Nas noites dos meses de junho dos últimos anos, tenho procurado em vão ouvir a voz do minuano.O vento das coxilhas gaúchas, que anunciava à velha Bibiana a morte de mais um varão da família nas lutas de fronteiras, e mais tarde na guerra dos Farrapos – esse vento parece estar em extinção.
Pelo menos nas cidades modernas, com edificações adequadas ao clima. É que não há mais frestas nas janelas. O pé direito das paredes diminuiu. Os sótãos e os porões sombrios, onde se guardavam os móveis arcaicos, também desapareceram.
Mas eu o ouvi certa noite. Por minutos, talvez segundos. E ele me fez lembrar cenas da minha infância: suas rajadas fazendo bater as velhas portas e janelas, fechadas com tranca de ferro. Porém impotentes contra ele que invadia os domínios da casa, fazendo minha mãe ou meu pai levantar para cobrir-nos melhor, no frio das madrugadas de junho.
Lembro as árvores da praça – tão raquíticas naquele tempo – vergastadas por esse vento “macho” do Rio Grande. Lembro os antigos prédios que faziam frente à Igreja Matriz, escuros, misteriosos, como o “Império”, que recebeu D. Pedro II nas homenagens prestadas pelos caçapavanos. E um casarão sombrio, vizinho, lembrando uma história de sangue: o assassinato de um cidadão que, levantando da mesa onde jantava com a família, foi atender à porta. E levou um tiro fatal. Motivo: rivalidades políticas.
O tempo passa. E o vento vai levando esses ecos para longe.
A Igreja Matriz de então era sombria. Mas os nichos dos altares, principalmente do altar mor, cheio de degraus de madeira trabalhada, de um azul forte, porém já desbotado pelo tempo – esses davam tratos à imaginação infantil. Era como se Deus, os santos e todos os espíritos celestes ali habitassem.
O incenso que se elevava às alturas fazia pensar em anjos voando em torno do altar.
As ladainhas em latim, enquanto o vento soprava, e os fiéis levantavam as golas de seus casacos, eram invocações que se misturavam à tênue fumaça do incenso e se dirigiam aos céus.
Ah, Minuano de minha infância, como então imperavas nesta “Clareira da Mata”!
Às vezes parecias cochichar no milharal do terreno ao lado de casa. Lembro-me de que eu acordava em sobressalto, pensando em almas penadas.
Hoje os ambientes claros das residências são despovoados de fantasmas.
A velha Bibiana não teria dentro deles o cenário próprio às suas divagações.
O tempo passou, e a vida continua para as novas gerações. E cada um de nós, na extrema idade, pode olhar para trás e à nossa frente – no meio do caminho – e ver do alto da colina se descortinarem os horizontes.
Somos ponte ligando o passado com o futuro.
A vida passa, o vento sopra, mas algo fica – a nossa história.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
A VOZ DO MINUANO
Nas noites dos meses de junho dos últimos anos, tenho procurado em vão ouvir a voz do minuano.O vento das coxilhas gaúchas, que anunciava à velha Bibiana a morte de mais um varão da família nas lutas de fronteiras, e mais tarde na guerra dos Farrapos – esse vento parece estar em extinção.
Pelo menos nas cidades modernas, com edificações adequadas ao clima. É que não há mais frestas nas janelas. O pé direito das paredes diminuiu. Os sótãos e os porões sombrios, onde se guardavam os móveis arcaicos, também desapareceram.
Mas eu o ouvi certa noite. Por minutos, talvez segundos. E ele me fez lembrar cenas da minha infância: suas rajadas fazendo bater as velhas portas e janelas, fechadas com tranca de ferro. Porém impotentes contra ele que invadia os domínios da casa, fazendo minha mãe ou meu pai levantar para cobrir-nos melhor, no frio das madrugadas de junho.
Lembro as árvores da praça – tão raquíticas naquele tempo – vergastadas por esse vento “macho” do Rio Grande. Lembro os antigos prédios que faziam frente à Igreja Matriz, escuros, misteriosos, como o “Império”, que recebeu D. Pedro II nas homenagens prestadas pelos caçapavanos. E um casarão sombrio, vizinho, lembrando uma história de sangue: o assassinato de um cidadão que, levantando da mesa onde jantava com a família, foi atender à porta. E levou um tiro fatal. Motivo: rivalidades políticas.
O tempo passa. E o vento vai levando esses ecos para longe.
