segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

NOVOS DIAS, ALELUIA!





Ainda ecoam em nossa memória as cantatas de Natal na Praça da Matriz. Ainda presentes na lembrança aquelas vozes infantis saudando o doce menino. E os shows musicais e artísticos de muito bom gosto na praça e no Forte foram uma homenagem ao povo desta terra que merece estes momentos de encantamento, depois de um ano de muitos reveses. Apesar de seus esforços. Ele sabe apreciar a arte e se emociona com a beleza que nossos artistas sabem manifestar.
A árvore de Natal deste ano superou as anteriores. Linda mesmo. Luzes coloridas na rua principal saúdam a data mais encantadora de nossa cristandade. E permanecem acesas para aguardar um novo ano, que agora tem um profundo sentimento de esperança, de boa vontade e solidariedade.
A palavra de ordem é renovação. A começar pelas folhas mortas, dissabores, rancores e recalques que não deixam o coração expandir-se. A vida tem suas nuvens negras, é verdade, mas o sol também aparece na maior parte das vezes. Vamos esquecer os aborrecimentos, as ansiedades. É preciso aproveitar o tempo que nos é destinado neste mundo. Não vale a pena sofrer, quando fomos criados para a felicidade.
Somos um povo que não se abate com as agruras e injustiças. Conhecemos o nosso valor que não se traduz em cifras, mas em potencial humano. Vamos sair da crise mais fortes, depois que a limpeza oficial não poupou a sujeira debaixo dos tapetes das mansões dos poderosos.
Acho que estamos superando a Itália no seu combate à Máfia. Nossa Polícia Federal e  a Justiça não têm poupado os até então privilegiados.
É hora de valorizar o bem e a honestidade. Deixar de seguir os exemplos que vêm lá de cima. Devolver a carteira e o celular achados na rua ao legítimo dono. Importar-se com o meio ambiente, preservando a natureza dos entulhos e da degradação. Plantar em vez de derrubar árvores. Semear, cultivar e colher com trabalho, dedicação e esperança. Respeitar o próximo e socorrê-lo nas necessidades.
Somos ricos, temos terras a perder de vista, rios, cascatas e ventos que captam energia, paisagens paradisíacas para atrair o turismo. Poetas, músicos, escritores, pintores e escultores que se inspiram e exaltam nossas belezas naturais. “Não há, ó gente,/ ó não luar /como este do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense, quem se lembra? Quem acha tempo para contemplar esse luar?
Vamos começar um novo ano com a graça de Deus e todo o otimismo. Será também o Ano da Misericórdia. Perdoar e ser perdoado. A alma fica bem leve.
E os dias futuros, com nossos propósitos de boa vontade, serão abençoados e mais felizes que este ano que passou.

Aleluia!

