momento de reflexão e de projetos. Para que no Ano Novo a gente possa acrescentar alguma ideia, um bom exemplo, uma iniciativa feliz para melhorar esse bocadinho de mundo em que habitamos.
O aniversariante, lá nas alturas, deve sorrir das tentativas dos humanos em agradá-lo presenteando-se mutuamente e aos que não podem sequer retribuir. Mas seu riso é de bondade, porque Ele sabe que jamais poderemos suprir todas as carências do mundo. Carência de pão, de teto, de amor. Ele conhece nossa boa vontade.
Feliz Natal. Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

E AMANHÃ?






A gente acorda, liga o interruptor, vê as horas, vai ao banheiro, liga o chuveiro, sem nem se dar conta dessas maravilhas do progresso. Mas é só ouvir os noticiários   do dia que as dúvidas começam a surgir: até quando teremos esses confortos?
Falam em fim do mundo, previsto pelo Calendário Maia para o dia vinte e um deste mês. Mas quase ninguém acredita. O que preocupa a maioria é que falte energia e que as nossas reservas de água também se acabem.
Talvez, então, tenhamos de voltar aos poços domésticos em cada quintal. Vamos ter de procurar o homem da forquilha que localizava o lugar certo onde cavar. E a luz? Cada família terá de adquirir seu gerador próprio. Era assim na casa de minhas gratas lembranças, lá no campo, no sítio do querido Dindo. Chegando às dez da noite, ele avisava: “vou desligar o motor”. E todos tratavam de ir dormir. O inconveniente maior é que não se podia ler na cama.
Mais tarde, na cidadezinha onde iniciei minha profissão, era o engenho de arroz que fornecia a luz.
Nos fins de semana, as reuniões dançantes podiam ir até a meia noite, por um favor especial dos empresários.
Eram então muitas cinderelas procurando a saída do clube, quando a hora se aproximava. Mas, quantas vezes seus pares atrasavam os relógios para que os “blackouts” os surpreendesse. E galantemente se ofereciam para levá-las em segurança até a casa. Meia hora depois, nas noites de lua cheia ou sem chuva, lá voltavam eles de violão e cantores para a serenata esperada. Muitas vezes com o Afif declamando suas belas poesias.
Nas madrugadas, a luz elétrica até que não fazia falta. Eram tão poucas as noites de insônia no mar tranquilo da juventude da gente! Nada de pesadelos ou maus pressentimentos como hoje acontece.
Aqui na terrinha era a Cascata que se desempenhava como podia, coitada! Nos tempos de seca era um caos. O cinema do Mirandinha, por exemplo, tinha de interromper o filme, ele devolvia as entradas para a primeira noite de luz. E a gente saía revoltada sem saber com quem a mocinha ficava, se o mocinho ia salvar-se das mãos dos bandidos. Que coisa!
Nas paredes do cinema, havia pinturas representando os pontos turísticos da cidade, a Igreja Matriz, a cerca de pedra (ainda existe?), o Forte, a Cascata, a Pedra do Segredo...
As poltronas não tinham estofamento, eram madeira dura. E o piso não tinha inclinação. A gente ficava torcendo que não sentasse uma pessoa alta na nossa frente.
De um lado do corredor ficavam as famílias, e do outro, os homens avulsos. Lembro de uma ocasião em que um forasteiro sentou no  lugar errado,  ao lado de uma mocinha.  Ela olhou apavorada para a mãe que estava noutra fileira, e foi um espanto! Toda a fileira trocou de lugar para “salvar” a menina. O forasteiro ficou muito assustado, não entendeu nada. No primeiro intervalo ele abandonou o cinema. Coitado, não havia outro entretimento na cidade!
Essas lembranças me surgiram agora por causa das últimas notícias. A energia em colapso, e com esse calorão o consumo é muito maior.
Temos de pensar em outras alternativas, nosso carvão, as quedas d´água, os ventos...
Mas é a vez dos jovens. Eles é que devem encontrar as soluções.
Por enquanto, vamos gozando do conforto do chuveiro quentinho, a qualquer hora, e a certeza de que é só premir o interruptor que a luz se acende. E nossos eletrodomésticos e eletrônicos funcionam.
Pois se o homem das cavernas conseguiu descobrir como se produz o fogo, por que as gerações novas, com dois milênios de civilização, não vão encontrar novas opções para acabar com a crise?
Confiemos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NAS ESTRADAS DA VIDA






A vida não é moleza. Porém existem momentos preciosos que valem uma existência. E esses momentos se devem à amizade.
Quando me dei conta, haviam-se passado onze anos sem ver minha amiga, tão longe nos trezentos quilômetros que nos separam. No entanto, chegando a sua casa, foi como se a tivesse visto na véspera.
Os dois dias de visita foram insuficientes, até mesmo para “condensar” em intermináveis diálogos os acontecimentos de nossas vidas. O que não foi dito ficou subentendido no sentimento fraterno que nos levou a rir e a chorar juntas, pelo que a vida nos concedeu ou nos tirou.
O mundo retrocedeu dez, vinte, vinte e cinco anos, nas reminiscências evocadas.
 E vimos que, apesar da distância, do tempo decorrido, dos acontecimentos, da falta de cartas e notícias, nossa amizade continua intacta, ou melhor, cada vez mais sólida, tendo amadurecido conosco.
            Na volta, olhando pela janela do ônibus, vinha pensando na riqueza de ter amigos. E lembrei Rui Barbosa que não os tinha em grande conta quando dizia que os nossos adversários é que nos desafiam à luta, e por causa deles nos empenhamos em vencer. Ao passo que as pessoas que nos querem bem se contentam com nosso jeito de ser, não nos incentivam a ser melhores. Talvez temendo desagradar-nos.
Pois é. Até nisso minha amiga é perfeita. Ela sempre usou de franqueza, apontando-me esse ou aquele defeito que eu deveria corrigir.
Não me senti só no longo trajeto do ônibus “pingapinga”. Apesar de os companheiros de viagem se sucederem a cada parada, mudos, indiferentes. Pensava quantas preocupações supérfluas (e ocupações) temos todo o dia, que nos roubam tempo para o essencial: a convivência com nossos queridos. Com os amigos da mesma época, de passado comum. Com os mais velhos da família, os mais jovens, as crianças...
Quantos amigos distantes que não vemos há tanto tempo por falta de recursos. As viagens caras, a falta de conforto dos ônibus, a insegurança dos coletivos. Enquanto outros viajantes mais folgados, talvez ainda à procura de um amigo, viajam sozinhos nos carros velozes. Por companhia, o som.
Lembrei, num momento, um romance de Machado de Assis (ou Monteiro Lobato? - eu sempre confundo) que contava uma viagem de trem na segunda classe. Ele dizia que o pobre tem de sofrer mesmo! Não bastasse a falta da poltrona estofada de couro da primeira classe, ele ainda era obrigado a sentar-se em banco de madeira, sem nem uma inclinação no encosto. Teria custado o mesmo aos fabricantes. Porém as leis parecem ditar que o pobre não merece conforto, e as costas do coitado ficavam em ângulo reto com o assento. E o torcicolo depois!....
Se os coletivos tivessem melhores condições de trafegabilidade, se os passageiros deixassem de ser tratados como gado – mais um passinho pra frente – quem sabe diminuiriam as tragédias. Não haveria tantos veículos ultrapassando nas estradas. Alguém a meu lado comentou que o preço das passagens é que não lhe permite usar os coletivos quando viaja com a esposa e os filhos. Sai muito caro. Assim sendo, coloca mais um automóvel na estrada.
Talvez voltasse aquele clima de festa das viagens de trem ou de ônibus de outrora, quando os passageiros se condicionavam à morosidade da marcha do veículo, tratavam-se com urbanidade, oferecendo-se mutuamente jornais e revistas, balas, bolachinhas, e até carne assada ou linguiça frita enrolada em farofa, nas viagens mais longas.
 Mesmo nessa viagem desconfortável de agora, apesar do torcicolo e do cansaço, valeu a pena.
Fazer amigos é uma grande glória. E conservá-los, um privilégio sem par!
            

