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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MARIDO DE ALUGUEL




Seu Ernesto é um operário de sete instrumentos. Ataca em todas as frentes: marcenaria, instalação hidráulica, elétrica, construção e qualquer conserto doméstico de urgência.
Pobre, analfabeto, mal remunerado, vai levando a vida como pode. Seu único defeito é a bebida. Mas a última vez que foi visto passado da conta foi quando a mais recente companheira o deixou. Não ficou esclarecido se o motivo do abandono foi o vício ou se ele recomeçou a beber depois de abandonado.
Mas hoje seu Ernesto está novamente de bem com a vida. Trabalho não lhe falta nem freguesia. Desde uma goteira no telhado até um cano rompido, nada é difícil para ele.
Parece que ele entende os objetos inanimados e fala com eles, percebendo o local de sua fragilidade e onde precisam de reforço. Foi o caso daquela cama com o pé quebrado e muitos furos na madeira, ficando difícil firmar um novo prego. Ele ficou pensando, alisando a madeira, como um médico confortando uma criança e seu dodói. A partir daí tudo ficou resolvido. A cama reergueu-se mais firme do que antes, pois o nó do problema foi desfeito.
Contam que certo dia, nos tempos antes da CEEE na cidade, quando a luz mais apagava que acendia, foram chamados técnicos da capital para resolver o problema. Seu Ernesto foi-se chegando devagarinho, ouvindo as diversas teorias ali discutidas. O fato é que experimentaram de tudo e não resolveram o problema. Seu Ernesto não se conteve e pediu: “Com licença!” E com a maior simplicidade puxou uma correia do motor, e a luz voltou. Dá para imaginar a cara dos técnicos diante do saber empírico do homenzinho?
Esse operário que socorre muitas famílias em suas panes domésticas não tem nenhum plano de saúde, seguro contra acidentes ou um pé de meia para as horas difíceis. Já o encontrei de braço quebrado, pé enfaixado e às vezes com várias esfoladuras – “acidentes de trabalho”.
E assim ele vai vivendo como as aves do céu que não tecem nem fiam.
Ainda não descobriu que pode bancar um “marido de aluguel”, a nova profissão tão rendosa de nossos últimos tempos.
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