domingo, 3 de janeiro de 2016

PRECONCEITOS




Percorrendo os corredores do Supermercado, aquela dona de casa, há pouco aposentada do Serviço Público, sente prazer ao verificar nas prateleiras que nada falta de sua listinha de compras. Diferente de outros países, onde produtos essenciais não são encontrados nas gôndolas, devido a guerras, crises políticas e econômicas, nós, aqui, apesar de tanto rolo, ainda encontramos o que comprar. Por isso ela dá graças e prossegue o seu caminho. Vai lembrando outros tempos em que era só apanhar do próprio pátio as verduras e frutas para a família. Agora, vem tudo embalado e etiquetado de outros centros do país, encarecendo os produtos conforme a distância e os custos de produção e do transporte. E não esquecer a tal Bolsa de Valores!
Em dado momento a compradora se surpreende: laranjas de umbigo importadas! Por um preço lá nas alturas. Imagine! Antes a gente apanhava do pé e eram muito mais gostosas. Tudo muda, que fazer? Agora o remédio é adotar outras frutas da época e menos caras.
Prosseguindo, ela chega aos hortigranjeiros e se admira do preço dos tomates, das batatas, da cebola. Que horror! São essenciais para a comida. Como deixar de comprá-los?
Nesse instante ela observa um homem alto, mulato, franzino, vestido com um terno que já foi azul, agora é desbotado e fica bem folgado nele. Tem um ar triste e abatido. Deve ser um desempregado, ela pensa. Sua cesta tem poucos itens, e as sacolas parecem bem leves.
Em dado momento a senhora nota que o indivíduo fica trocando os produtos, devolvendo cebola, tomate e conservando só as batatas. Mais baratas, ela pensa. Mas como cozinhar sem cebola? Ela lembra que uma colega sua, para variar, às vezes usava farinha de trigo e achava bom. Mas a farinha também está cara para o pobre comprador.
Encontrando colegas e amigas pelos corredores, sua atenção foi desviada daquele personagem. Novidades trocadas entre elas, muitos sorrisos e abraços.
Quando finalmente chegou ao caixa, notou que o desconhecido estava na outra fila. Então, teve uma inspiração: comprou cebolas e tomates a mais, pagou-os e quando passou pelo homem deixou cair essa compra em sua sacola. Ele não notou e já ia saindo. Mas o empacotador interpretou a cena de modo diferente e foi atrás do coitado. Achando-se muito esperto, arrancou os produtos da sacola do mulato e com ar vitorioso, devolveu-os á presumida dona.
Esta nunca vai esquecer o olhar queixoso que aquele homem lhe dirigiu.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

RESPEITO É BOM





Até que enfim encontrei algo que me alegrou em edições de jornal de segunda-feira. Foi neste último domingo: fotos das torcidas do Grenal confraternizando sob a tutela do bloco do bairro Medianeira, de Porto Alegre, na sua “passarela do futebol”. Mais tarde, as câmeras da mídia captaram imagens de sorridentes torcedores de ambas as facções na maior harmonia. Casais, um gremista, outra colorada, ou vice-versa, no maior carinho. E um bebê no colo do pai vestindo uma camisa bicolor, de um lado, vermelha e do outro azul, e a mamãe ali perto, gremista assumida.
Respeito é bom e faz bem.
O que seria dos torcedores se todos fossem do mesmo time? E não houvesse um rival?  Não haveria o confronto. E a torcida? Deixaria de torcer, é claro.
As guerras acontecem por divergência de opiniões, de interesses, de egoísmo. Por falta de respeito ao próximo, às suas origens, maneira de ser, mentalidade e modo de agir.
 O grande filósofo Voltaire costumava dizer: “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres.”
Foi nesse espírito que se fundamentou a grande revolução francesa. Para defender esse direito de ser diferente. “Liberté, Égalité, Fraternité”. Mas vacilaram ao ridicularizar os ídolos do islamismo. Deu no que deu.
Na vida comum, como é bom encontrar pessoas de respeito, que merecem a nossa confiança e que respeitam as nossas opiniões, a identidade de cada um, as diferenças.
Estamos no século XXI, e os preconceitos, em vez de desaparecerem, parece que crescem a cada dia. Torcedores dos maiores times do país digladiando-se e até matando-se. Perseguições a homossexuais, a pretos, e agora a muçulmanos aqui radicados que não têm nada a ver com o terrorismo. Bullying nas escolas e nos locais de trabalho e de lazer. Todo o mundo precisa ser igual?
Nas estradas e vias públicas, quantos motoristas embriagados ceifando vidas ou ao menos ameaçando pessoas inocentes, que não desobedecem às leis de trânsito e são colhidas por eles. Falta de respeito.
Chegamos a pensar que não há mais o que fazer. Puro engano. As transformações para um mundo melhor começam em casa, no trabalho, na sociedade.
Se aquela doméstica deixasse de colocar o lixo no bueiro ali da esquina; se os passantes evitassem sujar as ruas com latas, papéis e plásticos de seus lanches atirados fora nas calçadas... Ao redor de nossa Matriz há um mar desses objetos jogados por irresponsáveis que não aprenderam a portar-se em via pública. O clima seria melhor.
Ah, se as indústrias pensassem menos em seus lucros e mais na segurança de seus funcionários, familiares, e comunidades próximas... E usassem de todas as precauções para evitar que a tragédia de Mariana trouxesse efeitos tão devastadores à natureza e à nossa combalida Mãe-Pátria...
Tanta coisa poderia ser diferente se houvesse respeito. Que tem faltado a nossos representantes nas suas malfadadas ingerências nos bens públicos; nas leis que só favorecem a eles e a seus parceiros endinheirados; na condução da política que protege aos corruptos;
que não resolvem nada, acabam em pizzas.  E as verbas faltando à Saúde, à educação e à infraestrutura das estradas, dos bens públicos, e vão beneficiar com auxílio-alimentação, auxílio-moradia à classe que deveria proteger-nos e julgar os ilícitos?
 Tantos escândalos envolvendo fraudes nos leites e outros alimentos adulterados causando doenças e até a morte. Remédios vencidos ou falsificados enriquecendo laboratórios e matando pacientes do SUS.
Tudo porque as consciências adormeceram. Só pensam no seu bem próprio, sua ganância quer sempre mais.
Quanto desperdício! Prédios públicos inacabados, planos de casa própria para trabalhadores e moradores de áreas de risco ficando só no papel. Hospitais sem recursos materiais, financeiros e humanos que cheguem para a demanda. Escolas desabando ou apresentando perigos para os alunos, e sempre faltando material didático e motivação para seus professores.
Nada disso aconteceria se houvesse por parte de governantes e governados o respeito que se deve ao outro, às vidas humanas que precisam de nós, de nossos cuidados e apreço.

