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quarta-feira, 4 de maio de 2016

MÃES, ONTEM E HOJE






Lembro nesta data Dona Chiquinha, a parteira de outras eras. Ela foi por muitas décadas a figura central dos nascimentos nas famílias caçapavanas. Sempre de preto - costume das viúvas de então - ela chegava com uma maleta que as crianças da casa tinham a maior curiosidade em saber o que continha. Mas continuava o mistério, pois só era aberta no quarto da parturiente. O médico era chamado apenas nos casos complicados.
Na casa de meus pais, todos os anos, alguma tia vinha da campanha para o nascimento de mais um filho. Uma delas teve dez, e eu pude assistir, do lado de fora do quarto, a uma meia dúzia de primos que nasceram ali.
A noite transcorria com as mulheres da casa transitando entre o quarto fechado e a cozinha, carregando bandejas de chá e bolachas, chaleiras com água quente, e muitas vezes um café completo para alimentar a parteira nas longas noites de espera. A conversa rolava solta lá dentro, girando sobre casos de outros partos. Enquanto isso, a criançada ficava colada à porta tentando surpreender a chegada da cegonha.
Nos dias seguintes podíamos admirar o bebê e ver a mãe, aliviada e orgulhosa, recebendo as refeições na cama, de resguardo. Parece que levava mais de uma semana.  Caldo de galinha, canja, comidinha leve e café ou canjica com leite era o que não faltava. Para fortalecer e criar leite. Lembro tia Laura, que teve nove filhos, aproveitando esses dias para ler romances bem açucarados na cama, tendo ao seio o recém-nascido.
As crianças da casa eram encarregadas de participar o novo nascimento e para isso batiam de porta em porta da vizinhança: “A mãe mandou dizer que tem mais um menino – ou menina – às ordens.”
Seguiam-se as visitas das amigas e parentas para conhecer o bebê e trazer-lhe uma lembrancinha. Babeiros delicadamente bordados, sabonetes, talcos, toalhas macias, chupetas, não faltavam.
Minha mãe costumava acender álcool na banheirinha de latão, antes do banho. E nós éramos os espectadores divertidos que gostávamos de sentir aquele cheirinho misturado ao do talco, do sabonete e das roupinhas até então guardadas numa malinha perfumada.
Hoje esses rituais são mais simplificados, as crianças nascem nas Maternidades,  não há quase irmãos para receber o novo membro da família. E. Mamãe e papai têm sua carreira profissional para atender, vivemos em outro mundo. Mas o tempo dedicado à profissão é compensado pelo carinho e horas de aconchego com o filhinho. As noites mal dormidas dos primeiros tempos do bebê ainda castigam a nova mãezinha, mas ela agradece todos os dias a glória da maternidade vendo aquele serzinho amado crescer e aprender a viver. Ela sente que seu amor é o maior estímulo para seu desenvolvimento físico e emocional.
Quando observo minha netinha de dois anos às voltas com a mamadeira para as bonecas, usando as panelinhas e talheres para fazer comidinha e dar-lhes na boca, vejo que este mundo ainda tem conserto. Porque é o amor de mãe que vai mostrar o que vale uma vida, tratada como uma frágil plantinha que vai crescer, fortificar-se e dar frutos. E que esses vão ser da melhor qualidade.
Anna Zoé Cavalheiro




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