quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

E AMANHÃ?






A gente acorda, liga o interruptor, vê as horas, vai ao banheiro, liga o chuveiro, sem nem se dar conta dessas maravilhas do progresso. Mas é só ouvir os noticiários   do dia que as dúvidas começam a surgir: até quando teremos esses confortos?
Falam em fim do mundo, previsto pelo Calendário Maia para o dia vinte e um deste mês. Mas quase ninguém acredita. O que preocupa a maioria é que falte energia e que as nossas reservas de água também se acabem.
Talvez, então, tenhamos de voltar aos poços domésticos em cada quintal. Vamos ter de procurar o homem da forquilha que localizava o lugar certo onde cavar. E a luz? Cada família terá de adquirir seu gerador próprio. Era assim na casa de minhas gratas lembranças, lá no campo, no sítio do querido Dindo. Chegando às dez da noite, ele avisava: “vou desligar o motor”. E todos tratavam de ir dormir. O inconveniente maior é que não se podia ler na cama.
Mais tarde, na cidadezinha onde iniciei minha profissão, era o engenho de arroz que fornecia a luz.
Nos fins de semana, as reuniões dançantes podiam ir até a meia noite, por um favor especial dos empresários.
Eram então muitas cinderelas procurando a saída do clube, quando a hora se aproximava. Mas, quantas vezes seus pares atrasavam os relógios para que os “blackouts” os surpreendesse. E galantemente se ofereciam para levá-las em segurança até a casa. Meia hora depois, nas noites de lua cheia ou sem chuva, lá voltavam eles de violão e cantores para a serenata esperada. Muitas vezes com o Afif declamando suas belas poesias.
Nas madrugadas, a luz elétrica até que não fazia falta. Eram tão poucas as noites de insônia no mar tranquilo da juventude da gente! Nada de pesadelos ou maus pressentimentos como hoje acontece.
Aqui na terrinha era a Cascata que se desempenhava como podia, coitada! Nos tempos de seca era um caos. O cinema do Mirandinha, por exemplo, tinha de interromper o filme, ele devolvia as entradas para a primeira noite de luz. E a gente saía revoltada sem saber com quem a mocinha ficava, se o mocinho ia salvar-se das mãos dos bandidos. Que coisa!
Nas paredes do cinema, havia pinturas representando os pontos turísticos da cidade, a Igreja Matriz, a cerca de pedra (ainda existe?), o Forte, a Cascata, a Pedra do Segredo...
As poltronas não tinham estofamento, eram madeira dura. E o piso não tinha inclinação. A gente ficava torcendo que não sentasse uma pessoa alta na nossa frente.
De um lado do corredor ficavam as famílias, e do outro, os homens avulsos. Lembro de uma ocasião em que um forasteiro sentou no  lugar errado,  ao lado de uma mocinha.  Ela olhou apavorada para a mãe que estava noutra fileira, e foi um espanto! Toda a fileira trocou de lugar para “salvar” a menina. O forasteiro ficou muito assustado, não entendeu nada. No primeiro intervalo ele abandonou o cinema. Coitado, não havia outro entretimento na cidade!
Essas lembranças me surgiram agora por causa das últimas notícias. A energia em colapso, e com esse calorão o consumo é muito maior.
Temos de pensar em outras alternativas, nosso carvão, as quedas d´água, os ventos...
Mas é a vez dos jovens. Eles é que devem encontrar as soluções.
Por enquanto, vamos gozando do conforto do chuveiro quentinho, a qualquer hora, e a certeza de que é só premir o interruptor que a luz se acende. E nossos eletrodomésticos e eletrônicos funcionam.
Pois se o homem das cavernas conseguiu descobrir como se produz o fogo, por que as gerações novas, com dois milênios de civilização, não vão encontrar novas opções para acabar com a crise?
Confiemos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NAS ESTRADAS DA VIDA






