terça-feira, 17 de setembro de 2013

PRIMAVERA CHEGANDO





Ao dobrar aquela esquina, o passante recebe em cheio o perfume das frísias do jardim.
Noutro canteiro, os pés baixinhos de azálea, de tão carregados de flores, parecem garotinhas roliças vestidas de prenda com saia de muita armação.  As flores de laranjeira da vizinha renovam nosso gostinho de estar viva.
Os pássaros cantam alegres, e a vida retoma um ritmo de festa no colorido do entardecer.
Já se pode contemplar o céu estrelado sem estremecer de frio. E a lua, que nos últimos dias não tem cessado de surpreender-nos, vem surgido com um acompanhante bem próximo. Parece uma estrela, mas dizem que é o planeta Vênus, ou Marte. Quem sabe?
Novos caminhantes ensaiam seus primeiros passos nas calçadas da vizinhança. Vultinhos, que no inverno eram  bebês envoltos em mantas,  agora já mostram seu sorriso inocente  enquanto se equilibram nas perninhas ainda bamboleantes.
Vovôs e vovós se animam a sair à rua, procurando os bancos do calçadão para uma parada e um bom papo, sem medo de resfriados.
Os jovens já podem namorar à luz das estrelas.
Para apreciar melhor esta primavera que está chegando, é só olhar os canteiros de nossas praças e avenidas cheios de flores, amores perfeitos, bocas de leão, alegrias de jardim, cravinas -  que beleza! A gente fica alegre e sente que a vida renasce, e as tristezas dão uma trégua.
Nossa cidade criou alma nova. O trânsito, o comércio, as pessoas nas ruas têm uma  energia que traz grandes esperanças. De progresso e de paz, frutos da solidariedade, de caminhar de mãos dadas, povo e seus governantes.
É preciso acreditar nos administradores da cidade. Isso está acontecendo. E acreditando, os munícipes têm gosto em colaborar para o bem comum. Respeitando as áreas públicas, os bancos das praças, as calçadas. Para que todos se sintam felizes em ser parte dessa cidade cartão postal no Portal do Pampa. Cheia de belezas e riquezas naturais que aprendemos a honrar e conservar.
Parabéns, caro prefeito Otomar, seus colaboradores, edis e voluntários, que estão mostrando que é possível mudar e levantar nossa auto estima que esteve tão abalada.

Novos tempos, nova vida. Deus seja louvado! 

