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sexta-feira, 30 de março de 2012

LÁGRIMAS DO CÉU




Eu a vejo seguidamente nas missas de sábado. É fácil localizá-la, pois temos hábitos arraigados: ela fica umas duas filas à minha frente, uma figura apagada, dessas que não chamam a atenção.
Até há pouco não sabia quem era. Mesmo agora, desconheço seu nome, a família. Mas sei onde mora, e acho que ela e a casa formam uma história conjunta.
Idade? Seguramente já deve ter passado todos os cabos da Boa Esperança.
O que me intriga nessa figura de mulher são os cabelos brancos sem viço, diferentes dos grisalhos azulados das vovozinhas das primeiras filas. E aquele ar de desolação. Parece que ela secou todinha, carnes, olhar, cabelos, pele, tudo. E eu fico pensando na seca assolando nossos campos e nossas vidas. E ao escutar comentários sobre a seca que nos castiga neste início de ano, sua figura me vem à mente.
À saída da missa, quando as pessoas se abraçam, conversam, saem aos pares, nunca a vejo, pois ela desaparece discretamente, como um fantasma.
Sua casa distingue-se das outras da quadra pela varanda de colunas em arcos seguindo a mesma linha das janelas e portas. Ela tem um ar de mistério, de história inacabada. Conserva uma certa altivez de quem viveu melhores dias. Antes havia um caramanchão de glicínias que aos poucos foi desaparecendo. Assim como o jardim cujas ervas foram crescendo na medida em que escasseavam as forças daquela mulher na luta pela preservação das flores que foram morrendo.
Soube que ela vive só, depois de anos de dedicação à mãe doente. Não casou, mas deve ter sonhado lindas histórias de amor naquele jardim antes disciplinado.
A casa envelhece, as goteiras se multiplicam, bem como as rachaduras das paredes. Imagino-a por dentro, bem limpa, os móveis antigos conservados com zelo, sofás de palhinha, bibelôs na cristaleira da sala, no “pichichê” dos dormitórios. Sempre os mesmos até que se quebrem. Em algum baú, aqueles vestidos que foram da mãe, das irmãs e que agora são ajustados para o seu manequim. Por isso a vejo com roupas bicolores, com barra e pala de um tecido e o resto do corpo de outro. Ah, se conheço esses métodos de economia caseira! Quantos vestidos de babados tive na minha infância e adolescência, herdados de irmãs e tias! Aqueles tecidos não se acabavam e eram aproveitados, colocadas golas de renda, punhos de bordado inglês...
Meu desejo é que a chuva caia em cascatas dando fim a esta seca que tanto demora. E que a mulher solitária volte a sorrir vendo crianças pulando nas poças d´água e dando nova vida àquele jardim devastado.
Na missa de sábado, por certo, ela estará dando graças a Deus pela chuva bendita e na saída trocará palavras de otimismo e de alegria com seus irmãos de fé.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A MAGIA DAS ESTAÇÕES


Ainda bem que eu não moro no Alasca nem no nordeste do Brasil. Lá, sempre frio e nevando, e no Brasil sempre ensolarado e quente. Prefiro climas mais amenos. Estações bem definidas, como está acontecendo neste ano, graças a Deus. Quando Cleo Kuhn diz que vai fazer calor, faz mesmo. Quando anuncia a queda da temperatura, pode aprontar os agasalhos que acontece certamente.
Depois do verão que sofremos neste começo de dois mil e doze, é tão bom conviver com os dias de outono que, de um momento para o outro, foi só anunciar que a estação entraria dia vinte, chegou da noite para o dia. Os termômetros baixaram dez, até vinte graus.
O gostoso é abrir as arcas, tirar dos guardados as roupas que deixamos de lado nos últimos meses. A gente até nem se lembra de algumas blusas, calçados, casaquinhos que agora nos dão um prazer renovado. É quase como se estivéssemos comprando roupa nova.
É mais agradável sair à rua, chegar às lojas, conferir as novidades da moda, encontrar as pessoas que estiveram sumidas, veraneando ou resguardando-se do calor. O passo é mais leve, dá para percorrer distâncias maiores sem sentir as dores da idade, ciático e coluna em crise.
Dá para pensar em viagens, estações termais, nada mais de praia cansativa, tira e bota maiô e aquele carregar de cadeiras e guardassóis pesados. E a compra do carrinho para aliviar esse peso fica sempre adiada. No próximo verão...
Mas o ano está passando rápido demais. O carnaval já ficou para trás, agora vem a Páscoa, o dia das Mães, dos Namorados. Amigas convidam-se para o café da tarde. E os chás de bebê não cessam de acontecer. Que bom que ainda estão nascendo, pais acreditando na vida e no futuro do mundo!
Breve vai terminar a Quaresma, e os preparativos para a Páscoa se fazem urgentes. Comprar chocolates, ovos, coelhinhos, preparar ninhos e preparar a casa para a visita dos filhos com suas famílias.
Que bom! Há sempre uma expectativa de momentos felizes em nossa vida!
Vamos curtir mais este outono com todo o bom humor e dando graças a Deus.