A vida não é moleza. Porém existem momentos preciosos que valem uma existência. E esses momentos se devem à amizade.
Quando me dei conta, haviam-se passado onze anos sem ver minha amiga, tão longe nos trezentos quilômetros que nos separam. No entanto, chegando a sua casa, foi como se a tivesse visto na véspera.
Os dois dias de visita foram insuficientes, até mesmo para “condensar” em intermináveis diálogos os acontecimentos de nossas vidas. O que não foi dito ficou subentendido no sentimento fraterno que nos levou a rir e a chorar juntas, pelo que a vida nos concedeu ou nos tirou.
O mundo retrocedeu dez, vinte, vinte e cinco anos, nas reminiscências evocadas.
 E vimos que, apesar da distância, do tempo decorrido, dos acontecimentos, da falta de cartas e notícias, nossa amizade continua intacta, ou melhor, cada vez mais sólida, tendo amadurecido conosco.
            Na volta, olhando pela janela do ônibus, vinha pensando na riqueza de ter amigos. E lembrei Rui Barbosa que não os tinha em grande conta quando dizia que os nossos adversários é que nos desafiam à luta, e por causa deles nos empenhamos em vencer. Ao passo que as pessoas que nos querem bem se contentam com nosso jeito de ser, não nos incentivam a ser melhores. Talvez temendo desagradar-nos.
Pois é. Até nisso minha amiga é perfeita. Ela sempre usou de franqueza, apontando-me esse ou aquele defeito que eu deveria corrigir.
Não me senti só no longo trajeto do ônibus “pingapinga”. Apesar de os companheiros de viagem se sucederem a cada parada, mudos, indiferentes. Pensava quantas preocupações supérfluas (e ocupações) temos todo o dia, que nos roubam tempo para o essencial: a convivência com nossos queridos. Com os amigos da mesma época, de passado comum. Com os mais velhos da família, os mais jovens, as crianças...
Quantos amigos distantes que não vemos há tanto tempo por falta de recursos. As viagens caras, a falta de conforto dos ônibus, a insegurança dos coletivos. Enquanto outros viajantes mais folgados, talvez ainda à procura de um amigo, viajam sozinhos nos carros velozes. Por companhia, o som.
Lembrei, num momento, um romance de Machado de Assis (ou Monteiro Lobato? - eu sempre confundo) que contava uma viagem de trem na segunda classe. Ele dizia que o pobre tem de sofrer mesmo! Não bastasse a falta da poltrona estofada de couro da primeira classe, ele ainda era obrigado a sentar-se em banco de madeira, sem nem uma inclinação no encosto. Teria custado o mesmo aos fabricantes. Porém as leis parecem ditar que o pobre não merece conforto, e as costas do coitado ficavam em ângulo reto com o assento. E o torcicolo depois!....
Se os coletivos tivessem melhores condições de trafegabilidade, se os passageiros deixassem de ser tratados como gado – mais um passinho pra frente – quem sabe diminuiriam as tragédias. Não haveria tantos veículos ultrapassando nas estradas. Alguém a meu lado comentou que o preço das passagens é que não lhe permite usar os coletivos quando viaja com a esposa e os filhos. Sai muito caro. Assim sendo, coloca mais um automóvel na estrada.
Talvez voltasse aquele clima de festa das viagens de trem ou de ônibus de outrora, quando os passageiros se condicionavam à morosidade da marcha do veículo, tratavam-se com urbanidade, oferecendo-se mutuamente jornais e revistas, balas, bolachinhas, e até carne assada ou linguiça frita enrolada em farofa, nas viagens mais longas.
 Mesmo nessa viagem desconfortável de agora, apesar do torcicolo e do cansaço, valeu a pena.
Fazer amigos é uma grande glória. E conservá-los, um privilégio sem par!
            

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O CALOR QUE NOS ENVOLVE




As previsões são alarmantes para este verão: calor demais, chuva de menos. E o pior -  colapsos de energia anunciados pelos canais competentes.
Quando a gente pensa nos “splits” e ventiladores desligados compulsoriamente, dá um pavor danado. Onde fica minha sombra e água fresca? Poucos dias numa praia não resolvem. Seria preciso o verão inteiro, mas quem aluga imóvel, nem pensar. Ah, meus sonhos de ter uma casa de campo ou de praia!
Meus primos, que há anos residem a poucos quilômetros de Brasília, plantando soja em terras produtivas, ficaram admirados com as mudanças no Rio Grande do Sul. Principalmente com a diminuição do poder aquisitivo de um pensionista do Estado ou INSS, de um funcionário ou professor inativo. Nesta terra que antes era considerada o celeiro do país.  Pudera! Eles agora estão mais próximos dos marajás do Distrito Federal que vivem  num mundo virtual de riquezas e poder.
Até o clima eles estranharam. Um mormaço que lá eles não sentem. E a falta de sombras nesta “clareira da mata”! Lembro uma antiga professora de minhas primeiras letras descrevendo o clima do nordeste: “dá para fritar um ovo na calçada.” Estou pensando em fazer a experiência. Aqui é bem possível acontecer...
 De saudosos da terra natal, passados alguns dias eles começaram a pretextar motivos para retornar aos novos pagos. Arrumaram as malas e partiram antes do previsto.
Como é que a gente suportava o verão décadas atrás, no século passado melhor dizendo? Em vez de geladeira, as bebidas eram refrescadas num balde dentro do poço. A moda não incluía shortinhos e tomaras que caia. Era vestido de manga curta, por muita concessão (cavado era mal visto), camisa e gravata nas repartições (coitado de meu pai). As freiras e os padres vestiam-se com hábitos e batinas escuros e quentes. Como suportavam?Acho que o clima mudou. Deve ser a redução da camada de ozônio e outras modificações feitas pela devastação das florestas e outras “artes” dos humanos.
Que fazer, sou um deles e tenho que aguentar.
O bom do verão é que as tardes são maiores, proporcionando um encontro nas casas das manas, à sombra, fazendo crochê, bordado e com muita prosa. E ainda o melhor: a pele da gente fica mais esticada, menos rugas e uma aparência mais jovem, ou melhor, menos envelhecida.
Mas que saudade do outono!