A Igreja Matriz de então era sombria. Mas os nichos dos altares, principalmente do altar mor, cheio de degraus de madeira trabalhada, de um azul forte, porém já desbotado pelo tempo – esses davam tratos à imaginação infantil. Era como se Deus, os santos e todos os espíritos celestes ali habitassem.
O incenso que se elevava às alturas fazia pensar em anjos voando em torno do altar.
As ladainhas em latim, enquanto o vento soprava, e os fiéis levantavam as golas de seus casacos, eram invocações que se misturavam à tênue fumaça do incenso e se dirigiam aos céus.
Ah, Minuano de minha infância, como então imperavas nesta “Clareira da Mata”!
Às vezes parecias cochichar no milharal do terreno ao lado de casa. Lembro-me de que eu acordava em sobressalto, pensando em almas penadas.
Hoje os ambientes claros das residências são despovoados de fantasmas.
A velha Bibiana não teria dentro deles o cenário próprio às suas divagações.
O tempo passou, e a vida continua para as novas gerações. E cada um de nós, na extrema idade, pode olhar para trás e à nossa frente – no meio do caminho – e ver do alto da colina se descortinarem os horizontes.
Somos ponte ligando o passado com o futuro.
A vida passa, o vento sopra, mas algo fica – a nossa história.
sábado, 2 de junho de 2012
TAMBORES NA ALDEIA GLOBAL
Não ouço mais o canto dos galos nas novas madrugadas. Agora o que me acorda é o som do caminhão do lixo fazendo a coleta e o ruído dos jornais sendo jogados pela fresta da janela. Mas antes que eu possa apanhá-los, o rádio me dá as primeiras notícias do dia. Antônio Carlos Macedo e outros locutores da Gaúcha são os primeiros a pôr-me a par do que vai pelo mundo. Recordo a voz bonita de José Aldair, agora aposentado. De olhos ainda fechados, fico sabendo do panorama político nacional e mundial, da previsão do tempo com Cleo Kuhn e condições do trânsito na região metropolitana, por Saraiva Jr. O doloroso de ouvir são os acidentes e mortes violentas. Depois da crônica de Túlio Milman e do Correspondente Ipiranga, é hora de levantar. Na mesa do café, ponho-me a ler os jornais. Mas das notícias já sei as mais importantes, e os editoriais e crônicas dos colunistas, deixo para saborear à noite, na hora da novela das nove. Se o capítulo me interessa, restam-me os intervalos.
Meu humor, ao sair de casa, vai depender em muito do que os “tambores da aldeia global” me comunicarem. A morte de um menino atropelado ao sair da Catequese foi demais. Pensei em meu netinho que agora é adolescente e não precisa sair de mão com ninguém. Agora é que vem o perigo. Fiquei louca de pena dos pais daquele garoto. E devia ter uma vovó que, de coração sangrando, ainda tem a missão de enxugar as lágrimas dos filhos. E tantos adolescentes assassinados nesta última madrugada. Dezesseis, dezessete anos, no vigor da vida.
Na rua, nas filas dos bancos e nos supermercados, vou encontrando gente de carne e osso. Que eu posso abraçar, ouvir, conversar. Ontem vi uma colega do primário. Naquele tempo, tão distante, os galos cantavam, e sua mensagem era respondida de pátio em pátio até os confins da cidade. Mas atualmente há coisas melhores. Pelo menos, mais fáceis. Não é preciso esperar que a lenha se transforme em fogo para aquecer o leite do café da manhã. Nem tirar água do poço para tomar banho. Se esqueço de alguma encomenda para o almoço, minha empregada me alcança no celular. Cartões de banco substituem dinheiro e cheques. Difícil é ensinar alguns idosos a guardar as senhas e acessar os devidos botões. Em contrapartida, o peso das misérias humanas se abate mais fortemente sobre todos nós. Ao vivo e a cores, de todos os cantos do mundo pela mídia inclemente.
