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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

VENTURAS E DESVENTURAS DE MORAR SOZINHA





Já experimentei de tudo: a casa de meus pais cheia de irmãos e primas; outra com colegas de pensionato; mais tarde com marido, filhos, enteada e uma tia; por último, sozinha.
Posso falar “de cadeira” o que é viver só ou acompanhada.
Lembro os guarda-roupas abarrotados de cabides com nossos vestidos e casacos. A gente ia procurar um e deixava caírem diversos, sempre na hora de maior pressa, quando os namorados chegavam para buscar as manas. Resultado: ficava tudo amontoado e amassado no fundo do roupeiro. Azar o meu, a “titia” que me deparava com os estragos e me sentia obrigada a desfazer a desordem. Fui a última pomba a sair do ninho, em compensação fiquei com os espaços todos para mim.
Hoje o meu closet é uma beleza: seções de inverno, verão e meia-estação. Não há como perder-me. Até de olhos fechados eu me localizo nele.
No pensionato, banheiro sempre ocupado, fila de espera prolongada, cosméticos fora do lugar. Que fazer? As pensionistas tinham que manter a calma em nome da convivência pacífica, senão seria o caos.
Certo dia uma delas avisou, cedo, que logo iria tomar banho. Era preciso marcar hora para providenciar a água quente. E eu na espera. Mas não sei por que ela saiu e não disse quando voltava. Então resolvi que chegara a minha vez. Foi uma tragédia. Voltando da rua a mocinha ficou uma fera. Passamos quase um mês sem falar-nos. Muitos e muitos anos depois nos reencontramos em Porto Alegre. Bem amáveis, perguntando por filhos e netos. Mas tenho a certeza de que o episódio do banho esteve pairando em nossos pensamentos. Desculpado, mas não esquecido.
Com os manos era gostoso conviver. As desavenças se resolviam logo com carinho e bom humor.
Do tempo de casada nem falo. É segredo de Estado.
Hoje moro sozinha. Sobram-me quartos de dormir e de banho. Posso escolher. Mas continuo a preservá-los para receber meus filhos, noras e netos em datas especiais e nos feriadões.
Atualmente, porém, preciso impor-me certas regras para a boa convivência comigo mesma. Hora de levantar antes das oito e meia e arrumar a cama em seguida (para não dar tentação de ficar mais um pouco), hora de tomar remédio. O que uso em jejum fica no caminho para o banheiro, assim não há perigo de esquecê-lo. E sempre achar um motivo para sair de casa, o que não tem faltado. Assim eu fujo da monotonia e da solidão, pois nunca sei o que vou encontrar logo ao dobrar a esquina.
Difícil é marcar hora com eletricista, encanador ou técnico de micro, pois tenho de ficar à sua espera. Recebo poucas visitas – elas se queixam de não me encontrarem em casa. Quando vou ao banheiro, levo celular e telefone sem fio. Assim não perco as chamadas. Mais demorado é atender à campainha da porta.
Passei por um momento difícil, uma vez, quando fazia sagu. Não conseguia abrir a garrafa de vinho, a rolha não saía. Da área dos fundos olhei para as janelas dos meus vizinhos em busca de socorro. Nenhum à vista. Como último recurso fui para a rua, e o primeiro cidadão que passou eu abordei. Num abrir e fechar de olhos o problema ficou resolvido.
Notei que ele se dirigiu de cara amarrada a um carro ali na frente.
Momentos depois a campainha da porta tocou: era o meu salvador pedindo que eu servisse de testemunha da batida que deram em seu Monza – parachoque amassado e um dos faróis em estilhaços. Foi no estacionar de ré que o sujeito me bateu, disse. Mas eu não vira nada, como sair dessa? O dono do outro carro dizia que ele é que batera no seu ao estacionar de frente. A discussão prometia ir longe até que saíram dois cidadãos das igrejas do outro lado da rua, cada um com sua versão. Felizmente me esqueceram, e eu continuei a fazer minha sobremesa. Mas fiquei curiosa: será que chegaram a um consenso? Um dos protagonistas – vi quando entrava no templo – era da Igreja Internacional. O outro devia ser da vizinha, a Mundial. Acho que faltou a Igreja Interplanetária para resolver o caso.
Há quem me pergunte se tenho medo de ficar sozinha à noite. De bandidos? Minha casa é bem segura, trancas e cadeados não faltam. De fantasmas? Os meus são tão amigos, gosto de senti-los à minha volta. São bons fluidos.
Programas não me faltam, filmes, seriados, documentários, livros. E ficando sozinha, não há ninguém para mudar de canal na TV como fazem os homens da família. A música é uma suave companhia. Ao entrar em casa, vou ligando o rádio e fazendo minha trilha sonora.
Viver só ou acompanhada, qual o melhor? A conclusão a que cheguei é que o mais importante é aprender a viver.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O GRITO





