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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CACOETES E MANIAS

Quando descrevemos o perfil de uma pessoa, nem sempre nosso interlocutor acerta quem seja. Mas se lembramos um cacoete ou mania que ela tem, aí sim, dá o estalo “Ah, já sei quem é: aquele que está sempre assobiando... Ou, aquela senhora que costuma devolver as compras ou trocá-las por outras todas as vezes. Pois é, ao longo da vida a gente vai adquirindo hábitos, manias e cacoetes que vão formar depois o anedotário da família e da comunidade..
Em nossos encontros de irmãs, seguidamente ficamos lembrando as pessoas que já fizeram parte de nossas vidas e que nos acompanham na saudade e em recordações felizes. Seu jeito especial, suas manias, a maneira como souberam conduzir suas vidas. Agora é que compreendemos melhor seus verdadeiros propósitos...
As amigas de nossas mães e tias muitas vezes assistiam juntas às novelas radiofônicas da época anterior à televisão. E nas emoções das cenas elas se embalavam de um lado para o outro, ou para a frente e para trás, como se estivessem numa cadeira de balanço, outras sacudindo o pé, e nem se davam conta. Nós, as meninas é que notávamos o cacoete.
Hoje é a nossa vez de sermos flagradas pelos mais novos. E por nós mesmas, até. Outro dia chamávamos a atenção de uma de nossas manas. Por que tapas a boca com a mão quando falas?  Isso fazia nossa avó quando ria. É que ela não tinha dentes, coitadinha. Não é o teu caso.
Também tenho meus cacoetes ou manias, é claro. Quando alguém me diz “Vamos a tal parte”, eu corro para o banheiro e depois vou tomar água ou vice-versa. Não saio antes disso. Freud explicaria: nossa mãe nos ensinava que assim procedesse antes de sair de casa para não incomodar nas casas alheias. Ficou a mania que não tenho certeza se transmiti aos meus filhos. Meninos se despacham com mais facilidade, é claro.
Uma tia, antes de sair à rua, corria ao banheiro e segurava as calcinhas com muitas seguranças. Medo que o elástico rompesse... O que aconteceu com dona Mimosa, em plena Rua da Praia!
Muitas vezes estou na rua, na igreja, no Banco ou Supermercado e sinto um aperto no braço. Podem saber: é aquela senhora que regula comigo de idade contando uma nova façanha dos seus pimpolhos, filhos ou netos. Aprovação em vestibular, bolsa de estudos no exterior, mestrados ou doutorados, uma vitória merecida, com certeza. Mas nesses momentos eu fico presa, parecem garras me contendo, não posso fazer mais nada. Certo dia eu tinha pressa, e minha salvação é que chegou mais alguém e ela mudou o foco da atenção.







A idade vai chegando e eu adquirindo outras manias. Só há pouco me decidi a colocar cabides atrás da porta do banheiro. Lembranças da infância, quando minha tia da casa bonita nos ralhava por acumular roupas penduradas, em vez de guardá-las nos roupeiros. Preguiça de adolescentes...
A mana Duty herdou outras manias suas, foi a que teve a maior convivência com ela. Por exemplo: gabar o preço ou a qualidade de uma mercadoria, pois ela sabia escolher e gostava do barato, mas que fosse bem bom. Pois hoje eu vou à procura da boa compra anunciada pela mana, e o preço nunca é o mesmo que ela gravou, sempre é maior. Como no caso do peru de Natal. Nossa tia chegou em casa dizendo que encontrara um vendedor com um peru deste tamanhão – ela mostrava abrindo os braços – e por tal preço. O vendedor estava ali, dobrando a esquina. Nossa mãe perguntou: E tu viste o peru? E a tia, encabulada, disse que não.
Seguindo nosso anedotário, quando alguém conta alguma vantagem de negócio, a gente pergunta: “ Tu viste o peru?”
Uma conhecida nossa costuma fazer compras no Supermercado sempre falando com alguém das proximidades. Quando muda de corredor, ou a pessoa é que muda, ela segue no mesmo assunto, mas a pessoa já é outra. Ninguém fica sabendo do fim da conversa, ou do princípio.
São coisas que a gente vai conhecendo ao longo dos dias, e esses cacoetes e manias nos fazem querer com mais afeto as pessoas que os têm. São intimidades só permitidas a quem lhes fica bem próxima no espaço físico e no coração..



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ERRATA: no texto acima, em vez de ler “compactuar”, leia-se “compactar” . Mil desculpas.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ROSQUINHAS NO PESCOÇO

Há tantas lembranças perdidas, e se assim não fosse, o que seria de nosso cérebro? Até os computadores rejeitam conteúdos demais. Agora mesmo, meu micro avisa que vai compactuar as matérias recebidas. Não cabem...
Pois um dia dei para lembrar das rosquinhas no pescoço. Que não se vêem hoje em dia, e ninguém fala nelas. Minto, um dia destes alguém falou. Isso depois que eu fiquei pensando nelas dias atrás. Acontece muito comigo. Passo tempos sem saber notícias de alguém, e é só pensar nessa pessoa que dentro de vinte e quatro horas alguma notícia vai surgir. Ou ela mesma reaparece depois de um prolongado sumiço.






Foi assim com as rosquinhas no pescoço.
Minha infância sem televisão, computador, celular ou rádio de pilha, teve muito pátio para brincar. Nas tardes quentes a gente se entretinha debaixo de uma árvore com o que houvesse ao redor. Fazíamos comidinha de comadre para as bonecas, que eram enfeitadas com colares fabricados por nós com as flores à mão. Geralmente eram as “maravilhas”, de diversas cores, pois tinham um formato especial para encaixar. Pretendo semeá-las nos meus canteiros.
No fim de uma tarde naquele cenário rústico – os terrenos não eram cimentados – a sujeira da terra ficava impregnada em nossos corpos suados. Mãos, pés, rosto, o corpo todo assimilando aqueles grãos de terra, o banho da tarde era uma necessidade de que nenhuma criança podia fugir. Os mais rebeldes molhavam a cabeça e diziam que estavam limpos, mas a mãe examinava o pescoço e descobria as temidas rosquinhas. Até um algodão embebido em álcool elas passavam para as danadinhas sumirem. O pescoço acabava ficando vermelho. Era o jeito!

Hoje as crianças se entretêm desde cedo com o computador. Não suam e vão limpinhas para o banho do fim do dia. Mais do que conveniente agora -  só por causa do calorão, senão ... Bonecas e carrinhos ficaram de lado, os jogos virtuais são mais atraentes e demandam menos energia. Para conversar com elas é muito difícil, estão sempre on-line, não nos dão atenção. Seu mundo é outro, e elas estão-se criando sem as experiências de outrora, sem as histórias e anedotários da família, sem os diálogos entre irmãos, primos, pais e mães. Será que evoluíram?