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

E AQUELAS MENINAS?





Eram duas. Na época, andavam pelos dez, doze anos, quase adolescentes.
Batiam à porta, todo dia, na hora do almoço, pedindo comida. Não se agradando do “cardápio”, jogavam tudo fora logo na primeira esquina.
Nunca foi possível manter um diálogo com elas. Pareciam habitar outro mundo.
Agora, já devem estar adultas. E desapareceram de nossas portas.
Pensar que estão bem instaladas  na vida, com marido, filhos bem cuidados, é ser muito otimista.
Mais certo é supô-las como vítimas de vícios ou desses crimes que vêm ocorrendo em nossa cidade, nos pátios de prédios abandonados. Crime passional, pela divisão de coisas roubadas. Ou drogas.
Na escola da vida em que se formaram, só podemos esperar algo semelhante.
A verdade é que as vilas da periferia se expandem assustadoramente, sem que se saiba de onde vêm e do que vivem seus habitantes. Os primeiros, supõe-se, são os gaúchos a pé, aqueles que perderam seu ganha pão na campanha e vêm tentar a sorte na cidade.
Mas os empregos são poucos, e os mais jovens descambam facilmente para o crime, o submundo, a marginalidade. Os valores da família são logo esquecidos. A própria família desaparece, aos poucos, e só restam os filhos de ninguém.
Pode parecer que os problemas sociais não existam, ou diminuíram, porque é raro encontrar um pedinte nas ruas do centro.
Mas a miséria continua escondida, com gente velha e doente, mas honrada, com vergonha de pedir. É preciso procurá-los, levar-lhes algum conforto , no meio da indesejável vizinhança de delinqüentes, mulheres da vida, arruaceiros.
Entretanto, a solidariedade ainda existe entre eles, e quando a gente vê gente humilde e carente repartindo o pouco que tem com seu vizinho mais necessitado, renasce a esperança de que o mundo dos homens ainda não está totalmente perdido.
Mas, e aquelas meninas, onde estarão agora?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

E A FAMÍLIA COMO VAI?






Família – é lá que tudo começa. De um ato de amor e muita coragem, ela se forma um dia, primeiro a dois, meio perdidos no “enfim sós”. Largando pai, mãe, irmãos, a estabilidade de um lar de muitos anos, para lançar-se à aventura de constituir o “seu” lar!
Família, um ninho de amor para o bebê que desabrocha; o lugar seguro para onde voltam as crianças maiores de seus folguedos ou da escola; uma prisão para o adolescente que se rebela contra as ordens das horas de acordar, fazer as refeições, os deveres e de voltar a casa, entre outras exigências mais graves. O campo de batalha onde a mãe organiza e executa a economia doméstica, enquanto cuida do bebê, acalma as brigas entre irmãos, acolhe o marido cansado, queixoso dos gastos, que o salário não dá, estão gastando demais... Mas os chinelos e o chimarrão prontinhos à espera acalmam seu ânimo, e o cheirinho de cebola fritando no fogão dá esperanças de um gostoso jantar.
Depois da fome aplacada, a hora do cochilo gostoso na frente da televisão assistindo ao noticiário da noite, enquanto as crianças, uma a uma, se rendem ao sono.
Esse é o esquema ideal da família. Mas não é nem de longe a regra hoje em dia. Agora, mães que trabalham fora não aplacam as rixas entre Caim e Abel. Cansadas ao voltar do trabalho, quem lhes alcança os chinelos? É só reclamação, falta botão na camisa, vizinhos se queixam de suas crianças, o pequenino não se dá bem na creche...
No entanto, ainda é um lar. Onde o cheirinho de pão quente temperado de erva doce, a cera do assoalho, as frituras, o sabão, fazem uma mistura de aromas que cada família tem diferente. É sua marca. E chegar à porta de entrada, logo vem a sensação de estar em casa, entre os seus.
A família não se resume a isso. Há também os primos, tios, avós, padrinhos, todos presentes nos aniversários e casamentos. E nos enterros. Às vezes nos veraneios.
Primos que são amigos ou adversários. Tias queridas que dão mimos especiais a seus favoritos. É tão bom cair em suas boas graças! Os avós desculpando as faltas dos netos e salvando-os de prováveis castigos.
Vivências que  guardamos para a vida toda.
Quem não teve uma família, perdeu metade ou mais de sua existência. Não chegou a entender e valorizar a própria vida, quanto mais a dos outros.
Quem sabe daí vem o aumento da violência, a formação de gangues não só nas classes pobres, mas entre os jovens moradores das grandes mansões. Onde um pai muito ocupado com os negócios, a mãe entretida nas suas atividades sociais -  quase sempre estão ausentes.
A família neste milênio está em crise.  Os pais, em seu segundo ou terceiro casamento, os filhos visitando-os nos fins de semana, procurando ajustar-se com padrastos, madrastas, meios irmãos.
Para  que se encontre o remédio que torne cada lar igual à figura do Almanaque com a propaganda do xarope Bromil – de um lado várias casinhas explodindo de tanta tosse. De outro, as mesmas casinhas apaziguadas, na santa paz de crianças e adultos dormindo. Com a segurança que só o amor compartilhado pode trazer.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A FILA SEM PRESSA






