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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

COISAS QUE ACONTECEM







Nem bombas nem fogos de artifício. No momento, nada disso acontece, mas o clima é de expectativas. Tantas águas rolaram, segredos foram revelados, e o lado sombrio deixou sequelas na alma da gente.
Entretanto, toda crise abre novas alternativas: do desemprego à descoberta de novas vocações; do desânimo à procura e encontro de outros caminhos. O importante é viver, mais do que sobreviver.
Quantos executivos que perderam seus cargos no ápice da carreira – seus altos salários foram os primeiros a serem podados nas empresas empobrecidas – hoje, sem terno e gravata,  mais felizes, porque patrões de si mesmos, compreenderam  tal verdade. Outros profissionais liberais abandonaram seus diplomas para entregar-se a novos misteres, escolhendo os setores que mais resistem ao abalo financeiro que enfrentamos, porque indispensáveis para suprimir as atuais demandas.
Assim, foram surgindo carreiras promissoras na gastronomia, na moda, nos cuidados com a saúde, e esta com suas atividades preventivas ou corretivas, como fisioterapia, pilates, academias. Porque sem alimento, sem saúde e sem a faceirice das mulheres que mantêm os mercados da moda, ninguém gostaria de viver.
Salas de escritórios foram fechadas em grande número, porque os ocupantes não puderam mais pagar o aluguel. E retiraram-se para as próprias residências, continuando seu trabalho pelo computador. Uma salinha na casa, com o equipamento que não ocupa muito espaço, o problemas ficou resolvido.
Exemplo disso, a publicitária mui querida –  Liège -, que editou nosso livro, agora se sente mais à vontade ao fazer  aquilo que mais lhe agrada : dar largas à imaginação, deixando que as idéias borbulhem sem olhar o relógio nem preocupar-se em pagar aluguel. Estando no seu apartamento, sobra-lhe um tempinho para cuidar das flores e dos mimosos animaizinhos. E os novos clientes não cessam de aparecer. Foi ali que criou sua editora – a Essência
É hora de introspecção, para cada um conhecer-se e às próprias vocações. Estas tão esquecidas ultimamente, porque a escolha da profissão recai quase sempre na mais rendosa, e não a que se ajuste a sua personalidade e aos sonhos de ser parte positiva na redenção de nosso mundo.
Tenho pena dos bilionários que não acham tempo de acompanhar a infância e a adolescência dos filhos, no afã de aumentar cada vez sua fortuna. Eles não devem ter visto ao vivo – talvez só na televisão – a super-lua que nos encantou nesta semana. Nem ouvido os quero-queros anunciando que a primavera chegou. Perderam de apreciar o primeiro passo de seu filhinho, a primeira palavra... Pobres “meninos ricos”! Com tanto dinheiro, e ainda não aprenderam a viver.
                                    


terça-feira, 4 de outubro de 2016

CAROLINAS À JANELA





Na tarde calma de um meio de semana sem movimento e sem pressa – intervalo do mês em que os salários já foram pagos e os compromissos saldados – eis que aquela cena me chamou a atenção. Eram duas velhinhas entretidas à janela, com as fisionomias abertas em sorrisos vendo as pessoas passarem. As duas tão semelhantes, talvez irmãs, com o mesmo tipo de óculos, daqueles redondinhos que nossas avós usavam. E parecia que estavam de coque, pois com os cabelos puxados para trás.
Da loja onde eu estava, na calçada em frente, passei a contemplá-las, admirando aquela alegria quase infantil de quem se reencontra, depois de um longo tempo afastado. Quando pode constatar que nada mudou em seus sentimentos nem em suas lembranças. Por isso agora, olhando à frente, elas recordam os antigos prédios de sua juventude, substituídos por construções modernas, ou reformadas, lojas com portas de vidro, sobrados, estacionamentos para carros. Imagino-as lembrando antigos namorados passando a trote no seu cavalo para fazer-lhes “avenida”. Elas riem talvez de um fato engraçado daqueles tempos, daqueles namoros quase em segredo, de como era tudo na vida e de como mudou. Devem estar supondo o que fariam agora, diante de novos costumes? De outros valores? Ainda bem que nada as aflige, parecem bem contentes com o passado e divertidas contemplando o presente.
Penso em minhas tias que já se foram. Eu gostava de descobrir seus tesouros, guardados em latas improvisadas em porta-joias. Só que não havia joias, mas cartas, cartões, alguma flor murcha, um retrato apagado, quase irreconhecível. Dinda, quando me surpreendia  nos seus relicários, ficava zangada e os escondia ligeiro. Ela, que era tão doce!
E o Passinho da Aldeia me vem à lembrança, pois na primavera ela nos levava, eu e minha mana, para aquele passeio que parecia tão longe. Conosco iam os livros - era em vésperas de exames - e precisávamos estudar.
Havia flores às margens, e seu perfume nos agradava. E a água correndo num ritmo calmo dava até um soninho na gente, que atrapalhava o estudo. A Dinda às vezes cantava: “Primavera de meus vinte e um anos”.  Havia uma nota nostálgica na sua voz. Talvez um amor não correspondido...
Tudo isso aquelas duas Carolinas à janela me proporcionam lembrar, naquela tarde em que nada parecia acontecer.
Anna Zoé da S. Cavalheiro




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

E AGORA?





Estamos em plena Semana da Pátria e nem sentimos que ela chegou. Sem tambores, bandeiras desfraldadas pelas ruas, desfiles de escolas, ou algum gesto de patriotismo. Permanecemos em compasso de espera.  Que será de nós, agora?
Até o tempo está conspirando para entristecer esses dias. A chuva e o frio, sem falar no momento turbulento que vivemos, arrefecem nossas esperanças de alguma melhora.
Minhas amigas contemporâneas só têm assunto para seus resfriados que se sucedem sem parar. E as dores do corpo, que provavelmente são vindas da alma que sofre vendo o mundo ficar tão diferente. Nas tardes frias, no entanto, o café é o momento de aconchego, em que recordamos outras eras, nossa juventude animada desfilando com as suas escolas, as poesias exaltando a pátria que declamávamos nas horas cívicas, tudo tão distante...
O país está dividido ao meio. Os partidos políticos aglomeram-se em dois grupos: os que apoiaram o impeachment e os contrários. Até que foi bom, há siglas demais. Entretanto, nenhuma novidade em seus programas. O povo não acredita mais nas promessas. Está, porém, mais atento que nunca ao desenrolar dos acontecimentos e prevenido contra as manobras dos mandantes. Com medo que a Lava Jato perca sua força moralizadora.
Nos povos antigos, um Conselho formado por anciãos é que decidia os destinos da comunidade. Eram considerados pessoas dignas e isentas de quaisquer propósitos ilícitos.
Hoje, como confiar nesses líderes de cabelos brancos ou carecas - alguns até de bengala - que fazem uma triste figura a caminho da prisão, por crimes contra o povo que os elegeu? Será que pensam levar dessa vida as riquezas acumuladas?  Em vez de fazerem um balanço de seus atos, um “mea culpa” e deixarem uma obra que traga bons frutos após sua morte.
Nossa juventude, nossa esperança, o que pensa da vida e quais seus planos de futuro?
Coitadinhos, tão novos e desprotegidos!
Mas eu creio na Primavera. Ela está demorando, mas vai chegar. Já mandou suas
emissárias, azáleas coloridas, grinaldas de noiva e  flores de laranjeira exalando  aquele perfume que levanta o ânimo da gente.  O frio vai passar, e os achaques das velhinhas também. 
Que a claridade da estação nos ilumine a todos nós.
                                   Anna Zoé Cavalheiro


