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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

QUANDO OS JACARANDÁS FLORESCEM






De novo aquele cheirinho agradável de fruta amadurecendo, que sempre aparece no início de cada verão. Só que não é de fruta. Há poucos anos descobri que vem da corticeira em flor. Aquela do Clube Recreativo está uma beleza! As pétalas, tão alvas, têm a maciez do rostinho de criança.
Enquanto isso os jacarandás também se apresentam no seu esplendor – uma nuvem lilás roubando a cena nas avenidas de nossa cidade. É uma imagem que me transporta a um grande acontecimento em minha vida, o nascimento de meu filho caçula.
Da janela do quarto do hospital foi que os surpreendi pela primeira vez justamente quando todas as flores se abriam. Novembro, mês do aniversário. Perguntei que árvore era aquela. Foi então que adotei o jacarandá como uma das minhas preferidas.
A História Sagrada nos conta que o homem foi feito de barro, e Deus soprou-lhe a vida. Os minerais, vegetais e animais foram criados antes, e o ser humano já nasceu num estágio mais evoluído. As diversas teorias falam que somos um conjunto de todos esses elementos, e é natural que nos identifiquemos com um ou outro preferencialmente. Eu sou da árvore, ela me fascina todo o tempo. Não passo por uma sem admirá-la, elas merecem minha atenção e respeito.
Inconscientemente fui associando o jacarandá com a personalidade do meu filho. Expandindo-se em galhos e ramos, brotos e flores, tudo no seu tempo certo. Como um ser social, disposto a cultivar amizades, a prestar serviços, a compartilhar. Alegre, comunicativo como o Gijo, que desde bebezinho procurava comunicar-se com as pessoas ao redor. Na rua, nos ônibus, na escola, na vida. Sempre me incentivando a mudar, sair da rotina, trocar o velho pelo mais novo, a TV preto e branco pela colorida, o canal aberto pelo pago, a máquina de escrever pelo microcomputador, a Internet, o celular...
Mantendo minha casa sempre cheia de amigos, jovens simpáticos que até hoje, adultos, me tratam com carinho.
E agora, fora de casa, ele está cada vez mais perto pelo amor que nos une, o dia a dia contado ao telefone todas as noites, as dificuldades e alegrias, os desafios e as conquistas, sem nada a esconder.
No dia de hoje, seu aniversário, quero mandar-lhe um muito obrigada por ser meu filho, uma bênção, um milagre que agradeço todos os dias a Deus. E de ter-me dado a querida Adriane, sua companheira amada, que se não fosse para ser nora, pediria aos céus que fosse minha filha.
Flores de jacarandá, voltem sempre para comemorarmos por muitos e muitos anos esta data feliz.


domingo, 17 de novembro de 2013

AS RUAS FALAM





Ouso dizer que as ruas de uma cidade são como rios, sempre mudando de cara. As casas, calçadas, meio da rua podem ser os mesmos, mas as variáveis são muitas. Ruas alagadas pelas chuvas, ruas torrando ao sol escaldante de verão, ruas tranquilas nas tardes de domingo, ruas agitadas nas vésperas dos feriados, feriadões ou  eventos sociais importantes.
As ruas variam também ao sabor dos dias da semana ou do mês. Quando esse começa, seus passantes aglomeram-se em torno das agências bancárias para receber ou efetuar pagamentos. Estacionar um carro é um problema, e nos dias de calor a “briga” dos motoristas é para conseguir um lugar à sombra. Raríssima em nossa cidade de poucas árvores – a nossa Clareira na Mata.
À frente das lojas e supermercados oferecendo promoções, o movimento é intenso e lembra uma cidade grande.
Depois do dia quinze a gente respira aliviado. Impostos, taxas e prestações pagas, porém mais nada a receber, o remédio é apertar a bolsa e procurar outros afazeres. As ruas, então, são espaços abertos para pedestres ou motoristas. Somos uma cidade interiorana sustentada economicamente na maior parte pelas aposentadorias de seus habitantes idosos. Portanto, nossa receita municipal é bem previsível.
As ruas de dia têm uma cara, e nas altas horas outra muito diferente. Pela manhã, bem cedinho, são as empregadas domésticas que se dirigem ao trabalho. Coitadas! É a hora preferida dos estupradores, mas que fazer? É confiar em Deus e no socorro do próximo.
Também, ali pelas seis horas, ônibus das empresas de calcáreo recolhem seus trabalhadores em determinadas esquinas.
E o sono dos aposentados é interrompido pelo ronco dos motores desses coletivos e ainda mais pelo aquecimento dos caminhões de transporte, o que leva mais tempo, nos invernos. Aprendi a calcular a hora ouvindo esses barulhos. Porque galo cantando na minha vizinhança não se ouve mais. Que saudade!
Um pouco depois, são estudantes com suas mochilas e cara de sono. Seguem-se os funcionários de repartições ou do comércio, muitos deles – principalmente as comerciárias – em suas motinhas barulhentas, mas nem tanto.
À noite, depois do fechamento dos bares e pizzarias, o movimento escasseia, e o cidadão comportado pode dormir um sono profundo. Nem sempre, pois as ruas mudam de donos, e estes não se importam em causar transtorno. São os boêmios, os mal intencionados - arrombadores, assaltantes e bandidos - e os amigos das drogas. Às vezes, apenas alguns jovens sadios saindo de baladas. Música alta nos seus carros velozes, mas tudo bem, a gente entende, é a mocidade. Mas quando os gritos são de brigas, espancamentos, agressões, choro de mulher, aí é de ficar-se arrepiado.
Sirenes da Samu ou da Polícia são frequentes nessas horas, e a gente fica pensando quem terão sido as vítimas. E os culpados?
Enquanto o sono interrompido não volta, ficamos pensando onde estamos. Numa redoma? Cercados de grades e de cadeados, o mundo é dos outros, dos sem lei nem piedade. Mas a claridade do dia é nossa aliada, aí podemos sair do casulo para conviver com nossos semelhantes.
“A porta da rua é a serventia da casa” – quem terá inventado esse chavão e em que  trágicas circunstâncias? Nem é bom pensar nos dramas familiares que levam uma família a esse ponto – expulsar alguém assim.  E esse alguém, antes um ser amado e protegido, vai agora para o “olho da rua” – outro chavão.
Os nomes que dão às ruas não dizem nada ou quase nada. Nomes de políticos que quase ninguém se lembra quem foi. Ou o que fez. Ainda mais, que com essa tendência atual de reviver o nosso passado histórico, muitos deles de heróis se tornam vilões. Deveriam ser chamadas com um nome de flor, ou poético, ou animador. Como Rua da Esperança, das Andorinhas, Rua das Margaridas. Conheço algumas com apelidos medonhos: Beco do Laçaço – onde a Lei Maria da Penha não tem sossego – Rua dos Enforcados e outras até divertidas. O povo tem humor, é a sorte!
Ruas de minha vida, adorei todas elas. Posso contar os dias em que fiquei só dentro de casa. Por doença, é claro, pois como vou deixar de ouvir o seu apelo chamando-me para o social, o encontro com outras pessoas, outros assuntos, outros afazeres? E as surpresas a cada esquina! Minha rotina diária termina na porta da rua. Depois, é só aguardar para ver. E viver...