Ali ninguém parece ter pressa. Afinal, o que há mais para fazer?!
A fila dos aposentados segue lenta e calma. Conversas em tom moderado, assuntos sobre doenças, remédios, falecimentos. De vez em quando um velhinho de bom humor conta uma piada inocente. Todos à volta se animam.
De tempos em tempos eles têm de ir ao Posto do INSS para provar que estão vivos. E cumprem essa exigência com boa vontade. Afinal, é seu interesse defender sua galinha de ovos de ouro – a Previdência Social – contra os “ fantasmas” que querem lesá-la.
Outras preocupações ficam do lado de fora, com os “menores” de sessenta anos. E que preocupações!
Comerciantes abalados com o pouco movimento nas vendas. Funcionários atentos à criação da famosa política salarial que não sai do papel, mas promete...
Os chefes de família assalariados não sabem mais onde economizar para as emergências. O cesto básico está subindo sempre.
As mães volta e meia entram em pânico com os perigos rondando seus filhos adolescentes. Agora, no início do verão, praia, festas, carnaval, ainda é pior!
O buraco na camada de ozônio aumentando sempre. Erros médicos ou negligência de enfermeiros em hospitais ocupando as manchetes.
O fim do mundo sendo anunciado e com data marcada.
Os velhinhos, na fila, não se espantam mais. Já passaram por outras crises, quando o mundo então parecia que ia acabar. E aí estão seus netos e bisnetos dando prova de que a vida continua.
Para os da “fila sem pressa”, cada dia é uma dádiva a mais na sua sobrevida. O importante é viver com toda a intensidade o presente, sem saudosismos pelo que passou ou o temor do que virá amanhã.
Por isso, enquanto o quarentão se apavora com as notícias dos jornais, o idoso observa emocionado a chegada da primeira cigarra deste verão...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SOL E SOMBRA






Na manhã clara, sem vento, apenas o sol era presença na rua, além de uns cachorros mal amados farejando o lixo das sarjetas, na falta de melhor programa.
Eis que tenho o privilégio de assistir ao exato momento de uma folha cair, desprendendo-se do ramo. Eu e um beija-flor que, de susto, voou de ré e foi explorar outra folhagem mais densa.
Passou por mim um idoso de bengala e não respondeu a meu cumprimento. Pensei: será que estou invisível?  Talvez o coitado não enxergue bem. Mas onde foram parar os moradores da cidade? Uma bomba exterminadora teria explodido terminando com a vida no planeta, e só eu e aquele velhinho...Ah, esses filmes de ficção científica mexem com a cabeça da gente!
Entretanto, no espaço de meia hora, calculei, nenhum automóvel andando na rua. Nem caminhão, ônibus ou qualquer veículo... ou pessoa.
Com saudade de gente e da vida passada, entrei numa loja, onde a proprietária esperava solícita o primeiro freguês do dia. Perguntei por lãs, linhas e uns tecidos de bordar da minha juventude, que não vejo há tempos! Mesmo que os encontrasse, o que fazer com eles, se em vez das antigas habilidades, agora só uso o computador?
Na televisão da loja, as notícias do dia: ônibus incendiados em Santa
Catarina
,  linhas da noite suspensas, e o povo sofrendo por falta de transporte e do medo das ruas. Quando chegarão até nós os vandalismos de nossos vizinhos?  Primeiro foi em São Paulo!...
 Por ora, respiro aliviada .. Enquanto meus conterrâneos aproveitam o pré feriado para ficarem em casa, o ar é só meu, a calma das ruas e os espaços também.