MELHOR IMPOSSÍVEL






A Olimpíada Rio 2016 vai ficar na História. Ao contrário dos temores de violência e manifestações turbulentas e de fracasso nos preparativos, a cargo dos alegres cariocas que levam a vida na sua maneira divertida, tudo correu melhor do que se esperava. Salvo a necessidade de alguns reajustes na Vila Olímpica. E os pessimistas tiveram de dar a mão à palmatória.
Atendendo às intenções do Papa Francisco que para o mês de agosto pediu orações dos fiéis na intenção do evento “que os esportes sejam uma oportunidade de encontro fraterno entre os povos e contribua para a causa da paz no mundo,” a Olimpíada transcorreu num clima de paz e fraternidade entre as delegações. Muitas amizades dali surgiram e voltarão a fortalecer-se nos próximos encontros esportivos. Naturalmente, não vamos esquecer a atuação dos órgãos de Segurança que merecem louvação.
A cerimônia de abertura foi algo deslumbrante. Duvido que alguém tenha ficado indiferente diante de tanta beleza e criatividade. Deu para ver como nosso povo é talentoso, apesar de agir muitas vezes por improviso. Brasileiro deixa tudo para a última hora. Mas no calor do entusiasmo, acerta e emociona. As representações de nossa história e jeito de ser do povo brasileiro - cada região deste grande país com seus costumes e artes - devem ter deixado os estrangeiros maravilhados. Era o que se notava em cada fisionomia. Quem esperava encontrar um país em sérias dificuldades financeiras e políticas, bem como beirando à anarquia, enganou-se redondamente. A Lava Jato é problema nosso. Lava-se em casa.  O que V
iram foi uma cidade maravilhosa, gente amável, solidária, alegre, vibrante. E o colorido da paisagem, relevo encantador e variado, baía de Guanabara, Lagoa Rodrigo de Freitas e as praias...
A bandidagem daqui e os terroristas de fora deram uma trégua. Pelo menos na Cidade Maravilhosa. Creio que as gangues nacionais preferiram ficar admirando o grandioso espetáculo e, quem sabe, torcer por nossas equipes. Bandido também tem coração. E algum patriotismo, quem duvida.
O papel feio ficou por conta dos estrangeiros: os nadadores norte-americanos que tentaram manchar a imagem do Brasil, alardeando uma violência que não aconteceu; e dos africanos que assediaram as camareiras, pensando que estavam na casa da Mãe Joana.
Pensei, e muita gente comigo, que o espetáculo de encerramento não poderia chegar aos pés da cerimônia de abertura. Mas chegou. Não dá para descrever, mas ficará por muito tempo na lembrança de todos aquelas imagens, o colorido, a sincronia, a coreografia, as figuras que os bailarinos formavam, arte e tecnologia interligando-se para aquele resultado espetacular. Era o coração do Brasil mostrando-se caloroso, fraterno, artístico e divertido, como o perfeito anfitrião que se tornou.
E a palavra Saudade foi aprendida e repetida pelos atletas participantes, que saíram daqui com nostalgia, porque a vontade era de permanecer neste clima de paz, fraternidade e alegria.
                                   Anna Zoé Cavalheiro



SER OU PARECER






Mais uma semana Farroupilha que passou. Desta vez com o beneplácito de S. Pedro, que recolheu as nuvens sombrias e deixou o sol aparecer. Não conseguiu suspender de todo o vento frio, mas este não entrava nos salões dos CTGs, nem impedia as confraternizações e danças de prendas e peões. Deus seja louvado!
Ainda vibramos de entusiasmo ao lembrar nosso passado de lutas e admirar os desfiles de cavaleiros pilchados, de todas as idades, homens, mulheres e crianças alegrando nossas ruas. E se a festa não foi a nível nacional, é porque os demais estados da nação não recordam que fomos os defensores de nosso território inteiro, pois nos vários combates asseguramos as fronteiras meridionais, expulsando os invasores.
 Na tarde clara de setembro, a visão do tradicional espetáculo nos confortava ao pensar que ainda honramos nossas tradições. Quem somos nós sem elas? É preciso estar ligado ao grupo, às origens, e saber para onde vamos, do contrário nos perderemos no vendaval de acontecimentos, fatos e boatos que nos bombardeiam de todos os lados, pela mídia, a cada nova manhã.
Caçapava é um centro de tradições respeitável. Nossos CTGs, os piquetes, os eventos gauchescos como Rodeios, Invernadas e outros são o principal entretenimento dessa juventude guapa que desde cedo aprende a montar, tratar seu cavalo e familiarizar-se com as atividades campeiras. Diversões sadias e culturais bem diferentes dos “raves” importados de outros países, que têm o intuito de aturdir e despersonalizar o jovem de nosso tempo.
Escolhi o título desta crônica por lembrar minha formatura de ginásio – no século passado se comemorava – que teve como lema “Ser e não Parecer.” Pois era essa a lição subliminar que nossos mestres nos ensinavam. Pois no calor do entusiasmo por essa primeira conquista, um colega pediu a palavra. A turma ficou muito aflita, pois não confiávamos no orador. Não deu outra, o pobrezinho começou bem confiante, mas depois não achava a saída, não sabia como terminar. E foi aí que ele trocou nosso lema e passou a dizer: Pareçamos e não Sejamos.
Não tive mais notícias dele. Mas espero que ele não tenha enveredado para o caminho errado, mas seguido nossa boa intenção, a de sermos autênticos e incorruptíveis: Ser e Não Parecer.


