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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O RELÓGIO DA VIDA


O tempo não tem a mesma medida para todas as idades. Na infância, como o Natal demora a chegar, e o aniversário!
Lembro-me das tardes quentes de verão do passado: o zumbido das moscas varejeiras contra a janela, o tique taque moroso do relógio de pêndulo na casa em silêncio para a sesta dos adultos. Parece que nunca chegava a hora de ir à matinée dos domingos. E o seu Mirandinha, louco por uma soneca, coitado, mesmo assim caprichava na escolha do disco na vitrola para chamar a criançada: “Lá vai o meu trolinho, vai andando de mansinho pela estrada além..,”
Quando a gente percebe, a vida passou, e aqueles sonhos de ser pianista ou aprender a pôr na tela aquelas paisagens lindas, cenários de acontecimentos felizes e inesquecíveis, não houve ocasião para se tornarem reais. Exigem tempo, e este voa, sem podermos retê-lo.
A vida profissional finalmente chega ao fim e nos vemos livres para comemorar a aposentadoria. Aí pensamos em retomar os projetos inacabados ou apenas pensados, antes de nos termos lançado de cabeça no trabalho para o ganha pão.
É quando notamos que uma hora não é nada no universo da existência, quando se tem tanto a fazer ou refazer.
No balanço de fim de ano, quanta carta não foi escrita, ou não se teve tempo de responder às mensagens de msn . Quanta visita ficou prometida. Principalmente as de pêsames que precisam de um momento especial, muita coragem para partilhar e dizer a palavra certa de consolo.
Se ao menos a gente não precisasse pensar tanto em comer! São horas que se gasta nos Supermercados, toda semana. São horas para preparar os alimentos. São horas para sentar à mesa das refeições. Interrompem momentos de inspiração que se perdem. Um estudo importante fica pela metade, a crônica deixa de ser escrita, não conseguimos retomar o assunto no ponto em que o deixamos. Já não somos mais os mesmos...Ou melhor, as mesmas.
Pois acredito ser esta razão de haver mais homens do que mulheres celebrizados como inventores, escritores, artistas plásticos, filósofos. Eles não se ocupam na vida prática. Muitos nem ficam sabendo o que estão comendo, quando são “molestados” para sentar à mesa na hora das refeições. Os poetas continuam com o pensamento nas musas, procurando a rima certa. Os compositores seguem batendo na mesa ou num copo com o talher mais próximo, procurando o ritmo para sua melodia inédita. Os inventores, então, a cada garfada vão eliminando as hipóteses e chegando mais próximos à solução de sua nova descoberta. Esses seriam maridos ideais para as mulheres que não desejam escravizar-se às panelas, perdendo horas preciosas à procura das melhores receitas.
Minha amiga ganhou de presente do marido e dos filhos um aparelho de som de última geração. Foi um gesto de agradecimento pelos anos de dedicação ao lar. Mas o resultado foi que ela se transformou. Menos horas na cozinha e mais tempo ouvindo seus cantores prediletos. Nat King Cole, Francisco Alves, Frank Sinatra... E músicas - Chopin, Strauss, Tom Jobim, Vinícius, Lupicínio. Enquanto se delicia na salinha aconchegante, ela não fica se maldizendo por não ter seguido a carreira de pintora ou pianista. Outros concretizaram esse sonho, e o bom da história é que podemos apreciar confortavelmente os resultados de seus talentos. Se não fôssemos nós, seus admiradores, para quem eles teriam criado

domingo, 26 de fevereiro de 2012

TARDES DE JANEIRO


Janeiro passou pisando de leve. Muitíssimo calor, falta de chuva, de sombra, de vagalumes. Onde foram parar essas lanterninhas vivas das noites de verão?
É quando a gente percebe que o mundo aos poucos não é mais o mesmo. Ou os pirilampos estão em extinção. Quem sabe é porque a iluminação das ruas ficou mais clara, e a luzinha deles e seu pisca pisca nem se percebem.
A chuva fez muita saudade. Há tempos não ouço mais o coaxar dos sapos deliciando-se nas poças d´água depois dos assustadores relâmpagos e trovões das madrugadas de outrora. Quando eles começavam seu coro, era sinal de que o perigo passara. Aí ficava só a chuva.
Não sei para onde foram tantas coisas que não aparecem mais, e só de repente a gente se dá conta.
As tardes quentes são longas, as ruas não convidam a sair. E na casa o vazio dos filhos que vão embora, tudo nos seus lugares, ninguém para desarrumar. Ah, quem dera um netinho...
É incrível o que uma mulher consegue fazer nesses momentos com apenas um novelo de linha e uma agulha de crochê. Nossas tias e avós nunca ficavam de mãos ociosas, e o resultado valia a pena ver, a casa ficava toda enfeitada de guardanapos, cortinas, almofadas.
Hoje há outras prioridades que nos ocupam. Chamar encanadores, eletricistas, afinal o conforto da casa tem que ser assegurado.
Mas o bom do verão é deitar numa rede, à sombra de um copado cinamomo, e ler um romance policial cheio de suspense. Só no final se fica sabendo quem é o bandido, devidamente castigado. Quem dera a realidade fosse sempre essa. Mas, justiça seja feita, nosso aparato policial está evoluindo e tentando competir com a engenhosidade e agressividade dos criminosos. Muitas vezes com sucesso, graças a Deus.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ADEUS À CADEIRA DE BALANÇO