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O CALOR QUE NOS ENVOLVE




As previsões são alarmantes para este verão: calor demais, chuva de menos. E o pior -  colapsos de energia anunciados pelos canais competentes.
Quando a gente pensa nos “splits” e ventiladores desligados compulsoriamente, dá um pavor danado. Onde fica minha sombra e água fresca? Poucos dias numa praia não resolvem. Seria preciso o verão inteiro, mas quem aluga imóvel, nem pensar. Ah, meus sonhos de ter uma casa de campo ou de praia!
Meus primos, que há anos residem a poucos quilômetros de Brasília, plantando soja em terras produtivas, ficaram admirados com as mudanças no Rio Grande do Sul. Principalmente com a diminuição do poder aquisitivo de um pensionista do Estado ou INSS, de um funcionário ou professor inativo. Nesta terra que antes era considerada o celeiro do país.  Pudera! Eles agora estão mais próximos dos marajás do Distrito Federal que vivem  num mundo virtual de riquezas e poder.
Até o clima eles estranharam. Um mormaço que lá eles não sentem. E a falta de sombras nesta “clareira da mata”! Lembro uma antiga professora de minhas primeiras letras descrevendo o clima do nordeste: “dá para fritar um ovo na calçada.” Estou pensando em fazer a experiência. Aqui é bem possível acontecer...
 De saudosos da terra natal, passados alguns dias eles começaram a pretextar motivos para retornar aos novos pagos. Arrumaram as malas e partiram antes do previsto.
Como é que a gente suportava o verão décadas atrás, no século passado melhor dizendo? Em vez de geladeira, as bebidas eram refrescadas num balde dentro do poço. A moda não incluía shortinhos e tomaras que caia. Era vestido de manga curta, por muita concessão (cavado era mal visto), camisa e gravata nas repartições (coitado de meu pai). As freiras e os padres vestiam-se com hábitos e batinas escuros e quentes. Como suportavam?Acho que o clima mudou. Deve ser a redução da camada de ozônio e outras modificações feitas pela devastação das florestas e outras “artes” dos humanos.
Que fazer, sou um deles e tenho que aguentar.
O bom do verão é que as tardes são maiores, proporcionando um encontro nas casas das manas, à sombra, fazendo crochê, bordado e com muita prosa. E ainda o melhor: a pele da gente fica mais esticada, menos rugas e uma aparência mais jovem, ou melhor, menos envelhecida.
Mas que saudade do outono!


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

E AQUELAS MENINAS?





Eram duas. Na época, andavam pelos dez, doze anos, quase adolescentes.
Batiam à porta, todo dia, na hora do almoço, pedindo comida. Não se agradando do “cardápio”, jogavam tudo fora logo na primeira esquina.
Nunca foi possível manter um diálogo com elas. Pareciam habitar outro mundo.
Agora, já devem estar adultas. E desapareceram de nossas portas.
Pensar que estão bem instaladas  na vida, com marido, filhos bem cuidados, é ser muito otimista.
Mais certo é supô-las como vítimas de vícios ou desses crimes que vêm ocorrendo em nossa cidade, nos pátios de prédios abandonados. Crime passional, pela divisão de coisas roubadas. Ou drogas.
Na escola da vida em que se formaram, só podemos esperar algo semelhante.
A verdade é que as vilas da periferia se expandem assustadoramente, sem que se saiba de onde vêm e do que vivem seus habitantes. Os primeiros, supõe-se, são os gaúchos a pé, aqueles que perderam seu ganha pão na campanha e vêm tentar a sorte na cidade.
Mas os empregos são poucos, e os mais jovens descambam facilmente para o crime, o submundo, a marginalidade. Os valores da família são logo esquecidos. A própria família desaparece, aos poucos, e só restam os filhos de ninguém.
Pode parecer que os problemas sociais não existam, ou diminuíram, porque é raro encontrar um pedinte nas ruas do centro.
Mas a miséria continua escondida, com gente velha e doente, mas honrada, com vergonha de pedir. É preciso procurá-los, levar-lhes algum conforto , no meio da indesejável vizinhança de delinqüentes, mulheres da vida, arruaceiros.
Entretanto, a solidariedade ainda existe entre eles, e quando a gente vê gente humilde e carente repartindo o pouco que tem com seu vizinho mais necessitado, renasce a esperança de que o mundo dos homens ainda não está totalmente perdido.
Mas, e aquelas meninas, onde estarão agora?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

E A FAMÍLIA COMO VAI?






Família – é lá que tudo começa. De um ato de amor e muita coragem, ela se forma um dia, primeiro a dois, meio perdidos no “enfim sós”. Largando pai, mãe, irmãos, a estabilidade de um lar de muitos anos, para lançar-se à aventura de constituir o “seu” lar!
Família, um ninho de amor para o bebê que desabrocha; o lugar seguro para onde voltam as crianças maiores de seus folguedos ou da escola; uma prisão para o adolescente que se rebela contra as ordens das horas de acordar, fazer as refeições, os deveres e de voltar a casa, entre outras exigências mais graves. O campo de batalha onde a mãe organiza e executa a economia doméstica, enquanto cuida do bebê, acalma as brigas entre irmãos, acolhe o marido cansado, queixoso dos gastos, que o salário não dá, estão gastando demais... Mas os chinelos e o chimarrão prontinhos à espera acalmam seu ânimo, e o cheirinho de cebola fritando no fogão dá esperanças de um gostoso jantar.
Depois da fome aplacada, a hora do cochilo gostoso na frente da televisão assistindo ao noticiário da noite, enquanto as crianças, uma a uma, se rendem ao sono.
Esse é o esquema ideal da família. Mas não é nem de longe a regra hoje em dia. Agora, mães que trabalham fora não aplacam as rixas entre Caim e Abel. Cansadas ao voltar do trabalho, quem lhes alcança os chinelos? É só reclamação, falta botão na camisa, vizinhos se queixam de suas crianças, o pequenino não se dá bem na creche...
No entanto, ainda é um lar. Onde o cheirinho de pão quente temperado de erva doce, a cera do assoalho, as frituras, o sabão, fazem uma mistura de aromas que cada família tem diferente. É sua marca. E chegar à porta de entrada, logo vem a sensação de estar em casa, entre os seus.
A família não se resume a isso. Há também os primos, tios, avós, padrinhos, todos presentes nos aniversários e casamentos. E nos enterros. Às vezes nos veraneios.
Primos que são amigos ou adversários. Tias queridas que dão mimos especiais a seus favoritos. É tão bom cair em suas boas graças! Os avós desculpando as faltas dos netos e salvando-os de prováveis castigos.
Vivências que  guardamos para a vida toda.
Quem não teve uma família, perdeu metade ou mais de sua existência. Não chegou a entender e valorizar a própria vida, quanto mais a dos outros.
Quem sabe daí vem o aumento da violência, a formação de gangues não só nas classes pobres, mas entre os jovens moradores das grandes mansões. Onde um pai muito ocupado com os negócios, a mãe entretida nas suas atividades sociais -  quase sempre estão ausentes.
A família neste milênio está em crise.  Os pais, em seu segundo ou terceiro casamento, os filhos visitando-os nos fins de semana, procurando ajustar-se com padrastos, madrastas, meios irmãos.
Para  que se encontre o remédio que torne cada lar igual à figura do Almanaque com a propaganda do xarope Bromil – de um lado várias casinhas explodindo de tanta tosse. De outro, as mesmas casinhas apaziguadas, na santa paz de crianças e adultos dormindo. Com a segurança que só o amor compartilhado pode trazer.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A FILA SEM PRESSA