Não entendo muito de arte, menos ainda de pintura. Mas sei admirá-la. E quantas vezes desejei pintar o por de sol caçapavano! Sumindo atrás daquelas serras azuis que se estendem no horizonte além do cemitério. Ou na esquina da Rua Coriolano Castro com a General Osório, donde se avista um pinheiro recortado contra o fundo cor de ouro do poente. Lindo!
Mas conheço minhas limitações. E o quadro dos meus sonhos fica apenas gravado na imaginação.
Sentir a arte, no entanto, é sentir a vida. Outra maneira de ser artista.
Lembro-me da primeira vez que me vi diante de um quadro expressionista. Naquele tempo nem sabia o que isto queria dizer. Mas aquela figura humana envolta em panos, apenas mostrando o horror estampado nos olhos, na expressão da boca, como se gritasse num pedido mudo de socorro! Não lembrava em nada a beleza que se espera encontrar numa obra de arte, porém marcou-me fundo. Era a figura de alguém indefinido, não sei se homem ou mulher, jovem ou velho. O que havia para ver e admirar era a expressão do rosto que só tinha olhos e boca. Um vulto indistinto plantado no meio da ponte por onde passavam outros vultos escuros, indiferentes ao seu desespero, pois davam as costas àquele suicida em potencial. Consumido na luta silenciosa entre o medo da vida e a vontade de morrer. Em preto e branco, o quadro era mais inquietante ainda. E quanto mais eu olhava, mais sentia o horror daquela noite na vida de alguém. Sozinho no meio da ponte, sem poder recuar por aquele caminho escuro já percorrido. E sem poder avançar, porque nada mais havia à frente.
Nenhuma luz. Ninguém.
O quadro era “O Grito”, do pintor expressionista norueguês Edvard Munch.
Anos se passaram. Mas a figura patética ficou adormecida nas minhas lembranças.
Eis que numa tarde chuvosa e fria ela me bate à porta. Naquela magreza extrema, parecia apenas olhos e boca num esforço de fazer-se entender. A voz mal saía. As palavras eram buscadas com dificuldade na memória enfraquecida. Era o desespero em pessoa à minha frente, tentando contar sua história de tristezas, morte, doenças, miséria. Nenhuma solução à vista. Ninguém para ajudá-la. Só ela no meio da ponte.
Não foi fácil reconstituir os pedaços de vida que iam sendo jogados como se retirados de um saco de retalhos. A narrativa era feita aos tropeços, com intervalos para respirar, sem uma sequência, misturando fim com o meio.
Mas desta vez o “grito” foi ouvido. Porque a figura dolorosa venceu a vontade de atirar-se naquelas águas turvas do quadro expressionista e estendeu a mão para avançar um passo à frente. E aqueles vultos que estavam de costa ouviram o grito, e cada um fez a sua parte.
Hoje o vulto já tem contornos mais definidos. Fala, pede, agradece. Conta o martírio de sua existência, mas também tem planos para o futuro. Até já trabalha. Dá gosto ver o quintal de sua casinha todo plantado com as escassas forças de seus braços que ainda amparam os filhos moços, porém irremediavelmente doentes.
As perspectivas de vida ainda não lhe sorriem. Também, pudera. Os entes que amava, estão mortos ou estão perdidos nas brumas da insanidade.
Mesmo assim ,agora ela sente que não está mais sozinha. Sabe que pode contar com seus semelhantes. Basta, quando precisar, que dê... o Grito.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O ENCANTO DOS DIAS COMUNS


