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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

REPRENDENDO A VIVER






Já não me admiro de muita coisa. Quase tudo pode acontecer. Antes, os mais velhos ensinavam os jovens, agora é o inverso que acontece. Volta e meia estou chamando meus personal trainers para me tirarem de alguma encrenca no computador, no celular ou na câmera digital. Filmes em Dvd eu já desisti há muito de assistir. Precisava chamar o netinho para acertar o idioma e não sei quantas outras complicações. Agora só vou mudando de canal na Tv e paro no que me agrada.
Como é que os jovens aprenderam tão depressa os mecanismos das novas comunicações? A cada dia surgem novidades cada vez mais surpreendentes. O mundo ficou pequeno, os acontecimentos parecem tão próximos, e as tragédias abalam a todos nós, quaisquer que sejam as distâncias em quilômetros que nos separem.
Graças a essas novas tecnologias, o milagre aconteceu.
Foi um presente de Natal com algum atraso, que chegou em boa hora. Uma pessoa que representou muito em minha vida, e que eu não via nem dela sabia notícias há muitos anos, reapareceu. Órfã de mãe – minha amiga de infância – ela foi minha filhinha  mimosa nos seus primeiros anos de vida. Fatos alheios à minha vontade nos separaram, e ficamos longos anos sem notícias uma da outra. Não que me faltasse empenho. Em vão procurava seu endereço junto a parentes seus, mas ninguém sabia dizer, ou então sua nova família se mudava para bem distante, Paraná, Santa Catarina, Brasília...
Certa vez ela telefonou, e dos dois lados do fio foi uma choradeira danada. Aquela voz de adulta ainda guardava a suavidade da menininha que eu lembrava. O carinho era o mesmo, e a vontade de abraçar-nos e reatar nossos destinos foi intensa. Passara há tempos na Tv um programa – não me lembro se na Globo ou no SBT –  buscando pessoas que se haviam perdido e então se reencontravam ao vivo, com muitas lágrimas dos participantes e dos espectadores. Pois é, nesse telefonema a minha afilhadinha disse que pensara em recorrer àquela emissora para me encontrar. Que coisa!
Mais alguns anos, eis que o Facebook realizou este milagre. Foi tão fácil! E eu que até agora me recusara a usá-lo, por achar que me tira o tempo e a privacidade, agora lhe dou graças por esse grande achado.
São lições de vida que não canso de aprender. Passarei agora a atualizar-me nessas novas tecnologias de comunicação. Assim, não perderei mais de vista esta garota que tantos anos procurei em vão. E agora é uma mulher forte, que venceu muitas lutas para sobreviver.  Hoje é uma mãe vitoriosa de três lindas garotas. Não precisou de mim para crescer. Só do meu carinho.
Também acompanharei os primeiros passos de minha netinha que com sua simpatia – assim estão dizendo suas vizinhas de guarda-sol na praia – está conquistando tantos amigos. E as viagens de meu outro neto tão longe, no Canadá, e dos meus sobrinhos que não param de explorar terras estranhas.
Bem acomodada em minha casa, sem os transtornos de viagens, bagagens e aquela falta que sempre dá de nossa terra, dos amigos, do clima a que estamos acostumados.
Bendito facebook! Benditos os jovens que nos abrem novos caminhos! Que eles sejam sempre bem iluminados para que não se percam nas encruzilhadas. Amém!