Anna Zoé Cavalheiro

PRECONCEITO






Percorrendo os corredores do Supermercado, aquela dona de casa, há pouco aposentada do Serviço Público, sente prazer ao verificar nas prateleiras que nada falta de sua listinha de compras. Diferente de outros países, onde produtos essenciais não são encontrados nas gôndolas, devido a guerras, crises políticas e econômicas, nós, aqui, apesar de tanto rolo, ainda encontramos o que comprar. Por isso ela dá graças e prossegue o seu caminho. Vai lembrando outros tempos em que era só apanhar do próprio pátio as verduras e frutas para a família. Agora, vem tudo embalado e etiquetado de outros centros do país, encarecendo os produtos conforme a distância e os custos de produção e do transporte. E não esquecer a tal Bolsa de Valores!
Em dado momento a compradora se surpreende: laranjas de umbigo importadas! Por um preço lá nas alturas. Imagine! Antes a gente apanhava do pé e eram muito mais gostosas. Tudo muda, que fazer? Agora o remédio é adotar outras frutas da época e menos caras.
Prosseguindo, ela chega aos hortigranjeiros e se admira do preço dos tomates, das batatas, da cebola. Que horror! São essenciais para a comida. Como deixar de comprá-los?
Nesse instante ela observa um homem alto, mulato, franzino, vestido com um terno que já foi azul, agora é desbotado e fica bem folgado nele. Tem um ar triste e abatido. Deve ser um desempregado, ela pensa. Sua cesta tem poucos itens, e as sacolas parecem bem leves.
Em dado momento a senhora nota que o indivíduo fica trocando os produtos, devolvendo cebola, tomate e conservando só as batatas. Mais baratas, ela pensa. Mas como cozinhar sem cebola? Ela lembra que uma colega sua, para variar, às vezes usava farinha de trigo e achava bom. Mas a farinha também está cara para o pobre comprador.
Encontrando colegas e amigas pelos corredores, sua atenção foi desviada daquele personagem. Novidades trocadas entre elas, muitos sorrisos e abraços.
Quando finalmente chegou ao caixa, notou que o desconhecido estava na outra fila. Então, teve uma inspiração: comprou cebolas e tomates a mais, pagou-os e quando passou pelo homem deixou cair essa compra em sua sacola. Ele não notou e já ia saindo. Mas o empacotador interpretou a cena de modo diferente e foi atrás do coitado. Achando-se muito esperto, arrancou os produtos da sacola do mulato e com ar vitorioso, devolveu-os á presumida dona.
Esta nunca vai esquecer o olhar queixoso que aquele homem lhe dirigiu.




sexta-feira, 22 de julho de 2016

A VIDA CONTINUA




Deixei de acompanhar novelas na televisão. Bastam-me as complicações da vida real. Sofro muito com elas; por que ainda vou sofrer com as desditas dos personagens fictícios?
Às vezes, confesso, dou uma “olhadinha” na tela para ver se as coisas melhoraram, mas me canso de ver as brigas, traições, esforços em vão dos que desejam o bem, e os contragolpes dos mal intencionados que terminam com seus sonhos. Em vez de distrair-me, fico angustiada, e preciso de boas notícias para acalmar-me. Dou graças quando elas vêm alegres e cheias de otimismo pelo whatsapp. Mas, no frio que anda fazendo, não é raro saber de familiares doentes, gripados, com bronquites e outros transtornos próprios do inverno.
Ainda bem que o segundo semestre está chegando. Uma nova página. Que seja mais conclusiva, e os segredos de Estado se revelem por inteiro. É nossa esperança. Do jeito que vai indo, como vamos explicar esse trecho de nossa História às novas gerações? Golpe ou impeachman? Pedaladas ou contas do governo aprovadas? Quem fala a verdade? A mídia nacional ou os jornais estrangeiros que desvendam o que se passa nos bastidores de nossa política – ou melhor dizendo, politicagem? E acusam nossos grandes jornais de mascarar a verdade. Quando saberemos? Talvez no Juízo Final.
Mas a vida não para e segue sua rotina. Breve os jardins de nossas casas vão alegrar-nos com suas flores que agora sofrem tanto com as geadas. Nos campos, haverá por certo um renascimento das pastagens, e cordeirinhos e terneirinhos alegrarão a paisagem com suas traquinagens. Como eles brincam!
Pêssegos terão melhor safra do que o ano passado. Assim as uvas, dizem os entendidos.
Plantações de soja, arroz e outras prometem boas colheitas. Dependendo, é claro, das oscilações climáticas até lá.
Os dias serão mais claros e mais longos, assim espero. Como estão curtos agora! Não dá para fazer metade do agendado. Sobra a noite, mas é hora do descanso.
As notícias serão mais alegres, se Deus quiser... Novos personagens reais animarão nossas esperanças. Que bom saber que temos um caçapavano, delegado federal brilhante – como revelou na última edição minha sobrinha Rosalília – fazendo parte dos trabalhos da Lava Jato, por sua competência e caráter. Thiago Machado Delabary honra as tradições de Caçapava e nos enche de orgulho.
Dá para ver que nossas famílias e escolas locais ainda são capazes de formar dignamente os jovens da terra, que seguidamente se destacam positivamente na vida do país.
E acreditar que nem tudo está perdido, e a vida, dum jeito ou de outro, continua.

Anna Zoé S. Cavalheiro




segunda-feira, 11 de julho de 2016

MEIO CAMINHO ANDADO






Junho passou. Assim, como água escorrendo de uma torneira aberta. Foi muito ligeiro.
Não deu para sentir. Noites estreladas, lua cheia no céu limpo... Nada disso pode ser apreciado. O frio intenso não deixou. Quem sabe os namorados?...
Lembro outros junhos de minha vida. O crepitar das fogueiras de S. João, as cantigas, os balões. “Noites de junho/ há vozes brandas ecoando/ longe.”
As mocinhas faziam provas para ver quem seria seu eleito. Papéis com os nomes de prováveis galãs sob o travesseiro. Na manhã de S. João era só abrir. Havia outras provas, e as meninas adoravam as brincadeiras em grupo.
Hoje, as noites são silenciosas. Iguais a tantas outras de tempos comuns. Apenas no Nordeste as tradições juninas parece não terem acabado. Pelo contrário, dá inveja ver como se divertem por lá e incrementam suas fantasias e folguedos. Aqui, penso que só os pequeninos festejam o santo em suas escolinhas.
Peço perdão, pois nem tudo está perdido. Nos Supermercados e algumas lojas, como a Komaco, funcionários - e até os patrões - vestiram-se a caráter lembrando a grande festa. Dava gosto ser atendido pelas meninas maquiadas, vestidas com trajes caipiras e de chapéu de palha desfiado. Uma graça. E os rapazes também de chapéu, lenço no pescoço e o bom humor na acolhida.
Mas, caindo a fichinha, é de surpreender que o primeiro semestre do ano já passou. Por isso a ansiedade tomando conta da gente. Creio que esta sensação acontece com todo o mundo nesta etapa do ano.
 Contabilizando os acontecimentos, pelos noticiários da Mídia, o Lava-Jato ocupou a maior parte das manchetes. Dando gols a favor e outros contra, pela astúcia de certos réus.
Porém, a vida continuou, gente nascendo, gente vivendo, gente morrendo.
Nosso ídolo local, o Caçapava, voltou a sua terra, à sua família, e aqui foi bem recebido e homenageado, com todo o mérito, vindo a falecer neste final de junho. Deixou a lembrança de um astro de futebol com vitórias espetaculares pelo Brasil afora. Que levou longe o nome de nossa terra, apesar de seu jeito humilde e despretensioso. Lembrei, nas últimas homenagens, a trajetória de sua família. O casamento de seus pais, de que fui testemunha; a sua avó Ernestina, que com a força de seus braços criou sozinha os quatro filhos, entre os quais Tinga, também um jogador de futebol que brilhou nos melhores times do Estado.
Que Deus permita que ela receba o famoso neto na mansão eterna. Junto a todos os membros da família já falecidos.
Pois a vida continua, além da morte. Não vai acabar agora, só porque o primeiro semestre do ano chegou ao fim. E o mês de junho também.
                       