A vida da gente vai fluindo entre dias inesquecíveis, que deixaram sua marca de alegria ou de dor, e outros bem comuns, tão sem brilho que nem lembramos as datas ou o que aconteceu na sua passagem despercebida.
Mas, se contarmos uns e outros, vamos concluir que os últimos são muito mais numerosos, graças a Deus!
Sim, porque com o passar dos anos vamos aprendendo a dar-lhes o devido valor.
Ah, que delícia o dia após uma grande festa em família, sob nossa responsabilidade! Que diferença entre a véspera, a gente nervosa, cansada, com tudo por fazer, sem saber o que esperar – sucesso ou fracasso – e o dia seguinte, de chinelos, penteado desfeito, a despreocupação com a hora de levantar, preparar refeições, “fazer sala”... Bem, mas esses ainda não são os ditos dias comuns, porque festas não acontecem tão amiudadamente na vida.
Os dias comuns, mesmo, que a gente nem nota passar, são aqueles que seguem um ritmo normal, sem sobressaltos. O jornal chegando a nossa casa precisamente à hora do café da manhã, e aquela disputa familiar para ver quem o lê primeiro. O leiteiro batendo à porta dos fundos, portador também das primeiras notícias do dia: caiu geada, está muito frio, choveu toda a noite.
Quão tranquilizador é saber de antemão quem bate à porta em determinadas horas, ou quem chama ao telefone. Isso acontece só nos dias comuns.
Perto do meio dia é algum cobrador de clubes ou jornais, buscando a mensalidade. Depois do almoço, antes da aula da tarde, geralmente são colegiais vendendo rifas ou votos para rainha de alguma festa na escola.
O telefone (reservado aos parentes e amigos) é mais respeitador das horas de refeição, descanso, e à noite só toca nos intervalos das novelas. É tão previsível!
Mas não é apenas pelo que não acontece nesses dias que eles estão sendo lembrados. Pois é nos dias comuns que a vida se expande discretamente, e de repente notamos que as árvores que nos rodeiam já têm folhas novas de primavera, o pé de azálea está cheio de botões se abrindo, e até aqueles lírios que desabrocham em Finados já apresentam duas flores bem lindas.
Porém o encanto maior é ver aquele bebê que paparicamos no inverno, então envolto em mantilhas, agora dando os primeiros passinhos e correspondendo ao nosso amor com um abraço bem apertado. Bendito seja o encanto escondido dos dias comuns. Só não o vê quem não sente o amor aquecendo nossas vidas. E isso eu não desejo a ninguém.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

