sexta-feira, 2 de novembro de 2012

DIA PARA SENTIR SAUDADE




Dia de Finados. Cada ano o mesmo reencontro com pessoas de nosso passado que retornam à terra para homenagear seus mortos. Sempre aquele vento norte que prenuncia chuva, trazendo  consigo as lembranças dos que partiram. Há um silêncio reverente, as conversas são a meia voz, as lágrimas contidas, os sorrisos discretos, enfim, o dia é dos mortos, e a eles toda a consideração...
O relógio da vida parece que retrocede, depois que assimilamos o impacto de rever os estragos que o tempo causou aos nossos conhecidos que não víamos há pelo menos um ano, e que eles também devem ter notado em nós,... Pois, ao fim da entrevista, voltamos a ver nessas pessoas aquilo que elas foram nos anos de nossa antiga convivência. São os mesmos jovens do tempo em que ainda estávamos decidindo o futuro, o emprego, o casamento, para onde ir e morar. Agora eles falam de filhos, netos e até bisnetos, porque a vida não para de acontecer...
Alguém chora e se confessa arrependido por uma escolha mal feita contrariando os conselhos dos pais. Agora essa pessoa entende, com a experiência que a vida lhe deu, como os jovens poderiam evitar desgostos se ouvissem a palavra de seus velhos. Mas cada um tem o direito de errar por sua própria cabeça e só aprende depois do “leite derramado.” Por isso as orações pelos mortos, no Dia de Finados, são um misto de saudade e de pedido de perdão... Como eles sofreram, coitadinhos, com nossos erros e tropeços!
Mas há também instantes de doce ternura e paz, quando  podemos recordar, sem culpa, a convivência que tivemos a felicidade de gozar com nossos queridos que já partiram desta vida. São os momentos inesquecíveis de partilha e mútuo afeto que fazemos questão de lembrar, pois enquanto permanecerem em nossa memória e em nosso coração, todos eles estarão vivos, porque o amor é mais forte do que a morte.
Dia de Finados - dia de saudade dos mortos e de reencontro com os vivos e conosco mesmos, numa reflexão calma e ponderada sobre a vida e seus caminhos...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