sábado, 7 de setembro de 2013

EM TORNO DA MESA





Que bom viver em cidade do interior, ter tudo à mão, mais ou menos perto de pontos estratégicos, local de trabalho, escolas, Supermercados, Farmácias, Bancos e Igrejas. Não depender de enormes filas de ônibus! Outra grande vantagem: poder almoçar em casa antes do turno da tarde. Sentar à mesa com os familiares e ter aquelas conversas que só precisam de meias palavras - todos se entendem.  Melhor ainda aos domingos e feriados quando a gente pode ficar mais tempo prolongando a reunião, sem pressa de acabar. Felizmente nesses dias  é a folga da cozinheira, a louça pode esperar na pia sem prejuízos a ninguém.
Nas grandes cidades quantas famílias nem mesa têm. Cada um almoça perto de seu local de trabalho, e quando em casa servem o prato e vão sentar à frente da televisão. Cada um no seu mundo, os diálogos são raros.
Quando estudantes, nas férias as refeições da família ficavam bem animadas, cada um falando de seus estudos e das idéias de como modificar o mundo para melhor. Todos éramos a favor dos pobres e desvalidos. Uma tia se horrorizava e dizia: “Vocês são comunistas”. Não me lembro de nossas propostas, mas do guisadinho feito pela Marcina não consigo esquecer. Era picado na medida certa, muito melhor do que o fazem agora essas máquinas modernas. E que gostinho o dele, com o molho natural, da própria carne, que ela sabia fazer fritando a cebola.
Nos domingos, frango assado era o prato principal, e não sei como naquele tempo ele era suficiente para toda a família, atendendo ao gosto de cada um. Carne clara, carne escura, coxas, peito, até miúdos que eram disputados pacificamente. Eu preferia o fígado.
A salada de maionese da casa dos Dindos não tinha igual. Não descobri o segredo, mas lembro que o frango assado sobrava para o jantar. Era quando o Dindo distribuía as entradas para o cinema e pedia que fôssemos antes deles. Para guardar os lugares. Lá chegando era certo encontramos Maria, João Santos e seus filhos, amigos diletos dos tios. Vizinhos de poltronas, sempre.
No ano que passei nos Gomes –  eu ajudava a filha única deles, minha grande amiga, nos estudos – foi quando saí da minha magreza de então para vários quilos a mais. Pudera! As mulheres da família cozinhavam bem demais. Aos domingos não faltava a massa feita em casa com um molho que jamais alguém conseguiu fazer. Nem nas Casas de Massa em São Paulo encontrei semelhante.
O pai da minha amiga assinava a revista X-9, de contos policiais. Tive pilhas delas à minha disposição. Antes do almoço eu ficava lendo aqueles enredos fascinantes, dos melhores autores de ficção detetivesca da época, enquanto sentia os cheiros das gostosuras que aconteciam lá na cozinha. Até hoje salivo ao lembrá-los. E quando engravidei do meu primogênito, o único desejo que eu tive – fui uma gestante muito comportada – foram aquelas massas da Dona Alice. Mais tarde visitei essa família no Rio de Janeiro, almocei com eles, e a massa já não era feita em casa. Gostosa por causa do molho que era o mesmo, mas lembrei com saudades aquelas tiras perfeitas que elas cortavam com tanta maestria. Somente com a faca. Duvido que os “chefs” de agora consigam essa proeza.
Hoje, aposentada, tenho o luxo de permanecer à mesa enquanto minha fiel doméstica almoça – ela sempre espera que eu termine para depois servir-se- e ali conversamos sobre os assuntos do momento e as tramas das novelas.  Fico sabendo tanta coisa da vida na periferia! Como os “auxiliares de serviços gerais” sobrevivem e conseguem realizar seus sonhos mais urgentes. Famílias que se endividam e caem para sempre no SPC, mas não deixam de comemorar bodas, quinze anos, casamentos de filhos. As mocinhas parecendo top model com as jaquetinhas de couro vegetal ou napa ou coisa parecida. Mas o efeito é o mesmo. Algumas viram garotas de programa. Os rapazes caem nas drogas, fazem parte das gangues, volta e meia a polícia faz blitz por lá. É o jeito de gozar daquilo que os afortunados ganham de graça, já nasceram assim. Mas é lá, também, que se encontram as fiéis acompanhantes de idosos e de doentes, as empregadas domésticas com ótimas referências, os ovos crioulos e o leite puro de tambos bem cuidados. O  técnico sem diploma que conserta eletrodomésticos bem rápido e sem demora. É só dar o grito, e eles aparecem. Benza-os Deus.
Fico pensando na grande verdade: não é só de pão que vive o homem.  Imagino a gostosura do pão e dos peixes que Jesus comia com os apóstolos. Tendo por tempero a sua palavra, o seu olhar de amor, os gestos.
Que refeição bem gostosa foi aquela que Ele preparou para os amigos pescadores, no milagre da grande pescaria. Enquanto eles chegavam de barco às margens, Cristo assava os peixes para mitigar-lhes a fome e o cansaço. Na missa ao ouvir esse Evangelho, fico louca de fome.
Vou agora a um almoço em família – aniversário de um sobrinho querido. Desde já antegozo o prazer do churrasco e acompanhamentos, mas principalmente o reencontro com  familiares e amigos que muita coisa têm a partilhar.

Uma mesa cheia. Sem pressa de levantar. Que bom!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