sábado, 24 de março de 2012

QUARESMAS DE OUTROS TEMPOS


Ah! Quaresmas de meu tempo, que saudades! Será que o mundo então era melhor, quando se falava em pecado, penitência, inferno?
“Pecador, agora é tempo,/ de pesar e de temor./ Serve a Deus, despreza o mundo...”
Parecia tão fácil. Umas vias sacras, abstinência de carne, jejum. As imagens dos santos cobertas de panos roxos, a igreja silenciosa à luz de velas, o incenso, as ladainhas.
Agora, entra Quaresma, sai Quaresma, a gente não sente a diferença.
Antes, à meia noite da terça feira gorda, era sagrado: os devotos retiravam-se do Carnaval.
A todo momento a jovem perguntava a seu par no baile: “que horas são?” E ele, para retê-la mais um pouco atrasava o relógio. Ai, que pecado!
A vida parecia mais simples, com regras fixas, horas marcadas, tempo de rezar, tempo de dançar.
As férias eram aguardadas com tanta expectativa” . E gozadas como recompensa pelo esforço dispendido, mil exames, madrugadas insones, nervos à flor da pele à espera dos resultados. Agora as férias são um problema a mais para a família, pesam no orçamento, no relacionamento entre irmãos, nos programas nem sempre tão benvindos dos jovens.
E as preocupações vão -se acumulando à medida que o ano adentra.
Acontece tanta coisa ao mesmo tempo no mundo, que direta ou indiretamente nos afeta, que é impossível assimilar as notícias, já vêm outras em cascata ou numa grande carambola.
Por isso eu gostaria de voltar às Quaresmas de antigamente. O sino batendo, chamando à reflexão, ao desapego do mundo exterior.
Como é bom poder desligar-nos deste mundo e descobrir o que há de essencial na vida. Mas um dia que se descuida da folhinha na parede, já se perde o prazo da prestação, o vencimento de imposto, de taxas, o juro aumenta, os concorrentes roubam nossos fregueses, a casa cai...
E as ladainhas já não se cantam. Na Missa, quando são lidas as duas epístolas, os fiéis acham o culto longo.
Pensando bem, enquanto eu estivesse de joelhos extasiando-me com as imagens de um céu cheio de anjos, de música e de Deus em seu trono, meu irmão estaria à procura de emprego, sentiria fome, o amargor da injustiça, a incompreensão dos poderosos.
Por isso estou dando razão às orações mais curtas neste mundo tão cheio de coisas para consertar.
“O que fizeres a ele, a Mim o fareis.”
Foi o que vi um dia destes: “Alguém me escuta? Alguém me escuta?” Era um pobre ceguinho, tão frágil como sua voz. E o senhor bem apessoado que entrava no restaurante deu meia volta e perguntou-lhe? “Que é, meu amigo? E ele: “Estou com fome”.
O senhor chamou o garçom e recomendou-lhe o pobrezinho:
“Faça-o sentar-se, o almoço é por minha conta.”
Nesse dia, aquele gesto pareceu-me mais santificado do que as quaresmas dos meus velhos tempos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