AQUELA QUADRA DA 7




Desde os tempos em que aquela velhinha curiosa, sempre à janela, perguntava à acompanhante de visão perfeita: “Quem foi que passou?” – e a companheira dos olhos vivos respondia: “São as meninas do´seu´ Trajano, nhá Candinha”, muitas águas rolaram por aquela quadra da Rua 7. Eram tão lúcidas as lembranças de minha mãe (a menina mais moça do vovô Trajano) de seu tempo de jovem, que dava para a gente ver as mocinhas da época vivendo sua vidinha simples, mas cheia de sonhos... A repressão dos pais, as novidades dos bailes de mês do Clube União, uma das únicas ocasiões em que podiam estar próximas de seus namorados para um número, bem reduzido por sinal, de danças (se não, dava falatório). E o que era melhor ainda: a preparação para esses bailes. Cabelos cacheados à custa de ferro quente, saias de armação e vestidos engomados, fitas, flores. Levava dias! Quando menina, ainda alcancei o tratamento com o mesmo ferro para os cachos: era quando me vestiam de anjo, e uma sobrevivente da época de minha mãe, moradora na quadra, ainda conservava aquela “preciosidade”. Fazíamos fila para que ela nos atendesse.
Mamãe e as amigas inseparáveis, Jeny e Anita, eram as “mandaletes” de suas irmãs mais velhas. Isso as divertia, porque podiam sair seguido de casa atrás de botões, linhas, rendas, enfeites para os cabelos, enfim, aqueles produtos que fazem a alegria dos armarinhos. As amostras de botões, trancelins, gregas e rendas podiam ser levadas às casas das freguesas para fazerem sua escolha, e assim era aquele ir e vir que agradava as três mocinhas, que riam à toa de tão felizes.
Além dessas saídas, elas tinham a janela que substituía com vantagem as nossas televisões e Internet. Lá, elas ficavam à espreita, e quando o galã de seus sonhos passava era aquela emoção. Taquicardia, joelhos trêmulos, rubor... que sofrimento gostoso!
Quando eu conheci aquela quadra (nasci ali), as casas eram as mesmas, os moradores é que variaram um pouco, por morte ou mudanças para outras cidades. Mas por muitos anos a vidinha correu mansa e sem grandes novidades. O açougue em frente movimentava nossas manhãs com o barulho das tamanquinhas das empregadas domésticas que iam comprar carne. (Como não havia ainda geladeiras, esse item do cardápio era comprado diariamente). O ruído do prato de louça sobre o balcão de pedra, o vozeirão de ´seu´ Carlos brincando com elas, que riam e conversavam, descontraídas, tudo isso a gente ouvia ainda na cama, de janelas fechadas. E aquele filete de claridade passando por um buraquinho nos postigos, ao encontrar o tecido das cortinas, nos dava uma imagem invertida, de pernas para o ar, dos personagens que passavam pela outra calçada. Era o nosso cineminha, e só a Física nos pode explicar esse fenômeno.
Lembro as crianças e jovens dessa época e suas casas tal como eram. A ex-morada do Aldo, agora lindamente remodelada, era da família da tia Aly: o Daniel, a Ceres, o Donaldo, o Domingos - eram oito filhos, alguns de nossa idade, companheiros de brinquedos e de trocas de revistas. Mais adiante, o´seu´ Afonsinho, viúvo, com os filhos, Alda, Maria, Lili, Cláudio. Depois, o ´seu´ Alcides e sua prole, Cléo, Luíza, Carlos... Entre essas moradias, a do `seu´ Lupicínio também com uma filharada, Odá, Alda, Magali, Tomás... Nas noites de verão, quanta ciranda, meia meia lua, passa passará brincamos juntos!
Na calçada de lá havia gente mais velha, tios de minha mãe, que aos poucos foram desaparecendo. Nossas visitas eram cerimoniosas e não passavam da sala de visitas, a não ser quando algum deles estava acamado. Lembro-me bem do tique taque tristonho do relógio de pêndulo, enchendo os silêncios das conversas que rareavam. Depois, bem depois, a quadra renovou-se com a vinda de ´seu´ João e dona Deli. Gente nova, alguns ainda bebês.
Na quadra funcionava a Folha do Sul, e toda sexta-feira à noite havia serão, que o Chico fazia até tarde. Nos sábados, lá estava ele bem arrumado nos bailes ou reuniões dançantes do Recreativo. Dois pontos a quebrar a calma da quadra: a rotativa do jornal e a música do Clube. Mas ninguém se queixava. Era a vida pulsando. Havia outro som na noite caçapavana passando por nossas janelas: a tosse de `seu´ Lupicínio. De longe a gente o reconhecia por isso: lá vem ele para casa.
São coisas que a gente não esquece, porque fazem parte de nossa história. E agora só temos de virar a página e começar outra saga, porque as pessoas são outras e as casas também. É a vida.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AQUELA NOITE DE LUA CHEIA