Por isso, à noite, depois de ler os bons cronistas, eu quero mesmo é conviver com meus amigos virtuais: Seinfeld e seus amigos de seriado; Paul e Jamie de “Mad about you”; os detetives e os promotores de “Law & Order” que eu tenho o prazer de reencontrar sempre nos mesmos horários. Às terças é “Tapas e Beijos”; às quintas a “Grande Família” que revelam o talento de nossos artistas nacionais. Sejam daqui ou estrangeiros, o que importa é a carga de humor que transmitem, ajudando a gente a levar a vida. Apesar de tudo e por tudo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
HOJE OS INIMIGOS SÃO OUTROS
Remexendo em velhos papéis, achei um caderno cheio de receitas de minha tia quituteira. Ah, como era gostoso tudo que se comia em sua casa! Mas, conferindo os ingredientes, fiquei alarmada. O “Rei Alberto”, por exemplo - creme que não podia faltar nos aniversários de adultos da família – levava uma dúzia de ovos. Nos bolos, a manteiga aparecia em boa quantidade. As compras nos mercados de antigamente nem cogitavam de verduras, em compensação banha de porco, linguiça e salames estavam sempre presentes.
Nas salas de espera dos consultórios – não havia hora marcada – a conversa se estendia a todos. Os males citados eram causados por albumina em alta dosagem – quem fala hoje em albumina? Mais reservadamente, falava-se em doenças de senhoras. Ou reumatismos, amigdalite, apendicite crônica ou aguda. Fiz todo o meu primário com o atestado de apendi cite crônica, um bom motivo para ser dispensada da Educação Física que eu detestava. Mas até agora meu apêndice continua no mesmo lugar. Quando a gente era atendida pelo médico, já tínhamos várias receitas dadas pelos circunstantes, principalmente chás de toda ordem. E os nenês daqueles tempos criavam-se muito bem com o leite, materno ou em pó.
Se nossas vovós revivessem, não saberiam o que fazer agora com a alimentação das crianças e até dos adultos. Intolerância ao leite, ou melhor, a seu ingrediente “lactose” é o que está acontecendo em grande escala. Elas nunca poderiam imaginar que os bebês do novo milênio seriam alérgicos a esse alimento tão completo e louvado de seu tempo.
Hoje, passando por uma casa, ouvi uma galinha cacarejando, coisa rara! Que saudade de vê-las num pátio ciscando e depois escondendo seu ninho onde os ovos eram de um amarelo tão forte. Os bolos saíam coloridos. As gemadas, então!
Vizinhas que tinham casa fora, sítios ou fazendas, nos forneciam esses produtos às dúzias, e ninguém falava em colesterol. Também vendiam queijos feitos com muito leite, e aquela manteiga que a gente lavava em diversas águas e colocava sal. No café da tarde – com leite – a fatia de pão era coberta com essas três iguarias. Ia esquecendo o mel – que vinha viscoso, daqueles que descem redondo. Nunca mais encontrei outro igual.
Concluindo esse desabafo, lembro que os vilões da mesa, outrora, eram outros. Melancia, por exemplo. Tinha hora certa para ser degustada, não podia misturar com certos alimentos. Hoje são os doces e as gorduras nossos inimigos.
Por isso as festas de aniversário já não têm a mesma graça. Fica sempre um sentimento de culpa quando não resistimos às tentações das tortas, salgados e docinhos. E ao refrigerante também.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
DIA DE FAXINA
Lembro as poucas manhãs desagradáveis de minha infância: era quando punham a casa de pernas para o ar, na faxina costumeira. Eu tinha que correr para salvar meus tesouros que, para os menos avisados eram apenas retalhos de pano, pedaços de papel colorido, recortes de revistas, cacos de louça, bonecas de trapos, caixinhas de pó de arroz, de sabonete ou remédios vazias. A sensação de que meu mundo vinha abaixo vendo aqueles objetos inestimáveis rasgados ou quebrados – mais ainda – na lata do lixo, deixava-me uma tristeza!
Sentia-me solidária com meu avô, falecido antes de eu nascer, pois me contavam sua aversão às arrumações no seu quarto de viúvo. Apegado às recordações e objetos familiares, era contrário às mudanças de móveis de seu lugar costumeiro e às insinuações para que jogasse fora as latinhas velhas de biscoitos, pastilhas para a garganta; as caixas de charuto, cartas, cartões postais, retratos...
Lá no fundo, sentia uma tristeza por não tê-lo a meu lado naquela hora terrível: seria um aliado poderoso contra as devastações do meu reino.
Hoje lembrei tudo isso quando vi aquela casa sendo desocupada. Por longos anos abrigou uma família e seus acontecimentos alegres e tristes. Sob o comando e o carinho daquela mãe forte que enfrentou todas as tempestades abatidas sobre o seu lar. E agora precisando do apoio dos mais jovens nos derradeiros anos de sua vida.