ENQUANTO HOUVER LUAR


“Enquanto houver luar,/ enquanto a luz brilhar/ e o sol tiver calor...”
Quando ouço essa música do filme Casablanca, lembro aquela paineira perto da Escola João Neves, num dia de junho: as folhas parece que choravam derramando gotas de chuva da véspera. O dia era cinzento, frio, como o coração de quem fica. E ele se fora.... naquela manhã!
Quantos adeuses depois desse! Mas a lembrança do primeiro é mais forte.
O amor é um mal (ou bem) que ataca quando menos se espera, atingindo toda classe de gente, os bonitos e os feios, os poderosos e os humildes, os esclarecidos e os ignorantes.
Lembro Maria uma empregada minha quase perfeita, que cozinhava, passava que dava gosto. E que tempero picante e gostoso naquela sopa russa de beterraba que só ela sabia fazer.
Ela era uma apaixonada incondicional.
Ainda bem que o namorado trabalhava numa fazenda e só vinha de vez em quando à cidade. Porque era só ele chegar, no fim ou no meio da semana, Maria esquecia as panelas no fogo, o ferro de passar ligado, a torneira do tanque aberta. Trancava-se no quarto para enfeitar-se e depois corria ao encontro do amado.
E eu ficava pensando: Pobre Maria. Será que ela é correspondida com o mesmo ardor? Ela tão magrinha, nem bonita era. Tinha uma enorme cicatriz de queimadura desde o pescoço. Uma perna ligeiramente mais curta. Tudo isso resultado de um acidente da infância. Que ficara sem o devido socorro.
Sua mãe mexia o tacho onde fazia sabão, e a menina Maria brincava por perto. Ao retirar o tacho do fogo, a mãe não viu que a filha pulava a fogueira e caiu em cima das brasas. A patroa não quisera (ou seu marido fazendeiro é que impediu?) dispensar a empregada, nem lhe ofereceram uma condução para levar a menina ao Hospital.
O sofrimento foi grande. E o defeito ficou: cicatrizes e uma perna mais curta.
Maria cresceu, passou por muitas patroas. Seu aprendizado da vida foi: trabalhar e servir.
Veio para a cidade. Foi num baile de fim de semana que o milagre aconteceu. Maria conheceu alguém que pousou os olhos nela e a fez sentir-se especial. Maria, a criança deserdada da sorte, conheceu o amor.
Fiquei feliz com seu convite de casamento. Depois, a festa na casinha simples da Vila Sul - achei tão bonita. Os presentes complementavam o enxoval: louças, talheres, utensílios domésticos.
Maria feliz no centro da mesa, era uma rainha. Ao lado, o noivo amoroso, sorrindo.
Desejei que aquele amor tão verdadeiro durasse toda a vida.
Meses depois foi com muita tristeza que a vi novamente: no caixão, rodeada de flores, seu amado em soluços segurando sua mão. Alguém comentou: complicações com a gravidez.
Procurei consolar-me pensando: Maria amou e foi amada até o fim.

segunda-feira, 19 de março de 2012

ENCOMENDAS VIA PORTADOR


Último dia de verão. Que será lembrado como o mais quente de que se tem notícia. Até que os próximos sigam o exemplo. Deus nos livre!
Não sinto mais o cheirinho da figada de tacho nos pátios das casas. Agora as mulheres têm outras tarefas a desempenhar, mas aquele gostinho nunca mais foi igualado. Deixou saudades.
Fim de férias, os bares vão aos poucos esvaziando-se, pois aquela turma alegre retorna aos estudos nas cidades vizinhas. Ou aqui mesmo, pois já temos campus de duas Universidades, Urcamp e Unipampa. Quem diria nos meus velhos tempos!
No milênio anterior (que horror, como ele já está ficando longe!) os estudantes secundários tinham de emigrar para outras cidades, e nessa época tomavam o ônibus de destino crivados de recomendações. E mais ainda: cheios de encomendas para entregar a parentes ou pessoas conhecidas.
As viagens eram raras, não tinha essa de voltarem a cada fim de semana a casa dos pais. E os adultos também só viajavam a negócios, para tratar da saúde e outros assuntos importantes. Assim sendo, aquele que partia era encarregado de levar pacotes, cartas, notícias.
A figada entra nessas reminiscências porque muitas vezes tivemos de levar caixotes dela para felizes destinatários, que por certo não se davam conta do incômodo que causavam.
Às vezes as encomendas eram mais leves, mas não menos embaraçosas. Tinham de ser jogadas pela janela do ônibus, depois que se avisava o motorista e pedia-se ao cobrador que o lembrasse para buzinar chegando perto. Quando ele tinha cara de poucos amigos, a nossa timidez passava maus bocados. A gente sofria durante todo o trajeto de medo de passar do ponto de “lançamento” da encomenda. Mas felizmente sempre havia uma pessoa esperando à beira da estrada, que ficava depois acenando agradecida o nosso obséquio. Eram geralmente parentas de terceiro grau recebendo roupas usadas que depois ajustariam para a sua magreza. Outras vezes eram cartas ou pacotes misteriosos que tínhamos de entregar a domicílio logo depois da chegada, não importando se tínhamos compromisso nosso para atender.
Mas, de todas essas encomendas, a que mais nos sobrecarregava era receber na Rodoviária uma velhinha cheia de malas pesadas e embarcá-la horas depois no trem para Santa Maria. Ela ia visitar a filha casada com um ferroviário para quem levava sacos de farinha, de feijão, rosquinhas, pães e queijos caseiros, rapaduras de leite. Dava para imaginar a turma de netos aguardando deliciada aquele regalo. E para nós, nem uma prova...
Imaginem se hoje alguém teria coragem de levar qualquer encomenda sem saber do que trata! Pode acontecer de na chegada ser surpreendido pela Polícia à cata de drogas, carta bomba ou contrabando.
O que ficou em mim foi essa vocação de portadora que até hoje me acompanha. Antes de sair de casa, nunca me esqueço de perguntar: “Querem alguma coisa do centro? Uma carta para o Correio, pagar água, comprar um retrós, botões? E nunca saio de mãos vazias...