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

FINADOS, DIA DE LEMBRAR







Nas conversas dos últimos dias, ele foi o assunto principal. Todo o mundo se queixava: “Que vento!” Janelas batiam e portas também. Ele soprava nas frestas mais escondidas.
Na rua, os passantes quase davam meia volta no esforço de resistir ao vento que agia com força em sentido contrário.
Se fosse no tempo das saias rodadas, que dilema! As mulheres não saberiam como usar as mãos: para não deixar a roupa levantar ou para proteger o penteado.
Outro sinal de que chegamos a Finados são aqueles lírios se abrindo no canteiro aqui de casa. Plantados por minha saudosa tia, eles vão enfeitar agora o seu túmulo. Ela os cuidava tanto, e agora eles brotaram mais do que em outros anos como uma homenagem póstuma.
Um ar tristonho paira neste céu azul que aos poucos vai ficando sombreado de nuvens. E as memórias rodopiam como o vento e me fazem pensar que estou ouvindo os sinos de bronze – aqueles antigos da igreja matriz – que chamavam os fiéis para a missa das sete, depois das dez nos passados domingos de Caçapava. Ressoavam ao longe, lá nas Caieiras, no Pinheiro, Chácara Queimada, Segredo...
Revi os vultos endomingados dos paroquianos de então, com suas roupas melhores, exalando perfumes da Coty.  Senhoras e moças bem vestidas e penteadas entrando pelo corredor central da Matriz. Gente recalcada costumava dizer que missa não era lugar para desfile de modas. Mas eu achava tão bonito vê-las passar, ajoelhar-se, abrir suas bolsas de couro, tirar um lencinho de renda. Tenho certeza que até o bom Deus aprovava. Estar bonito, ou pelo menos na melhor forma, é uma obra de caridade que se pratica ao próximo. Assim dizia uma grande professora que tive – Noemy Athayde.
Tempo e vento andam sempre ligados. Eles trazem de volta o passado. Dizem que o que Deus faz, o homem separa, e o vento reúne outra vez.
Nesse tempo de Finados, quanta gente que já não mora mais aqui temos ocasião de rever ! O problema é reconhecer no senhor corpulento, na senhora grisalha, os mesmos jovens que eles foram quando partiram.
A vida passa, as rugas chegam, os cabelos escasseiam ou embranquecem, mas o sorriso fica, e este não muda a expressão de alegria pelo reencontro.
Flores têm o seu dia de festa. As amarelas daquele arbusto-  mesmo no chão - ficam tão bonitas! E as folhas despencadas pelo vento escondendo-se no cantinho do portão! Parece que uma vassoura jeitosa as amontoou ali, bem juntinhas e quase desapercebidas.
Esse redemoinho, eu pensava em criança que escondia o Saci Pererê. Bastava encostar uma garrafa sem tampa, empurrar o maroto numa soprada de vento para dentro e colocar a rolha de volta. E ele seria nosso para fazer todas as travessuras possíveis.
Finados, gente querida que partiu de nosso convívio. Mas continua fazendo parte de nossas vidas na saudade, nos exemplos, no grande amor que nos uniu. Sua lembrança é mais forte neste dia em que visitamos seus túmulos e os enfeitamos com flores, última homenagem que podemos prestar-lhes. Deus os tenha em seu Reino, Amém.