                        




NO EMARANHADO DAS LEIS E DOS LIVROS



Não sei o que fazer com os livros que estão tirando o lugar de outros nas minhas   prateleiras. Doá-los para escolas ou bibliotecas, já tentei. Não caberiam. São do Curso de Direito de um de meus filhos, formado há mais de uma década. Acontece que eles estão ultrapassados. Código Civil e outros de jurisprudência mudaram tanto nestes últimos anos!
Hoje, o processo da Lava jato nos tem mostrado tantas divergências na interpretação das leis. Parecem frágeis e incapazes de punir culpados mais do que declarados perante a opinião pública. Ora eles estão sendo julgados, ora apontam erros dos próprios juízes e até dos Ministros do Supremo.Até o cidadão comum dá palpites como acontece nos lances do futebol. Todo mundo quer ser técnico e apontar os erros.
Mas para acalmar nossos nervos, eis que está chegando para nós, caçapavanos, a “estação dos livros” – a Feira. Bem preparada e coordenada por Pedro Vanolim e sua valorosa equipe, ela nos proporcionará nos próximos dias uma convivência agradável com nossos colegas leitores, palestrantes, escritores e os próprios livros. Esses vêm-me acompanhando em todas as fases da vida e marcam cada etapa, ora feita de sonhos, ora enfrentando a dura realidade. Lembro os livros de Cronin com personagens lutando por seus ideais. E desvendando o mundo lá da Irlanda e seus preconceitos religiosos. Lembro Pearl Buck levando-nos a conhecer a cultura da China, seus tabus, virtudes e defeitos. Todas as leituras ajudando-nos a conhecer e compreender o mundo fora de nós, pois alargam nossos horizontes e a capacidade de sentir-nos parte de um todo. E o melhor de tudo: nunca nos deixam sozinhos sabendo que lá do outro lado do mundo alguém pensa e sente como nós. Um doce remédio para, principalmente, a fase da adolescência, quando nos julgamos incompreendidos.
Muitas vezes dou falta de livros que deixei de encontrar em meus armários. Quando surge oportunidade, trato de buscá-los nos sebos. Pois numa Feira do Livro em Porto Alegre o milagre aconteceu. Foi assim: alguém certa vez me emprestou um livro de Aghata Christie - “O caso dos Dez Negrinhos” - um dos poucos que faltava na minha coleção. Passei, então, a procura-lo nas livrarias em vão. Quando já desistira, vou à Feira na Praça da Alfândega e chego numa banca e outra, procuro autores conhecidos, olho os preços e vou desistindo. Mas num enorme cesto de livros, a cinco reais cada, resolvo mergulhar minha mão, e ela sai com um livro lá do fundo. Adivinhei qual era? “O caso dos Dez Negrinhos”. Acreditem. É a pura verdade.
Milagres existem, por isso continuo na esperança de encontrar “Alice no País das Maravilhas”, livro da minha infância que perdi pelas curvas do caminho. Mas precisa ter a mesma encadernação, as mesmas gravuras, a capa de pano verde como era costume na época.
Até lá, continuarei procurando.
                                   Anna Zoé Cavalheiro




domingo, 22 de maio de 2016

NUM DOMINGO CHUVOSO




Chove a cântaros. Além da chuva, relâmpagos e trovões. Onde estão a vela benta e os fósforos? Quem sabia do “esconderijo” era a tia Neusa. Perdendo alguma coisa, precisava recorrer a ela e a Santo Antônio, e logo encontrava.
Agora aos domingos, a casa fica vazia. Só eu. Ainda bem que os celulares modernos não nos deixam isolados. A todo instante chamam de todos os cantos. Filhos, irmãos, amigas. “Fica em casa, mãe. Te cuida. As gripes não estão de brincadeira.” É mesmo. E a ameaça de pneumonia tem sido o terror das pessoas da “feliz idade”. Derrubam a gente.
O que fazer num dia assim? Ler um bom livro, ligar a TV, bordar? Além de atender aos chamados do celular que não sossegam?
Resolvi vasculhar as caixas de cartas, cartões de felicitações e fotos antigas da família guardadas por minhas tias falecidas. Essas lembranças ficaram comigo, e eu pretendia examiná-las antes de dar-lhes um fim, pois as lembranças que venho acumulando das novas gerações – uma infinidade de fotos e convites de casamentos e formaturas – exigem o espaço.
Fiquei a manhã inteira nessa tarefa que me trouxe doces recordações. Lembrei essas pessoas queridas e trechos de suas vidas ali celebrados. Achei um caderninho com dados da família de meus avós paternos, do casal e de seus treze filhos, anotados por tia Duca na sua bela caligrafia. As datas de nascimento e morte de cada um deles. Mais uma vez quase cheguei às lágrimas recordando a morte de tio Zalmiro, tão jovem e que prometia tanto na sua bondade e zelo pelos pais, e que o tifo arrebatou sem dó nem piedade. Não cheguei a conhecê-lo, mas me entristecia quando minha mãe falava nele. Assim como não conheci outros irmãos seus que morreram de uma dessas duas doenças fatídicas, tifo ou tuberculose, que eram as mais temidas da época, além da sífilis. Ainda não havia antibióticos.
Procurei alegrar-me com as fotos de recém-nascidos ou de casamentos, tentando adivinhar que crianças eram aquelas, e admirando os trajes das noivas, bem mais simples dos de agora.
Foi quando encontrei uma carta cuidadosamente guardada em seu envelope original endereçada à tia Duca. A tia tão meiga e calada, que mostrava um carinho especial pelos sobrinhos. Ela se alegrava com minhas visitas e sempre tinha algo a oferecer-me, doce ou fruta, que eu sentia ser a expressão de seu afeto. Pois essa carta era de um homem  lamentando ter havido um desencontro entre os dois. E não se conformava de não havê-la encontrado no baile que estivera em seus planos.
Pois é, a tia, de quem nunca se ouvira dizer que tivera um namorado, guardara esse segredo até o fim de sua vida. Lembrei em parte uma poesia – não sei mais de quem – que falava assim: “Poupai a ingenuidade delicada daqueles que amaram sem nunca dizer nada, e dos que foram amados sem saber.”
Anna Zoé Cavalheiro