Ali ninguém parece ter pressa. Afinal, o que há mais para fazer?!
A fila dos aposentados segue lenta e calma. Conversas em tom moderado, assuntos sobre doenças, remédios, falecimentos. De vez em quando um velhinho de bom humor conta uma piada inocente. Todos à volta se animam.
De tempos em tempos eles têm de ir ao Posto do INSS para provar que estão vivos. E cumprem essa exigência com boa vontade. Afinal, é seu interesse defender sua galinha de ovos de ouro – a Previdência Social – contra os “ fantasmas” que querem lesá-la.
Outras preocupações ficam do lado de fora, com os “menores” de sessenta anos. E que preocupações!
Comerciantes abalados com o pouco movimento nas vendas. Funcionários atentos à criação da famosa política salarial que não sai do papel, mas promete...
Os chefes de família assalariados não sabem mais onde economizar para as emergências. O cesto básico está subindo sempre.
As mães volta e meia entram em pânico com os perigos rondando seus filhos adolescentes. Agora, no início do verão, praia, festas, carnaval, ainda é pior!
O buraco na camada de ozônio aumentando sempre. Erros médicos ou negligência de enfermeiros em hospitais ocupando as manchetes.
O fim do mundo sendo anunciado e com data marcada.
Os velhinhos, na fila, não se espantam mais. Já passaram por outras crises, quando o mundo então parecia que ia acabar. E aí estão seus netos e bisnetos dando prova de que a vida continua.
Para os da “fila sem pressa”, cada dia é uma dádiva a mais na sua sobrevida. O importante é viver com toda a intensidade o presente, sem saudosismos pelo que passou ou o temor do que virá amanhã.
Por isso, enquanto o quarentão se apavora com as notícias dos jornais, o idoso observa emocionado a chegada da primeira cigarra deste verão...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SOL E SOMBRA






Na manhã clara, sem vento, apenas o sol era presença na rua, além de uns cachorros mal amados farejando o lixo das sarjetas, na falta de melhor programa.
Eis que tenho o privilégio de assistir ao exato momento de uma folha cair, desprendendo-se do ramo. Eu e um beija-flor que, de susto, voou de ré e foi explorar outra folhagem mais densa.
Passou por mim um idoso de bengala e não respondeu a meu cumprimento. Pensei: será que estou invisível?  Talvez o coitado não enxergue bem. Mas onde foram parar os moradores da cidade? Uma bomba exterminadora teria explodido terminando com a vida no planeta, e só eu e aquele velhinho...Ah, esses filmes de ficção científica mexem com a cabeça da gente!
Entretanto, no espaço de meia hora, calculei, nenhum automóvel andando na rua. Nem caminhão, ônibus ou qualquer veículo... ou pessoa.
Com saudade de gente e da vida passada, entrei numa loja, onde a proprietária esperava solícita o primeiro freguês do dia. Perguntei por lãs, linhas e uns tecidos de bordar da minha juventude, que não vejo há tempos! Mesmo que os encontrasse, o que fazer com eles, se em vez das antigas habilidades, agora só uso o computador?
Na televisão da loja, as notícias do dia: ônibus incendiados em Santa
Catarina
,  linhas da noite suspensas, e o povo sofrendo por falta de transporte e do medo das ruas. Quando chegarão até nós os vandalismos de nossos vizinhos?  Primeiro foi em São Paulo!...
 Por ora, respiro aliviada .. Enquanto meus conterrâneos aproveitam o pré feriado para ficarem em casa, o ar é só meu, a calma das ruas e os espaços também.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SIMPLESMENTE VIVER...








Depois que termina o mês de outubro, o melhor é apertar o cinto, porque a corrida até o fim do ano ultrapassa a velocidade permitida. É tratar de fazer um pré-balanço, verificar o que foi planejado e não chegou a ser feito e pôr mãos à obra, num esforço concentrado para que o último dia do ano tenha menos sensações de culpa..
Porque o saldo quase sempre é negativo. Muito se projetou, pouco ou nada se cumpriu.
Mas a vida tem surpresas. Às vezes a gente pensa que fez grandes coisas, pois nos custaram sacrifícios, mas que ninguém lembra. Fica parecendo que nada realizamos para marcar nossa trajetória. E de repente somos lembrados com carinho por alguém, devido a um gesto bem simples, como oferecer uma carona ou o lugar numa fila de espera que não anda, em banco, supermercado, repartições... Ou até por parar o carro num cruzamento e acenar ao pedestre que passe.
As reações são as mais diversas. Uns desconfiam – quem sabe queremos atropelá-los - e não aceitam o convite. Outros nem olham a nossa cara e vão em frente. Há os que agradecem, num cumprimento de cabeça. Mas aquela senhora sessentona de cabelos brancos que encontrei numa esquina!... Como ficou feliz com a distinção! Entre surpresa e divertida, ela sorriu e fez um gesto maroto levantando o polegar como a dizer: “Valeu”.
Senti que uma corrente de simpatia passou entre nós, como se tivéssemos conversado longas horas desfiando mutuamente as histórias ingênuas de nosso dia a dia, que no fundo deveriam parecer-se: cuidados com a família, doenças, aniversários, carestia da vida, receitas culinárias e segredos de economia doméstica para encompridar o salário até o fim do mês.
Imaginei sua casinha asseada, os guardanapos de crochê feitos por suas mãos hábeis, à frente da televisão, depois dos trabalhos do dia. A cozinha cheirando a pão quente. Se ela fosse minha vizinha, por certo me traria uma prova, que eu iria procurar retribuir com algum doce, ao devolver-lhe o prato.
São coisas boas da vida que a gente não planeja, mas acontecem, graças a Deus. É só abrir os olhos e o coração, este coração doce de gente moradora e criada na “província” que não desaprendeu a arte de fazer amigos.