Na cadeira de balanço, xale sobre os ombros curvados, um coque despretensioso prendendo seus ralos cabelos, a vovó de cabecinha branca estende a mão para o beijo dos netos, que pedem cerimoniosamente a bênção, em sua visita domingueira.
A parede da sala tem vários retratos representando parentes mortos e chorados, que dão aquele ar de luto ao ambiente.
As crianças, em suas melhores roupas, não ousam passar da porta da sala, a não ser quando convidadas para o pátio, onde vovô e as tias solteiras apanham frutas da estação para oferecer-lhes, como laranjas e bergamotas ou maçã, figos e pêssegos.
É o único momento descontraído, quando as crianças se sentem mais soltas para brincar com o cachorrinho da casa.
Se ainda alguém duvida das grandes transformações ocorridas nos últimos cinquenta anos na vida da gente, é só comparar as figuras dos avós de décadas atrás com os de agora.
Hoje não há dia certo para visitá-los. Sua casa é uma creche compulsória, refúgio das crianças quando pai e mãe saem para trabalhar, e a empregada resolve não aparecer. Mas não é só na essa hora. Se o jovem casal resolve divertir-se em bailes, jantares e até em pequenas viagens de recreio, a solução já se conhece. Nem se cogita se o vovô precisa de sossego ou se a vovó está com seu achaque de reumatismo. Também, qualquer agradinho que os netos lhes façam, eles ficam todo derretidos.
A casa dos avós hoje é um prêmio para as crianças. Lá elas são tratadas com o grau de atenção que exigem inutilmente dos pais, sempre tão ocupados com os problemas de sua educação e do sustento do lar.
Os avós já não têm essa preocupação. Tudo o que desejam é dar-lhes carinho e curtir suas gracinhas, pois sabem que as crises do crescimento passam, e um dia chega o juízo. Não foi assim com seus filhos?!
Mas os encargos dos avós (principalmente da vovó) estão ficando cada dia mais complicados à medida que os netinhos vão crescendo
Trocar fraldas e fazer mamadeiras era muito fácil em comparação com as lições da escola que é preciso acompanhar. As matérias de estudo são outras.
O pior é controlar os horários de aulas de ginástica ou de música, e aquele entra e sai de netos e suas turmas de amigos, no turbilhão de programas que fazem parte de seu dia.
Os avós precisam ter boa cabeça para não se deixarem iludir quando chega a adolescência e começam os “segredos”.
Há momentos em que as vovós sentem uma saudade atávica da cadeira de balanço de suas ancestrais. Parecia tão tranquilo - fim de missão cumprida. Mas é só por um instante, porque logo a seguir essa mulher moderna, que pinta o cabelo, faz ginástica e não se deixa vencer pela idade, é capaz de aceitar prazerosamente o convite do marido para uma “esticada” numa estação de águas ou algum outro programas semelhante.
Então é que os pais de agora sentem o quanto valem esses avozinhos. Mas que fazer? Não há nada perfeito neste mundo.
Mas se alguém se queixar de que “não há mais vovós como antigamente”, só pode ouvir em reposta que os de hoje são muito mais prestativos e bem humorados. Ai dos netinhos sem eles!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A CIGARRA E A FORMIGA




A fábula da cigarra e da formiga pintava a coitada da cantora como uma vadia, que passava o verão cantando e no inverno ia mendigar comida e agasalho à operária trabalhadora.
Gerações e gerações de crianças ficavam imaginando a casa da formiga, com galerias de prateleiras cheias de provisões para o inverno. Mas, a não ser seu trabalho e organização, o bichinho não apresentava mais nada de interessante. Ao passo que a cigarra, de asas transparentes e voz de fazer inveja aos vocalistas metaleiros mais barulhentos, essa dava maior espaço à nossa imaginação. Por onde teria andado em seus descaminhos, que mundos conhecera, quantos amores vivera? Apenas a sacola vazia é que deixava dúvidas até nas mentes mais aventureiras: afinal, o que lucrara a coitada com sua cantoria do verão?
Assim também pensavam os pais de família, Meu avô tinha uma aversão profunda aos tocadores de violão. “Filha minha não namora um desses. São uns preguiçosos”, dizia. Era voz geral que a profissão de músico não combinava com os ideais das pessoas de bem. Entretanto, a música erudita sempre foi prestigiada em todas as festas e solenidades. Não podia faltar.
Mas os músicos populares, coitados, esses viviam pobres e morriam cedo. Entretanto, em nossos dias a música vem conquistando seus espaços.
Vêm surgiram grandes compositores e letristas famosos: Tom Jobim, Vinícius de Morais, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues... E Mário Lago. Bastava uma caixinha de fósforo e uma mesa num bar, e o ritmo despontava para alegria da platéia. Era como assistir a uma avant première com tapete vermelho e tudo.
Agora a fábula da Cigarra e da Formiga tem outro final: enquanto a última trabalha, a outra canta para aliviar-lhe o cansaço. E as duas vivem amigas e felizes com seus dons, aliando trabalho e lazer. Trabalhar com trilha sonora é outra coisa!
Mas neste verão tórrido, as cantoras não têm aparecido. Talvez por medo de torrar suas asas...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ONDE O CÉU COMEÇA