quarta-feira, 4 de maio de 2016

MÃES, ONTEM E HOJE






Lembro nesta data Dona Chiquinha, a parteira de outras eras. Ela foi por muitas décadas a figura central dos nascimentos nas famílias caçapavanas. Sempre de preto - costume das viúvas de então - ela chegava com uma maleta que as crianças da casa tinham a maior curiosidade em saber o que continha. Mas continuava o mistério, pois só era aberta no quarto da parturiente. O médico era chamado apenas nos casos complicados.
Na casa de meus pais, todos os anos, alguma tia vinha da campanha para o nascimento de mais um filho. Uma delas teve dez, e eu pude assistir, do lado de fora do quarto, a uma meia dúzia de primos que nasceram ali.
A noite transcorria com as mulheres da casa transitando entre o quarto fechado e a cozinha, carregando bandejas de chá e bolachas, chaleiras com água quente, e muitas vezes um café completo para alimentar a parteira nas longas noites de espera. A conversa rolava solta lá dentro, girando sobre casos de outros partos. Enquanto isso, a criançada ficava colada à porta tentando surpreender a chegada da cegonha.
Nos dias seguintes podíamos admirar o bebê e ver a mãe, aliviada e orgulhosa, recebendo as refeições na cama, de resguardo. Parece que levava mais de uma semana.  Caldo de galinha, canja, comidinha leve e café ou canjica com leite era o que não faltava. Para fortalecer e criar leite. Lembro tia Laura, que teve nove filhos, aproveitando esses dias para ler romances bem açucarados na cama, tendo ao seio o recém-nascido.
As crianças da casa eram encarregadas de participar o novo nascimento e para isso batiam de porta em porta da vizinhança: “A mãe mandou dizer que tem mais um menino – ou menina – às ordens.”
Seguiam-se as visitas das amigas e parentas para conhecer o bebê e trazer-lhe uma lembrancinha. Babeiros delicadamente bordados, sabonetes, talcos, toalhas macias, chupetas, não faltavam.
Minha mãe costumava acender álcool na banheirinha de latão, antes do banho. E nós éramos os espectadores divertidos que gostávamos de sentir aquele cheirinho misturado ao do talco, do sabonete e das roupinhas até então guardadas numa malinha perfumada.
Hoje esses rituais são mais simplificados, as crianças nascem nas Maternidades,  não há quase irmãos para receber o novo membro da família. E. Mamãe e papai têm sua carreira profissional para atender, vivemos em outro mundo. Mas o tempo dedicado à profissão é compensado pelo carinho e horas de aconchego com o filhinho. As noites mal dormidas dos primeiros tempos do bebê ainda castigam a nova mãezinha, mas ela agradece todos os dias a glória da maternidade vendo aquele serzinho amado crescer e aprender a viver. Ela sente que seu amor é o maior estímulo para seu desenvolvimento físico e emocional.
Quando observo minha netinha de dois anos às voltas com a mamadeira para as bonecas, usando as panelinhas e talheres para fazer comidinha e dar-lhes na boca, vejo que este mundo ainda tem conserto. Porque é o amor de mãe que vai mostrar o que vale uma vida, tratada como uma frágil plantinha que vai crescer, fortificar-se e dar frutos. E que esses vão ser da melhor qualidade.
Anna Zoé Cavalheiro




terça-feira, 5 de abril de 2016

AS SOBREVIVENTES







Aquela velhinha estava-me olhando de longe, com vontade de chegar-se. E eu fiquei na minha, afinal, em cidade grande tudo é possível, até pistoleiras e traficantes há entre as “veteranas da vida”. Aquela, porém, tinha um olhar bondoso, mais para alienado, é verdade, mas isso é natural em pessoas que já viveram muito e veem sua cidade - Porto Alegre - sofrer mudanças atrás de mudanças. Agora é o centro que mais parece uma praça de guerra. Na Salgado Filho são filas e filas de mutuários de coletivos com aquele ar cansado e queixoso de quem deseja uma vida melhor, sem correrias nem apertos nos ônibus. A antiga Avenida perdeu seu ar nobre. Agora mais parece uma grande Rodoviária. Na Otávio Rocha nem dá para entrar. Escavadeiras, rolos compressores, máquinas gigantescas dão um trato geral no asfalto. Enquanto isso, acho que as lojas fecharam ou se mudaram, Casa Louro, Sloper... E o cafezinho no Haiti não é mais possível. Era tão gostoso!
Olhar vitrines de moda deixou de ser um prazer. As lojas do centro nem se preocupam mais em decorá-las para o deleite das freguesas. Mesmo porque os camelôs é que dão a cor local... Assim mesmo ainda pude notar as diferenças de preços de uma loja para a outra, bem vizinha. Os artigos ou eram brega ou eram chic, e seus preços mudavam de oito para oitenta. As lojas famosas desapareceram, falidas, ou se mudaram para os shoppings. O Centro de Porto Alegre que, topograficamente nunca foi centro, pois está numa ponta da cidade que desemboca no Guaíba, agora deixou de ser o centro da vida útil da cidade. Talvez seja melhor assim, cada bairro com sua vida própria, ou os consumidores procurando os grandes shoppings que reúnem os pontos essenciais de comércio; assim fica mais cômodo, economiza-se tempo, fica-se em relativa segurança que nas ruas não há mais...
Mas o olhar da velhinha não dizia isso. Finalmente, ou melhor, não demorou muito e ela abordou-me e começou a contar onde ficava o seu Banco, o médico que a tratava, as farmácias de manipulação onde encontrava os remédios mais em conta e queixou-se das mudanças de trânsito e de condução para chegar até eles.
Por um bom trajeto fomos companheiras de ônibus, por onde entramos pela porta da frente - uma vantagem da Terceira Idade! No caminho, algumas confidências da “vizinha” serviram para conhecê-la melhor. Uma sobrevivente, como outros milhares de idosos que estão pagando caro o privilégio de ainda viver, depois de perder seus entes queridos. Os filhos têm sua vida própria, passam o dia fora de casa trabalhando, e elas têm de andar por conta própria na rua ou, pior ainda, ficar sozinhas dentro de apartamentos sombrios! Mas minha companheira estava saindo vencedora de uma segunda crise de depressão. Seu psiquiatra aconselhou-a a sair, fazer amizades, relacionar-se. E ela foi à luta. De mim recebeu um conselho amigo: reze, mas acompanhada. Procure pertencer a uma associação religiosa na sua Paróquia.  Na verdade eu plagiei o conselho de Cristo: “onde estiverem dois ou mais rezando em meu nome, aí estarei.” E ela desembarcou contente, fazendo aquele sinal do polegar em pé que quer dizer tanta coisa, mas principalmente que “estamos aí, camarada”!  Num último relance, pude notar que seu olhar parecia o de uma criança inocente e feliz de viver uma nova aventura.

                       


quarta-feira, 9 de março de 2016

O FELIZ REENCONTRO




Há anos procuro, nos sebos, livros preciosos que fui perdendo ao longo da vida. A falta que me fazem! Parecem pessoas queridas que não vejo mais, nem tenho notícias.
Neste verão escaldante tive a satisfação de encontrar um e outro, bem amarelinhos, mas inteiros, esperando por mim nos balaios das livrarias de usados.
O último deles, perdi a esperança de reencontrá-lo, mas depois os mais jovens da família me ensinaram a  procurá-lo  na Internet. E reiniciei sua busca.
Naquele calorão abafado de Porto Alegre, aproveitei a última manhã passada lá para tentar novamente. Nos sebos da Rua da Praia, mocinhas gentis me atenderam prontamente dirigindo-se logo ao computador. Nem elas tinham esperança de encontrar o livro “O Manto de Cristo” que eu tanto desejava. Elas me olhavam como a uma sobrevivente de um mundo que não conheceram. De pessoas piedosas que não abandonaram sua fé e ainda  se interessam pela história sagrada. Hoje os assuntos de livros são bem outros. O mundo também.
Até que uma atendente me indicou um sebo na Rua da Ladeira, ali perto.
Acontece que dobrei na esquina anterior e passei pelos portões da Caldas Júnior, onde me achei em casa. Afinal, há quantos anos sou assinante do Correio do Povo, o “jornal do homem sério” como meu pai repetia. Assim, atrevi-me a perguntar ao porteiro ali empertigado o endereço que desejava. Ele foi bem amável e me indicou uma rua paralela, mas que eu podia seguir por ali mesmo e dobrar à esquerda. Como a outra, esta também era uma ladeira que eu fui subindo com certo esforço. Parecia que o ar me faltava, mas eu pensei que minha missão era importante e que eu chegaria ao final. Não deu outra, foi um alívio dobrar a esquina e seguir no plano até chegar à esquina e começar a descer – que bom que agora era só descida – até encontrar a referida livraria. Dois atendentes, senhores de meia idade, entenderam logo meu pedido. Um deles dirigiu-se ao balaio de livros usados e facilmente encontrou o livro que por muitos anos eu procurava. Tive vontade de fazer um brinde com champanhe, tal a importância da ocasião, mas contentei-me com água mineral na primeira lanchonete que encontrei. Que sede que eu sentia!
Voltando pelo mesmo caminho, passei novamente pelos portões da Caldas Júnior onde o porteiro e outro senhor de cabelos brancos, bem apessoado, me perguntaram se eu encontrara o endereço. Agradecida, mostrei-lhes a sacola com o precioso livro. E a impressão que me ficou é que a cidade grande ainda tem remédio. Não é só de assaltantes, bandidos e pessoas mal intencionadas. Sobram almas boas que se solidarizam com seus semelhantes e estão dispostas a ajudar a quem precisa.

