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domingo, 19 de fevereiro de 2012

DIA DE ANIVERSÁRIO


A casa tinha um ar diferente. Desde a porta da rua, aquele aroma gostoso chamava a atenção para a copa. Ali, as mulheres da família e amigas prestativas se empenhavam em misturar os ingredientes, queijos, presuntos, ovos cozidos, azeitonas e aparavam as cascas dos pães. Mas era o cheiro do patê que predominava, dando aquela vontade de mordiscar os sanduíches antes da hora.
As taças de cristal secavam emborcadas sobre guardanapos alvíssimos, no aparador.
A cristaleira da sala de jantar já fora esvaziada, de véspera, de todas as peças e submetida a uma limpeza minuciosa. De toda a casa, chão, vidraças, banheiros, nada escapou, durante a semana, de uma faxina geral. Nem mesmo os guarda roupas e os armários da copa e da cozinha.
Nos quartos, as colchas mais bonitas e valiosas davam o aspecto festivo. E ninguém podia sentar nas camas naquele dia.
A casa parecia um quartel à espera da inspeção de seu comandante.
O aniversário de alguém da família era uma data muito especial.
Na hora da festa, a mesa da sala de jantar era o centro em torno do qual circulavam convidados e o aniversariante. Este, mesmo sendo uma criança, tinha uma aura que o diferençava de todos. Era alguém singular em seu dia, e até seus irmãos tinham certo acanhamento em tocá-lo.
Bandejas de sanduíches, de pasteizinhos, docinhos de batata de um verde transparente, como não existem mais circulavam entre os convidados. Era preciso muita mão na pá e um fogo bem forte no fogão a lenha para apurá-los assim. E os merenguinhos? Todos do mesmo tamanho e consistência. Não se esfarelavam à toa. E o bolo com velinhas no centro da mesa, com as velinhas que revelavam a idade.
As crianças mais tímidas não se animavam a pedir repetição dos refrigerantes: guaraná e gasosa servidas em taças de cristal. E o medo de quebrá-las! Davam-se por satisfeitas quando alguém se lembrava de servi-las novamente.
À meia noite o encanto se quebrava. Mais um ano de vida comemorado, e os dias comuns prosseguiriam sem nenhum destaque. Mas ficavam os presentes, bibelôs, caixas de lenços, de papel de carta ou bombons. A surpresa maior vinha sempre dos padrinhos.
Aniversário, uma vez por ano. E como demorava a chegar na nossa infância.
No turbilhão das horas, parece que foi ontem, mas as décadas vencidas não mentem. Sonhos, acontecimentos, quanta coisa para lembrar ou difícil de esquecer.
Aniversário, quantos dias te separam! Uma porta que se abre a cada ano, lembrando que o tempo passou.

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