Fica escondidinho da rua. É um pequeno jardim suspenso. A cada degrau que se sobe para o apartamento, novas flores, novas cores nos vasos do corrimão da escada. E lá no topo outras folhagens de matizes variados enfeitam a área. Em todo o ambiente é pressentida a presença de sua criadora – Dona Violeta. Que fada madrinha teria escolhido seu nome quando nasceu? Só podia ser esse, ou Rosa, ou outro nome de flor, pois cuidar de jardim tem sido sua grande paixão.
A tarde é fria prenunciando o inverno já próximo. Por isso vou encontrá-la dentro de casa assistindo à sessão de filmes na TV, com a estufa ligada. Seus noventa e nove anos requerem cuidados. Mas mesmo na sala ela está acompanhada por suas queridas: em toda a extensão de uma parede estão quadros com fotos ampliadas das flores que plantou, emprestando um calor que aquece o coração da gente. E aqui e ali são vasos com folhagens verdes que trazem consigo mensagens da natureza.
Dona Violeta tinha outra companhia, uma caturrita que ficou me olhando desconfiada. Do lado de fora da gaiola, ela subia e descia nas grades com total desenvoltura. Parece que não gostou de minha presença, uma intromissão na rotina da casa. Pois logo a seguir dirigiu-se à dona e ficou aninhada a seus pés.“ É a hora do colinho”, disse dona Violeta. E no mesmo instante a doméstica surgiu com uma toalha que colocou sobre seus joelhos. E o bichinho logo se acomodou, olhando-me desafiadoramente. “Ela dorme comigo”, continuou a senhora, “eu ponho uma toalha no ombro e ela fica li quietinha a noite toda.”
Dava para notar o carinho compartilhado entre aqueles dois seres tão puros e companheiros, cúmplices até. Unidos contra a indiferença do mundo.
- Desde quando ela está com a senhora? perguntei.
- Foi meu sobrinho Paulo Afonso que me trouxe há dois anos.
Os momentos seguintes foram de um silêncio comovido. Ambas ligadas pelas recordações daquela pessoa querida que nos deixou há pouco. E, dentre as muitas qualidades que ele tinha e eu admirava tanto, descobri mais esta: o cuidado que ele teve com a velha tia, tendo-lhe proporcionado uma companhia divertida e constante para a sua solidão.
Ao despedir-me daquele recanto de paz e carinho, não pude deixar de pensar: aqui deve ser a entrada do paraíso.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

DIA DE ANIVERSÁRIO


A casa tinha um ar diferente. Desde a porta da rua, aquele aroma gostoso chamava a atenção para a copa. Ali, as mulheres da família e amigas prestativas se empenhavam em misturar os ingredientes, queijos, presuntos, ovos cozidos, azeitonas e aparavam as cascas dos pães. Mas era o cheiro do patê que predominava, dando aquela vontade de mordiscar os sanduíches antes da hora.
As taças de cristal secavam emborcadas sobre guardanapos alvíssimos, no aparador.
A cristaleira da sala de jantar já fora esvaziada, de véspera, de todas as peças e submetida a uma limpeza minuciosa. De toda a casa, chão, vidraças, banheiros, nada escapou, durante a semana, de uma faxina geral. Nem mesmo os guarda roupas e os armários da copa e da cozinha.
Nos quartos, as colchas mais bonitas e valiosas davam o aspecto festivo. E ninguém podia sentar nas camas naquele dia.
A casa parecia um quartel à espera da inspeção de seu comandante.
O aniversário de alguém da família era uma data muito especial.
Na hora da festa, a mesa da sala de jantar era o centro em torno do qual circulavam convidados e o aniversariante. Este, mesmo sendo uma criança, tinha uma aura que o diferençava de todos. Era alguém singular em seu dia, e até seus irmãos tinham certo acanhamento em tocá-lo.
Bandejas de sanduíches, de pasteizinhos, docinhos de batata de um verde transparente, como não existem mais circulavam entre os convidados. Era preciso muita mão na pá e um fogo bem forte no fogão a lenha para apurá-los assim. E os merenguinhos? Todos do mesmo tamanho e consistência. Não se esfarelavam à toa. E o bolo com velinhas no centro da mesa, com as velinhas que revelavam a idade.
As crianças mais tímidas não se animavam a pedir repetição dos refrigerantes: guaraná e gasosa servidas em taças de cristal. E o medo de quebrá-las! Davam-se por satisfeitas quando alguém se lembrava de servi-las novamente.
À meia noite o encanto se quebrava. Mais um ano de vida comemorado, e os dias comuns prosseguiriam sem nenhum destaque. Mas ficavam os presentes, bibelôs, caixas de lenços, de papel de carta ou bombons. A surpresa maior vinha sempre dos padrinhos.
Aniversário, uma vez por ano. E como demorava a chegar na nossa infância.
No turbilhão das horas, parece que foi ontem, mas as décadas vencidas não mentem. Sonhos, acontecimentos, quanta coisa para lembrar ou difícil de esquecer.
Aniversário, quantos dias te separam! Uma porta que se abre a cada ano, lembrando que o tempo passou.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