domingo, 4 de novembro de 2012

A VIDA E OS LIVROS










Não é à toa que o mundo tem a forma de uma bola: vivemos dando voltas sobre nós mesmos e a respeito de todos os acontecimentos. É a vida que vai evoluindo, evoluindo, até começar a dar ré!
Mas em tudo existe uma lição e muitas compensações.
Estava agora pensando como as leituras dos mesmos livros nas diferentes etapas por que passamos parecem sempre novas. É que cada vez que lemos a mesma história, certos aspectos sobressaem mais do que outros, e aqueles que nos enlevaram na juventude não são mais os que nos empolgam nesta hora chamada de 3ª Idade.
Hoje bendigo os tempos em que me foi dado comprar e ler livros. E com prazer releio os mais queridos, sempre com redobrado interesse.
Os romances policiais foram minha paixão desde os quinze anos.
Quando descobri Aghata Christie, a Dama do Mistério, foi como achar um filão de ouro.
Lembro que ficava fascinada pelos métodos de seus detetives desvendando  assassinatos e chegando aos culpados de maneira inteligente e sem violência. Até os crimes eram mais educados do que aqueles que aparecem agora nas crônicas policiais.
Hoje o que me agrada mais na sua leitura é o dom da escritora em realçar as coisas óbvias de nosso cotidiano com um encanto todo seu.
Gosto de Miss Marple na sua casa estilo vitoriano, em meio a seu mundo de louças da família, que a velhinha esconde da empregada estouvada que teima em empilhar tudo de uma vez só na pia, para lavar. Só de pensar nos prováveis estragos, a velhinha tem arrepios...
Miss Marple é uma das personagens de Aghata Christie. É uma velhinha suave, bisbilhoteira, que conhece muito bem a natureza humana, pois tem amostras de todos os tipos em sua vila St. Mary Mead, próxima a Londres. Ela descobre  facilmente as tendências boas ou más das pessoas à sua volta, e somando-as com as circunstâncias próximas e remotas, fica-lhe fácil chegar ao culpado.
Estou relendo (pela vigésima ou quinquagésima vez) um de seus livros, em que Miss Marple convalesce de uma forte gripe. A conselho médico ela tem de contratar uma enfermeira acompanhante que lhe tolhe a liberdade. Por isso ela fica sentada à janela, bem agasalhada, tricotando, mas seu pensamento voa além do jardim, onde um velho jardineiro concorda com todas as suas ordens, mas acaba fazendo só o que bem entende. E a boa velhinha não vê a hora de voltar às suas flores, às reuniões de senhoras da Paróquia e à sua vidinha ativa, apesar da idade avançada.
Ainda não cheguei à parte central da história - o crime -, mas esses preâmbulos me bastam, é interessante conhecer os perfis dos personagens que a escritora sabe tão bem descrever.
Fico imaginando a vida social da personagem, as reuniões com as velhinhas, o chá da tarde, os “muffins”. É onde rolam receitas de guloseimas, e o tricô ganha várias carreiras enquanto as novidades são trocadas com vivo interesse. O sistema de calefação faz esquecer o frio lá de fora. Ah, quem dera pudéssemos copiá-lo aqui nos nossos invernos!
Quando comparamos esse conforto com a miséria de tantos ao nosso redor, e os problemas sociais que se avolumam, os culpados de colarinho branco vivendo no luxo, ah, que vida bem complicada! Ainda bem que o julgamento do Mensalão nos dá alguma esperança de que ainda há gente honesta nas altas esferas. 
É bom viver o presente, e esses momentos de paz, na leitura de um bom livro, num ambiente aprazível, não é de desprezar-se. É preciso curtir! A vida flui, e os problemas se resolvem com o tempo! Vão aparecer outros, é o nosso mundo!...

sábado, 3 de novembro de 2012

VIVER É MUDAR








Foi ficando cada vez mais difícil escolher o presente de aniversário para o meu netinho. Depois de seus nove anos, as lojas de brinquedos não tinham mais o que lhe oferecer. O que interessava era só o computador e a Internet. Para acompanhá-lo, perdi muitas partidas de jogos eletrônicos, nunca conseguia alcançá-lo. Até minhas palavras ele estranhava e corrigia: “Não é estufa, vó, é aquecedor, é ar condicionado...” Se falo em toca disco, lá vem a correção: “É CD”
Mesmo assim, nos entendíamos às mil maravilhas. Com a linguagem do coração. Ele me dizia “Te amo, vó.” E eu respondia. “Eu também te amo.” Ele insistia que me amava ainda mais. Para encerrar a discussão, o danadinho me vencia com esta tirada: “Te amo ao infinito. Aí eu me retirava de campo.
Quando me acordo, a cada manhã, fico pensando como a vida mudou. Quanta novidade por conta da tecnologia e dos novos relacionamentos familiares. E fico lembrando meus despertares de menina, no quarto da frente da casa de meus pais. Não havia venezianas. As janelas eram altas, e um buraquinho nos postigos, cobertos com uma cortina de renda, funcionava como cinema. Onde eu via as imagens da rua. Invertidas. De cabeça para baixo. Coloridas. Não entendo de Física, mas deve ser um fenômeno natural de reflexão da luz. Sei lá. Eu ficava vendo os vultos que se encaminhavam para o açougue em frente a nossa casa. Ouvia o barulho dos pratos fundos (as embalagens da época) no balcão de pedra. E a conversa  e risadas das empregas domésticas, as maiores freguesas. Seu Carlos era gentil e devia ser engraçado, porque elas riam muito. Falavam dos namorados. E voltavam cantando para o trabalho que não tinha hora certa para acabar. Foi antes da CLT...
Nossa empregada, na ocasião, era a Cesárea. Acho que ela não gostava de nós. Queria distância, e seu humor variava de acordo com o comportamento do amado Caburé. Devia ser um malandro, pois seguidamente aprontava. E nós é que pagávamos. Comida salgada, carne queimada ou dura, um despropósito.
Quando eu tinha febre (sofria das amígdalas), mamãe me entretinha fazendo bonecas de pano. Procurava em sua cestinha de costura alguns retalhos e dali saía a nova personagem. Certa vez, o pano era preto, e ela fez uma negra. Achei-a parecida com a nossa serviçal, por isso a chamei de Cesárea.
Anos depois, em férias no sítio do Dindo – a  inesquecível Charqueada do Paredão

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

DIA PARA SENTIR SAUDADE




Dia de Finados. Cada ano o mesmo reencontro com pessoas de nosso passado que retornam à terra para homenagear seus mortos. Sempre aquele vento norte que prenuncia chuva, trazendo  consigo as lembranças dos que partiram. Há um silêncio reverente, as conversas são a meia voz, as lágrimas contidas, os sorrisos discretos, enfim, o dia é dos mortos, e a eles toda a consideração...
O relógio da vida parece que retrocede, depois que assimilamos o impacto de rever os estragos que o tempo causou aos nossos conhecidos que não víamos há pelo menos um ano, e que eles também devem ter notado em nós,... Pois, ao fim da entrevista, voltamos a ver nessas pessoas aquilo que elas foram nos anos de nossa antiga convivência. São os mesmos jovens do tempo em que ainda estávamos decidindo o futuro, o emprego, o casamento, para onde ir e morar. Agora eles falam de filhos, netos e até bisnetos, porque a vida não para de acontecer...
Alguém chora e se confessa arrependido por uma escolha mal feita contrariando os conselhos dos pais. Agora essa pessoa entende, com a experiência que a vida lhe deu, como os jovens poderiam evitar desgostos se ouvissem a palavra de seus velhos. Mas cada um tem o direito de errar por sua própria cabeça e só aprende depois do “leite derramado.” Por isso as orações pelos mortos, no Dia de Finados, são um misto de saudade e de pedido de perdão... Como eles sofreram, coitadinhos, com nossos erros e tropeços!
Mas há também instantes de doce ternura e paz, quando  podemos recordar, sem culpa, a convivência que tivemos a felicidade de gozar com nossos queridos que já partiram desta vida. São os momentos inesquecíveis de partilha e mútuo afeto que fazemos questão de lembrar, pois enquanto permanecerem em nossa memória e em nosso coração, todos eles estarão vivos, porque o amor é mais forte do que a morte.
Dia de Finados - dia de saudade dos mortos e de reencontro com os vivos e conosco mesmos, numa reflexão calma e ponderada sobre a vida e seus caminhos...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