Respeito é bom... e nós merecemos.

sábado, 10 de outubro de 2015

POR DOIS VINTÉNS APENAS





Nossa memória é como um computador. Ou devo dizer, ele é que nos imita. Assim sendo, ela armazena dados até o limite, por isso as recordações têm prazo de validade, não cabem todas no mesmo lugar de nosso cérebro.  Em triagens contínuas, a tendência é gravar apenas o que nos interessa mais de perto. O restante vai para o subconsciente, ou seja, a chamada “nuvem” do computador. Só assim a “máquina” fica mais leve, flui com maior rapidez.
Quem é capaz de lembrar dos seus candidatos em eleições passadas? Eu esqueço logo. Até para cobrar as promessas não cumpridas fica difícil. Mas me lembro com certeza do candidato a presidente Cristiano Machado que no dizer da época ficou “arrastando caixão”. Uma decepção para a eleitora iniciante.
Outra coisa que a gente esquece, porque muda muito, é a moeda brasileira. Tento lembrar a que vinha antes do real. Cruzeiro, cruzeiro novo... Há mais tempo, os mil réis. Os tostões e os vinténs eram as moedas dos cofrinhos das crianças.
Meu irmão bem novinho ainda não pronunciava o erre das palavras. Nosso tio brincava com ele e, mostrando-lhe uma moeda, provocava-o: Diz rato, ratinho, ratão, p´rá ganhar um duzentão. Essa moeda era enorme, e para as crianças, parecia valer mais. Mas o mano não acertava e dizia: lato, latinho...
 Adão, o folclórico cortador de lenha da cidade, só aceitava o pagamento pelo seu trabalho com moedas de mil réis. Não aceitava as prateadas, fazia questão do dourado.
Meu pai tinha um pequeno cofre de madeira que ia enchendo de moedas de mil réis para os presentes de Natal. Nós os sacudíamos de vez em quando, calculando seu peso. Os  salários de funcionários públicos repetiam-se ano após ano sem aumento. Ficava fácil prever a receita, e o orçamento de nossa família era calculado de acordo. Mas impossível prever as despesas extraordinárias por conta de doenças e outros transtornos. Nosso presente de Natal, entretanto, nunca falhava, ficava sempre garantido.
As contas de armazém, anotadas em cadernetas, eram pagas mensalmente. Mas não havia inflação, e os preços dos produtos consumidos eram os mesmos do começo ao fim do ano.
Uma vida simples, mas tinha o seu encanto. Para comemorar os aniversários das crianças, não faltava o bolo e alguns docinhos, às vezes rapaduras partidas e enroladas em papéis de seda de diversas cores, com franjas recortadas. Davam o tom alegre à mesa.
Depois, muito tempo depois, veio a inflação, as compras a crédito, os empréstimos. Quando comprei meu primeiro carro – um dauphine – foi financiado a longo prazo. Meu irmão também trocara o seu por outro novo, nessas condições que já eram as de agora. Meu pai se assustou e disse: “Fui pobre toda a vida, mas tenho filhos milionários: eles devem milhões...” Ele tinha um grande senso de humor...
A economia mudou a partir da vontade de gastar antes de receber. A inflação foi aumentando, aumentando. Lembro que ao preencher cheques a gente escrevia um mundo de zeros. Qualquer comprinha custava uns mil e tantos cruzeiros.
Funcionários públicos e empregados de empresas privadas, logo ao receber o salário do mês acorriam aos mercados para fazer seus mantimentos. No dia seguinte os preços já estariam mais altos, pois a maquininha não parava nunca de reajustar os valores. As despensas tornaram-se peças indispensáveis nas casas de família.
A poupança teve seus dias de glória. Os juros favoreciam do lado do cliente também, uma raridade hoje em dia. Mas veio o Collor no seu combate aos Marajás confiscando os depósitos bancários.
Veio o Real, e só tirar os zeros dos cheques já foi um alívio. Mas a moda de gastar antes de adquirir, e os desmandos dos governantes, nos trouxeram esta triste realidade: estamos falidos.
Que fazer? Começar tudo de novo. A vida é urgência. E viver é lutar.