UM GAÚCHO A PÉ ESPECIAL


Minha companheira de banco ajeitou como pode as diversas sacolas cheias de preciosidades do campo: queijo, linguiça, ovos crioulos, pão caseiro e mudas de folhagens, muitas mudas. Estas eu procurei acomodar comigo. Tão frágeis, mas com aquele anseio de vida que lembra riachos murmurantes, matas intocadas, de onde provavelmente elas tenham vindo.
O ônibus prossegue em direção a Porto Alegre, e a nossa conversa também. Aos poucos, o quadro de sua vida vai-se delineando: a situação econômica insustentável do marido, pequeno agricultor em dívida com o Banco do Brasil; e a necessidade de educar e preparar os filhos para um futuro melhor levaram a família para a capital atrás de trabalho. Em vez do verde das lavouras e pastagens, o asfalto, o concreto, o movimento atordoante dos carros nas ruas, o povo acotovelando-se nas calçadas.
Mas a família resistiu unida, porque o ânimo era forte, e a vontade de trabalhar foi com eles. Em vez da periferia com suas favelas, miséria, degradação, o marido empregou-se de zelador num prédio bem central, onde acomodou os seus. Ele, com seu jeito amável de servir, habilidoso para qualquer conserto doméstico de um prédio de apartamentos, e ela, prestativa e bem humorada, socorrendo as moradoras idosas e solitárias que solicitavam sua companhia em qualquer hora, até para assistir novelas, conquistaram logo a simpatia de seus patrões. Que melhor combinação poderiam eles encontrar do que essas pessoas honestas, competentes e educadas para as emergências do dia a dia em seus apartamentos? Ainda mais num casal!
Anos se passaram, chegou a hora da aposentadoria do chefe da família, mas os condôminos não o deixaram sair. Assim, eles criaram os filhos perto de todos os recursos, boas escolas, convívio com pessoas educadas, cultas, e isso foi um bom começo para a prole. Hoje são pessoas independentes, cada qual no seu trabalho, ganhando bem, com casa própria, filhos com seus planos de saúde e educação.
Mas nos fins de semana ou feriadões, o casal se retira para seu sítio nas imediações, comprado e cultivado ao longo do tempo, onde reúne filhos e suas famílias para não perderam o contato entre si e com a vida do campo que eles jamais vão esquecer.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O AMOR E AS CIRCUNSTÂNCIAS





Era um velhinho simpático que a gente via nas esquinas da vizinhança, sempre puxando assunto com os conhecidos que passavam. De bombacha e botas, no inverno de poncho, lembrava seus velhos tempos de pequeno fazendeiro. Ficava ali conversando sem pressa, pois ao contrário dos passantes, não tinha ninguém à sua espera.
Parece que ele cansou de viver sozinho, de não encontrar prazer na hora de entrar em casa. Deve ter sentido medo da solidão quando chegasse à velhice extrema.
Foi quando fez um balanço nas suas economias – pois sua preocupação maior era ter uma reserva para as doenças – e resolveu buscar uma companheira entre as antigas namoradas de sua juventude. Encontrou-a, solteira ainda, vivendo na casa de irmãos.
Em seguida deixamos de vê-lo “lagarteando” nas esquinas nas manhãs frias. Era vistoe passando pela rua com a nova esposa, bem arrumadinhos os dois, dirigindo-se às compras do Supermercado ou simplesmente passeando.
Tempos depois tornamos a vê-lo nas mesmas esquinas, sozinho, aquecendo-se ao sol e fumando seu palheiro. Decerto a lua de mel acabou. Ou então é o descanso feliz de um aposentado, que tem a certeza de chegar ao meio dia em casa e encontrar o almoço à sua espera.
Nada disso. Ficamos sabendo que a esposa o abandonara. Motivo: sua sovinice. Ela suportou até onde pode as compras de Supermercado. Ele comprava só meio quilo de cada gênero (quando encontrava embalagem com esse peso), olhando muito atento os preços nas etiquetas. O pior é que suas lentes estavam fracas, levava um tempão...
Mas a gota d´água para a nova esposa foi quando ele deixou de comprar café para substituí-lo por centeio. Era mais barato.
Ela, que só casara porque ainda guardava na lembrança o vulto ainda jovem do esposo, nos bailes de outros tempos, e para ser dona de sua própria casa, achou que aquilo era demais.
Preferiu voltar aos irmãos, mesmo tendo de cuidar dos sobrinhos endiabrados, mas podendo saborear à vontade o bom produto brasileiro, o apetitoso café, sem olhares rancorosos à lista dos preços .

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MARIDO DE ALUGUEL




Seu Ernesto é um operário de sete instrumentos. Ataca em todas as frentes: marcenaria, instalação hidráulica, elétrica, construção e qualquer conserto doméstico de urgência.
Pobre, analfabeto, mal remunerado, vai levando a vida como pode. Seu único defeito é a bebida. Mas a última vez que foi visto passado da conta foi quando a mais recente companheira o deixou. Não ficou esclarecido se o motivo do abandono foi o vício ou se ele recomeçou a beber depois de abandonado.
Mas hoje seu Ernesto está novamente de bem com a vida. Trabalho não lhe falta nem freguesia. Desde uma goteira no telhado até um cano rompido, nada é difícil para ele.
Parece que ele entende os objetos inanimados e fala com eles, percebendo o local de sua fragilidade e onde precisam de reforço. Foi o caso daquela cama com o pé quebrado e muitos furos na madeira, ficando difícil firmar um novo prego. Ele ficou pensando, alisando a madeira, como um médico confortando uma criança e seu dodói. A partir daí tudo ficou resolvido. A cama reergueu-se mais firme do que antes, pois o nó do problema foi desfeito.
Contam que certo dia, nos tempos antes da CEEE na cidade, quando a luz mais apagava que acendia, foram chamados técnicos da capital para resolver o problema. Seu Ernesto foi-se chegando devagarinho, ouvindo as diversas teorias ali discutidas. O fato é que experimentaram de tudo e não resolveram o problema. Seu Ernesto não se conteve e pediu: “Com licença!” E com a maior simplicidade puxou uma correia do motor, e a luz voltou. Dá para imaginar a cara dos técnicos diante do saber empírico do homenzinho?
Esse operário que socorre muitas famílias em suas panes domésticas não tem nenhum plano de saúde, seguro contra acidentes ou um pé de meia para as horas difíceis. Já o encontrei de braço quebrado, pé enfaixado e às vezes com várias esfoladuras – “acidentes de trabalho”.
E assim ele vai vivendo como as aves do céu que não tecem nem fiam.
Ainda não descobriu que pode bancar um “marido de aluguel”, a nova profissão tão rendosa de nossos últimos tempos.
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sábado, 11 de fevereiro de 2012