A manhã me pareceu mais suave, e o dia transcorreu com uma nova alegria a entreter-me o coração. Pensei na minha irmã que há tempos me pede este livro que começara a ler, e alguém o levou não sei pra onde. Agora retornou e deve enternecer outros corações com a história de Cristo em sua passagem sobre a terra, como humano igual a nós e sujeito às mesmas dores e desilusões. Desta vez, ao emprestá-lo, vou tomar nota para quem e fazer a devida cobrança se demorar a voltar.  Não vou deixá-lo sumir de novo. 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O MATA-BORRÃO







Está chegando a época de livrarias cheias de estudantes com suas mães, para a compra de material escolar. Até hoje aquele cheirinho de livro novo, de cadernos de páginas brancas à espera das primeiras anotações, me enche de um prazer que nem sei dizer.
Nos meus primeiros anos na escola, minha mãe - ou a Dinda - é que se encarregava de pôr-lhes a capa e as etiquetas.
Mais tarde, no Ensino Secundário, já longe de casa, eu mesma é que buscava o material na livraria Americana, em Cachoeira do Sul.
Logo no início das aulas cada professor dava a sua lista de livros que precisavam ser encomendados previamente na livraria.
Difícil era encontrar o dono da loja com cara boa. Estava sempre de mau humor. Parecia um sargentão gritando com a gente. Chegávamos, eu e as colegas, tímidas, com a listinha da escola para a encomenda, e ele vinha com aquele vozeirão assustador. Justo quando mais faturava, ele ficava naquela irritação. Até hoje não sei por quê
De vez em quando sua esposa vinha em nosso socorro com aquele jeitinho meigo todo seu, parece que para atenuar aquela sensação de desconforto que o marido nos causava.
O pior é que tínhamos que retornar muitas vezes lá, porque o dia marcado para a chegada do material ficava sempre adiado. E o “Seu” Jorge sofria o desprazer de ver-nos mais seguido, sendo a recíproca verdadeira.
Além dos livros, o material de escrita e de desenho era prazeroso de olhar. Lápis Faber nº 1 e nº 2 ( este para desenho), caneta, caderno de desenho, régua, compasso, esquadro, além de vidro de tinha azul para a escrita e outro de cor preta – Nankim- para as aulas de arte. Mas não tínhamos coragem de tocar em nada, sob o olhar feroz de seu dono.
Quando me surpreendo com os materiais de agora exigidos pelas escolas, tenho de dar a mão à palmatória, porque “no meu tempo” também era assim.
Lembro que tínhamos livros de Português, História, Geografia, Inglês, Francês, Latim, Atlas, Matemática. Nenhum de Ciências. Por que? Até hoje conservo na memória o nome de alguns autores, Moysés Gicovate, Haddok Lobo, Ary Quintela....
Já estava no Ensino Médio quando ganhei a primeira caneta tinteiro. Antes, precisava carregar tinta num vidro pequeno - acomodado por mãos habilidosas da família em caixinhas de pó de arroz, com o orifício recortado para passar o gargalo. Assim mesmo, havia o perigo de entornar o líquido. Nos dias de provas, a Escola é que fornecia esse material em litrões que uma funcionária passava de classe em classe para distribuir. Ainda existem algumas carteiras antigas, com dois lugares, que têm aquele orifício no meio para colocar o tinteiro.
Naquela época, o presente mais sonhado era uma Parker, tão valorizada na época – pelo menos por nós estudantes – como o relógio Rolex, mais tarde. Nas celebrações de quinze anos ou formaturas, lá estava a famosa caneta para os mais afortunados.
Mas “seu” Jorge nos reservava uma surpresa ao final de toda aquela enrolada transação – com listas, dias de espera, demoras na entrega, várias voltas à livraria: junto ao material entregue pessoalmente por ele vinha um brinde seu – um mata-borrão. Sabem o que é isso? “É um papel sem cola, próprio para absorver a tinta de escrever fresca”. (Google). Um material que não faltava nas mesas de escritório, bancos, repartições e nas escolas, é claro. Pois é, ele não existe mais. Pessoas com menos de cinquenta anos nem devem ter ouvido falar nele.
O melhor de tudo é que a gente percebia, naquela fisionomia tão temida, um vislumbre de cordialidade, parecendo dizer-nos, como alguém mais experiente e confiante em nossa juventude: - “Cuidado, não vão borrar a escrita. Usem o mata-borrão”
E mais um ano escolar de nossas vidas de estudantes começava com renovado entusiasmo e expectativas felizes.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