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

TRAVESSURAS DE "EL NIÑO"





Agora não há perigo de faltar assunto. Quando duas pessoas conhecidas se encontram lado a lado em salas de espera ou fila de banco, falar do tempo enche os espaços, pois se não são novidades – todo o dia chove – as circunstâncias mudam um pouco. Ora é o granizo destelhando casas, ora as ruas e estradas  alagadas e cheias de buracos dificultando o trânsito, quando não é a roupa molhada que não tem jeito de secar. Donas de casa, então, essas reclamam bastante. Sem falar nas enchentes...
Nossa primavera, este ano, esperada com tanto ânimo como desfecho de um inverno cheio de vaivéns na temperatura e na cara do tempo – verão em julho, imaginem! Pois é, agora ela surge com raios, trovões e promessas de ventanias em nossa região.
Mas não há um dia igual ao outro. Cada manhã, à chegada da Lígia, eu pergunto se está frio ou faz calor, se chove ou tem sol, tudo é uma incógnita. Guio-me pelo que ela está vestindo, japona pesada ou blusa leve, varia muito.
Acho até graça quando observo a vitrine de uma loja de modas nova que prometia tantas novidades de inverno. De manhã, aparecem roupas quentes, e à tarde seus manequins já mudaram para estações mais amenas. Pobres proprietárias! Precisam estar bem atentas para a demanda de sua freguesia.
Mesmo assim, temos de pôr as mãos para o céu e agradecer a Deus por nossa cidade não ter sofrido males maiores, nem enchentes nem deslizamentos. Nosso solo é firme, e os ventos frios servem é para enrijecer ainda mais nossa têmpera de gaúchos dos pampas sul-riograndenses.
O que vem acontecendo este ano, não falando em economia e política, é por culpa de El Nino. Dá para entender por que o chamam assim. É um menino p´rá lá de travesso. O terremoto no Chile deve ter tido sua mão, não sei, não entendo de meteorologia, mas... Destruição de centenas de casas em diversas cidades da Região Sul, pessoas perdendo tudo, teto e o que estava dentro. Anos e anos para adquirir esses bens, e de uma hora para outra lá se vai tudo água abaixo. Em geral, essas catástrofes acontecem onde moram pessoas humildes, trabalhadores de baixo salário, pessoas que mal conseguem ficar em dia com o projeto Minha Casa, Minha Vida. Agora o governo está retomando os imóveis de quem não paga por mais de três meses. Sanar as dívidas de que jeito? E o desemprego aumentando...
Enquanto isso, os cidadãos deste país procuram adaptar-se não só às mudanças climáticas como às novas leis que, via de regra, não os beneficiam. Pelo contrário, estão exigindo de sua parte mais e mais sacrifícios. Mas, se é para que o Brasil volte a ser respeitado como país livre e bom pagador, e possa disponibilizar com plenitude os serviços indispensáveis a seu povo – educação, saúde e segurança – tudo bem. Vamos viver dentro da realidade, produzindo mais do que consumimos para equilibrar as finanças. E compartilhando do que temos com quem mais precisa.
O bom é saber que o crime não compensa. E todo dia novos figurões que viviam nas alturas lesando nossos bens públicos agora estão algemados e seguindo para o cativeiro. E aqui fora, no núcleo da classe média baixa e dos pobres, como nas novelas da Globo, é onde se notam mais risos e amor, numa vida simples de ajuda mútua e feliz.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