domingo, 11 de março de 2012

A PRAIA SEM VAIDADES


Março de águas claras e ondas espumantes ainda mornas do verão. É o tempo ideal para os “coroas” curtirem sua temporada de praia, depois que filhos e netos retornam a suas atividades do ano na cidade. De terno, gravata, saia ou vestido e confusões de trânsito. Pobrezinhos!
Muitos desses veraneios fora de estação são patrocinados por parentes ou amigos que lhes cedem as chaves de seu imóvel no litoral. Vale mais que um hotel cinco estrelas. Fica-se com toda a comodidade de um lar, sem grandes despesas. Queridos filhos ou irmãos, ou amigos, que assim compartilham o seu prazer conosco nesse contato com o mar.
Em março tudo é calmo, quase vazio na orla, e a gente se sente dona dessa cidade fantasma que tem a beleza do mar todinho ao nosso inteiro dispor, tão grande, tão sem fim como as nossas lembranças de épocas da vida que passou.
É preciso ficar atento, pois naqueles passantes de meia idade pode-se reconhecer algum amigo, uma colega especial de nossos anos dourados. Aí, então, a temporada atinge o seu clímax.
O tempo é curto, e as conversas apenas deixam entrever pedaços de nossa vida compartilhada tantos anos atrás. Depois, é só ficar contemplando o mar, cantarolando baixinho o “Céu cor de Rosa”, que as imagens vão surgindo nítidas como um filme em tela grande. E as ondas que vêm e que vão representam os sonhos que sonhamos – alguns realizados, outros ainda por serem sonhados pelos filhos, netos, essa geração sempre nova que não deixa a vida acabar.
O bom dessa temporada é que não precisamos dividir o espaço com a turma barulhenta do verão. Nem encolher-nos para dar passagem às jovens esculturais em seus biquínis revelando as curvas perfeitas no corpo bronzeado. Deixamos de querer disfarçar nossas gordurinhas a mais, a barriga antiestética que deforma o perfil em qualquer roupa que se vista. Nada disso importa quando encontramos nossos velhos amigos. Vemo-nos, então, com os olhos da saudade, e apreciamos mais do que antes seu sorriso franco, o gesto carinhoso, as expressões que ainda usamos em nossas conversas e que fazem rir a gente jovem da família, porque já saíram de moda. (“ Que é baratilho, vó?”) Nessa temporada de praia podemos deixar que elas venham à tona, ninguém vai reparar, somos da mesma geração.
Ah, mergulhos no mar de outono! Eles “lavam a alma” da gente. E o melhor de tudo é que nos dão mais entusiasmo para enfrentar o que nos espera no ano que agora é que começa. IPTU, Imposto de Renda, essas coisas e outras que nem imaginamos...

