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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

PRIMAVERA CHEGANDO








Ao dobrar aquela esquina, o passante recebe em cheio o perfume das frísias do jardim. Noutro canteiro, os pés baixinhos de azálea, de tão carregados de flores, parecem garotinhas roliças vestidas de prenda com saia de muita armação.
Os pássaros cantam alegres, e a vida retoma um ritmo de festa no colorido do entardecer.
Já se pode contemplar o céu estrelado sem estremecer de frio.
É bom notar que já aliviamos as cobertas, os dias estão mais compridos, sobram horas na tarde para um lazer.
Também nos dá prazer verificar que novos caminhantes se apresentam na calçada da vizinhança. Alguém que no inverno ainda eram bebês envoltos em mantas, agora ensaiando seus passos bamboleantes tão cheios de esperança.
Vovôs e vovós se animam a sair à rua, procurando os bancos do calçadão para um bom papo, sem medo de resfriados.
Os jovens já podem namorar à luz das estrelas.
E as crianças, meu Deus! Quem cuida dos pequenos na primavera sabe o que eu digo. Na escola, então! É tanta vida pulsando que não cabe em corpo assim pequeno. O remédio é deixar agitar. E na escola, acham que é fácil mantê-las disciplinadas?
Risos, gritos, brigas...
O menininho da 1ª série está resolvido: vai aprender judô ou karatê para defender-se na escola, sem apanhar.
Os pais não sabem o que dizer: oferecer a outra face como um bom cristão? Contar à professora que está sofrendo o tal bullying que já no meu tempo de estudante existia, mas não tinha nome nenhum?
Os pais ficam desejando que ensinem Religião na escola para que as crianças aprendam a conviver fraternalmente. Pois é tão difícil ensinar os preceitos cristãos em casa! Quem quer ouvir? Primeiro, com a televisão, agora com a Internet ocupando todo o tempo das crianças e jovens. Quem não tem computador, email, e não se comunica por facebook, não é ninguém.
Aquele garotinho de três anos, que era tão beijoqueiro quando a gente chegava a sua casa, agora mal olha pra gente e faz um aceno, porque está entretido nos seus joguinhos, os videogames. E sabe abrir, fechar, passar de uma fase para outra sem pedir para ninguém.
Dizem que a Psicologia acabou com o arrependimento. Que pecado não existe, mas apenas a voz da natureza que precisa ser obedecida, para não deixar frustrações. O que sobra para ensinar?
Por sorte existem os avós, essas criaturinhas doces, despojadas de tudo o que é supérfluo, pois aprenderam o que é essencial para a vida. Desse modo se tornam as pessoas mais próximas das crianças. Capazes de entendê-las e de viver do seu modo: cada dia plenamente. E de ensiná-las que o amor é a melhor arma para enfrentar a vida.
Por isso, nesta primavera que breve vai começar, poderemos apreciar essas criaturas lado a lado nas praças e jardins, apreciando o reflorescer dos jardins e dando graças à vida que se perpetua com toda a beleza.




terça-feira, 21 de agosto de 2012

EXCLUSIVIDADE






Ah, exclusividade! Palavra mágica da propaganda comercial. Produtos exclusivos, atendimento exclusivo, todo o mundo quer para si. Mas, não sendo possível, aí vêm a pirataria, as clonagens, e as gatinhas dos morros e periferias ficam tão na moda como as “patricinhas”. As fitas e discos são ouvidos com o mesmo enlevo das originais. Claro que para o bom conhecedor, a distância é grande, mas...
A democracia manda que cada um aguarde sua vez na fila, e os “furões” sempre acham uma maneira de passar alguém para trás. Antes, eram os cartões de assessores de assessores de autoridades que abriam as portas. Agora, felizmente, já não se vêem muito desses procedimentos, pelo menos tão explícitos.
Entretanto, como é bom a gente ser reconhecida numa multidão, convidada para passar à frente e ter aquela atenção especial, com exclusividade! Até que chegue alguém mais importante e te deixem novamente à espera, com a cara no chão. É bom proceder como Cristo ensinou: coloca-te no último lugar, para que sejas convidado a subir para mais perto do anfitrião. Do contrário, podem pedir-te que dês um passo atrás para deixar passar alguém mais importante do que tu. Seria muito humilhante.
Este mundo está cheio demais, dizem os entendidos. E por isso nos tratam como massa, atribuindo-nos apenas um número. Aliás, sem esse número, o do CPF, não somos  ninguém, mais.
Mas para alguém muito querido ainda somos uma pessoa especial, única no mundo, tratada por isso com toda a exclusividade. É para nossa mãe.
Agora as mães geralmente têm um filho só. Mas no meu tempo de infância as famílias eram numerosas, de seis, cinco, oito, dez irmãos, e a mãe achava sempre um espaço para tratar cada filho com atenção especial. Sabia seu prato predileto, e todos eram brindados em dias certos, como o do aniversário ou do início de suas férias, ou a despedida para nova jornada de estudos fora de casa com seu prato preferido. Até agora lembro o guisado com farofa e rodelas de ovo que me deliciava.
Mas o melhor mesmo era quando eu adoecia, o que acontecia seguidamente antes de extrair as amígdalas. Aí eu tinha minha mãe todinha para mim, contando estórias, fazendo-me bonecas novas de pano e vestidinhos para as antigas. E mamãe sabia brincar, inventar novos enredos, como festas de casamentos e batizados. Quando ela saía de perto para atender aos demais, eu ficava esperando ansiosa. E ela voltava com um mingau de maisena polvilhado de canela ou uma banana esmagada, com açúcar. Era tão bom que faltava a vontade de ficar boa, de voltar a levantar cedo para a escola, deixar a cama quentinha e, principalmente, aquele carinho exclusivo.
Agora não tem graça adoecer. Por isso é que tenho mais saúde.
Exclusividade gratuita só existe mesmo no amor de mãe, que distingue a respiração irregular do nenê febril no meio da noite. Que pelo tom de voz ao telefone percebe que o filho está com problemas. Que pressente o momento certo e a palavra certa para dizer e agir nos momentos incertos. Só mãe, mesmo, sabe usar de exclusividade com sabedoria e muito amor.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LIÇÕES DA TERRA