Recordo aquela noite como quem assiste a um filme antigo que não saiu de moda. Daqueles que deixam marcas no coração. Vejo a lua cheia iluminando nossos passos nas ruas desertas. Ouço o latido dos cães atrás das grades das casas adormecidas. Nós, um bando de jovens à saída de um baile, sentindo-nos os donos da madrugada. A música ainda ressoava em meus ouvidos, e seu ritmo fazia meu corpo vibrar. Ficamos para trás, nós dois. Eu, tímida e emocionada. Tu, o rapaz esbelto, astro do basquete do clube esportivo da cidade, quem diria, foi-me escolher como par daquela noite. Lembro-me do olhar admirado de Maristela, a irresistível loirinha, quando a deixaste de lado por mim.
Enquanto dançávamos, sentia teu contato em cada segmento de meu corpo. Tua mão que me dirigia, a outra com a minha entrelaçada. Nossas respirações confundindo-se, e aquele toque especial de vez em quando, a chamar a atenção para a música romântica. Como num sonho de Cinderela, eu me embalava consciente de tua presença. Só vultos à nossa volta. Nós, os protagonistas, os outros, apenas figurantes. Que tristeza quando os músicos romperam os acordes da última partitura. O baile terminava.
Mas uma grata surpresa na saída: ainda estavas a meu lado enquanto eu procurava as colegas para voltar ao pensionato. E empreendemos juntos aquela caminhada que não devia acabar nunca.
O bando era alegre e ria por qualquer coisa. Não faltaram as brincadeiras de Carlão, o palhaço da turma, que chutava latas vazias e gritava como Tarzan.
A lua brilhava em teus olhos que me fitavam com ternura. Nossas mãos se tocaram, e de repente elas se uniram num ímpeto emocionado. Foi como uma corrente elétrica que me trespassasse o corpo, e eu desejei morrer naquela hora. Porque pressenti que jamais gozaria de outro sentimento tão intenso.
Quando chegamos ao portão, as madressilvas exalavam um doce perfume, e a lua parecia querer despedir-se de nós. Nossos acompanhantes parece que só então perceberam “aquele clima”, e discretamente se afastaram cantarolando bem alto para disfarçar. Não me lembro se me falaste. Acho até que foi só o teu olhar que me pediu um beijo. Que eu neguei. Ainda não estava pronta. Eram outros tempos aqueles.
O que passou depois daquela noite foi apenas o despetalar de uma ilusão. Nas quadras de esporte, voltavas a ser o ídolo cobiçado pelas bonequinhas da moda. Maristela te arrebatou em seguida, mas eu ainda lembro o olhar queixoso que me dirigiste. Vais deixar? ele me indagava. Minha timidez te entregou. Mas aquela noite...ninguém conseguiu me roubar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