A casa é despojada de tudo aquilo que os anos e a vida foram acumulando: lembranças de festas e de luto. De nascimentos, aniversários, mortes. Dificuldades e sucessos.
Agora receberá uma placa: “Aluga-se” ou “Vende-se”. Talvez risos de um casalzinho apaixonado venham preencher seu vazio. Depois o balbucear de um bebezinho rosado. Mais adiante, seus passinhos incertos. E logo já estará crescido. A vida é um relâmpago!
Onde estão meus bebês? Aqueles que embalei amorosamente, louvando o milagre da Vida? Seus risos inocentes, os bracinhos roliços enlaçando meu pescoço, as mãozinhas estendidas pedindo minha ajuda para os primeiros passinhos? Ficou tão longe, e parece que foi ontem.
Agora estão soltos no mundo, e este é tão cruel!
Disse um psicólogo(ou diversos) que as novas gerações foram “podadas” em suas manifestações de pensamentos e sentimentos, nas últimas décadas. O regime de força – prisões e torturas de líderes estudantis – foi afastando pouco a pouco a juventude das linhas de influência. Tolheram-lhes a capacidade de inovar a sociedade, decidir sobre os destinos do país e de sua geração. Hoje eles nos culpam por nossos legados de costumes, cultura, tradições. Julgam a sociedade como responsável por seu desencanto. E acomodam-se. Falta-lhes vontade de lutar, de mudar esse estado de coisas que só leva à alienação.
Por isso os “aposentados” ou “inativos” que uma autoridade jovem disse deverem ficar quietos em seu canto, descansando, não conseguem usufruir desse direito. Porque vêem que há muita coisa a mudar. É preciso despertar a juventude que a cada nova geração demora mais a amadurecer. E soprar-lhes à consciência sua responsabilidade pelo futuro que aí vem. Já está à sua porta, muito breve, cobrando-lhes pelo que fizeram de errado ou, mais do que isso, pelo que deixaram de fazer.
terça-feira, 8 de maio de 2012
AMOR DE MÃE
As coisas nunca acontecem sem uma razão, um antecedente. E por isso se repetem em ciclos. Assim tem sido a história da humanidade. Agora é a vez de recém nascidos jogados nas lixeiras. Rejeição de bebezinhos tem acontecido desde os tempos bíblicos. Mas a maneira de abandoná-los é que varia, em nome da evolução que nem sempre é para melhor. No caso atual, chega às raias da deterioração dos sentimentos humanos, em especial o da maternidade que parece em crise.
Já perdi a conta de quantos desses serzinhos foram jogados no lixo nestes últimos dias em todo o país, sem faltar o nosso Estado. Pensar que alguns estiveram na iminência de serem triturados pelo caminhão de coleta! E salvos por segundos, porque deram sinal de vida, chamando a atenção de circunstantes.
Moisés teve uma história diferente: ele foi abandonado por amor, para escapar da morte certa ordenada pelo faraó a todos os primogênitos varões das famílias judias. Por isso ele foi bem acondicionado num cesto de vime, envolto em mantas e largado bem próximo às margens do Nilo. Sabemos, pela História Sagrada, que a princesa real ficou feliz em adotá-lo, e um irmãozinho foi contar à mãe que o maninho fora salvo. Para mais tarde tornar-se o líder da libertação de seu povo em busca da terra prometida.
Em nossos dias, porém, o que acontecerá a essas crianças que tiveram um começo de vida tão cruel? Mesmo salvas, adotadas, bem criadas (nunca se sabe), não ficará uma marca dessa rejeição em sua personalidade? Herança genética, talvez, porque aquela que abandona seu próprio filho à sorte tão terrível deve ter um coração de pedra, onde os bons sentimentos não vingaram. Mas não podemos condená-las sem conhecer sua história: miséria, abandono, falta de perspectivas de vida. Quem chega ao fim do poço e não consegue ao menos valorizar-se, querer-se bem, não pode estender a outrem seu afeto. Para elas, quem sabe, a melhor sorte para o filho que nasce pode ser a morte, pois que a vida lhes parece sofrimentos e desencantos.
Houve outras causas para o abandono dos filhos na trajetória da história, e as novelas radiofônicas de décadas atrás estavam cheias desses enredos de mães chorosas e arrependidas. Naqueles tempos de sociedades cheias de preconceitos, as causas de rejeição eram ligadas às honras das famílias que não admitiam um “mau passo” de suas filhas e tratavam de esconder suas conseqüências. E o inocente recém nascido tinha de desaparecer.