Quando há dias arranquei a folhinha do calendário, tive uma alegre surpresa: a gravura mostrava um punhado de ovelhas mães confinadas em uma mangueira com seus cordeirinhos recém nascidos. Lembrei-me de décadas atrás, das minhas viagens mensais ao interior do município e a Santana da Boa Vista, que então pertencia a Caçapava. Foi quando aprendi que agosto – e não setembro – é o mês do renascimento da natureza, a antevéspera da Primavera. É quando nascem os cordeirinhos, os terneiros e cabritinhos. Os pessegueiros florescem, os campos ficam empapados de umidade, preparando a terra para a ressurreição que se dará em setembro.
 Por isso, olhando a rua lá fora, o mau tempo e as consequências da seca não me deixam abatida. Sei que debaixo da aparência desolada, a terra está sendo realimentada para que os brotos renasçam com toda a força da vida.
Lembro aquelas viagens que faziam parte de meu ofício, nas estradas de chão, tendo-se às vezes de abrir porteiras em campos particulares. O ônibus parando a toda a hora para embarcar ou desembarcar passageiros.
Gostava de ouvir os recados dos moradores de beira de estrada – pois o motorista era o “menestrel” que levava e trazia as notícias. Davam-lhe encomendas diversas, desde missas a remédios, avisos para a Rádio local, até a entrega de leite, ovos, carne, para o destinatário que esperava porteiras e quilômetros adiante ou na Rodoviária.
Não passava uma vez sem que visse o motorista ser agraciado com presentes de valor: um quarto de rês, charque, linguiças, dúzias de ovos, carne de leitão. Mas ele merecia, e muito. As paradas do ônibus tinham também outros motivos: às vezes porque ele via um animal em perigo na estrada. Então, logo que avistava alguém da propriedade, parava o ônibus e avisava.
Os passageiros não reclamavam, porque compreendiam. Eram fatos de sua vida. Eu, talvez a única estranha ao assunto no ônibus, ia assimilando aquela realidade da vida rural. E admirando a serenidade dos passageiros. A alegria daquela gente quando embarcava um amigo! As conversas intermináveis – Quem nasceu? Casou? Morreu? – Para quem Fulano arrendou o campo? Como foi a safra? A venda do gado?
Ao desembarcar um passageiro, o motorista esperava pacientemente as despedidas, as recomendações – abraços à comadre...
Não havia pressa. A natureza estava completando o ciclo das estações. E continuava trabalhando em silêncio.
Quantas vezes desejei ficar em alguma daquelas casas rodeadas de campo bem verde, rebanhos pastando, laranjais florescendo, e os últimos raios de sol dourando aquela paisagem.
Mas eu pensava na noite sem luz elétrica. Sem a leitura, o cinema, pois naquele tempo ainda não havia televisão.
Neste mundo de agora, de tanta tecnologia, tenho saudade daquela vida simples do campo, de onde nos vêm os alimentos e as matérias primas de nossas indústrias. E fico pensando que é preciso a mão do homem, a vontade do homem, seu suor para que haja o que colher. Para lavrar, semear e ver brotar ramos verdes “naquele tronco que o lenhador desprezou”, conforme disse o poeta. Porque haverá sempre primaveras. E o prêmio chegará mais cedo ou mais tarde àquele que souber ouvir e atender aos apelos da terra.