AMARRANDO AS PONTAS







Passei por tantas fases na vida – bem longa, com a graça de Deus - que preciso seccioná-las para desfrutar plenamente de suas lembranças. E os reencontros com pessoas dessa ou daquela época ajudam no processo.
É verdade que o mundo gira, está sempre rodando, e nós nessa dança, agora cada vez mais frenética, precisamos apegar-nos a alguma coisa mais sólida para não cair.
Meus livros de cabeceira variavam de acordo com minha própria evolução. Li muito Cronin, nos momentos de idealismo e de fé na humanidade. O personagem de Chaves do Reino, um padre de oitenta anos morando na China na maior pobreza, foi um dos heróis mais cotados. E os médicos ingleses que o autor colocava em localidades humildes, sem grandes recursos a não ser a sua capacidade de acertar pela própria cabeça e senso de humanidade. Lembrei-me deles nos episódios de agora focando médicos cubanos vindo para o Brasil. O que pensar disso? Se me perguntarem na rua, nas pesquisas de opinião, nem sei o que dizer. Certo ou errado?  Na Inglaterra dos tempos de Cronin, os recém formados tinham de passar um tempo no interior, em localidades humildes, para depois terem o direito de ir para as cidades maiores. Assim mesmo, submetendo-se a provas teóricas e práticas e aguardando uma vaga. Era o pagamento pelo estudo em universidade pública. Mas nós somos Brasil, e aqui tudo é diferente, os ricos estudando de graça, e os mais pobres tendo de pagar instituições particulares. E os que podem mais estabelecendo-se nos melhores lugares após a formatura, com os clientes  bem colocados na vida.

Mas não era isso que eu queria falar hoje, e sim nos reencontros que acontecem quando a gente menos espera. As redes sociais – virtuais – facilitam muito. Pessoas que saíram de nosso meio para outros destinos, quantos anos se passaram, e agora reaparecem. Pois este ano de 2013, que para muitos pressagia desastres, trouxe-me uma grata surpresa: o reencontro com minha afilhadinha do coração, aquela que na sua tenra idade tive o privilégio de acolher como filha. Imprevistos nos separaram, muitas lágrimas e saudades. Foram anos e anos de procura, e a Internet ajudou e muito a encontrá-la. Agora nos correspondemos seguidamente, por enquanto de maneira virtual, mas com promessa de uma visita no próximo verão. São pedaços de minha vida que se romperam e agora conseguiram recompor-se. Não inteiramente, pois houve muitas mudanças de parte a parte, mas estou-me esforçando para amarrar as pontas que escaparam e fazer um nó bem forte para que não mais se rompam.  Confio em Deus que me ajude.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