TRÊS DIAS DE ILUSÃO





Nos três dias de carnaval (que afinal são quatro), enquanto os jovens se divertem nas concentrações de seus blocos e nos salões, de um jeito não tão do agrado dos adultos, esses ficam recordando os carnavais de outros tempos, mais românticos, na sua opinião. Quando se gastava muito em confete e serpentina, e o lança perfume era usado para chamar a atenção da foliona que passava sambando, e então seguia agradavelmente perfumada e sorridente. Era assim que muito romance começava.
A grande festa do Samba e da Irreverência tinha seu início logo depois do Natal e do Ano Novo. Aí começava a empolgação pela escolha das fantasias, e os blocos se organizavam aos pouquinhos, testando sua aceitação nos bailes pré-carnavalescos, às quartas e sábados, geralmente.
Mas o folião que desejo lembrar só começava a aparecer a partir da primeira noite da festa. Chegava discreto e elegante, lançava olhares à direita e esquerda e, por fim, “flechava” com um olhar sedutor e mais um jato de lança perfume aquela que elegeria “sua rainha”.
Desde logo, revelava-se o par perfeito, alegre, atencioso, cada vez mais apaixonado.
Na segunda noite ele já estava à espera da moça na entrada do Clube. E o romance prosseguia com todos os encantamentos imagináveis.
No dia seguinte ele ia buscá-la em casa, onde se fazia encantador com os pais da menina, que logo ficavam cativados por sua aparência de moço fino, de boa família e de muitas posses. Predicados, aliás, que nunca foram desmentidos.
Na última noite da folia, já se comentava sobre o provável noivado do par, ouvido daqui e ali, a partir da empregada da família da eleita. O amor deles podia-se perceber mesmo de longe.
Chegava a Quarta feira de Cinzas, e a jovem acordava julgando ouvir sininhos a tocar, e a família já pensava em começar o enxoval. Mas o sol ia aquecendo, o meio dia chegava, a tarde ia findando, por fim a noite... E nada do moço! Depois de imaginar mil explicações, passada a semana sem notícias, a jovem e seus pais acabavam se convencendo de que fora tudo uma ilusão. O amor só existira no carnaval.
Apesar de residir em cidade vizinha, o galã continuou não sendo visto pelos conhecidos da moça pelos próximos anos. Ele continuava “cantando”, certamente, mas em outras freguesias.
Vários anos mais tarde, a jovem estando casada com outro e feliz, eis que o moço reaparecia no carnaval e conquistava outra mocinha. Não adiantava alguém lembrar-se dos antecedentes e tentar alertar a “eleita” das noites de folia – ela ficava deveras enfeitiçada.
Quantos anos ele aplicou o mesmo golpe do cupido, não sei precisar, nem quando sumiu de vez. Deve ter ficado velho, e nossas jovens de hoje não gostam de “coroas”.
A essas alturas ele pode estar recordando saudoso a magia dos carnavais do passado, quando um romance tão promissor tinha para ele a duração de três dias de sonho. E nada mais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O CAFÉ DO LUIZINHO





Com muita justiça meu sobrinho Fernando Augusto Alves, em artigo para um jornal local, louvou o Café do Luizinho como uma instituição séria, que vem resistindo bravamente ao tempo e às mudanças na sociedade e na economia. Sempre com o objetivo de bem servir.
Cercado por lojas modernas, na principal rua da cidade, ele se mantém com a mesma estrutura, não tendo aderido às máquinas modernas de fazer café nem aos copinhos descartáveis. Por isso tem clientes fiéis que naquele ambiente acolhedor “ se sentem em casa”. Como diz Fernando, é o local por excelência, nos intervalos para o cafezinho das dez da manhã, para as discussões acaloradas sobre futebol e política. Mas nunca se ouviu dizer que dali surgissem contendas menos elegantes ou mesmo inimizades. Pelo contrário, os diferentes pontos de vista é que dão o “clima” à Casa e não levam a nada: cada um sai mais seguro ainda de suas convicções. Ninguém convence ninguém a mudar de opinião. Laços de amizade e de respeito mútuo ficam mais fortes. Pois, se todos pensassem igual e torcessem pela mesma causa, que graça teriam as conversas?
Desses setenta anos de existência reverenciados pelo articulista, lembrei uma certa época em que o Café do Luizinho se localizava na rua Júlio de Castilhos, onde hoje está o calçadão. Em frente, o Hotel América, do também saudoso Edu Miranda, que dava um dente por uma discussão bem argumentada. Um colorado “doente”. Em vésperas de Grenal, ouvia-se de longe a sua voz discutindo com o vizinho gremista. Seu Luizinho, sempre discreto, mas firme na defesa do amado time.
O café ficava cheio de torcedores de ambos os lados. Faziam-se apostas, e todos ficavam na expectativa do resultado do grande evento.
Quando o Inter vencia, Edu “tocava flauta” no amigo pela semana inteira. Mas quando ocorria o contrário, Luiz Rosa ficava à porta do Café espreitando a passagem do adversário para dar-lhe o troco. Tarefa difícil! Edu usava de truques para não lhe dar o gostinho. Precisando sair à rua, chegava a pular muros para não ser visto. E a “flauta” programada ia perdendo a graça. Os filhos de um e de outro ajudavam a esconder ou a descobrir o colorado de cabeça inchada. Era uma caçada humana que divertia toda a vizinhança e arredores do centro.
O Café do Luizinho servia também de ponto de recados. Principalmente para Gigica, o eletricista mais solicitado da época, que instalava tomadas e consertava chuveiros. Ah, como eles estragavam depressa. Culpa da luz, antes da vinda da CEEE. Na falta de telefones nas casas - e nem se sonhava com celulares – tal sistema funcionava às mil maravilhas. Seu Luizinho e os filhos prestavam com toda a gentileza mais este serviço de utilidade pública.
Hoje ainda passo por lá para um cafezinho. Principalmente aos sábados. Bancos fechados... Como o acho gostoso na xícara de louça, com açúcar à vontade do freguês.
É sempre um prazer rever aqueles rapazes tão gentis que conheço desde meninos. Eles me recebem tão bem! Continuam honrando a tradição da família, seus pais, umas pessoas que a gente conheceu, estimou e até agora lembra com respeito e saudade.