NOVOS ESTILOS DE VIDA






É preciso mudar, é o que dizem terapeutas, cardiologistas e entendidos em bom viver. Mudar de calçada, de lugar à mesa, de lado da cama e até de cama. Ninguém disse ainda que se deva mudar de travesseiro. Essa eu quero ver alguém seguir! Dizem que a rotina envelhece, entristece, tira o sentido da vida. Por que será? Porque se age automaticamente, talvez, sem pensar nos gestos ou não observando o que se passa ao redor. Ao passo que experimentando algo novo, o interesse renasce.
Lembro-me da mudança para a minha casa de agora. Tudo novo, até os cheiros. Meus filhos queixavam-se da falta dos amigos da antiga vizinhança. Eu adorei os novos horizontes, pois não perdi o carinho dos ex-vizinhos que continuavam me visitando, e eu retribuindo. E ganhei novos que se mostraram muito gentis.
Cheguei a dedicar uma tardinha, após o expediente de trabalho, para explorar as redondezas, percorrendo a pé todo o quarteirão. Descobri quem morava em muitas casas, que eu só via rapidamente ao passar de carro. Senti um cheirinho de pão quente onde um cartaz à janela anunciava que ali era uma padaria caseira. Noutra mais adiante, o anúncio era de salgadinhos e tortas por encomenda. Mercearias, venda de lenha, costureira, tudo isso eu fui descobrindo no meu novo pedaço. Que mina!
Admirei um jardim cheio de rosas. E qual não foi minha surpresa quando a dona da casa me viu e veio ao meu encontro sorrindo. Era uma antiga colega do primário que há muito tempo não via. Concluí que é bom mudar, sair do círculo em que gravitamos sempre nos mesmos lugares, para descobrir outros cenários, conhecer nova gente e redescobrir pessoas que já foram importantes em diferentes épocas de nossa vida.
Hoje sou veterana na quadra. Uma das mais antigas moradoras. Perdi o hábito do chimarrão na área da frente, quando minhas vizinhas mais próximas se reuniam comigo no fim do dia. Houve mudanças – de endereços, de hábitos, e a Internet é o meu programa das tardinhas, quando e-mails são  recebidos e respondidos, vencendo as distâncias e amenizando  saudades. Mas ainda aprecio as novidades das redondezas. Agora estou aguardando a nova padaria que vai abrir em breve. Oxalá faça pães gostosos, melhores do que os dos Supermercados, tão despersonalizados!
Observando agora minha casa, vejo que ela já passou por muitas transformações. Não me lembro o que fiz da mobília da sala, mesa, cadeiras e armário-  daquele tipo oratório -, a mesinha de centro, os sofás modulados.  Mudei tudo. Meu quarto também já não é o mesmo. Foi composto de móveis avulsos, uma cama bem sólida (a antiga quebrava as pernas seguido), a cômoda, a escrivaninha, as mesinhas de cabeceira. Umas eu comprei, outras, mudei de quarto e de utilidade. As peças que não tinham a mesma cor, tratei de mandar pintá-las. Os outros cômodos ficaram diferentes. Filhos adultos só de visita, minha tia partiu para sempre, foi preciso fazer novos arranjos.
Procuro outros trajetos para sair de casa e voltar, mas os destinos permanecem os mesmos - as casas das manas, supermercados, Bancos, igreja. Hoje tenho um aniversário para ir. Uma casa diferente, tenho de achar o endereço. Que bom, é uma quebra na rotina.
Espero ter seguido os conselhos dos entendidos em viver bem.  Tenho mudado tudo o que é permitido mudar, pois a essência é a que fica.
Baixada a poeira das mudanças, não posso deixar-me ficar acomodada. Por isso, vou sacudir o comodismo e... viajar.
É a vida, e para vivê-la em plenitude é preciso estar sempre pronto para 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

NA PROCISSÃO DE RAMOS





Antes, eram filas organizadas, e no meio alguns representantes das associações religiosas portavam seus estandartes. Agora, os fiéis se aglomeram num bloco compacto em torno do andor que leva a imagem do santo homenageado, seguindo seu líder – o Pároco – que preside as orações e cantos.
Neste ano não foi diferente a Procissão de Ramos. Alcancei-a bem no início, logo na saída da Capela, e me coloquei no primeiro vão encontrado, sozinha, sentindo falta de alguém a meu lado.
Logo às primeiras palavras da música “O Povo de Deus”, continuei cantando: “no deserto andava/ e à sua frente,/ alguém caminhava./ O povo de Deus/ era rico de nada/ Só tinha a esperança/ e o pó da estrada.” E a figura de minha mãe, que tanto apreciava esses versos, me fez companhia. Foi tão forte a sua presença que meu coração palpitou de saudade. Mas foi um sentimento bom. Lavou-me a alma.
Eis que avisto meu amigo procurando seu espaço na procissão. E lembro que ele deve estar sentindo falta de sua companheira de fé, a querida sogra, falecida há pouco. Eram tão chegados, como mãe e filho, sempre juntos nas missas de domingo. Perdi-o de vista, mas logo senti seu abraço e daí em diante percorremos todo o trajeto lado a lado, sentindo-nos, tenho a certeza, mutuamente confortados.
Ao evitar os desníveis do paralelepípedo – e os buracos - dei graças pela escolha que fiz dos sapatos para a ocasião. Há anos procurava um modelo assim confortável. Que contivesse meus pés, largos e altos, sem comprimi-los nas antigas formas tão estreitas e apertadas. Lembrei-me do sofrimento nos bailes de outrora: aqueles sapatos de verniz, duros demais e sem a necessária inclinação. Como os empresários da área de então ignoravam o perfil de sua clientela! Viva a nossa indústria calçadista de agora e seus inteligentes designers! Perdoa, Nossa Senhora, se no meio de uma Ave Maria eu fiquei pensando em tudo isso.
Ao meu lado¸ uma senhora miudinha, afro-brasileira (não dá para citar a cor, senão já falam em preconceito)¸ procurava acertar os passos com o cortejo. Lembrava os seus antepassados na maneira de vestir e portar-se: humilde, quase despercebida. Um ar de sofrimento franzindo seu rosto: seriam os sapatos ou algum mal da alma? Engraçado, como nossos irmãos de cor evoluíram de uns tempos para cá. Nem “catinga” eles têm mais. Hoje eles são orgulhosos, até arrogantes, cobrando dos brancos tudo o que lhes devemos em submissão, trabalho, oportunidades perdidas... Melhor assim. Oxalá chegue o tempo de todas as dívidas pagas, e que reine a igualdade entre nós, humanos. Afinal, não somos todos irmãos?
Meu Deus, perdoa minha desatenção. Que me faz olhar à volta e lembrar os antigos moradores das casas por onde passamos. Ali, dona Celeste, exímia tricoteira. Fez algumas peças dos enxovaizinhos dos meus filhos. Na casa vizinha ficava aquela moça que não perdia casamento na igreja. Só para olhar e depois contar às amigas como era o vestido da noiva, o noivo, se ele tinha cara de feliz, os convidados quem eram, enfim, levava dias para concluir a “reportagem”. Dizem as más línguas que ela anotava num caderninho as datas das cerimônias, e quando nascia o primeiro bebê, ela fazia as contas... Na seguinte, era como se as visse ainda: as irmãs Coutinho tão prendadas e piedosas. De missa diária, fazedoras de rosquinhas e outros petiscos muito procurados. Devem estar assistindo lá do céu a nossa passagem.
A procissão prosseguia, e de tempos em tempos os fiéis erguiam os ramos numa saudação ao homenageado -  o Cristo feito homem que entrava em Jerusalém dias antes de sua morte. Parecia-me vê-lo em carne e osso abençoando, casa por casa, os seus moradores, com aquele seu sorriso doce. Foram momentos de plena comunhão, de amor e de paz.
Finalmente a chegada à Matriz. Onde está meu amigo que não vi nos últimos momentos? Eis que sinto seu braço me apoiando na subida da escadaria. E lá dentro uma nuvem de incenso, luzes, cantos, parecia o próprio paraíso. Deus nos acolhendo como Pai. Louvado seja!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