sábado, 10 de março de 2012

A VIDA EM RETALHOS


O calor deste verão chega a dar medo. Será que daqui em diante vai ser pior ainda? É o aquecimento da Terra tão anunciado que já chegou até nós?
O melhor é não precisar sair à rua nas horas da tarde. Até dentro de casa é difícil achar o que fazer que não dê mais calor. Por isso a gente procura o lugar mais fresquinho, com ventilador ou ar condicionado ligado, e fica pensando. E o pensamento atravessa fronteiras, detendo-se aqui e ali no passado. Para não incomodar os mais moços dizendo que “no nosso tempo era melhor”, é bom lembrar as dificuldades do trabalho caseiro de então. Tirar água do poço, antes do encanamento; não ter água gelada, antes do surgimento dos refrigeradores; dormir de janelas fechadas – sem venezianas. Sem ventiladores nem ar condicionado. A sede! Quando a água potável vinha de pipa e demorava a chegar. Corria-se à vizinhança com uma jarra, pode ser que ainda tivessem uma sobra para acalmar as crianças da casa. Noutra ocasião a gente retribuía.
A vida era bem simples, todos se conheciam pelo nome. Até os loucos das ruas, o Pedrinho, o Adão. Ninguém os molestava. E se alguma criança zombava daqueles doentes mentais, por certo levava uns puxões de orelha dos pais. No Bar Meu Cantinho ficou entronizado uma foto do Pedrinho, o mais querido deles. Que sabia aonde chegar na hora do café e do almoço. Gostava de brincar com boizinhos de osso que guardava em seus bolsos.
Adão era um pouco agressivo. Quando passava na rua de chapéu desabado, um machado num ombro e no outro uma mala de garupa, não mexessem com ele. Mas geralmente respondia bem humorado às empregadinhas, no açougue de Seu Carlos, quando lhe perguntavam - Quando é que vai casar, Adão? - Não dá, a banha está cara.” É preciso esclarecer que ele tinha profissão: era quem cortava lenha nos pátios das famílias.
Na igreja os fiéis, sempre os mesmos, ficavam nos lugares de sempre. Era fácil reconhecê-los de costas, por isso e porque usavam, inverno após inverno, os mesmos agasalhos.
Depois da missa das sete dos domingos, velhas lavadeiras moradoras do subúrbio costumavam visitar as ex-patroas para o café da manhã. E as crianças e jovens da casa cediam-lhes o lugar na mesa com todo o respeito.
Agora os pobres são rostos desconhecidos. E os doentes mentais já não têm aquela mansidão e são retirados das ruas.
Os domingos, naqueles tempos do Pedrinho e do Adão, começavam para nós com a missa e terminavam com uma sessão de cinema. Era tão bom aguardar toda a semana pelo filme anunciado. Quando é que se ia imaginar ter um dia cinema em casa, como hoje na televisão!
Com todo esse progresso na tecnologia, as gangues de classe média das capitais não acham com que entreter-se e saem pela madrugada a incendiar índios e moradores de rua.
Estou-me contendo há tempos para não dizer como os idosos na minha juventude: “No meu tempo não era assim...” E não era mesmo. Os jovens sonhavam e procuravam a “fuga” nos livros, na poesia, nos ideais de uma vida melhor.
A biblioteca do Clube União ocupava as paredes de uma ampla sala e era bem organizada e atendida. Havia dias especiais para a retirada de livros, e no local se formava um grupinho de leitores que conversavam coisa que se aproveitava, e não essa conversinha de bar que se ouve hoje.
Por favor, me desculpem. Acabo de descobrir que estou ficando velha, mesm