LIVROS, AMIGOS SEMPRE


Quando minha amiga se casou e foi morar tão longe, deixou-me de lembrança os romances da Coleção Azul, que haviam entretido seus sonhos de jovem.
Lembro-me de ter pintado a prateleira do meu quarto dessa mesma cor para recebê-los.Tive o cuidado de encapá-los e pôr-lhes etiqueta com número e o título. Creio que eram mais de cinquenta. Da minha cama, ao acordar, gostava de vê-los ali enfileirados à minha espera.
A vida continuou, novas prateleiras foram surgindo com outros livros mais sérios e romances de finais nem sempre felizes.
Houve mudanças em minha vida: de casa, de cidade, de estado civil e de encargos.
De repente me dei conta de que não sei onde foram parar aqueles romances tão doces. Em que encruzilhada de minha jornada eles me deram adeus sem eu perceber.
Espero que tenham caído nas mãos de alguém bem jovem e ainda cheia de sonhos.
Outros livros foram-me abandonando, e eu sinto uma vontade enorme de tê-los de volta. É como se um amigo partisse sem deixar endereço. Em vão os procuro nos balaios das Feiras de Livro. Quem me atende nos sebos não tem a mínima ideia do que estou pedindo. São tão antigos, devem ficar pensando. E me olham como se estivessem falando com alguém de outro planeta... ou milênio.
Neste tórrido verão, lembro aquelas tardes na Charqueada de meus Dindos, à sombra das frondosas figueiras, quando me entretinha com uma boa leitura. Enquanto mastigava uma pera suculenta, daquelas de escorrer caldo, a trama se desenrolava para meu deleite. Sem preocupações da vida adulta, sem remorsos por tarefas não cumpridas, o tempo todo só meu.
Minha irmã se admira de como posso contar as cenas principais do livro O Manto Sagrado, que li há muitas décadas passadas. Foi um dos que perdi, mas tal como no filme Fahrenheit, eu o gravei bem fundo nas minhas lembranças. Um livro capaz de revolucionar o mundo. Para o bem.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

VÉUS, CHAPÉUS E CAPACETES





Na igreja lotada, foi difícil encontrar um lugar para sentar. Depois da devota procissão de Corpus Cristi, por várias ruas da cidade, o corpo reclamava um bom descanso. Mas, graças à gentileza de velhas conhecidas, irmãs de fé, aperta daqui, empurra dali, abriu-se uma vaga. Complicado foi convencer o gaúcho a meu lado a levantar o chapéu de abas largas e barbicacho do assento que me destinaram. Depois de olhares nada amáveis trocados entre nós dois, esse vizinho de banco recolheu aquele precioso acessório para o próprio colo. Mas só por instantes, pois por diversas vezes ele era empurrado para o meu lado, numa acirrada competição por espaço.
Esse incidente, e mais o fato de saber que várias pessoas ainda continuavam de pé, não me deixaram relaxar. Eu, no bem bom, e as coitadas... Só depois, observando que aquela gente não tinha mais idade do que eu, é que pude sentir-me à vontade.
Parece mentira, pensei, não sou mais aquela jovem que dava lugar aos mais velhos em locais públicos. Agora sou um deles. Como a vida passa depressa!
Lembrei as senhoras de épocas atrás com seus véus: os pretos indicavam seu estado de casadas, tão sonhado por muitas mocinhas de véus brancos. E os homens ocupavam os bancos da direita da igreja, bem atrás. Por respeito humano: achavam que religião era para as mulheres.Por isso não chegavam a encher nem a metade do templo. Na entrada, porém, tiravam respeitosamente o chapéu. Coisas do passado que indicam a mudança de nossa mentalidade.
Acho que foi o Concílio II que derrubou esse costume, cabeças femininas cobertas e masculinas descobertas. Sinal de que as mulheres não podiam dirigir-se diretamente a Deus, mas através dos homens, seus senhores.
No cinema do Mirandinha do século passado, anos quarenta, era costume os cidadãos acomodarem-se ao lado das esposas e noivas e colocarem seus chapéus no colo delas. Que pareciam orgulhosas de receberem aquela honraria - ou sinal de servidão.
Hoje percebo quanta coisa mudou. Principalmente as “cabeças”. Quando vejo aquelas mocinhas em suas motos, fico em muda admiração. São balconistas, funcionárias de repartições e outros serviços que, ao meio dia ou no final do expediente da tarde, engrenam rapidamente a marcha em seus veículos e saem graciosamente rumo a suas casas. Tão diferente das primeiras motos masculinas que volta e meia se negavam a funcionar, essas, na primeira pedalada, rompem a marcha e partem “driblando” entre carros e obstáculos.
Foi uma invasão que começou aos pouquinhos e tomou conta da cidade. Agora já são milhares. Aquelas figurinhas de capacete e roupas jeans, em tal sincronia com a moto que parecem um corpo só, não fazem alarde, mas como besourinhos enfeitam a paisagem urbana.
Pelo espelho retrovisor do carro eu as vejo ultrapassar, tranquilas, e se comunicarem entre si com algum gesto amigo, de companheiras de jornada e de aventuras.
Sem véus, mas de capacetes, essas jovens enfrentam a vida e acreditam no amanhã. Deus as abençoe.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

