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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O RELÓGIO DA VIDA


O tempo não tem a mesma medida para todas as idades. Na infância, como o Natal demora a chegar, e o aniversário!
Lembro-me das tardes quentes de verão do passado: o zumbido das moscas varejeiras contra a janela, o tique taque moroso do relógio de pêndulo na casa em silêncio para a sesta dos adultos. Parece que nunca chegava a hora de ir à matinée dos domingos. E o seu Mirandinha, louco por uma soneca, coitado, mesmo assim caprichava na escolha do disco na vitrola para chamar a criançada: “Lá vai o meu trolinho, vai andando de mansinho pela estrada além..,”
Quando a gente percebe, a vida passou, e aqueles sonhos de ser pianista ou aprender a pôr na tela aquelas paisagens lindas, cenários de acontecimentos felizes e inesquecíveis, não houve ocasião para se tornarem reais. Exigem tempo, e este voa, sem podermos retê-lo.
A vida profissional finalmente chega ao fim e nos vemos livres para comemorar a aposentadoria. Aí pensamos em retomar os projetos inacabados ou apenas pensados, antes de nos termos lançado de cabeça no trabalho para o ganha pão.
É quando notamos que uma hora não é nada no universo da existência, quando se tem tanto a fazer ou refazer.
No balanço de fim de ano, quanta carta não foi escrita, ou não se teve tempo de responder às mensagens de msn . Quanta visita ficou prometida. Principalmente as de pêsames que precisam de um momento especial, muita coragem para partilhar e dizer a palavra certa de consolo.
Se ao menos a gente não precisasse pensar tanto em comer! São horas que se gasta nos Supermercados, toda semana. São horas para preparar os alimentos. São horas para sentar à mesa das refeições. Interrompem momentos de inspiração que se perdem. Um estudo importante fica pela metade, a crônica deixa de ser escrita, não conseguimos retomar o assunto no ponto em que o deixamos. Já não somos mais os mesmos...Ou melhor, as mesmas.
Pois acredito ser esta razão de haver mais homens do que mulheres celebrizados como inventores, escritores, artistas plásticos, filósofos. Eles não se ocupam na vida prática. Muitos nem ficam sabendo o que estão comendo, quando são “molestados” para sentar à mesa na hora das refeições. Os poetas continuam com o pensamento nas musas, procurando a rima certa. Os compositores seguem batendo na mesa ou num copo com o talher mais próximo, procurando o ritmo para sua melodia inédita. Os inventores, então, a cada garfada vão eliminando as hipóteses e chegando mais próximos à solução de sua nova descoberta. Esses seriam maridos ideais para as mulheres que não desejam escravizar-se às panelas, perdendo horas preciosas à procura das melhores receitas.
Minha amiga ganhou de presente do marido e dos filhos um aparelho de som de última geração. Foi um gesto de agradecimento pelos anos de dedicação ao lar. Mas o resultado foi que ela se transformou. Menos horas na cozinha e mais tempo ouvindo seus cantores prediletos. Nat King Cole, Francisco Alves, Frank Sinatra... E músicas - Chopin, Strauss, Tom Jobim, Vinícius, Lupicínio. Enquanto se delicia na salinha aconchegante, ela não fica se maldizendo por não ter seguido a carreira de pintora ou pianista. Outros concretizaram esse sonho, e o bom da história é que podemos apreciar confortavelmente os resultados de seus talentos. Se não fôssemos nós, seus admiradores, para quem eles teriam criado

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