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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Enquanto Eu Puder Recordar

Eles não entendem. São jovens. Quando me vêem emocionada ao ouvir certas músicas de outros tempos, perguntam se estou chorando. São pedaços de mim, de minha vida, espalhados por aí. Que eu, em dado momento, reúno em ramalhetes de recordações. Rostos, casas, acontecimentos. Só agora consigo passar sem aquela dorzinha estranha pela morada onde criei meus filhos. Vejo-os pequenos brincando no pátio com os amigos. Ouço suas vozes infantis, tão doces para mim. E a casa paterna, ainda a percorro peça por peça no telão da saudade. Apesar de não ter ficado pedra sobre pedra daquele doce lar.
A música tem o dom de abrir comportas. Fases da vida são acionadas como por uma tecla no computador da memória. As time goes by (“Enquanto houver luar...”) me remete ao tempo em que acreditava no príncipe encantado. Os estudos, Cachoeira e a praça José Bonifácio. A banda do seu Rosinha no coreto tocando Gira, gira, gira, anda o mundo a girar.
São Sepé, os primeiros alunos, as serenatas, gente amiga e divertida. Santa Maria, a Gládis na janela com seus gatos angorás. A Casa de Chá do Taperinha. O cafezinho pingado. Maysa cantando sua tristeza.
A última Feira do Livro proporcionou-me, entre outras maravilhas, o prazer de reencontrar Doly Costa. Colega da Escola João Neves, já muito popular por seu bandoneon. Se não me levassem até ele, não o teria reconhecido. A idade faz destas coisas.  Eu também tive de apresentar-me. “A voz é a mesma, mas os cabelos...” Porém, às primeiras palavras, voltamos aos tempos idos. Em poucos minutos recordamos fatos de nossa vida de estudantes. As excursões de trem, quando íamos a Alegrete, Uruguaiana, Paso de Los Libres, S. Borja e outras cidades que nunca mais visitei. Lá apresentávamos o famoso orfeão da Escola, que fazia sucesso. Pudera! Diná Néri de regente. Foi aluna de Vila Lobos, no Rio. Durante o trajeto, as rodas nos trilhos parece que diziam jeca tatu, jeca tatu. Doly tocava Pampa Mia, Adiós Muchachos e outras músicas da época. Que até agora não consigo ouvir sem um aperto bem fundo. Tristeza? Não, somente emoção. Hoje ele é um músico famoso, mas continua com a simplicidade de sempre. Característica das grandes almas.
Quando reencontro antigas colegas da mesma época, nossos abraços demorados é como se não quisessem soltar-nos. Um passado feliz nos unindo. Quando nos perguntávamos, entre temerosas e esperançadas: Onde estaremos daqui a dez anos? Fazendo o quê?
As escolas de Caçapava. Os alunos inesquecíveis. Os professores. E o grupo de amigas do Café do Jacó nos domingos de manhã. O mesmo do tricô. “Moças feitas” como costumavam chamar-nos. Vão ficar para titias. Mas o inesperado aconteceu. Tive a honra de abrir a tampa do barricão. E quase todas me seguiram.
 O primeiro automóvel Dauphyne, cor de goiabada. O único que comprei zero quilômetro.


Os compromissos vão redobrando com a idade. Tantos erros.
Érico Veríssimo dizia que a vida não pode ser passada a limpo. O remédio, penso eu, é seguir adiante com firme propósito de acertar.
A convivência com os irmãos fazendo-se cada vez mais prazerosa. Somos galhos de uma mesma árvore que nos nutriu com a seiva do amor.
A paineira triste do inverno recordando um adeus. Pessegueiros em flor alegrando a paisagem no retorno das férias de julho. A lagoa adormecida que avistávamos da varanda, lá na saudosa Charqueada do Paredão dos Dindos. Como esquecer?
Nossos assuntos nunca se esgotam. Como dizia Mário Quintana: “A conversa dos velhos tem muitos parênteses, e os parênteses têm muitos velhos.”
Peço a Deus que me livre de isquemias, AVC, Alzheimer. Pois a vida sempre me parecerá uma bela história enquanto a puder recordar.