AINDA É VERÃO


A vida é curta, mas que longo este verão! Temperaturas tórridas e nada ou muito pouca chuva para amenizar. A Terra está aquecendo, mesmo.
Como eu gostava do verão em criança, e depois quando jovem. O mormaço do meio dia não me incomodava. Enquanto os adultos dormiam a sesta, nós crianças brincávamos falando baixinho. Aos domingos, íamos à matinée no cinema da Rua 7.
Seu Mirandinha ligava os alto falantes moderadamente, só para os ouvidos das crianças, não querendo incomodar os seus pais.
Lá íamos nós, alegrinhos, não sem antes comprar balas de mel de dona Ritinha que morava em frente ao cinema. Elas vinham enroladas em trança num mesmo papel azul encerado.
Mas quantas vezes voltávamos da porta do cinema com os ingressos devolvidos porque faltara o número mínimode assistentes. Ah, que tristeza. Nossos coleguinhas não apreciavam como nós o cinema.
Agora o calor não me agrada. Vejo que as estações e as idades têm suas afinidades e aversões.
Sonho com um dia de chuva, fresquinho, em que eu me anime a fazer arrumações em gavetas, rasgar papéis, organizar álbuns de fotografias ou de receitas culinárias.
Na minha meninice, gostava do silêncio da hora da sesta para colar fotos de artistas nos cadernos de desenho usados. Ou guardava em caixinhas de sabonete Eucalol tão cheiroso os santinhos recebidos nas missas festivas.
Era também a hora da leitura: revistas, livros de histórias, depois os romances. De fato: o verão acompanhou nossa evolução mais do que o inverno, pois este nos mantinha presos aos deveres escolares e pouca coisa mudava.
Era no verão que nosso tio media toda a sobrinhada para ver quantos centímetros cada um havia crescido. A porta que dava para a copa ficava com nossas marcas a caneta feitas por ele. Também organizava em sua granja nossas férias grandes: banhos no rio, pescarias, balanços debaixo das grandes figueiras, passeios a cavalo. Ah, Dindo! Como nos mimaste!
Lembro quando ainda não se falava em geladeira, ventilador, ar condicionado. E as freiras com seus hábitos pretos que as cobriam inteirinhas, só deixando o rosto e as mãos de fora! Será que o calor não era tão intenso? Ou o espírito de sacrifício era maior?
Entretanto, o verão já passou a metade, as férias também - até para nós aposentados. O bom é pensar que logo, logo o outono vai chegar.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Passarinhos sem Rumo



Manhã clara de outono, bem como eu gosto. No trajeto para uma reunião às oito horas (tão cedo para minha vida de aposentada), percebo movimento naquele terreno até então esquecido. Tão plano que só precisou mesmo de uma boa limpeza no capim alto já transformado em macegas. O começo de uma nova construção, pensei.
Ao dobrar a esquina, o som de uma motosserra me dá arrepios, e sentimentos funestos roubam minha paz. Olho com especial ternura aquele plátano amigo de tantos verões. Sua sombra ia além do terreno, cobrindo a calçada, e era um oásis na nossa “clareira da mata” de sol escaldante.
Voltando ao meio dia para casa, por ali passei novamente, e daquela que fora uma árvore frondosa restava apenas um monte de lenha bem aparada.
Que fazer? As perdas são tantas nesta vida que tenho de suportar mais esta. Sem lágrimas, apenas suspiros.
De tarde procurei outro caminho para o centro, evitando aquela desolação. Mas à noitinha minha volta foi a mesma de sempre, e o que vi foi uma cena comovente: bandos de pássaros sobrevoando o local da árvore tombada, à procura dos ninhos e de seus filhotes. Voavam de um lado para o outro da rua, formando nuvens sombrias que encobriam os últimos raios do por do sol. Seu desespero era visível naqueles voos sem rumo, como quem procura um endereço perdido ou retorna a casa após um bombardeio - e só encontra escombros e mortes.
Aos poucos, cansados de tanto procurar, os pássaros pousavam nos fios de luz e ali ficavam tristonhos, parecendo aves de mau agouro estendendo faixas pretas de luto pela quadra toda.
A noite chegou, estrelas brilhavam no céu, mas para eles fugira a alegria e a esperança num novo amanhecer.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