FIM DE ANO



Minha vizinha de banco na igreja é aquela mesma senhora que no ano passado me parecera o próprio símbolo da seca: magrinha, cabelo grisalho sem viço, nenhuma expressão nos olhos pretos. Mãos postas, dedos longos, descarnados. O vestido reformado, ainda cheirando a naftalina. Também, na casa velha cheia de traças, suponho, é preciso muito cuidado, se não a roupa guardada nos baús fica toda rendada de furos.
À minha frente, mãe e filha lado a lado, como sempre. Todos os sábados, ano após ano. Os irmãos casaram, saíram de casa. Essa é a filha que ficou.
Do outro lado, o casal envelhecendo junto. Chorando, sorrindo, rezando.
Senhoras piedosas acendem as velas do altar, distribuem folhetos de orações e cânticos, recolhem donativos.
Longe, no passado, eu vejo a elegante anciã, então uma bela senhora bem vestida, perfumada, com sua bolsa de couro de crocodilo. Combinando com os sapatos. Que atração exercia sobre mim aquele “clic” quando a dona tinha de abri-la em busca de um lenço de renda.
As crianças chegavam com suas mães.  Às vezes também com os pais. As meninas usando grandes laços de fita nos cabelos lustrosos. Os meninos com seu traje à marinheira.
Agora, onde ficaram aquelas vozes juvenis entoando belos cânticos sacros? E as ladainhas ressoando pelas abóbodas da igreja?
Penso na vida. Foi ontem. Eu me distraía na missa pensando no vestido cor de rosa quase pronto à minha espera na costureira. Era para o dia primeiro do ano. De que ano? Quantos já se passaram?
Parece que ainda sinto o cheiro da seda crepe e o seu contato agradável na minha pele. Um vestido simples, modelo escolhido por minha tia que entendia de moda. A cor me agradava. Disfarçava minha natural palidez.
Agora me distraio percebendo aquela expressão de sofrimento num rosto conhecido. E eu sei por quê. Então, sofro junto.
Aprendi com a experiência que alegria e sofrimento são institucionalizados, assim como a economia. Ninguém pode considerar-se inteiramente feliz vendo a dor da saudade e da frustração corroendo as vidas que já não têm mais esperanças em dias melhores.
Acho estranho que esses pensamentos me ocorram num lugar tão santo! Onde tudo se pode pedir e receber.
A missa prossegue, e eu tento conter-me para não deixar rolarem as lágrimas. Por mim, por minha vizinha do lado, por todos que me cercam. Cada um carregando a sua tristeza.
Tenho vontade de abraçá-los chorando, e dizer-lhe que sinto muito, eles não estão sozinhos.
Percebo então que essa nostalgia sempre me ocorre nos finais de ano. Quando eu sinto um gosto amargo de fim. E cada vez é mais forte à medida que os cabelos embranquecem, e a atração pelos vestidos bonitos vai ficando para trás.
Mas nada disso aconteceria se eu visse entrar por aquela porta o bando alegre dos jovens da praça portando violões e cantando. Colorindo a igreja com suas vestes alegres, o sorriso nos lábios e aquele brilho nos olhos que a só a mocidade pode apresentar.
Ver as criancinhas atirando beijinhos ao Menino Jesus no presépio. Remexendo na bolsa da mãe, nos bolsos do pai atrás de moedas para colocar na bandeja.
Aí, sim, a igreja se fortaleceria com sangue novo.  Não veríamos os fiéis envelhecendo tristes pensando no fim. A música os animaria, e os jovens os fariam sonhar novamente. Lembrando que o Ano Novo chega cheio de promessas e surpresas agradáveis. E que a vida continua...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Até breve!

Amigos, vou estar ausente nos próximos dias. De férias na praia. Desejo a todos que passem bem, felizes, onde quer que se encontrem. Um abraço