NOSSO PAI DE CADA DIA





Neste último Dia dos Pais, fiquei lembrando as pequeninas coisas que caracterizavam nosso pai, essa figura querida que lembramos com tanto carinho. Lembro-me dele à cabeceira da mesa presidindo as refeições. Tinha um modo elegante de servir-se, usando garfo e faca como mandam as etiquetas.  Ele veio de um lar muito simples, de gente da campanha. Quem o ensinou?
Gostava de vê-lo pôr farinha no feijão e misturá-lo com laranja de umbigo.
Após o almoço, cada um de nós chegava até ele para receber a colherada de emulsão de Scott seguida de um gomo da fruta. Assim, não dava para sentir o gosto do remédio que era tomado sem queixa. Papai temia as gripes e gostava de saber-nos prevenidos contra elas. Além das preocupações com a doença, as despesas com os remédios ameaçavam o modesto orçamento da família.
Papai gostava de frutas, e seu pequeno pomar tinha um pessegueiro (seu orgulho) que dava pêssegos gostosíssimos. Que só ele apanhava e fazia questão de oferecer-nos com muito orgulho e satisfação. O primeiro colhido na época ficava um dia ou dois no guarda-louça da cozinha esperando amadurecer bem. Quando chegava a hora, ele descascava-o com todo o  cuidado para reparti-lo conosco. Doty, a mais gulosa, não via a hora de poder comê-los inteirinhos.
Nas manhãs de domingo, antes da Missa das dez, nós o víamos fazendo a barba diante do espelho pendurado na parede da copa-cozinha. Noutras manhãs, perdíamos o “espetáculo”, porque era a hora de ir à escola. Tão pequeno e ficava bem alto, fora de nosso alcance. O barbeador, antes do descartável de hoje, um aparelho que se abria ao apertá-lo para colocar a lâmina, não era a mais conhecida Gilette, mas da marca Valete, mais resistente. Sua barba, muito densa e forte assim o exigia. Aquelas lâminas eram poupadas e afiadas numa tira de couro guardada junto com seu kit de barba numa caixa de goiabada – de madeira. Ah, lembrei-me de outra cena doméstica que ele protagonizava. Éramos loucos por açúcar, e quando não havia sobremesa, ele abria uma embalagem desse doce. Nós ficávamos na expectativa, salivando, enquanto ele tirava com uma faca os grampos da tampa. Colocava a barra num prato raso e ia partindo fatia por fatia, enquanto mamãe lhe alcançava nossos pratos.
Seu senso de economia funcionava admiravelmente. Pudera! Ele foi um ótimo profissional, contador da Prefeitura, perito em fazer orçamentos. E no lar nada de essencial nos faltava, mas ele combatia todo o desperdício. Dava gosto ver seu prato depois das refeições. Costumava dizer, fazendo graça, que funcionário público tem que roer os ossos, e assim ele fazia.
O expediente na Prefeitura era em dois turnos, o da tarde começando às duas horas. Depois do almoço, sobrava-lhe um tempinho para uma soneca de janelas abertas para não perder a hora. Ele e a mamãe ficavam ouvindo as novelas do rádio deitados. Duvido que soubessem da trama a metade, pois o sono atrapalhava. Quando se ouvia o barulho das chaves tilintando no molho que ele usava no cinto, sabíamos que ele já levantara e estava pronto para retornar ao trabalho.
Voltava à tardinha, e então se dedicava aos assuntos do lar. Conferir o caderno do armazém, ouvir os relatos do dia dos filhos e da esposa, assinar os boletins do colégio – e que satisfação a minha quando lhe apresentava as notas altas! Papai se mostrava satisfeito, mas nunca me incentivou a competir com os colegas pelo primeiro lugar. E eu lhe agradeço também por mais esse traço de seu caráter. Ele sempre nos deixou escolher nossos caminhos, sem pressão, mas infundindo-nos sua confiança. Sempre dizia que deixaria como nossa herança a educação. E assim foi, mas muito mais do que isso. Todos os  valores que norteiam nossos caminhos.
À noite, antes de irmos para a cama, havia o beijo e o pedido de bênção. Dormíamos tranquilos, não antes de ouvi-lo passar as trancas nas portas da frente e da cozinha e verificar os ferrolhos das janelas. Nas noites de tempestade seus cuidados com a segurança da casa eram ainda maiores.
Domingos de visita aos avós, caminhando no meio da rua, nós na frente e eles seguindo de braço dado atrás, naquele diálogo interminável de um casal feliz.
Ou nos levava a um piquenique. A pé, nas cercanias da cidade. Ele fazia um churrasco, e era tudo tão gostoso.
Pequenos flashs ficam pipocando na minha memória, e eu vejo aquela figura inesquecível trepado numa cadeira meio capenga, com a doce companheira firmando-a, enquanto ele trocava alguma lâmpada queimada. Ou trocando fuzíveis no “contador” da sala., que estavam sempre queimando. Nossa rede elétrica era um desastre na época. Noutros momentos, recordo-o puxando o balde do poço onde ele colocara garrafas de refrigerante ou apenas água para refrigerar. As bebidas ficavam na temperatura certa para os nossos suaves verões.
Estas são lembranças apenas de minha infância e começo da adolescência. Quando todos, pais e irmãos coabitávamos debaixo daquele teto abençoado.
A vida nos levou a outros lares, e a figura do nosso pai foi ganhando novas dimensões, de avô, de amigo, de companheiro em todas as horas, de exemplo. E enchendo-nos de muito carinho e orgulho de sermos seus filhos.
Posso dizer com certeza que nunca nenhum de nós, seus filhos, teve crises de rebeldia na adolescência. Nunca o recriminamos por nada. E todos os dias até hoje, lhe agradecemos, e a nossa querida mãe, pelos caminhos que nos ajudaram a escolher na vida. Sermos seus filhos foi um “privilégio”, como diz minha querida amiga Rita.



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

AS COISAS TÊM ALMA?