NOVOS ESTILOS DE VIDA






É preciso mudar, é o que dizem terapeutas, cardiologistas e entendidos em bom viver. Mudar de calçada, de lugar à mesa, de lado da cama e até de cama. Ninguém disse ainda que se deva mudar de travesseiro. Essa eu quero ver alguém seguir! Dizem que a rotina envelhece, entristece, tira o sentido da vida. Por que será? Porque se age automaticamente, talvez, sem pensar nos gestos ou não observando o que se passa ao redor. Ao passo que experimentando algo novo, o interesse renasce.
Lembro-me da mudança para a minha casa de agora. Tudo novo, até os cheiros. Meus filhos queixavam-se da falta dos amigos da antiga vizinhança. Eu adorei os novos horizontes, pois não perdi o carinho dos ex-vizinhos que continuavam me visitando, e eu retribuindo. E ganhei novos que se mostraram muito gentis.
Cheguei a dedicar uma tardinha, após o expediente de trabalho, para explorar as redondezas, percorrendo a pé todo o quarteirão. Descobri quem morava em muitas casas, que eu só via rapidamente ao passar de carro. Senti um cheirinho de pão quente onde um cartaz à janela anunciava que ali era uma padaria caseira. Noutra mais adiante, o anúncio era de salgadinhos e tortas por encomenda. Mercearias, venda de lenha, costureira, tudo isso eu fui descobrindo no meu novo pedaço. Que mina!
Admirei um jardim cheio de rosas. E qual não foi minha surpresa quando a dona da casa me viu e veio ao meu encontro sorrindo. Era uma antiga colega do primário que há muito tempo não via. Concluí que é bom mudar, sair do círculo em que gravitamos sempre nos mesmos lugares, para descobrir outros cenários, conhecer nova gente e redescobrir pessoas que já foram importantes em diferentes épocas de nossa vida.
Hoje sou veterana na quadra. Uma das mais antigas moradoras. Perdi o hábito do chimarrão na área da frente, quando minhas vizinhas mais próximas se reuniam comigo no fim do dia. Houve mudanças – de endereços, de hábitos, e a Internet é o meu programa das tardinhas, quando e-mails são  recebidos e respondidos, vencendo as distâncias e amenizando  saudades. Mas ainda aprecio as novidades das redondezas. Agora estou aguardando a nova padaria que vai abrir em breve. Oxalá faça pães gostosos, melhores do que os dos Supermercados, tão despersonalizados!
Observando agora minha casa, vejo que ela já passou por muitas transformações. Não me lembro o que fiz da mobília da sala, mesa, cadeiras e armário-  daquele tipo oratório -, a mesinha de centro, os sofás modulados.  Mudei tudo. Meu quarto também já não é o mesmo. Foi composto de móveis avulsos, uma cama bem sólida (a antiga quebrava as pernas seguido), a cômoda, a escrivaninha, as mesinhas de cabeceira. Umas eu comprei, outras, mudei de quarto e de utilidade. As peças que não tinham a mesma cor, tratei de mandar pintá-las. Os outros cômodos ficaram diferentes. Filhos adultos só de visita, minha tia partiu para sempre, foi preciso fazer novos arranjos.
Procuro outros trajetos para sair de casa e voltar, mas os destinos permanecem os mesmos - as casas das manas, supermercados, Bancos, igreja. Hoje tenho um aniversário para ir. Uma casa diferente, tenho de achar o endereço. Que bom, é uma quebra na rotina.
Espero ter seguido os conselhos dos entendidos em viver bem.  Tenho mudado tudo o que é permitido mudar, pois a essência é a que fica.
Baixada a poeira das mudanças, não posso deixar-me ficar acomodada. Por isso, vou sacudir o comodismo e... viajar.
É a vida, e para vivê-la em plenitude é preciso estar sempre pronto para 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