NA CADEIRA DO DENTISTA



Não há como adiar por mais tempo a decisão: uma cárie surgindo, um pivô que caiu. O fato tem que ser enfrentado logo, obrigando-nos à temida visita ao dentista. Temida, sim, pelos maiores de cinquenta anos, porque os jovens de agora – clientes de aparelhos corretivos, para os quais os leigos não encontram razão de ser: já são tão bonitinhos sem eles! – esses não estão nem aí. Para eles é uma recompensa que os pais lhes concedem, depois de muita súplica  e esforços para merecê-la.
Mas os “coroas” guardam péssimas lembranças. E ao agendar para o dentista, aquele ambiente tétrico dos antigos gabinetes dentários lhes vêm à mente: nas paredes, as gravuras mostrando dentes estragados, raízes inflamadas, fístulas que vão crescendo e acabam por “explodir”, deixando cicatrizes no rosto do infeliz! Tudo isso na boa intenção de fazer a gente cuidar melhor da saúde bucal. Mas o efeito era o inverso: as crianças da sala de espera, apavoradas com os ruídos daquela broca infernal no gabinete e os gemidos do paciente, iam saindo discretamente, com a desculpa de ceder o lugar para os adultos da sala.
Agora, o remédio é enfrentar as consequências e corrigir o que ainda tem conserto.
Felizmente o dentista de hoje tem competência de sobra e recursos de 1º Mundo. Mesmo assim, sem dor nenhuma, naquele ambiente agradável, com música suave e os gestos cuidadosos do dentista, ficar de boca aberta quase uma hora seguida é “dose!”
Resta-nos dar largas ao pensamento para esquecer onde nos encontramos.
Assim, ora lembramos fatos do passado, ora nos detemos nas aperturas do presente. A lâmpada focando o nosso rosto faz pensar nos horrores da torturasofrida pelos presos políticos em todo o mundo. Como pode haver gente tão má que se compraz com o sofrimento de outros!
Melhor é pensar em coisas alegres, engraçadas. Como a do genro que se irritava com a sogra, no banco de trás do automóvel, naqueles tempos de estrada embarrada, antes da era do asfalto. E a velhinha ia desfiando as contas do rosário, temendo ficar atolada. O que incomodava o motorista não era a reza propriamente, nem a evidente falta de confiança da sogra em sua habilidade na direção, mas o “chiado” da dentadura da coitada a cada “Santa Maria” do terço.
O fato é que no tempo de nossos pais e tios, dificilmente alguém chegava aos sessenta anos sem a famosa “dentadura”.
Quantas comadres e afilhadas do interior do município se hospedaram em nossa casa para extrair os dentes. Depois de alguns meses, com as gengivas curadas, voltavam para receber a “chapa”. Era um troféu exibido com orgulho, Mas, coitadinhas! Nunca mais poderiam “atracar-se” num bom churrasco de costela. E comer puxa-puxa, nem pensar.
Não será melhor esquecer os traumas do passado e fazer agora um trabalho completo no dentista? Assim assegurando a saúde dos dentes e de quebra um sorriso sem constrangimento por muitos anos ainda?
Você decide.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A CASA DOS NOSSOS SONHOS

 


Eu vi a casinha de joão de barro sendo construída. Dias depois, aquela animação: gorjeios, vultos alados, bater de asas.
Assim foi a mudança de meus vizinhos. A conquista da casa própria, a mudança feita com o auxílio de amigos e parentes carregando sofás, malas, cadeiras, tudo.
Fiquei pensando na atração que sempre senti pelas casas em geral e cada uma em particular. O modo de arranjar os móveis e utensílios, a divisão dos aposentos, a acomodação das pessoas da família pelos quartos.
Quando bem jovem,  sonhei morar em um chalé com cerquinha branca na frente e um mimoso jardim. Trepadeiras floridas fazendo um arco no portãozinho. Cinamomos dando sombra à varanda.
Quando viajava de trem, ficava olhando o interior das casinhas no trajeto, via pessoas em torno da mesa e uma sopeira fumegante sobre ela. Chegava a sentir o gostinho da sopa quente, enquanto devorava meu lanche frio. E uma saudade do lar me assaltava, mesmo sabendo que poucos quilômetros nos separavam.
 A casa paterna – cordão umbelical que dificilmente ou nunca conseguimos romper!
Noites há em que a sonho como era antes da última reforma: o corredor comprido, a cozinha mei´água. As goteiras que deixavam manchas de umidade nas paredes povoando minhas noites infantis de fantasmas e dragões. Mas, acordando, saber que a mãe e o pai ali estavam vigiando, protegendo, erguendo a coberta caída ao chão, aconchegando-a com carinho ao meu corpo encolhido de frio. E o sono tranquilo que se seguia sobre o colchão de palha.
Pela manhã, o cheirinho do café e da lenha queimando no fogão; os ruídos familiares, a água escorrendo, as portas abrindo e fechando... O padeiro, o leiteiro.
Minha casa de hoje tem outros sons não menos queridos: o bater do portão quando um filho retorna do passeio noturno. E os cheiros! Alguém me disse que minha casa tem o mesmo da casa de meus pais. Os mesmos temperos, quem sabe, os mesmos materiais de limpeza ou a mesma forma de levar a vida? É uma mistura de tudo e uma prova de que pelo menos tentei  trazer todo o carinho de minha infância para dentro de meu novo lar.
Mas entendo que o jovem queira sair, tentar a sorte longe, romper pelo menos geograficamente os laços que o prendem. Eu também sonhei com lugares distantes, viver uma vida bem diferente.
Quando vi aquele filhotinho estatelado no meu pátio, tive uma grande pena. Ele tentou voar com suas próprias asinhas e ainda não estava pronto.   E meu coração de mãe bateu disparado, cheio de medo.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Vovó e os passarinhos