quinta-feira, 8 de março de 2012

VIZINHOS, A EXTENSÃO DA FAMÍLIA


Quando a família busca a casa para morar, criar os filhos, ou simplesmente curtir a vida mansa da aposentadoria, uma coisa é fundamental: ver quem serão os seus vizinhos. É bom lembrar o ditado “dize-me com quem andas e te direi quem és.” Porque vizinho é a extensão do lar, é parte da família, a quem se recorre ou socorre nas horas incertas. E nas certas acabamos esbarrando com eles nas entradas e saídas, deixando a casa ou voltando ao “doce lar”, queiramos ou não.
Recordo com saudade os vizinhos da época em que meus filhos eram pequenos. Que suportavam suas algazarras, a bola que caía para seu pátio, e assim mesmo eram atenciosos, até mesmo agradáveis com eles.
Por isso é com bom humor que hoje alcanço mil vezes, se for preciso, a pelota da gurizada que ultrapassa o meu muro. O que não acontece com todos os proprietários, pois muitos chegam a rasgar a coitada e atirá-la de volta, como a dizer: “Não ousem repetir a façanha, vejam o que acontece.”
Hoje me alegro quando os jovens da casa ao lado vêm de férias. Ouço vozes alegres, músicas, um entra e sai de amigos. É a vida que se renova. E quando retornam aos estudos, chego a sentir sua falta.
Aos domingos e feriados, como os vizinhos nos valem. É o sal que faltou, ou um ovo para completar a receita que estamos fazendo. É só bater na casa mais próxima, e o problema se resolve. Ficamos contentes quando podemos retribuir do mesmo modo.
Festas, doenças, viagens, os vizinhos servem em todas as ocasiões. Mas em época de carnaval ou grandes feriados, a quadra fica deserta, e a gente fica esperando ansioso a sua volta.
A vida vai ficando cada vez mais acelerada. Ou somos nós que não damos mais conta dos mesmos compromissos. O fato é que hoje passamos uma semana ou mais sem avistar um vizinho. Sem tempo para bater à sua porta. Às vezes é mais fácil encontrá-lo em salas de espera de consultórios, na igreja, Supermercados, Bancos. Então os assuntos se atropelam. “Sabias que a Fulana esteve hospitalizada?”... E a gente nem se dera conta.
Outros vizinhos – virtuais - são os locutores e apresentadores de rádio e televisão que ouvimos e vemos diariamente. Desde os noticiários da manhã até a noite, eles nos comunicam o que vai pelo mundo. Cada vez mais perto de nós, a ponto de conhecermos de longe a voz de cada um. Detestamos quando são substituídos por outros. Até que nos acostumemos aos outros, assim como aos novos vizinhos da rua.
Ah, vizinhos de todos os tempos e lugares, vizinhos de corpo presente ou vindos pelas ondas do rádio ou satélites da TV, não sei o que seria de nossas vidas sem vo

segunda-feira, 5 de março de 2012

TAMANHO É O DE MENOS


Uma chave é um objeto pequeno que cabe na mão fechada. No entanto, que função importante desempenha. Esquecida na bolsa ou no bolso, ou numa gaveta, sua falta estraga qualquer programa.
Aconteceu com gente minha. Foram à praia num dia quentíssimo, engarrafamentos, ponte do Guaíba com defeito, um inferno. O consolo era pensar que logo estariam à beira mar. No entanto, faltando alguns quilômetros se deram conta: cadê a chave? Está comigo, está contigo? Foi aquele jogo de empurra. O remédio foi retornar à base para buscá-la. Ou desistir do agradável lazer do fim de semana.
Certa vez, lembro-me que foi no inverno, porque eu vestia casacão bem agasalhante. Pois bem, eu estava cuidando de um familiar no Hospital. Na hora do revezamento, em ponto de meio dia, ao chegar ao carro, procuro a chave no bolso, e nada. Esvaziei a bolsa, e a chave não aparecia. Voltei ao quarto do doente, todos me ajudando a procurar, sem solução. Acabei fazendo o trajeto a pé – a garoa, o ventinho minuano, a distância que não era pequena – não foi nada agradável. Almocei e voltei à ronda levando a chave extra que passei então a usar. No inverno seguinte, vestindo o mesmo casaco, eis que sinto um certo volume no forro da bainha: era a chave que tinha caído lá por um buraquinho minúsculo que até então não dera para perceber.
Mas, falando em chaves, cada vez elas estão mais minúsculas, ao contrário das de antigamente. As fechaduras eram peças enormes e pesadas, e as chaves não cabiam numa simples bolsa, quanto mais em bolsos.
Umas parentas minhas, todas de meia idade, estavam comendo laranjas no pé, acompanhadas da mãe velhinha e muito surda. De repente uma delas deu falta da dentadura. Foi um corre corre, todo o mundo procurando. Uma delas disse: quem sabe engoliste com as laranjas? A mãe se apavorou, pois entendeu que falaram em fechadura. Como isso foi acontecer? Engolir aquela coisa enorme? Afinal, o mistério foi esclarecido. Sabem onde foram encontrá-la? Em meio às cascas de laranjas.
Hoje as portas precisam de chaves extras, e nas cidades maiores o “abre-te sésamo” são códigos que a gente tem de saber de cor para digitar. Se não, não entra. Ou melhor, quem consegue penetrar são os ladrões. Esses têm cursos de pós graduação e até doutorado e as portas não têm segredo pra eles. Nem as janelas.