NA PROCISSÃO DE RAMOS





Antes, eram filas organizadas, e no meio alguns representantes das associações religiosas portavam seus estandartes. Agora, os fiéis se aglomeram num bloco compacto em torno do andor que leva a imagem do santo homenageado, seguindo seu líder – o Pároco – que preside as orações e cantos.
Neste ano não foi diferente a Procissão de Ramos. Alcancei-a bem no início, logo na saída da Capela, e me coloquei no primeiro vão encontrado, sozinha, sentindo falta de alguém a meu lado.
Logo às primeiras palavras da música “O Povo de Deus”, continuei cantando: “no deserto andava/ e à sua frente,/ alguém caminhava./ O povo de Deus/ era rico de nada/ Só tinha a esperança/ e o pó da estrada.” E a figura de minha mãe, que tanto apreciava esses versos, me fez companhia. Foi tão forte a sua presença que meu coração palpitou de saudade. Mas foi um sentimento bom. Lavou-me a alma.
Eis que avisto meu amigo procurando seu espaço na procissão. E lembro que ele deve estar sentindo falta de sua companheira de fé, a querida sogra, falecida há pouco. Eram tão chegados, como mãe e filho, sempre juntos nas missas de domingo. Perdi-o de vista, mas logo senti seu abraço e daí em diante percorremos todo o trajeto lado a lado, sentindo-nos, tenho a certeza, mutuamente confortados.
Ao evitar os desníveis do paralelepípedo – e os buracos - dei graças pela escolha que fiz dos sapatos para a ocasião. Há anos procurava um modelo assim confortável. Que contivesse meus pés, largos e altos, sem comprimi-los nas antigas formas tão estreitas e apertadas. Lembrei-me do sofrimento nos bailes de outrora: aqueles sapatos de verniz, duros demais e sem a necessária inclinação. Como os empresários da área de então ignoravam o perfil de sua clientela! Viva a nossa indústria calçadista de agora e seus inteligentes designers! Perdoa, Nossa Senhora, se no meio de uma Ave Maria eu fiquei pensando em tudo isso.
Ao meu lado¸ uma senhora miudinha, afro-brasileira (não dá para citar a cor, senão já falam em preconceito)¸ procurava acertar os passos com o cortejo. Lembrava os seus antepassados na maneira de vestir e portar-se: humilde, quase despercebida. Um ar de sofrimento franzindo seu rosto: seriam os sapatos ou algum mal da alma? Engraçado, como nossos irmãos de cor evoluíram de uns tempos para cá. Nem “catinga” eles têm mais. Hoje eles são orgulhosos, até arrogantes, cobrando dos brancos tudo o que lhes devemos em submissão, trabalho, oportunidades perdidas... Melhor assim. Oxalá chegue o tempo de todas as dívidas pagas, e que reine a igualdade entre nós, humanos. Afinal, não somos todos irmãos?
Meu Deus, perdoa minha desatenção. Que me faz olhar à volta e lembrar os antigos moradores das casas por onde passamos. Ali, dona Celeste, exímia tricoteira. Fez algumas peças dos enxovaizinhos dos meus filhos. Na casa vizinha ficava aquela moça que não perdia casamento na igreja. Só para olhar e depois contar às amigas como era o vestido da noiva, o noivo, se ele tinha cara de feliz, os convidados quem eram, enfim, levava dias para concluir a “reportagem”. Dizem as más línguas que ela anotava num caderninho as datas das cerimônias, e quando nascia o primeiro bebê, ela fazia as contas... Na seguinte, era como se as visse ainda: as irmãs Coutinho tão prendadas e piedosas. De missa diária, fazedoras de rosquinhas e outros petiscos muito procurados. Devem estar assistindo lá do céu a nossa passagem.
A procissão prosseguia, e de tempos em tempos os fiéis erguiam os ramos numa saudação ao homenageado -  o Cristo feito homem que entrava em Jerusalém dias antes de sua morte. Parecia-me vê-lo em carne e osso abençoando, casa por casa, os seus moradores, com aquele seu sorriso doce. Foram momentos de plena comunhão, de amor e de paz.
Finalmente a chegada à Matriz. Onde está meu amigo que não vi nos últimos momentos? Eis que sinto seu braço me apoiando na subida da escadaria. E lá dentro uma nuvem de incenso, luzes, cantos, parecia o próprio paraíso. Deus nos acolhendo como Pai. Louvado seja!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