                                                           
Homenagem à tia Neusa por um ano de saudade
         

         Dona  Flor teve uma alegre surpresa pela manhã.
         -Estou ouvindo o canto dos passarinhos, disse ao bisnetinho.
         O aparelho de surdez colocado há uma semana começara a surtir seus efeitos.
         Desde então, mostrou-se mais feliz, participando das conversas e entendendo melhor os enredos das novelas na TV.
         - Que bom, mãe, agora a Bisa me ouve e responde às minhas perguntas, disse Zezinho, o mimoso da casa.
         Mas no outro dia Dona Flor pareceu preocupada.  Olhava seguido pela janela de seu quarto, até que desabafou:
         - Aquele casal de pardais que estava fazendo o ninho no telhado da vizinha agora sumiu. Não ouço mais o seu canto.
         O mistério foi logo desfeito, para tristeza da vovozinha.
         Foi quando a faxineira a chamou da porta da sala para ver uma cena na calçada.
         - O que é aquilo que o cachorrinho persegue? Parece que se mexe, e ele se assusta e foge.
         - É um passarinho que a gata da casa ao lado caçou no pulo. Que gata danada, disse a moça, sorrindo.
         Dona Flor não achou nada engraçado.
         Dias depois ela passou a ver um único passarinho perto do que seria o seu doce lar. Coitadinho, pensou, e ficou triste também.
         Porém sua alegria voltou quando certa manhã tornou a ouvir animados   gorjeios. O passarinho não estava mais só. O novo casal  empenhava-se com entusiasmo na construção do ninho até então inacabado.
         Semanas depois Dona Flor  despertou com novos ruídos. Vinham do ninho dos pardais que se enriquecera com três filhotinhos. Dava gosto ver o casal revoando em torno, cada qual mais entusiasmado.
         Zezinho ao sair para a escola foi beijar a “bisa” e a encontrou  sorridente à janela observando o movimento do novo ninho. Onde a alegria voltou para ficar.

Ação de Graças



Queridos amigos que me prestigiam neste blog, meus votos de um Ano Novo muito feliz e abençoado. Que possam curtir as belezas da natureza e os sentimentos de afeto das pessoas queridas.  A vocês dedico especialmente este texto:


Obrigado, Senhor, pelas manhãs deste ano que nos despertaram para novas jornadas.  Dias frios, chuvosos, quentes, ensolarados ou com cerração, não importa, todos benvindos porque são parte de teus desígnios. Obrigado pelo canto dos pássaros, o colorido das flores e o sorriso das crianças que nos animaram a retomar os encargos com mais satisfação.
Nossos familiares e amigos foram anjos caridosos que colocaste junto de nós nos  momentos difíceis. Eles nos ajudaram a levantar-nos uma, duas e mais vezes.  Seus gestos nos reafirmaram que o amor é o sol da terra e cura toda dor e saudade. Obrigado, também, por mantê-los a nosso lado compartilhando das alegrias.
Mesmo aqueles que partiram não nos deixaram no abandono. Ficou a saudade e o  sentimento de que  são parte de  nós e viverão para sempre  nas lembranças,  no coração e nas lições de vida que nos ensinaram.
Obrigado por ter-nos dado Maria como mãe carinhosa e compassiva, S. Francisco como o irmão exemplar que nos ensina a viver na simplicidade e no servir ao próximo para construirmos o Teu reino.
Obrigado, Senhor, pela Eucaristia e a oração que nos mantêm intimamente ligados a Ti.  Deus seja louvado.