SETEMBRO GAÚCHO





Duvido que outro Estado do Brasil cultue tanto um mês como nós o fazemos com setembro. É o mês alvissareiro de novos dias, mais claros, luminosos, alegres, cheios de festas. Só quem vive os invernos gaúchos, o frio, noites longas e dias  que logo se acabam, pode apreciar as mudanças que ocorrem nesta época. Acordamos mais cedo com o canto dos pássaros, e pelas frestas das janelas podemos ver a claridade que o sol vai espalhando. Antes de pôr os pés fora da cama, já sentimos a urgência do que nos espera. Tanta coisa por fazer! Arejar a casa, deixar a “luz do céu entrar”, tirar o mofo das roupas, das paredes... E sair, porque o colorido das ruas e aquele ar morninho nos chamam para o convívio dos irmãos.
Aquelas árvores que pareciam mortas há pouco já ostentam novas folhas. Com uma luminosidade própria, um verde transparente que só este comecinho de Primavera consegue exibir. É a mesma translucidez que percebo no olhar puro olhar do adolescente que espera muito da vida.
Os passarinhos parece que enlouquecem de tanta alegria. Logo aos primeiros alvores saem dos ninhos e fazem uma enorme algazarra junto a nossas janelas.
De vez em quando são os quero-queros que passam em bandos ruidosos em busca de espaços mais amplos nas nossas coxilhas.
Mas ainda não se ouvem os cascos de cavalos desfilando pelas ruas. Tal como aconteceu na Semana da Pátria, a ausência dos tambores, do bando alegre de estudantes mostrando a pujança de nossa juventude – nossa esperança de futuro – foi uma nota triste no cenário gaúcho.
Entretanto, temos razões para animar-nos. Nosso Estado, este coração pulsante na pontinha sul do mapa do Brasil, é o berço de gente brava que não se entrega diante das adversidades. Nossos campos verdejantes, vales, coxilhas – agora recebendo o toque de arte das geadas -, o gado pastando tranquilamente, de fazer inveja aos apressados e angustiados humanos; as culturas de grãos e outras crescendo sem desfazer as expectativas mais otimistas; e este céu tão azul que inspira nossos poetas e cantadores, tudo isso nos enche de orgulho e alegria.
Por isso, aviem-se, cultores de nossas tradições. Botas e bombachas, vestidos de prenda e saias de armação, arreios e esporas: fora já do armário! É hora de festejar o Rio Grande, esta terra “onde tudo que se planta cresce. E o que mais floresce é o amor.”
Quem suportou os longos anos da Guerra Farroupilha sem perder sua dignidade e bravura, não é agora que vai entregar-se às crises do país que parecem insuperáveis.
A alma gaúcha renasce a cada mês de setembro.  E continuaremos sendo o celeiro do Brasil, com nosso trabalho, nossos sonhos, nosso empenho