COMEMORANDO A VIDA






Não é preciso ir longe, basta ligar a televisão. O mundo torna-se pequeno, tudo bem próximo. Assim, é possível ver as comemorações dos japoneses pelo surgimento das cerejeiras em flor a cada nova primavera. Feriado nacional. O povo nos parques, nas praças, nos jardins.
O verde da grama, o riacho tranquilo, as pontezinhas de arquitetura bem característica,  os barquinhos com casais japoneses deslizando mansamente, enquanto admiram os ramos floridos de centenas de cerejeiras debruçadas sobre as margens, são imagens que nos sensibilizam profundamente.Que  nós podemos apreciar, comodamente sentados à frente  da TV, este belo espetáculo representando a vida que está do outro lado do mundo. Revividas com respeito comovido pelos japoneses de São Paulo que, por força das circunstâncias, tiveram de transplantar-se para o lado de cá.
Nós, brasileiros, costumamos comemorar datas de batalhas e de guerras, datas de morte de mártires e de heróis.
Eles, não. Gostam de comemorar a vida. E sua história, mil vezes mais longa que a nossa, não tem nada de mansa. Mais violenta que os nossos gritos do Ipiranga.
Tudo bem! Aos mártires e heróis, a coroa que merecem. Mas não seria mau também comemorar de vez em quando a vida.
E há tanta coisa para celebrar, graças a Deus. A começar pelo pátio da vizinha com um pequeno pomar onde as laranjeiras estão carregadinhas de flores perfumosas, promessas de frutos maduros.
Em nossos longos invernos, é muito bom contar com essas frutas tão cheias de vitaminas. Tal como admirar as cerejeiras em flor dos japoneses, comer laranjas em nossa terra também segue o seu ritual. Valeria  a pena conservar a tradição da família caçapavana que até há poucos anos costumava reunir-se após o almoço para saboreá-las à frente da casa ou no pátio, ao sol do inverno. De preferência colhendo-as diretamente do pé.
Um ritual seguido à risca era o ato de descascar a fruta. Tarefa dos adultos, enquanto as crianças ficavam pedindo mais e mais. E exigiam -  Quero com tampa. Mas, se fossem de umbigo, o melhor seria em gomos, Havia os perfeccionistas que cavavam um pequeno buraco no topo da laranja, por onde era possível chupar o suco sem deixá-lo escorrer fora.
As crianças maiores, e os jovens, iniciavam-se nessa arte, fazendo competições: quem descasca mais ligeiro e sem fazer cortes na pele branca. Acontecia de saírem cascas perfeitas, que eram depois dependuradas a secar no varal. Lembram-se para que serviam? No fogão a lenha, transformavam-se em gravetos sequinhos, muito bons para iniciar o fogo.
Hoje as coisas mudaram. Não há mais quintal nem pomares, pelo menos nas cidades maiores. As laranjas vêm empacotadas em saquinhos plásticos dos Supermercados. Perderam o seu cheiro e até o sabor. Não se sabe de onde elas vêm. Nem conservam um galhinho com folhas verdes, tão boas para o chá que cura resfriados e faz baixar a febre.
Hoje há máquinas para fazer suco em quase todos os lares. Gerações e gerações estão-se criando sem aprender a descascar uma laranja, nem a mastigar seu bagaço.
Mas estamos em Caçapava, terra dos “papa-laranjas”, e se não as temos no quintal, não nos faltam os fregueses das chácaras próximas para trazê-las até nós.
Um poeta disse que as rosas são as mais democráticas de todas as flores. Porque são vistas tanto nos jardins das mansões como nos ranchos mais humildes, com seu perfume e beleza. Assim digo eu das laranjas: estão na mesa do rico, mas também servem de sobremesa ou aperitivo ao mais pobre que não tem açúcar para fazer doces.
Quem viu as cerejeiras em flor do Japão do Discovery deve ter lembrado de outro espetáculo que não perde para o primeiro: é o que assistimos todos os anos, quando nossas laranjeiras florescem. Vale a pena estar bem próximo para admirá-lo e sentir o suave perfume.
Mesmo que os ventos soprem forte, despetalando as flores em tapete branco pelo chão, outras conseguirão tranformar-se em frutos, e o espetáculo da vida se renovará sempre diante dos olhos de quem desejar apreciá-lo. Ao vivo...
Isso não é um bom motivo para comemorar?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

UMA PROFISSÃO DO PASSADO








Há tanta coisa mudando todo o dia que muitas vezes não percebemos o que deixou de existir. Assim as profissões, o que era necessário no passado agora é obsoleto, já tem substituto.
Recordei certo dia a nossa lavadeira de um tempo que já vai longe. Aquela figura simpática, trouxa à cabeça, que da Fonte do Mato, seu local de trabalho, já evoluíra para a profissional moradora das chácaras vizinhas, e agora desapareceu de um todo.
Cada semana, menos quando chovia, ela vinha com seu sorriso e sua prosa. Ninguém igual para contar casos de todo o dia com jeito tão pitoresco! Na linguagem de pessoa simples, mas que muito aprendeu e tem o que ensinar na escola da vida.
Quando ela mandou dizer que não ia mais trabalhar, foi um choque para nossa família. As águas geladas do arroio, o vento frio, o sol escasso do inverno demorando a secar as roupas – tudo muito desgastante para sua saúde, agora que a idade vai avançando.
Pobres de nós que contávamos com seu trabalho feito com tanto capricho.
O remédio foi apelar para as máquinas lavadoras. Porém elas jamais poderiam substituir a contento a nossa lavadeira de tantos anos.
Quantos momentos de nossas vidas passamos juntas. Vimos seus filhos criarem-se enquanto criamos os nossos. Os pijaminhas de pelúcia com desenhos de ursinhos foram dando lugar aos abrigos de jovens atletas. E ela sempre firme no seu posto. Depois chegaram seus netos. Batizados, festinhas de aniversários, quinze anos... Doenças. As receitas caseiras. Os chás de ervas miraculosas que ela trazia lá da chácara.
Que máquina lavadora terá a pretensão de tomar seu lugar? Aquelas mãos fortes que sabiam esfregar, torcer, pendurar a roupa na cerca ou deixá-la corar ao sol? Que máquina poderá acrescentar ao serviço aquele cheirinho de mato que ficava nas roupas? De pasto bem verde, onde as vaquinhas leiteiras da sua família desfilavam com seus terneirinhos? Que fazia pensar em água limpa correndo entre pedras, sombreada de longe em longe por árvores nativas. Vassoura vermelha, cambarás, aroeiras. Que se transformavam em lenha, depois em brasas para os ferros de passar. Por esse meio entravam em nossos lares, purificando o ambiente cada vez mais artificial de nossos dias.
Ficamos sentindo saudades. Do serviço bem feito, da presença amiga de toda a semana em nossa casa, trazendo a doce nostalgia dos campos, das matas, do céu aberto.
Enquanto isso, outras profissões estão surgindo, como a de passadeira, por exemplo. Afinal, a máquina não faz tudo como as nossas antigas lavadeiras