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A CULPA É DO FREUD






Desde que me aceitei ser uma sobrevivente dos meados do século passado, venho-me policiando para não falar “no meu tempo era assim”. Cansei. Agora vou desabafar tudo aquilo que venho sufocando “para não dar uma de velha”.
Pois no meu tempo os pais mandavam, e os filhos obedeciam. Os professores ensinavam, e os alunos aceitavam seus ensinamentos. Poucos punham em dúvida o que eles diziam ou mesmo debatiam suas idéias. Era tudo mais tranqüilo.
Nos lares, nas escolas, na sociedade, na igreja, o respeito era quase instintivo, não precisava que nos lembrassem. A não ser a recomendação de que era preciso dar sempre o bom exemplo. Para os irmãos menores, para os colegas de séries menos adiantadas, para os próprios amigos e companheiros, nos meios sociais, na igreja, em toda a parte. Em qualquer situação em que estivéssemos, a própria vontade não era soberana, havia sempre um limite, o cuidado para que nossas ações não viessem prejudicar alguém. “Democracia é o direito de cada um viver sua vida e agir com liberdade  desde que respeitando o direito do outro.” Assim dizia nosso antigo diretor da Escola Normal.
A primeira droga de que ouvi falar foi o lança-perfume dos carnavais. Quando nossa turma se divertia só com uns copos de guaraná e a alegria natural da juventude.
Havia bullying, sim, mas nem sabíamos o seu nome, e cada aluno resolvia os próprios problemas sem queixar-se às professoras nem aos pais, em casa. Lembro-me de que fui uma vítima bem visada, nem sei por quê, talvez por ser estudiosa e elogiada pelos mestres. Ou  pelo fato de ser uma estranha no ninho, pois vim de Cachoeira, onde minha família residiu alguns anos, e a turma daqui já estava formada e não me aceitava.
Certo dia uma da colegas me puxou pela gola da blusa enquanto eu me levantava para responder a uma pergunta da professora – e esta nem viu, mesmo estando à mesa sobre um estrado bem alto. Ela me disse que me esperava na saída.  A colega era uns seis anos mais velha que eu, e bem mais possante. Tiro o chapéu pra mim, pois tive a coragem de esperá-la atrás da esquina. Quando ela passou com seu bando - todas umas mocinhas falando em namorados, e eu uma pirralha de nove anos -  tive a coragem de interpelá-la. Ela se admirou, não esperava minha reação. Fomos discutindo até a esquina de minha casa. Daí nos separamos, e desde então o bullying terminou, pelo menos de sua parte.
Hoje este incidente daria caso de polícia, ou de pais reagindo, professores levando a culpa, um horror!  Lembro o caso recente de uma mãe que foi à escola e agrediu a colega que brigara com a filha.  Onde está a educação da família? O que é que os pais ensinam aos filhos agora?
Nas escolas do meu tempo os alunos eram alfabetizados na primeira série, e se não conseguiam aprender a ler, repetiam o ano. Hoje eles seguem até a terceira ou quarta série analfabetos e, se  reprovados na leitura, voltam à segunda.
Os diretores eram escolhidos pelos colegas em uma lista tríplice, entre os considerados mais capazes e idôneos, e essa lista era submetida à Secretaria de Educação que dava a última palavra. Assuntos de política partidária eram proibidos nas escolas. Não havia “panelinhas”, e o ambiente escolar era tranquilo.
Depois que a Psicologia entrou em nossas vidas, as responsabilidades pessoais perderam sua força. Tudo é culpa das frustrações da infância, pais autoritários, falta de diálogo, e a sociedade impondo seus modelos. Hoje a pessoa tem mais liberdade de ser o que é – ponto a favor - mas o errado é que ela invade o espaço do outro, daí as tensões, os conflitos que não se acabam. No divã do analista, a pobre da mãe é a culpada de tudo, e o ambiente familiar também.
“No meu tempo” as clínicas psiquiátricas eram só para os loucos. oje Hoje há famílias inteiras que as procuram. Os casais desajustados, então... Antes, a religião, o carinho da família, a convivência dos irmãos, primos e amigos resolviam nossos problemas.
Enfim, cada um tem de ajustar-se à sua época e ao seu ambiente. Mas não é demais lembrar que a educação feita com amor é o começo da solução para os males que afligem o mundo moderno da competição, da ânsia pelo poder e pelas riquezas materiais. O que vale, no entanto, é ser feliz, realizar-se como pessoa, desenvolver suas potencialidades para o bem próprio e da comunidade.
 Falei como professora? Desculpem. Esqueci de policiar-me.

Um abraço!

O FIM É O COMEÇO






Dona Maurília não se conforma: pinheirinhos artificiais, comprados em loja, “na minha casa não”. E seus netos deixaram de ter o ambiente natalino na casa da avó. Uma lástima!
Lembro ainda quando a gente os adquiria na rua de algum lenhador improvisado para a época de Natal. Quando também se comprava o peru de algum verdureiro que os cevava nos últimos meses do ano. Ao contrário de hoje que os preparativos se fazem de última hora.  Apesar das facilidades como o forno elétrico de hoje,  e outras benesses. Há anos atrás era preciso procurar padarias que assavam os animais das festas. Nem sempre se conseguia, a fila era longa.
Talvez por isso agora nos pareça passarem tão rápido essas festas de fim de ano. Ontem foi Natal, hoje é Ano Novo. As folhinhas dos calendários 2014 foram arrancadas - agora é outro ano -, os espumantes e champanhes tiveram seus brindes, o peru e o leitão já fizeram sua parte.
Nas estradas, viajantes saudosos buscando suas famílias, para reviver origens e fortalecer laços¸ enfrentam os perigos do trânsito terrível: é uma roleta russa, mas com Deus e a Virgem Maria invocados pelos parentes que os aguardam, e muitos cuidados, eles chegam felizes para a mais terna celebração do calendário – o nascimento de um menino que mudou o mundo.
Menos consumismo – é o que dizem os noticiários - desagradou comerciantes, mas aproximou mais as pessoas que se trocaram prendas com maior significado e carinho. Com um olho no ano que vem de prognósticos sombrios, melhor apertar o cinto que a crise vem aí. Os pessimistas temem o atraso nos salários, a crise do desemprego, negócios e produções em queda, um caos! Mas há quem tenha esperança de que as consciências se aclarem, que este país de tantas possibilidades não negue oportunidades a seus filhos que se iniciam no trabalho; e aos aposentados, que possam descansar sem preocupações financeiras. O Brasil é tão grande. Há lugar para todos. Até para os exilados que não têm mais para onde ir.
  O clima dos últimos dias contribui para dar um ar de mistério sobre o que será amanhã. Chuvas, tempestades, céu de brigadeiro? As nuvens teimam em permanecer toldando os céus.
 Os cuidados com os preparativos do Natal e a convivência agradável em família não deixam que a nostalgia tão temida desses dias tome conta da gente. Por isso, o fim do ano não é mais aquele velhinho triste, curvado sob um cajado, que nos abandona ao desconhecido. A nova folhinha traz imagens vibrantes de um futuro cheio de novas surpresas. Tudo pode acontecer.
Enquanto os poderosos enchem suas arcas  com os bens públicos – até que sejam flagrados – nós, os sonhadores humildes, que apostam no amor e na justa partilha, ainda acreditamos que a vida vai melhorar.

O ano 2015 nos traz grandes esperanças.