COMEMORANDO A VIDA






Não é preciso ir longe, basta ligar a televisão. O mundo torna-se pequeno, tudo bem próximo. Assim, é possível ver as comemorações dos japoneses pelo surgimento das cerejeiras em flor a cada nova primavera. Feriado nacional. O povo nos parques, nas praças, nos jardins.
O verde da grama, o riacho tranquilo, as pontezinhas de arquitetura bem característica,  os barquinhos com casais japoneses deslizando mansamente, enquanto admiram os ramos floridos de centenas de cerejeiras debruçadas sobre as margens, são imagens que nos sensibilizam profundamente.Que  nós podemos apreciar, comodamente sentados à frente  da TV, este belo espetáculo representando a vida que está do outro lado do mundo. Revividas com respeito comovido pelos japoneses de São Paulo que, por força das circunstâncias, tiveram de transplantar-se para o lado de cá.
Nós, brasileiros, costumamos comemorar datas de batalhas e de guerras, datas de morte de mártires e de heróis.
Eles, não. Gostam de comemorar a vida. E sua história, mil vezes mais longa que a nossa, não tem nada de mansa. Mais violenta que os nossos gritos do Ipiranga.
Tudo bem! Aos mártires e heróis, a coroa que merecem. Mas não seria mau também comemorar de vez em quando a vida.
E há tanta coisa para celebrar, graças a Deus. A começar pelo pátio da vizinha com um pequeno pomar onde as laranjeiras estão carregadinhas de flores perfumosas, promessas de frutos maduros.
Em nossos longos invernos, é muito bom contar com essas frutas tão cheias de vitaminas. Tal como admirar as cerejeiras em flor dos japoneses, comer laranjas em nossa terra também segue o seu ritual. Valeria  a pena conservar a tradição da família caçapavana que até há poucos anos costumava reunir-se após o almoço para saboreá-las à frente da casa ou no pátio, ao sol do inverno. De preferência colhendo-as diretamente do pé.
Um ritual seguido à risca era o ato de descascar a fruta. Tarefa dos adultos, enquanto as crianças ficavam pedindo mais e mais. E exigiam -  Quero com tampa. Mas, se fossem de umbigo, o melhor seria em gomos, Havia os perfeccionistas que cavavam um pequeno buraco no topo da laranja, por onde era possível chupar o suco sem deixá-lo escorrer fora.
As crianças maiores, e os jovens, iniciavam-se nessa arte, fazendo competições: quem descasca mais ligeiro e sem fazer cortes na pele branca. Acontecia de saírem cascas perfeitas, que eram depois dependuradas a secar no varal. Lembram-se para que serviam? No fogão a lenha, transformavam-se em gravetos sequinhos, muito bons para iniciar o fogo.
Hoje as coisas mudaram. Não há mais quintal nem pomares, pelo menos nas cidades maiores. As laranjas vêm empacotadas em saquinhos plásticos dos Supermercados. Perderam o seu cheiro e até o sabor. Não se sabe de onde elas vêm. Nem conservam um galhinho com folhas verdes, tão boas para o chá que cura resfriados e faz baixar a febre.
Hoje há máquinas para fazer suco em quase todos os lares. Gerações e gerações estão-se criando sem aprender a descascar uma laranja, nem a mastigar seu bagaço.
Mas estamos em Caçapava, terra dos “papa-laranjas”, e se não as temos no quintal, não nos faltam os fregueses das chácaras próximas para trazê-las até nós.
Um poeta disse que as rosas são as mais democráticas de todas as flores. Porque são vistas tanto nos jardins das mansões como nos ranchos mais humildes, com seu perfume e beleza. Assim digo eu das laranjas: estão na mesa do rico, mas também servem de sobremesa ou aperitivo ao mais pobre que não tem açúcar para fazer doces.
Quem viu as cerejeiras em flor do Japão do Discovery deve ter lembrado de outro espetáculo que não perde para o primeiro: é o que assistimos todos os anos, quando nossas laranjeiras florescem. Vale a pena estar bem próximo para admirá-lo e sentir o suave perfume.
Mesmo que os ventos soprem forte, despetalando as flores em tapete branco pelo chão, outras conseguirão tranformar-se em frutos, e o espetáculo da vida se renovará sempre diante dos olhos de quem desejar apreciá-lo. Ao vivo...
Isso não é um bom motivo para comemorar?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

UMA PROFISSÃO DO PASSADO








Há tanta coisa mudando todo o dia que muitas vezes não percebemos o que deixou de existir. Assim as profissões, o que era necessário no passado agora é obsoleto, já tem substituto.
Recordei certo dia a nossa lavadeira de um tempo que já vai longe. Aquela figura simpática, trouxa à cabeça, que da Fonte do Mato, seu local de trabalho, já evoluíra para a profissional moradora das chácaras vizinhas, e agora desapareceu de um todo.
Cada semana, menos quando chovia, ela vinha com seu sorriso e sua prosa. Ninguém igual para contar casos de todo o dia com jeito tão pitoresco! Na linguagem de pessoa simples, mas que muito aprendeu e tem o que ensinar na escola da vida.
Quando ela mandou dizer que não ia mais trabalhar, foi um choque para nossa família. As águas geladas do arroio, o vento frio, o sol escasso do inverno demorando a secar as roupas – tudo muito desgastante para sua saúde, agora que a idade vai avançando.
Pobres de nós que contávamos com seu trabalho feito com tanto capricho.
O remédio foi apelar para as máquinas lavadoras. Porém elas jamais poderiam substituir a contento a nossa lavadeira de tantos anos.
Quantos momentos de nossas vidas passamos juntas. Vimos seus filhos criarem-se enquanto criamos os nossos. Os pijaminhas de pelúcia com desenhos de ursinhos foram dando lugar aos abrigos de jovens atletas. E ela sempre firme no seu posto. Depois chegaram seus netos. Batizados, festinhas de aniversários, quinze anos... Doenças. As receitas caseiras. Os chás de ervas miraculosas que ela trazia lá da chácara.
Que máquina lavadora terá a pretensão de tomar seu lugar? Aquelas mãos fortes que sabiam esfregar, torcer, pendurar a roupa na cerca ou deixá-la corar ao sol? Que máquina poderá acrescentar ao serviço aquele cheirinho de mato que ficava nas roupas? De pasto bem verde, onde as vaquinhas leiteiras da sua família desfilavam com seus terneirinhos? Que fazia pensar em água limpa correndo entre pedras, sombreada de longe em longe por árvores nativas. Vassoura vermelha, cambarás, aroeiras. Que se transformavam em lenha, depois em brasas para os ferros de passar. Por esse meio entravam em nossos lares, purificando o ambiente cada vez mais artificial de nossos dias.
Ficamos sentindo saudades. Do serviço bem feito, da presença amiga de toda a semana em nossa casa, trazendo a doce nostalgia dos campos, das matas, do céu aberto.
Enquanto isso, outras profissões estão surgindo, como a de passadeira, por exemplo. Afinal, a máquina não faz tudo como as nossas antigas lavadeiras