AS PRAGAS SE SUCEDEM





Tempos difíceis, como nunca havíamos sofrido, agora estamos vivendo. Quando não é o desgoverno do país, corrupção, malversação dos bens públicos, resultando em desemprego em massa, falta de recursos para a Saúde, a Segurança e a Educação, até o clima vem-se mostrando hostil. A tragédia de Mariana ainda terá suas consequências por muitos e muitos anos. Os ciclones que abalaram Porto Alegre e a região metropolitana deixaram um rastro de destruição que levarão um bom tempo para que a capital volte ao normal, e o medo não será facilmente esquecido.
São agentes externos que poderiam ser evitados, exceto os causados por El Nino, caso tivéssemos governantes sérios e empresários que não visem apenas os lucros, mas que sejam  verdadeiramente conscientes de sua responsabilidade perante a nação. E um povo disciplinado que entenda o que é democracia, que respeite a natureza e a preserve – afinal, “ela é um bem gratuito, que nos foi dado por Deus, para que o preservemos e deixemos de herança às novas gerações.” Como declarou nosso Papa Francisco nas intenções de orações para este mês.
Lembro um vídeo que passava na TV, numa campanha publicitária de décadas atrás. Era a figura de uma mulher à janela. A chuva começa e vira tormenta. Um bueiro logo ali na sarjeta começa a entupir, e um montão de lixo vai-se acumulando. O vídeo termina com a água da chuva subindo, subindo, e a pobre mulher apavorada vendo sua casa completamente inundada. Fico lembrando a doméstica, e tantas outras, que jogam a sujeira nos bueiros das esquinas. Conforme uma delas, que questionada, sacudiu os ombros e disse “Não estou nem aí.”
Agora são os mosquitos e a Zica Vírus que estão nas manchetes. O que diria nosso grande médico sanitarista Osvaldo Cruz se revivesse? Voltaram as pragas ao Brasil, ao Rio de Janeiro - sede das próximas Olimpíadas, a capital do carnaval, que atrai turistas de todo o mundo - e aos estados nordestinos e a todo o país. O que será de nós, quando mais precisamos de mentes jovens, lúcidas e competentes para endireitar o Brasil?  Quando a microcefalia seá-se alastra assustadoramente? Pobres criancinhas, pobres mães, pobres de todos nós.
E os focos de propagação dessa praga continuam na maior parte sem tratamento. Pessoas indiferentes não encaram seriamente o problema, ou como aquela doméstica preguiçosa, “não estão nem aí.”
Estamos precisando de estímulos para acreditar que há uma luz no fim do túnel. Que melhores tempos virão.  Mas é  urgente que as novas gerações deixem de preocupar-se apenas em gozar a vida, nas baladas, nas drogas, e enfrentem os problemas. Que surjam entre eles muitos líderes iluminados apontando novos caminhos.
Outro dia, no entanto, uma professora particular de Artes teve a placa que fizera bem bonita, com o nome do curso, à frente da casa, arrancada e levada por um bando de jovens. Ela se pergunta se as mães deles não os questionam de onde tiraram esses “troféus” que levam  consigo. Não querem incomodar-se com as respostas, ou eles não lhes dão conversa?
Certa noite, vândalos passaram nas ruas aqui perto atirando pedradas nas janelas. Muitas vidraças quebradas, e o susto, então! Parecia uma bomba o barulho que fez. Prejuízos que não constavam da agenda de gastos. Pior foi a sensação de insegurança dentro dos lares atingidos.
Não haveria brigadianos suficientes para conter essas hordas. Elas irrompem aqui e ali por quem não tem mais o que fazer. Falta o quê? Educação no lar, bons exemplos dos pais, respeito às tradições e bons hábitos de convivência em comunidades.
O Carnaval já passou. Vamos começar o ano agora. Removendo os entulhos, as mágoas, acabando com os focos dos mosquitos e pondo mãos à obra de reconstrução dos estragos. Tudo é possível, quando acreditamos na misericórdia divina e na bondade que deve existir na alma humana. Pois não fomos criados à imagem de Deus?
                                   Anna Zoé Cavalheiro



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PARADOXO






Paradoxo. Essa palavra está “buzinando” na minha cabeça há dias. Desde que fui à praia para minha mini-temporada, e durante a volta na complicada viagem pelas estradas com buracos e trânsito difícil, ela não me sai do pensamento.
Pois é. Tudo isso ao  considerar por que as pessoas saem de seu conforto habitual, sua casa, cama, chuveiro, rotina, para enfrentar situações diferentes e na maioria das vezes mais estressantes do que as comuns.
A TV está sempre mostrando imagens de esportes radicais, ou de viagens para lugares exóticos e sem o mínimo conforto, onde os protagonistas buscam enfrentar desafios que parecem impossíveis para as pessoas medianas. É um apelo para viver aventuras que seu cotidiano está longe de oferecer.
Fui ao Google buscar o significado da palavra: “Paradoxo é uma situação que contradiz a intuição comum.” Ou: “o oposto do que alguém pensa que é verdade.”
Nas BRs sem funcionamento dos pedágios, aquele caos. Agora agravado pelas fileiras intermináveis de carros de turistas argentinos rumo às praias, em velocidade vagarosa, aumentando o tempo dos percursos, o consumo de gasolina e danificando os freios e a paciência dos passageiros.
Penso que ainda é pouco comparado àquela massa de carros das estradas paulistas rumo às praias de lá. Pessoas estressadas procurando relaxar em fins de semana tão curtos, aumentando seu estresse na ida e na volta. Poucas horas de lazer para aproveitar. É um verdadeiro paradoxo. Tenho razão?
Pensando bem, até que é bom sair da comodidade e passar por momentos de desconforto para aumentar nossas experiências e sentir o prazer de voltar às bases, aos velhos hábitos, ao convívio das pessoas de nosso dia a dia.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

PALAVRAS COM ALMA



Existem palavras que calam fundo na gente. Boas ou más, elas produzem seus frutos -  doces ou amargos. Nos relacionamentos em família, no trabalho e sociedade, deve-se ter um cuidado especial para evitar mal-entendidos. Porque para o ferimento que causam, os remédios são bem complicados.
Num filme antigo, a protagonista era uma velhinha moradora de rua, que vivia catando coisas nas latas de lixo. Ela falava sozinha e vivia repetindo palavras de sua predileção. Peitoril, cotovelo – ela pronunciava com gosto. Acho que aliava as duas pensando em colocar-se à janela, bem acomodada, vendo a vida passar. Coitadinha, faltava-lhe a casa, a família, tudo...
Algumas palavras me agradam, outras não. Lembro que cultivei uma implicância bem grande contra a palavra “sistema”, mas não foi preciso procurar muito o motivo. É que minha tia onde me hospedava para estudar em Cachoeira, ao chamar-nos a atenção para a falta de ordem de nossas coisas, roupas e livros, vivia a repeti-la: “Meu sistema não é esse.”
Não era só com os sobrinhos que abrigava em casa – sinal de sua boa vontade em promover os jovens da família – mas todo o seu “staff” sofria com  o tal “sistema”. Ela era uma dona de casa perfeita, tudo ali funcionava às mil maravilhas, cada coisa no devido lugar, da sala à cozinha. Nos banheiros, então! Como a coitada reclamava do monte de roupas que pendurávamos nos cabides atrás da porta, em vez de guardá-los nos armários! Freud explicaria por que, ao mudar-me para minha casa, deixei as portas dos banheiros sem cabide nenhum. Só agora, filhos criados e morando fora é que me atrevi a adotá-los. São tão práticos!
Depois, ao avançar nos estudos, fui compreendendo o significado importante dessa palavra que abominei por tantos anos. Por causa da rezinga da minha tia.
Vivemos dentro de um sistema, e alienado é aquele que não se submete a ele, não se enquadra. Sistema de governo, sistema solar, sistema nervoso, sistema respiratório. Um conjunto de coisas estruturadas e dispostas a funcionar, umas dependendo das outras. Uma pecinha que não funcione bem, a máquina para.
Outro dia fui a uma loja, e logo me perguntaram: “Vai pagar com dinheiro ou cartão?”
- Com cartão.
- Então não vai dar.
Aconteceu que o sistema estava fora do ar. Coisas das novas tecnologias. Ótimas quando funcionam, mas, dando uma pane, tudo se complica, a vida para, desde os caixas dos bancos até os trens e ônibus conectados com a Internet, tudo...
Assim sendo, meu relacionamento essa palavra ora está em alta, ora me vejo amaldiçoando-a. Tudo é relativo.
Mas há palavras que nos trazem expectativas felizes. Sempre gostei de “primavera”. Para mim, quando menina, ela representava uma prima querida que chegava à nossa casa. Abrindo sua mala, dela saíam pássaros, borboletas, flores e um ar puro, perfumado, que dava gosto aspirar.
Até hoje ela me inspira, como a própria estação, os melhores sentimentos de vida nova, recuperação e doces momentos.
Mas, voltando à palavra “sistema”, até hoje recordo com admiração a organização da casa de minha tia. No verão, no sítio, ela passava fazendo compotas, passas de frutas, geléias, e no inverno dava um gosto olhar as prateleiras da copa providas com esses petiscos.
As amigas adoravam aceitar seu convite para o chá da tarde. Entre conversas animadas, iam saboreando as bolachinhas recheadas com pessegada, figada, ou outro doce de tacho; as cucas, com geléias de vários sabores, os sucos de uva... Enfim, dava gosto apreciar estas cenas.