Coisa tem alma? Depende. Às vezes me surpreendo ouvindo o que me dizem objetos que acumulei na vida e me contam estórias... Eles me remetem a tempos idos, lembram pessoas e fatos que não consigo ou não desejo esquecer.
Rezando diante da imagem do Coração de Jesus, devotamente colocado acima da lareira da sala, revejo com os olhos da saudade minha tia, de quem o herdei, rezando diante dele. E sinto que aquela imagem, na sua estrutura de papel, vidro e moldura, não é apenas um objeto inerte. Ele guarda tanta energia, tanta fé e também muitas lágrimas e pedidos de ajuda.  Por isso minhas orações me dão a esperança de serem atendidas.
A vida tem suas fases, e da infância passamos à juventude, à maturidade, à velhice. Mas sempre fica alguma coisa de cada etapa manifestando-se em nossa maneira de agir e encarar as coisas. Por isso aceito certas manias que estou adquirindo e o meu gosto pelas relíquias que me cercam.
Nestas noites frias de nosso inverno, achei bem escondidinha num baú uma peça de meu enxoval de noiva, que passei a usar agora. Uma “maianita” (assim se dizia e não sei de que língua ela vem) tricotada pela Chica em nossos serões de conversa e cafezinho, no antigo Hotel do Comércio. Revejo com saudade as figuras queridas da Elsa, da Amélia, da Lindóia, da Ana Maria, às vezes a Norma, depois que atendia no balcão de doces do cinema de seu pai. Todas já disseram seu adeus definitivo. Fazíamos tricô, e as conversas sobre o mundo e nossas vidas, cada uma exercendo uma profissão, bancária, comerciária, professora, tricoteira, eram variadas. Não se resumiam em falar nos alunos, como em reuniões de colegas minhas, também apaixonadas pela profissão. Mas nas noites em que o cinema exibia novos filmes, não contassem comigo e com a Elsa. Era um de nossos hobbies.
Hoje o sensato é ficar em casa para fugir do frio e da umidade do inverno. Cada uma na sua casinha, como diz minha mana Duty, e a companhia são os personagens das novelas. E se todas as irmãs, agora viúvas e com os filhos criados, passassem a morar junto, não seria o ideal? Mas como abandonar nosso cantinho, nossos guardados que tentamos diminuir a cada faxina, mas que formam o relicário de nossas vidas?
São dilemas que a gente vai empurrando com a barriga até que eles se resolvam por si mesmos. Até lá, vamos conservar nossas lembranças e a cada dia tirar o pó dos objetos que as representam. Pendurados nas paredes, colocados de enfeite na mesinha da sala, sobre a cômoda do quarto, nas cristaleiras e armários de livros, ninguém os tire dali.  Eles são pedaços de nós e falam de coisas que só nós entendemos.


sábado, 27 de julho de 2013

NOVAS ESPERANÇAS





Este ano, de 2013, não cessa de surpreender-nos. Cada mês, cada semana, novidades acontecem. Coisas que a gente nem imaginava. Umas boas, outras trágicas, como o incêndio da Boate Kiss. Mas tudo isso ficou em segundo plano nestes últimos dias. A vinda do Papa para a Jornada Mundial da Juventude abalou o país. De vibração, comoção, solidariedade, beleza. Foi como S. Francisco estivesse entre nós. Com o seu amor aos pobres, aos desvalidos e injustiçados. Ou o próprio carisma de Jesus Cristo se expressasse por ele nas várias aparições oficiais e espontâneas. Um chefe poderoso dispensando privilégios e confortos, desejando estar em contato direto com o povo, acariciando criancinhas. Dando esperanças a este povo tão machucado pelos desmandos dos governantes, esquecido em seus anseios mais básicos, saúde, segurança, educação. E como um pai amoroso aprovou as manifestações de rua e criticou a “pacificação” das favelas. Adorei o incentivo e suas palavras: “ A grandeza de  uma nação só pode ser medida a partir de como ela trata seus pobres, como ela soluciona a questão das favelas.”
Confesso que revigorei minha fé na Igreja Católica. Senti-me orgulhosa de estar sob o comando de um chefe tão espetacular na sua simplicidade, pureza de intenções e piedade. Que mostrou estar em casa onde quer que o roteiro do evento o tenha levado. No Rio, na Aparecida, pelas ruas, nos altares. Foi um raio de sol que brilhou sobre nós aquecendo-nos a alma e nos aproximando mais dos irmãos. Que exemplos maravilhosos de solidariedade esta Jornada nos trouxe. A Juventude tem-nos surpreendido. Nada de alienados como os mais velhos os julgávamos até há pouco. Os jovens estão conscientes da realidade, dispostos à luta pelas transformações que se fazem necessárias em nosso país. Podemos agora gozar mais tranquilos nossas aposentadorias, apenas rezar e dar-lhes a força de nosso carinho e compreensão. Pois em suas mãos está o futuro do Brasil. Mais justo, mais humano, mais próspero e feliz.
Outra novidade que nos tirou da cama sem queixas foi a neve em Caçapava do Sul. Começando na madrugada fria que não nos impediu de apreciá-la e tirar belas fotos. Ficamos famosos nos noticiários, jornais, revistas e TV. Parece que há trinta anos não acontecia. Minha irmã da Rua 7 se queixa da falta dos passarinhos na árvore da calçada. Eles faziam uma alegre algazarra nos finais de tarde ao se recolherem aos ninhos. Parece que foram buscar plagas mais quentes. Mas eles voltam, para desgosto dos carros ali estacionados. A sujeira dos capôs não sai com pouca água, é preciso esfregar...
Tudo isso nos trouxe umas férias inesperadas das tristes notícias. Foi um intervalo valioso em que pudemos apreciar melhor a vida e acreditar que o bem ainda existe e pode vencer o mal. Nossa situação política, econômica e moral é alarmante, mas, como disse o nosso querido Papa, temos que ter esperanças. Deus é pai. Não estamos sós.                   