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

UMA GERAÇÃO ESPECIAL






O ambiente no Banco não era dos mais animadores. Só dois caixas atendendo, um aos idosos e o outro aos demais, inclusive donos de empresas com seu chumaço de docs. Não davam nenhuma esperança de atenderem a tempo. Ainda mais que chegava a hora do almoço de um dos funcionários – hora sagrada para ele, os usuários que se danem. Mas nem tudo está perdido, agora que há bancadas confortáveis nas agências, e a conversa entre os aposentados rola solta.
Minha vizinha de assento, por uma graça especial - Deus seja louvado -  é a Ruth, minha contemporânea, protagonista e relicário das mesmas lembranças do passado. Passamos, então, momentos bem agradáveis recordando como era a vida na nossa juventude e idade adulta – agora somos octogenárias privilegiadas de boa saúde e memória.
Ficamos ali relembrando como a vida mudou vertiginosamente nas últimas décadas. E concluímos que nenhuma outra geração, na história da humanidade, passou por transformações tão rápidas e arrasadoras como a nossa. Ficamos imaginando o que diriam nossos pais, se ressuscitassem, dos novos engenhos, caixas eletrônicos, cartões magnéticos, senhas... Sem falar na televisão digital, nos iphones, celulares,  Facebooks  ... No seu tempo, já era uma graça assistir a novelas em preto e branco no aconchego do lar.
Os meios de transporte eram outros. As estradas sem asfalto, os motoristas pondo correntes nos pneus para enfrentar os atoleiros. Às vezes era preciso atravessar campos alheios, abrindo porteiras ou cortando arames para seguir em frente. Com a permissão dos proprietários, claro, e até com a ajuda de suas juntas de bois para desatolar os veículos!  Depois, era esperar a barca no Passo Seringa, do rio S. Lourenço, para chegar a Cachoeira. De lá, se precisavam ir a Porto Alegre, tomar o trem e fazer sete horas de viagem, se não houvesse atraso...
Em casa, o serviço era bem rudimentar. Fogão a lenha, chuveiro de lata, nada de água encanada. A talha era o utensílio de honra, entronizada numa banqueta colocada na cozinha. E a chegada do pipeiro era saudada com vivas pela criançada da casa, louca de sede à espera da água potável. Porque a do poço das casas era salobra, não dava para o consumo. Fogão a gás, nem pensar. E o tempo que o leite demorava a ferver no fogão a lenha deixava todos com fome, no aguardo. Em compensação, a manteiga, o queijo, as ambrosias e arroz de leite tinham sabor especial, que deixou saudades. Os doces de abóbora levavam uma tarde inteira no fogo, mas que delícia!
Batedeiras, liquidificadores, coisas inimagináveis nos anos quarenta. Mas as merengadas parece que tinham mais sustância, não desandavam como agora.
Olhando na papeleta da senha, deu para ver o início da espera na agência bancária, até chegar ao guichê: cinquenta e cinco minutos. Não há uma lei, ordem, ou qualquer coisa assim estabelecendo o limite de vinte minutos de espera? Quem vai atrás?!
Mas a manhã não foi perdida. É sempre um lucro encontrar pessoas queridas que nos falam e ouvem sem pressa. Ainda mais quando se pode viver, na lembrança, tantos anos passados, mas não esquecidos. 

domingo, 2 de setembro de 2012

CHEIROS DO PASSADO






Um perfume pode evocar pessoas e acontecimentos distantes. A gente lembra de repente alguém sem dar-se conta de que foi pelo aroma que passou que ela se fez presença.
Mas dessa vez foi diferente: não tinha marca, não era da Coty nem da Chanel. Nem era perfume, mas sim o cheiro mais gostoso que senti nos últimos tempos – o cheiro da figada cozinhando no fogo. No quarteirão todo, aquela fumacinha apetitosa impregnava o ar. Não se via ninguém à vista, mas dava para adivinhar um punhado de mulheres, na hora mais quente do dia de verão, aprontando a tachada do doce que levou por muitas décadas a marca de Caçapava.
Só quem participou de uma jornada igual a essa pode imaginar o trabalho que dá. Descascar os figos – tarefa proibida para os alérgicos -; pesar a massa, calcular a dosagem do açúcar, preparar o tacho, os vasilhames que vão servir de embalagens e, o pior, ficar uma tarde inteira à beira do fogo de chão mexendo aquele peso todo com a pá, até ficar no ponto.
Pois aquele cheirinho especial lembrou-me Siá Eva, aquela criatura de idade indefinida, vestidinho de algodão, pano amarrado à cabeça, o suor escorrendo do rosto ao pescoço. Sempre com um lenço à mão para enxugar-se de vez em quando. Não se queixava de nada, e até gostava da companhia das crianças à sua volta, para quem contava histórias de lobisomem, enquanto o doce teimava em não ficar pronto. Siá Eva era assim: humilde, prestativa, bem humorada, o quebra galho das famílias, onde fazia faxinas e ajudava em dias especiais, como na preparação de quitutes para as festas. Mas não se empregava como doméstica, era livre como um pássaro.
Nos dias de tacho, ficava da manhã à noite na lida. Não podia tomar água. Com o calor do fogo, podia dar espasmo. Tomava café preto ou chimarrão para aplacar a sede.
Quando era marmelada, o trabalho complicava. Havia a marmelada branca, a rosada e a marmelada preta. Ficava tão preta, mesmo, que até parecia a siá Eva. E era a última que aprontava, porque o seu segredo estava na dosagem da água, colocada pouco a pouco. Quando parecia estar pronta, a dona da casa dizia “mais água”, e começava tudo de novo até tomar consistência.
Aí siá Eva começava a falar no marido Pedro – o grande amor de sua vida. Que costumava deixar tudo em casa arrumadinho para ele. Era só esquentar a marmita. Que o Pedro estava na lavoura de alguém, voltava de noite. Filhos não tinha, mas que marido bom! Ela  queria morrer antes dele, não sofrer a sua saudade.
Coitadinha! A vida não quis assim. Ele foi primeiro.
Siá Eva saía já noite com uns bons trocados e a prova do doce.
Cuidado, não vá comer figada do dia, faz mal, recomendava a dona da tachada.
Não tinha perigo. Ela reservava a figada inteirinha para o Pedro.
As mocinhas românticas de então ficavam imaginando como aquela mulher tão comum e apagada, sem beleza nem vaidade, podia ser a protagonista de uma história de amor.
Siá Eva continua vivendo no seu idílio com Pedro, na fumacinha cheirosa que sai dos tachos de figada e marmelada, agora tão raros. Mas ainda existem aqui e ali, graças à coragem das mulheres caçapavanas que honram a tradição da terra.
É assim a vida. Ainda bem!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PRIMAVERA CHEGANDO








Ao dobrar aquela esquina, o passante recebe em cheio o perfume das frísias do jardim. Noutro canteiro, os pés baixinhos de azálea, de tão carregados de flores, parecem garotinhas roliças vestidas de prenda com saia de muita armação.
Os pássaros cantam alegres, e a vida retoma um ritmo de festa no colorido do entardecer.
Já se pode contemplar o céu estrelado sem estremecer de frio.
É bom notar que já aliviamos as cobertas, os dias estão mais compridos, sobram horas na tarde para um lazer.
Também nos dá prazer verificar que novos caminhantes se apresentam na calçada da vizinhança. Alguém que no inverno ainda eram bebês envoltos em mantas, agora ensaiando seus passos bamboleantes tão cheios de esperança.
Vovôs e vovós se animam a sair à rua, procurando os bancos do calçadão para um bom papo, sem medo de resfriados.
Os jovens já podem namorar à luz das estrelas.
E as crianças, meu Deus! Quem cuida dos pequenos na primavera sabe o que eu digo. Na escola, então! É tanta vida pulsando que não cabe em corpo assim pequeno. O remédio é deixar agitar. E na escola, acham que é fácil mantê-las disciplinadas?
Risos, gritos, brigas...
O menininho da 1ª série está resolvido: vai aprender judô ou karatê para defender-se na escola, sem apanhar.
Os pais não sabem o que dizer: oferecer a outra face como um bom cristão? Contar à professora que está sofrendo o tal bullying que já no meu tempo de estudante existia, mas não tinha nome nenhum?
Os pais ficam desejando que ensinem Religião na escola para que as crianças aprendam a conviver fraternalmente. Pois é tão difícil ensinar os preceitos cristãos em casa! Quem quer ouvir? Primeiro, com a televisão, agora com a Internet ocupando todo o tempo das crianças e jovens. Quem não tem computador, email, e não se comunica por facebook, não é ninguém.
Aquele garotinho de três anos, que era tão beijoqueiro quando a gente chegava a sua casa, agora mal olha pra gente e faz um aceno, porque está entretido nos seus joguinhos, os videogames. E sabe abrir, fechar, passar de uma fase para outra sem pedir para ninguém.
Dizem que a Psicologia acabou com o arrependimento. Que pecado não existe, mas apenas a voz da natureza que precisa ser obedecida, para não deixar frustrações. O que sobra para ensinar?
Por sorte existem os avós, essas criaturinhas doces, despojadas de tudo o que é supérfluo, pois aprenderam o que é essencial para a vida. Desse modo se tornam as pessoas mais próximas das crianças. Capazes de entendê-las e de viver do seu modo: cada dia plenamente. E de ensiná-las que o amor é a melhor arma para enfrentar a vida.
Por isso, nesta primavera que breve vai começar, poderemos apreciar essas criaturas lado a lado nas praças e jardins, apreciando o reflorescer dos jardins e dando graças à vida que se perpetua com toda a beleza.