As águas do Nilo já deixaram de ser o lugar de resgate de bebês abandonados à sorte. Depois vieram as Rodas das Casas de Misericórdia, onde eles eram depositados na calada da noite pela mãe desesperada por não poder mantê-lo consigo. Miséria, preconceitos... Agora são as lixeiras e os caminhões da limpeza pública.
Hoje os chás de fraldas de mães solteiras demonstram que pelo menos esse tabu desapareceu. Se houve infração aos códigos da moral e dos bons costumes, não se penalize, porém, o inocente que não pediu para nascer, mas merece a vida.
Ah, que saudade de sentir o cheirinho gostoso de um bebê recém saído do banho! A família toda assistindo, cada um alcançando uma peça do vestuário, rápido, rápido, que o pequeno está tremendo o queixinho de frio!
Quando o amor tem reservas infindáveis para repartir e acolher os que nascem, é outra vida, e assim deveria ser para todo o mundo. São meus votos fervorosos no próximo dia das Mães.
À minha mãe amorosa, às tias que nos cuidaram, à tia Neusa, segunda mãe de meus filhos, às minhas manas, que são mães de todos os momentos, já na segunda edição – avós – e a Doty com os bisnetos, meu reconhecimento sincero, minha admiração e votos de muitas alegrias com seus “pedaços” como dizia mamãe, no seu dia e sempre. A todas as mães do mundo, que se façam dignas desse nome santo. E felicidades, companheirismo, compreensão e que sejam plenamente recompensadas por todo o seu amor.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
QUANDO AS MISSAS ERAM REZADAS EM LATIM
O sino toca. Termina a missa das sete.
A casa se agita. As cobertas são atiradas de lado. A água gorgoleja do jarro para a bacia.
No grande fogão a lenha a cozinheira põe o leite a ferver, espevita o fogo, o gato ronronando languidamente em suas pernas. E o leite na panela grande - nada de subir.
Siá Eva chegou da missa das sete, põe sua cadeira perto do fogo e espera pacientemente o café.
O leite ferveu, já não é sem tempo, a fome apertou.
Finalmente a família está pronta para a missa das dez.
Na rua está frio. Lá na esquina vai dona Cândida e logo atrás a Ritinha, a Izabel...
É fácil reconhecê-las por seus casacos de inverno. Elas os conservam anos e anos, passando-os depois para suas empregadas ou parentas mais pobres.
Siá Eva, nossa antiga lavadeira, vem todos os domingos para o café depois da missa.
Vestindo o casaco de gola de carapinha que nossa mãe lhe deu. Até se parece com seu cabelo engrouvinhado.
Siá Eva se foi.
Ainda lembro seu ranchinho asseado e os de outras “siás”: as roupas usadas das mamães da Paróquia bem conservadas; as latinhas de gêneros sempre providas.
Hoje os ranchinhos são tantos! Sujos, miseráveis, caindo.
Seus moradores não vêm mais à missa das sete. Sentem fome, mas não podem visitar as ex-patroas vizinhas da igreja para o café da manhã. Eles são tantos, não caberiam.
O leite ferve rápido no fogão a gás. Mas é contado, comprado em caixinhas, só dá para a família.
Não há mais gatos preguiçosos enroscando-se nas pernas da gente. Agora, só cachorrinhos ligeiros, barulhentos, convidando o dono a sair.
As filhas de donas Cândidas renovam seus abrigos de inverno todos os anos.
O Padre fala em repartir o pão. Mas durante a homilia, cada paroquiano pensa em suas despesas: a prestação da casa aumentou. O prazo para pagar o automóvel diminuiu. Os filhos precisam de óculos, cursinhos pré-vestibulares, aparelhos para corrigir os dentes, bicicletas, vestido de debutante, tanta coisa!
Que vida apertada para manter tudo isso! E aquela dorzinha no peito, a sufocação! Ai, os enfartes...
A missa termina.
Cada família embarca em seu automóvel e sai a passear.
Nos subúrbios, as favelas, os ranchos: primeiro os de tábuas, depois os de lata. Por fim, até de papelão.
Ali estão os filhos, os netos das siás Evas do “tempo das missas rezadas em latim”.
Como são eles? Quantos são?
Cruzar o olhar com qualquer um mete medo. Quanta revolta sentida!
Mas, como repartir o pão?
O salário mal chega...
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