sábado, 13 de julho de 2013

A SOGRA DO WALCYR

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 Em nome do bom senso, é difícil acreditar que haja sogras como a personagem do Walcyr na novela Amor à Vida. Uma megera! Convidada, a contragosto do genro, para morar com a filha na casa da família, ela não esquece as velhas implicâncias com ele. E continua a hostilizá-lo, pedir-lhe satisfações e colocar espiões à sua volta para flagrá-lo em mais uma infidelidade conjugal. Até no    seu ambiente de trabalho, o Hospital que ele dirige.
Pois eu conheci alguém que parece ter sido a inspiração para essa figura. Era a Dona Mimosa, que de mimosa não tinha nada. Viúva pobre, criou a filha única como uma princesinha bem vestida (a mãe era exímia costureira), e preparou-a desde cedo para um  casamento de sucesso. A mocinha era meiga e bem bonitinha, e com os truques da mãe – estar no lugar certo na hora certa e agir certo – conseguiu um bom partido. Ele era diretor de importante instituição pública do Estado. Pois a sogra metia o bedelho até na repartição, convidando para o chá da tarde as secretárias mais influentes e delas extraindo os segredos que lhe interessavam. Daí a uma rede de intrigas e fofocas foi um passo. Pode-se dizer que ela foi a responsável por muitas decisões oficiais do pobre genro...
Um dia destes, recordando essa personagem intrigante, minha mana lembrou uma de suas façanhas. Nossa tia era amiga desde jovem da filha dela e continuavam seu relacionamento visitando-se com frequência, na casa de uma, na capital, ou da outra, no interior. Numa ocasião, Dona Mimosa se queixava de que titia estava demorando a aparecer por lá. E descobriu que o motivo foram nossas doenças de criança que fizeram nossa Dinda vir em socorro da mãe atribulada. Pois a velhinha, enciumada com essa preferência, escreveu uma violenta carta que ficou na história. Em certo trecho dizia assim: “Ondina, quando te juntas com a tua mana e a filharada dela, é como construíres uma arca de Noé só para vocês. O resto do mundo pode soçobrar que nem estás ligando.” Ficamos encantadas com a expressão “soçobrar” que a velhinha empregou. Ela conhecia o poder das palavras e usava as expressões lidas nos romances da época, cheio de palavras pomposas!
Hoje somos as fontes mais antigas para essas heranças históricas. Quando procuramos alguém para confirmar nossas lembranças, não a encontramos mais. Somos sobreviventes de um mundo que ficou para trás. Como no filme Farherneit, do livro de mesmo nome, história de uma sociedade do futuro que proibia livros e leituras, e os rebeldes – escondidos em florestas -  decoravam as obras famosas, passando-as oralmente aos mais novos que tinham de também de decorá-las, porque os livros  eram incendiados em grandes fogueiras pelas brigadas do governo.
Tal como eles, mas sem a mesma pressão e sofrimento, pelo contrário, quando hoje nos reunimos em aniversários, casamentos e até mortes, os assuntos remontam a décadas atrás. E as lembranças se reacendem e se complementam. É quando uma das manas chega divertida dizendo: Trago hoje “novidades” antigas. O bom é que os mais novos se interessam, ficam ouvindo e depois passarão adiante. Assim, a tradição oral não vai morrer.
Por isso achei interessante registrar esse episódio da sogra e ao mesmo tempo confirmar que a arte imita a vida. E a inspiração se encontra em toda a parte...