ENVELHECER OU REVIVER



A vida é como um rio. Flui... Não há como voltar atrás. Corre por leitos macios ou empedrados, contorna obstáculos, segue reto ou faz curvas até lançar-se ao mar.
Dizer onde termina uma idade – infância, juventude, velhice – é apostar nos sinais.
Perguntaram a uma senhora de seus setenta anos como os idosos deviam sentir-se, e ela respondeu: “Não sei, nunca me disseram.”
Certamente, há momentos reveladores que causam impacto. Comigo aconteceu ao olhar-me no espelho depois da cirurgia de catarata. Meu Deus! Como é que eu não percebi antes? As marcas em meu rosto me denunciavam. Continuei a surpreender-me ao encarar as pessoas de minha época – como estão velhos, pensei.
Se fiquei triste? É claro, mas deprimida não, pois logo senti a urgência do fato. Quanta coisa ainda por fazer. O meu livro tão sonhado e a falta de tempo para reunir o material já pronto. Aquela viagem há anos programada e sempre adiada. Agora não cabem mais longas distâncias, Buenos Aires me basta. E o nordeste brasileiro. Ah, não esquecer que desejo conhecer as Cataratas do Iguaçu. Ver aquelas paisagens lindas, as águas espumantes, o recanto das borboletas, o arco íris sempre presente. Quanta maravilha à minha espera. Não desisti de sonhar.
Meu cotidiano é tão movimentado que não percebi a fase do “condor”. Mas, para ter assunto com pessoas de minha idade que se queixam de reumatismo, bursites e artrites, eu me exibo com minha osteoporose que se apresentou neste ano. Assim, chego a alegrar-me por fazer parte de tal grupo, sinal de que estou conectada. Este sentimento de pertencer é tão necessário para o ser humano!
Ao considerar que já vivi mais da metade de minha vida, quem sabe três quartos. E que me restam poucos anos pela frente – devo ficar deprimida? Quando abro as páginas do passado, como se fosse um livro com muitos capítulos, posso localizar- me no tempo de minha preferência no momento. Depende das circunstâncias ou das pessoas que encontro no caminho. É como reler um romance.
Dias atrás, ver uma colega de ginásio me transportou em pensamento e saudade para a minha querida João Neves, a Escola que me formou professora. “Educar é amar” foi nosso lema, e como o segui com devoção. Ao rever meus ex-alunos, que parecem ainda tão próximos no afeto, fico pensando como criei laços.
Quantas vezes no supermercado encontro mães que via no portão das escolas, esperando como eu a saída dos filhinhos, e nossas conversas de então e de agora girando em torno deles. Agora adultos, longe em suas vidas independentes, parece mentira que eles foram tão pequenos e desprotegidos.
Os casaizinhos de namorados que encontro pelos caminhos me olham com certa piedade. Coitadinha, devem pensar. Mal sabem que eu “já vi este filme” e muitos outros, de alegrias, tristezas, emoções.
Hoje, vendo estudantes pesquisando sobre a 2ª Guerra Mundial, até acho graça. Para mim, basta-me lembrar os noticiários da época em que eu ainda menina acompanhava com interesse e pesar as notícias. Na escola primária eu era o Repórter Esso das Irmãs. Vindas da Alemanha, elas sofriam pensando nos parentes nos locais de bombardeios. Meu pai assinalava num mapa recortado do Diário de Notícias o avanço das tropas, aliadas ou do Eixo. E o colocava em um quadro acima do rádio, nosso principal meio de comunicação na época.
Nas palavras cruzadas, um dos meus passatempos de agora, esse trio sanguinário tem sido lembrado seguidamente. É só preencher os quadrinhos com III. Mas quando o assunto são times de futebol, recorro aos meus filhos, bem como as músicas modernas e seus astros. Meu neto me ajuda nos elementos de informática ou com personagens de histórias em quadrinhos.
Sinto-me como as águas de um rio dividindo-se em afluentes, mas conservando sempre algo do início, aquela intensidade, a composição, o cheiro, a cor...
Sou um elo na cadeia das gerações. Dei à luz dois varões e já tenho um neto que continuarão nossa história.
Então, por que deprimir-me?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O GRILO SEM VOZ


Por acaso o surpreendi pulando para baixo do sofá. Pois ele não estava fazendo cricri, talvez por ter chegado adiantado. De fato, ainda não era verão, e ele queria passar despercebido. Esse grilo vai-me incomodar à noite, pensei.
De vassoura e pazinha comecei a caçada. Que não foi fácil. Quando pensava que ele estava preso, o bichinho pulava noutro canto da cozinha. Sempre em silêncio, sem aquele cantar enervante. Expulsei-o finalmente para o pátio, sem coragem de sacrificá-lo.
Finalmente livre da ameaça de uma noite em claro, fiquei pensando como o ano está passando tão rápido. Na verdade, houve momentos que se arrastaram, tanto pelos problemas como pelas preocupações. Mas a primavera chegou, e parecia tudo mais claro.
Quem se queixa da monotonia dos dias comuns, que a gente vive sem perceber, não deve ter notado como tantas coisas mudaram nos últimos meses. Os hábitos, aos poucos, foram-se modificando. As visitas que nos alegravam quase não são as mesmas: mortes, separações, distanciamentos de uns, aproximação de outros – a lei das compensações. Mas a tristeza ficou pela falta que alguns me fazem. O que mais dói é que as visitas do netinho, antes prêmios para suas férias, agora para ele estão ficando de obrigação. Os telefonemas de amigos distantes escassearam. Também, pelo preço das ligações de agora! E quem é que escreve cartas hoje em dia? Não tendo Internet, fica difícil comunicar-se.
Até os seriados de TV sofreram substituições. Mudaram de horário, ficaram sem graça pela repetição dos episódios, temporada após temporada. Porém, mudaram os personagens, mas me divertem da mesma maneira que os antigos. Depois que me acostumo com eles, acabam fazendo parte da minha turma de amigos, só que virtuais. Pois a arte não imita a vida? Clones deles eu vejo todo dia aonde quer que eu vá. Ou melhor, são eles as imitações, e as pessoas, os originais.
Continuo ouvindo os noticiários, principalmente de rádio, antes de abrir os olhos ao acordar. Quero saber em que mundo estou pondo os pés ao levantar-me. O que mudou é que as tragédias que aconteciam com estranhos agora estão cada vez mais próximas de nós.
Finados passou, e os lírios não se abriram a tempo. Relógio atrasado, eles que eram tão certinhos. Minha tia que os plantou e cuidava deles com tanto zelo partiu para sempre. O mundo girou, a vida mudou, e eu? Quando de manhã, sem maquiagem me olho no espelho, quem eu vejo é a minha mãe.
Não sei o que houve com o grilo. Parece mentira, mas na casa silenciosa, estou sentindo falta de seu cricri.