terça-feira, 21 de agosto de 2012

EXCLUSIVIDADE






Ah, exclusividade! Palavra mágica da propaganda comercial. Produtos exclusivos, atendimento exclusivo, todo o mundo quer para si. Mas, não sendo possível, aí vêm a pirataria, as clonagens, e as gatinhas dos morros e periferias ficam tão na moda como as “patricinhas”. As fitas e discos são ouvidos com o mesmo enlevo das originais. Claro que para o bom conhecedor, a distância é grande, mas...
A democracia manda que cada um aguarde sua vez na fila, e os “furões” sempre acham uma maneira de passar alguém para trás. Antes, eram os cartões de assessores de assessores de autoridades que abriam as portas. Agora, felizmente, já não se vêem muito desses procedimentos, pelo menos tão explícitos.
Entretanto, como é bom a gente ser reconhecida numa multidão, convidada para passar à frente e ter aquela atenção especial, com exclusividade! Até que chegue alguém mais importante e te deixem novamente à espera, com a cara no chão. É bom proceder como Cristo ensinou: coloca-te no último lugar, para que sejas convidado a subir para mais perto do anfitrião. Do contrário, podem pedir-te que dês um passo atrás para deixar passar alguém mais importante do que tu. Seria muito humilhante.
Este mundo está cheio demais, dizem os entendidos. E por isso nos tratam como massa, atribuindo-nos apenas um número. Aliás, sem esse número, o do CPF, não somos  ninguém, mais.
Mas para alguém muito querido ainda somos uma pessoa especial, única no mundo, tratada por isso com toda a exclusividade. É para nossa mãe.
Agora as mães geralmente têm um filho só. Mas no meu tempo de infância as famílias eram numerosas, de seis, cinco, oito, dez irmãos, e a mãe achava sempre um espaço para tratar cada filho com atenção especial. Sabia seu prato predileto, e todos eram brindados em dias certos, como o do aniversário ou do início de suas férias, ou a despedida para nova jornada de estudos fora de casa com seu prato preferido. Até agora lembro o guisado com farofa e rodelas de ovo que me deliciava.
Mas o melhor mesmo era quando eu adoecia, o que acontecia seguidamente antes de extrair as amígdalas. Aí eu tinha minha mãe todinha para mim, contando estórias, fazendo-me bonecas novas de pano e vestidinhos para as antigas. E mamãe sabia brincar, inventar novos enredos, como festas de casamentos e batizados. Quando ela saía de perto para atender aos demais, eu ficava esperando ansiosa. E ela voltava com um mingau de maisena polvilhado de canela ou uma banana esmagada, com açúcar. Era tão bom que faltava a vontade de ficar boa, de voltar a levantar cedo para a escola, deixar a cama quentinha e, principalmente, aquele carinho exclusivo.
Agora não tem graça adoecer. Por isso é que tenho mais saúde.
Exclusividade gratuita só existe mesmo no amor de mãe, que distingue a respiração irregular do nenê febril no meio da noite. Que pelo tom de voz ao telefone percebe que o filho está com problemas. Que pressente o momento certo e a palavra certa para dizer e agir nos momentos incertos. Só mãe, mesmo, sabe usar de exclusividade com sabedoria e muito amor.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LIÇÕES DA TERRA






Quando há dias arranquei a folhinha do calendário, tive uma alegre surpresa: a gravura mostrava um punhado de ovelhas mães confinadas em uma mangueira com seus cordeirinhos recém nascidos. Lembrei-me de décadas atrás, das minhas viagens mensais ao interior do município e a Santana da Boa Vista, que então pertencia a Caçapava. Foi quando aprendi que agosto – e não setembro – é o mês do renascimento da natureza, a antevéspera da Primavera. É quando nascem os cordeirinhos, os terneiros e cabritinhos. Os pessegueiros florescem, os campos ficam empapados de umidade, preparando a terra para a ressurreição que se dará em setembro.
 Por isso, olhando a rua lá fora, o mau tempo e as consequências da seca não me deixam abatida. Sei que debaixo da aparência desolada, a terra está sendo realimentada para que os brotos renasçam com toda a força da vida.
Lembro aquelas viagens que faziam parte de meu ofício, nas estradas de chão, tendo-se às vezes de abrir porteiras em campos particulares. O ônibus parando a toda a hora para embarcar ou desembarcar passageiros.
Gostava de ouvir os recados dos moradores de beira de estrada – pois o motorista era o “menestrel” que levava e trazia as notícias. Davam-lhe encomendas diversas, desde missas a remédios, avisos para a Rádio local, até a entrega de leite, ovos, carne, para o destinatário que esperava porteiras e quilômetros adiante ou na Rodoviária.
Não passava uma vez sem que visse o motorista ser agraciado com presentes de valor: um quarto de rês, charque, linguiças, dúzias de ovos, carne de leitão. Mas ele merecia, e muito. As paradas do ônibus tinham também outros motivos: às vezes porque ele via um animal em perigo na estrada. Então, logo que avistava alguém da propriedade, parava o ônibus e avisava.
Os passageiros não reclamavam, porque compreendiam. Eram fatos de sua vida. Eu, talvez a única estranha ao assunto no ônibus, ia assimilando aquela realidade da vida rural. E admirando a serenidade dos passageiros. A alegria daquela gente quando embarcava um amigo! As conversas intermináveis – Quem nasceu? Casou? Morreu? – Para quem Fulano arrendou o campo? Como foi a safra? A venda do gado?
Ao desembarcar um passageiro, o motorista esperava pacientemente as despedidas, as recomendações – abraços à comadre...
Não havia pressa. A natureza estava completando o ciclo das estações. E continuava trabalhando em silêncio.
Quantas vezes desejei ficar em alguma daquelas casas rodeadas de campo bem verde, rebanhos pastando, laranjais florescendo, e os últimos raios de sol dourando aquela paisagem.
Mas eu pensava na noite sem luz elétrica. Sem a leitura, o cinema, pois naquele tempo ainda não havia televisão.
Neste mundo de agora, de tanta tecnologia, tenho saudade daquela vida simples do campo, de onde nos vêm os alimentos e as matérias primas de nossas indústrias. E fico pensando que é preciso a mão do homem, a vontade do homem, seu suor para que haja o que colher. Para lavrar, semear e ver brotar ramos verdes “naquele tronco que o lenhador desprezou”, conforme disse o poeta. Porque haverá sempre primaveras. E o prêmio chegará mais cedo ou mais tarde àquele que souber ouvir e atender aos apelos da terra.