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MODERNISMOS





Era o casal mais idoso da quadra. Beirando os setenta. Os demais moradores, famílias com filhos pequenos, passavam a maior parte do dia sumidos. Os adultos no trabalho, e as crianças e jovens estudando. Por isso frequentemente batiam à sua porta, quando uma jovem mãe vinha recomendar um filhinho a seus cuidados, porque a empregada ainda não chegara. Ou uma  jovem procurava pela chave da casa que deviam ter-lhe deixado ali. Coisas de vizinhos.
Dona Isaura servia a todos de boa vontade, o mesmo não acontecendo com seu Aníbal que não gostava de ser incomodado. Desde que sofrera aquele sequestro relâmpago, há anos, ele ficara desconfiado de tudo e de todos. Aposentou-se e passava o inverno de pijama e roupão.  Era preciso a esposa observar-lhe que já era hora de usar bermuda e camiseta quando começava o calor. Aí ele se entretinha pelo pátio procurando formigueiros e matando lesmas. Dona Isaura sorria satisfeita de vê-lo assim ocupado, em vez de só andar de radinho de pilha colado ao ouvido, sofrendo com as desventuras do Grêmio. Ela suspirava recordando o quanto ele fora alegre e brincalhão no tempo em que viajava com sua caminhonete de entregas pelos municípios vizinhos. Por onde passava ia fazendo amigos. E não negava caronas pelo caminho. Cuidado, ela vivia dizendo. Até que o assaltaram, roubando a carga, o dinheiro e deixando-o ferido e amarrado a uma árvore longe da estrada. Só dois dias depois foram encontrá-lo em estado de choque. Alguma coisa morreu dentro dele. Ficou arredio e  desde então preferia ficar sempre em de casa. Não saía nem para visitar os filhos. Assim, todo o serviço de rua ficou para dona Isaura que teve de aprender a lidar com caixas eletrônicos, cartões de crédito, compras e pagamentos. Na hora de aplicar as economias, ela precisava informar-se do melhor sistema, entre CDBs, FRF, até descobrir o que fosse isento do CPMF. Quando precisavam de algum conserto doméstico, ela é que procurava o profissional. Chegou a organizar uma agenda com endereços por serviços em ordem alfabética, dando graças a Deus que quase todos, marceneiros, encanadores, eletricistas, jardineiros e até empregadas domésticas tinham telefone celular.
Quando já ia saindo de carro da garagem, dona Isaura ouviu seu Aníbal fazer uma encomenda: Me traz veneno para formiga. Que tipo, cortadeiras ou aquelas que correm de um lado para outro sem carregar nada? Aquelas são as dançarinas, diz ele. Vendo que nada sobrara de suas lindas violetas, não foi preciso mais explicações. É para as cortadeiras.
À tardinha ela foi aguar as flores da frente. Marilda ia passando com sua graça juvenil. Oi, dona Isaura. Tudo bem? Tudo bem, e o namoro continua firme? A menina chegou mais perto e falou baixinho: Ainda não rolou nada, só em janeiro é que vamos transar. Ainda aturdida com a novidade – agora marcam data pra isso? – a senhora entrou em casa e esbarrou no marido que ouvira a conversa. Notou que sorria. Nisso a campanhinha tocou, e ele desapareceu como um fantasma. Vizinha, diz Rosélia, tenho vergonha, mas preciso de panela para uma feijoada. Meu novo amor vai chegar e está de aniversário. E se não for pedir demais, pode me emprestar este vaso com as flores? Que lindas! Vai ficar bonito sobre a mesa. Já pus candelabros com velas vermelhas. Que acha? Meus filhos foram lá para a minha irmã. Hoje a noite é minha.

Dona Isaura depois comentou com o marido: Ela troca de parceiros como se fosse de carro do ano. Será que desta vez ela acerta? Seu Aníbal dirige-se aos formigueiros com o veneno. Mas sobre o ombro ainda diz: Essa é das dançarinas.