Varrendo as Folhas de Outono


É uma estação bonita, apesar da melancolia das calçadas cheias de folhas amarelas lembrando a vida que passou.
Vê-se a tristeza da mulher solitária, com a eterna vassoura, varrendo em vão as lembranças -  porque  elas voltam. Enquanto enxuga lágrimas furtivas que teimam em molhar seu rosto, o ar deslocado pelos veículos que passam devolvem à sua calçada aquelas mesmas folhas que ela há pouco expulsara.
Mas é outra a intenção daquele senhor de muitos invernos: colocá-las no lixo? Não! Elas devem retornar aos canteiros de folhagens e servirem de adubo a novas florações. É preciso pensar nas futuras primaveras, quando haverá outros jovens sonhando, outros seres se amando, outros bebês despertando para a vida.
Feliz dele que semeou amor e justiça e agora crê na bondade. Na vida que nunca morre, porque alguém há de vivê-la. Nos sonhos de justiça e liberdade que outros tornarão a sonhar. Na realidade a ser construída dia a dia pensando nos que virão depois de nós.
Esta brisa que entra pela janela, nas quietas horas da sesta de domingo, mais uma vez me faz indagar: onde ficava o Passinho da Aldeia de minha meninice, com seus cheiros de mato, borboletas voando, o murmúrio suave das águas empurrando barquinhos de papel cheios de sonhos e, por que não confessá-lo agora? Um bocado de medo da vida que corria à nossa frente?
Este ar que entra no quarto é como um hálito de criança – tão puro e refrescante! E me leva a crer que o lembrado Passinho da Aldeia está  exatamente sob a minha atual morada. Daí esta floração espontânea nos pequenos canteiros de tão pouca terra. Daí, quem sabe, a visitação constante de borboletas que perderam seu antigo “habitat” e beija-flores que sempre encontram alguma flor de cálice profundo onde mergulham seus sôfregos biquinhos.
O redemoinho das folhas que caem nas calçadas traz ecos do passado com apelos ao futuro.
É a mensagem do outono, e só poderá compreendê-la quem já viveu as estações anteriores. Mas principalmente aqueles que chegaram ao inverno sem jogar as folhas fora, convivendo com elas como um tributo à vida que não acaba, apenas toma outras formas. Renascendo a cada instante em outro verde, em outra flor.

O Velho Relógio


É uma raridade. Mas ainda encontro de vez em quando, em certas casas, aquele tipo de relógio de pêndulo oscilante; de badaladas que podem parecer sinistras no meio da noite, mas que à luz do dia trazem ecos de saudade dos tempos que se foram.
De cada vez que o encontro, a figura de uma cadeira de balanço com assento e encosto de palhinha trançada me aparece na lembrança. E nela sentada a figura do pai-avô, que a família ia reverentemente visitar aos domingos. Todos os domingos. Tomando a bênção, no beija mão.
O tique taque continua nas lembranças, e eu vejo aquele pai que não teve filhos, à cabeceira da longa mesa de refeições – que ele sonhou ver cheia de rebentos seus. Na parede atrás dele, o relógio marcando as horas tranquilas de minha infância. Com meus irmãos, eu ajudando a ocupar os assentos vazios e enchendo de alegria aquele coração de homem bom, generoso, inesquecível. Pelo menos nas férias de verão em sua casa de campo, aquele paraíso de nossa meninice, ele era nosso pai.
Nos invernos nevoentos e frios, eu ainda vejo aquele relógio pendurado à parede, atrás da cadeira que meu pai ocupava à mesa. Seu badalar regia nossos movimentos, mas, enquanto ele não batia as horas, as conversas, após as refeições, eram momentos de convívio enriquecedor, reconforto para o trabalho do pai, o nosso estudo da época, as tarefas da mãe.
Nas noites quietas, faltando o sono, ele era meio assustador. Como num filme de suspense, quando a gente fica esperando o próximo suspense. Até que, numa noite calma, quando menos se esperava, ele veio abaixo, num barulhão terrível: implodiu. A madeira toda se desintegrou de velhice, carcomida pelos cupins. Só ficou o coração batendo – tique taque.
Muitos anos depois, a casa de meus pais teve outro relógio mais moderno. Silencioso, não dava sobressaltos nem badalava as horas. Mas era preciso estar atento aos ponteiros: eles voavam, e os compromissos não esperavam.
À hora do café da tarde – encontro obrigatório para todos os membros da família disponíveis no momento – a gente se reunia de novo, os filhos, os netos até os bisnetos daquele casalzinho amoroso.
Meu pai, de cabecinha branca presidindo a mesa ao lado de minha mãe, estava sempre acompanhando o ritmo das conversas. Perscrutando nas expressões dos rostos queridos algum sinal de preocupação ou de tristeza. Chamava depois, à parte, um e outro que julgou ter problemas. Para oferecer sua ajuda ou algum aconselhamento de homem mais velho: a solidariedade de pai, avô e bisavô amigo e companheiro, disponível em tempo e presença.
Por isso meu desejo seria repor no mesmo lugar aquele relógio antigo, de pêndulo vagaroso. Demorando a passar os minutos, as horas, os dias, as estações. E ficarmos todo o tempo juntos em torno daquela mesa, vendo lado a lado aquelas cabecinhas brancas.
A bênção, meu pai, minha mãe, meu Dindo!