E no decorrer de minha vida aprendi a valorizar o Sistema. Se a vida já parece complicada e confusa nos dias atuais, o que seria de nós sem ele?

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PINGO NOS iis






Faltou o acabamento. É a sensação que fica ao substituir a folhinha na parede. Mais um ano que se vai e não disse a que veio.
O verão começou, porém mais se parece aos da Europa. Sol muito escasso. Por isso as melancias não estão bem doces. Uma pena.
Pelo menos estamos vivendo umas férias de assuntos políticos.  Aqui o ano começa mesmo é em março. Até lá não estaremos acompanhando os debates na Câmara ou no Senado, e os parlamentares talvez voltem do descanso menos agressivos e mais esclarecidos. Presidentes permanecem em seus lugares, por enquanto... Vamos relaxar um pouco. Merecemos.
Mas outros problemas nos afligem. Os aumentos dos preços de tudo, gasolina, frete, contas de água, de luz, alimentos, transporte, que coisa! E o novo salário mínimo começa a vigorar ainda neste mês. Pena que o das patroas não teve a mesma proporção. Está emendando com o das empregadas domésticas. Legisladores e gestores da economia,  tenham dó!
Buscando distração, procuramos pelos canais da TV algum filme, série, comédia ou programa que valha a pena. Mas até aí a crise chegou. Meu seriado predileto das seis às sete e meia da manhã – e eu acordava cedo para assisti-lo – desapareceu da tela. Sem adeus nem explicação. O substituto não chega a seus pés. E os filmes são muito violentos. Não só matam como surram mesmo. Quebram a cara do inimigo com toda a raiva. Acho que nossos bandidos aprendem com eles essa brutalidade.
Os noticiários não são nada animadores. Tragédias vitimando famílias inteiras. Assassinato de pessoas por engano.  Geralmente um jovem ou adolescente que não tinha nada a ver com a coisa. Afogamentos, acidentes de trânsito, violências, é difícil encontrar alguma notícia animadora.
Quando num confronto entre policiais e bandidos acontecem algumas mortes, ficamos torcendo para que não seja nenhum dos soldados. É o nosso lado bandido. Parece até um filme de mocinho de outros tempos. Quando bem e mal ficavam claramente em campos opostos. Infelizmente nos dias de hoje muitas vezes é a polícia que erra. E a gente  vai perdendo a confiança.
O mal dos tempos atuais é a tal Aldeia Global preconizada pelo filósofo canadense Mc Luhan. Na era da informação, do computador, diz ele, as comunicações são mais rápidas e eficientes do que pela imprensa tradicional da palavra escrita. Ficamos sabendo de tudo o que se passa em todo o mundo na mesma hora. E com imagens a cores. Quando a notícia é boa, tudo bem. Mas as tragédias são em muito maior número. E abalam a gente.
Mas nem tudo fica esclarecido. Notícias vêm como avalanches que vão aos poucos perdendo a força e desaparecem de cena. Fica no expectador a pergunta: o que aconteceu depois com os protagonistas dos fatos? Encontraram a criança perdida? E o assassino foi descoberto e preso? Recuperaram os bens roubados? Como está vivendo a menina que perdeu toda a família?
E eu fico pensando: onde andará aquela senhora com o mal de Alzheimer que desapareceu sem deixar rastro? Seria muito bom saber que ela teve um final feliz.
Com todas as transparências de nossas tecnologias modernas, está faltando um ponto final, ou melhor, alguns pingos nos iis.

Anna Zoé Cavalheiro


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

NOVOS DIAS, ALELUIA!





Ainda ecoam em nossa memória as cantatas de Natal na Praça da Matriz. Ainda presentes na lembrança aquelas vozes infantis saudando o doce menino. E os shows musicais e artísticos de muito bom gosto na praça e no Forte foram uma homenagem ao povo desta terra que merece estes momentos de encantamento, depois de um ano de muitos reveses. Apesar de seus esforços. Ele sabe apreciar a arte e se emociona com a beleza que nossos artistas sabem manifestar.
A árvore de Natal deste ano superou as anteriores. Linda mesmo. Luzes coloridas na rua principal saúdam a data mais encantadora de nossa cristandade. E permanecem acesas para aguardar um novo ano, que agora tem um profundo sentimento de esperança, de boa vontade e solidariedade.
A palavra de ordem é renovação. A começar pelas folhas mortas, dissabores, rancores e recalques que não deixam o coração expandir-se. A vida tem suas nuvens negras, é verdade, mas o sol também aparece na maior parte das vezes. Vamos esquecer os aborrecimentos, as ansiedades. É preciso aproveitar o tempo que nos é destinado neste mundo. Não vale a pena sofrer, quando fomos criados para a felicidade.
Somos um povo que não se abate com as agruras e injustiças. Conhecemos o nosso valor que não se traduz em cifras, mas em potencial humano. Vamos sair da crise mais fortes, depois que a limpeza oficial não poupou a sujeira debaixo dos tapetes das mansões dos poderosos.
Acho que estamos superando a Itália no seu combate à Máfia. Nossa Polícia Federal e  a Justiça não têm poupado os até então privilegiados.
É hora de valorizar o bem e a honestidade. Deixar de seguir os exemplos que vêm lá de cima. Devolver a carteira e o celular achados na rua ao legítimo dono. Importar-se com o meio ambiente, preservando a natureza dos entulhos e da degradação. Plantar em vez de derrubar árvores. Semear, cultivar e colher com trabalho, dedicação e esperança. Respeitar o próximo e socorrê-lo nas necessidades.
Somos ricos, temos terras a perder de vista, rios, cascatas e ventos que captam energia, paisagens paradisíacas para atrair o turismo. Poetas, músicos, escritores, pintores e escultores que se inspiram e exaltam nossas belezas naturais. “Não há, ó gente,/ ó não luar /como este do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, quem se lembra? Quem acha tempo para contemplar esse luar?
Vamos começar um novo ano com a graça de Deus e todo o otimismo. Será também o Ano da Misericórdia. Perdoar e ser perdoado. A alma fica bem leve.
E os dias futuros, com nossos propósitos de boa vontade, serão abençoados e mais felizes que este ano que passou.

Aleluia!