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

UMA GERAÇÃO ESPECIAL






O ambiente no Banco não era dos mais animadores. Só dois caixas atendendo, um aos idosos e o outro aos demais, inclusive donos de empresas com seu chumaço de docs. Não davam nenhuma esperança de atenderem a tempo. Ainda mais que chegava a hora do almoço de um dos funcionários – hora sagrada para ele, os usuários que se danem. Mas nem tudo está perdido, agora que há bancadas confortáveis nas agências, e a conversa entre os aposentados rola solta.
Minha vizinha de assento, por uma graça especial - Deus seja louvado -  é a Ruth, minha contemporânea, protagonista e relicário das mesmas lembranças do passado. Passamos, então, momentos bem agradáveis recordando como era a vida na nossa juventude e idade adulta – agora somos octogenárias privilegiadas de boa saúde e memória.
Ficamos ali relembrando como a vida mudou vertiginosamente nas últimas décadas. E concluímos que nenhuma outra geração, na história da humanidade, passou por transformações tão rápidas e arrasadoras como a nossa. Ficamos imaginando o que diriam nossos pais, se ressuscitassem, dos novos engenhos, caixas eletrônicos, cartões magnéticos, senhas... Sem falar na televisão digital, nos iphones, celulares,  Facebooks  ... No seu tempo, já era uma graça assistir a novelas em preto e branco no aconchego do lar.
Os meios de transporte eram outros. As estradas sem asfalto, os motoristas pondo correntes nos pneus para enfrentar os atoleiros. Às vezes era preciso atravessar campos alheios, abrindo porteiras ou cortando arames para seguir em frente. Com a permissão dos proprietários, claro, e até com a ajuda de suas juntas de bois para desatolar os veículos!  Depois, era esperar a barca no Passo Seringa, do rio S. Lourenço, para chegar a Cachoeira. De lá, se precisavam ir a Porto Alegre, tomar o trem e fazer sete horas de viagem, se não houvesse atraso...
Em casa, o serviço era bem rudimentar. Fogão a lenha, chuveiro de lata, nada de água encanada. A talha era o utensílio de honra, entronizada numa banqueta colocada na cozinha. E a chegada do pipeiro era saudada com vivas pela criançada da casa, louca de sede à espera da água potável. Porque a do poço das casas era salobra, não dava para o consumo. Fogão a gás, nem pensar. E o tempo que o leite demorava a ferver no fogão a lenha deixava todos com fome, no aguardo. Em compensação, a manteiga, o queijo, as ambrosias e arroz de leite tinham sabor especial, que deixou saudades. Os doces de abóbora levavam uma tarde inteira no fogo, mas que delícia!
Batedeiras, liquidificadores, coisas inimagináveis nos anos quarenta. Mas as merengadas parece que tinham mais sustância, não desandavam como agora.
Olhando na papeleta da senha, deu para ver o início da espera na agência bancária, até chegar ao guichê: cinquenta e cinco minutos. Não há uma lei, ordem, ou qualquer coisa assim estabelecendo o limite de vinte minutos de espera? Quem vai atrás?!
Mas a manhã não foi perdida. É sempre um lucro encontrar pessoas queridas que nos falam e ouvem sem pressa. Ainda mais quando se pode viver, na lembrança, tantos anos passados, mas não esquecidos. 

domingo, 2 de setembro de 2012

CHEIROS DO PASSADO






Um perfume pode evocar pessoas e acontecimentos distantes. A gente lembra de repente alguém sem dar-se conta de que foi pelo aroma que passou que ela se fez presença.
Mas dessa vez foi diferente: não tinha marca, não era da Coty nem da Chanel. Nem era perfume, mas sim o cheiro mais gostoso que senti nos últimos tempos – o cheiro da figada cozinhando no fogo. No quarteirão todo, aquela fumacinha apetitosa impregnava o ar. Não se via ninguém à vista, mas dava para adivinhar um punhado de mulheres, na hora mais quente do dia de verão, aprontando a tachada do doce que levou por muitas décadas a marca de Caçapava.
Só quem participou de uma jornada igual a essa pode imaginar o trabalho que dá. Descascar os figos – tarefa proibida para os alérgicos -; pesar a massa, calcular a dosagem do açúcar, preparar o tacho, os vasilhames que vão servir de embalagens e, o pior, ficar uma tarde inteira à beira do fogo de chão mexendo aquele peso todo com a pá, até ficar no ponto.
Pois aquele cheirinho especial lembrou-me Siá Eva, aquela criatura de idade indefinida, vestidinho de algodão, pano amarrado à cabeça, o suor escorrendo do rosto ao pescoço. Sempre com um lenço à mão para enxugar-se de vez em quando. Não se queixava de nada, e até gostava da companhia das crianças à sua volta, para quem contava histórias de lobisomem, enquanto o doce teimava em não ficar pronto. Siá Eva era assim: humilde, prestativa, bem humorada, o quebra galho das famílias, onde fazia faxinas e ajudava em dias especiais, como na preparação de quitutes para as festas. Mas não se empregava como doméstica, era livre como um pássaro.
Nos dias de tacho, ficava da manhã à noite na lida. Não podia tomar água. Com o calor do fogo, podia dar espasmo. Tomava café preto ou chimarrão para aplacar a sede.
Quando era marmelada, o trabalho complicava. Havia a marmelada branca, a rosada e a marmelada preta. Ficava tão preta, mesmo, que até parecia a siá Eva. E era a última que aprontava, porque o seu segredo estava na dosagem da água, colocada pouco a pouco. Quando parecia estar pronta, a dona da casa dizia “mais água”, e começava tudo de novo até tomar consistência.
Aí siá Eva começava a falar no marido Pedro – o grande amor de sua vida. Que costumava deixar tudo em casa arrumadinho para ele. Era só esquentar a marmita. Que o Pedro estava na lavoura de alguém, voltava de noite. Filhos não tinha, mas que marido bom! Ela  queria morrer antes dele, não sofrer a sua saudade.
Coitadinha! A vida não quis assim. Ele foi primeiro.
Siá Eva saía já noite com uns bons trocados e a prova do doce.
Cuidado, não vá comer figada do dia, faz mal, recomendava a dona da tachada.
Não tinha perigo. Ela reservava a figada inteirinha para o Pedro.
As mocinhas românticas de então ficavam imaginando como aquela mulher tão comum e apagada, sem beleza nem vaidade, podia ser a protagonista de uma história de amor.
Siá Eva continua vivendo no seu idílio com Pedro, na fumacinha cheirosa que sai dos tachos de figada e marmelada, agora tão raros. Mas ainda existem aqui e ali, graças à coragem das mulheres caçapavanas que honram a tradição da terra.
É assim a vida. Ainda bem!