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terça-feira, 24 de julho de 2012

A MULHER: DE ONTEM, DE HOJE E O CRICRI


A MULHER DE ONTEM, DE HOJE E O CRICRI




Quem vê um grupo de senhoras conversando, pensa logo que estão espalhando fofocas da cidade. Ou sobre o eterno cricri: crianças e criadas.
Não sou feminista fanática, mas não suporto injustiças. Pois até o conceito de empregada doméstica sofreu mudanças. Agora são diaristas ou de meio turno. Também acontece de duas patroas terem a mesma, uma de manhã e outra de tarde. Aí, sim, sobra conversa sobre o tema.
Assim sendo, pertencendo a diversos grupos femininos, venho percebendo que os assuntos de minhas companheiras são muito variados e vêm sofrendo grande evolução. Jovens mães, por exemplo, falam de mamadeiras, papinhas e babás, mas também de regimes para voltar à antiga forma física. Mães de crianças na escola discutem sobre métodos de educação, o que esperam das professoras e se devem ou não castigar seus pequenos. E as que atingiram a idade da “loba” preocupam-se com receitas de beleza e métodos de sedução dos maridos... seus ou das outras.
As vovós gostam de contar sucessos dos netos e de mostrar suas fotos. Também apreciam passar receitas culinárias e receber outras tantas, nas reuniões de amigas. Mas os assuntos se estendem a outros itens, como viagens de recreio, estações de água, promoções das lojas e as últimas novidades da moda. Tudo dentro dos orçamentos e da criatividade de quem já viveu muitas décadas e conseguiu vencer sucessivas crises domésticas e financeiras.
Pois é, nos Supermercados é possível observar as diferenças. As mais experientes vão às prateleiras certas, atrás dos itens mais necessários. Não se deixam seduzir pelas novidades. Mais vale sua experiência e os meios conhecidos de conseguir os melhores resultados na economia do lar com os menores preços. Isso não as impede de conversar, pelos corredores, com várias conhecidas, saber notícias de terceiras e contar outras tantas novidades, o que lhes faz um grande bem. Estas, se não foram amigas no passado, no tempo da rivalidade dos amores ou do emprego, agora se tornam aliadas a favor da paz e da economia.
As mais novas beijam-se efusivamente, não sem antes lançar olhares avaliativos sobre  a outra, o que ela está vestindo e a expressão que apresenta. É preciso medir as palavras, são rivais no mercado de trabalho, nos relacionamentos, na vida social. Não dá para confiar muito. Empresárias, socialites, donas de casa, mulheres bem casadas, outras não, os assuntos se dividem conforme a ocasião. Tudo aparentemente bem civilizado.
Não é o que acontece na periferia. Lá, mães de crianças que brincam na rua e se desentendem armam barracos. Às vezes até a Polícia tem de intervir.
Mas outro dia aconteceu algo inesperado. Uma criança sofreu grave acidente, e a mãe não estava em casa, só os irmãos e uma velha avó, que se desesperou. Pois a vizinha antes injuriada tomou as providências necessárias. Levou o pequeno ao pronto atendimento, e ele foi salvo. Naquela quadra, os moradores assistiram a uma bela cena de reconciliação. As mamães se abraçaram emocionadas, e a paz se restabeleceu na redondeza.
Por isso eu acho que vivemos dentro de bolhas hermeticamente fechadas. Cada grupo separado com suas características e relacionamentos. Dependendo de classe, educação, laços de família. Existem mulheres heroínas e existem as vilãs em todas os grupos. Mas continua a pulsar em cada uma aquela centelha de amor que nos torna mães de verdade ou “adotadas”, e por mais distintas as circunstâncias que nos separam, sempre haverá esse ponto de união entre todas. Somos mães, somos avós, amamos.


domingo, 8 de julho de 2012

DELÍCIAS DO INVERNO







Minha amiga pergunta lá do Rio qual a melhor época para aceitar nosso convite para  visitar-nos. Ela tem medo do inverno dos pampas, estando já aclimatada há mais de trinta anos na ensolarada Copacabana.
Fico só a imaginar o que a coitada enfrentaria se chegasse aqui neste momento, com o frio que está fazendo, a chuva de dias e dias, e essa umidade que adere às roupas, aos cabelos e até a alma da gente.
Por outro lado, não conheço outra estação que mais aproxime as pessoas debaixo do mesmo teto. Tempo bom para agradáveis conversas ao pé do fogo, ou para uma refeição quentinha reunindo todos os familiares na mesma hora – o que não acontece no verão.
É tão agradável, nesse clima frio, chegar em casa como quem entra num refúgio e  sentir desde a porta da rua que o ruim ficou lá fora. O calor da acolhida derrete qualquer gelo. “ Querido, tira os sapatos molhados. Toma este chimarrão quentinho e vem te aquecer perto do fogo”.
Também é uma delícia quando se podeficar ao sol chupando uma suculenta laranja da terra. Dessas que a gente sente o cheiro desde o ato de descascar e logo vem água à boca. Mas tem que ser das nossas para causar essa sensação. Laranjas personalizadas, que se sabe de onde vêm: é da chácara de Fulano ou da fazenda de Beltrano. As outras, que vêm de longe para os Supermercados, só para sucos, pois não merecem a honraria da “lagarteada” ao sol.
Os invernos das últimas décadas deram-nos presentes valiosos – frutos do avanço da tecnologia moderna: o edredon que acaba com todo o frio da cama, fazendo-nos sentir como se estivéssemos nas nuvens. Grau dez para seus criadores e lançadores. O lençol térmico, para os mais friorentos, não há pé frio que resista. E o controle remoto, que maravilha! Poder assistir aos programas de televisão bem abafadinho na cama e não precisar levantar para mudar de canal, baixar ou aumentar o volume, ligar ou desligar o aparelho!
Tudo isso custa dinheiro, mas vale a pena juntar no verão e noutras estações para curtir um inverno de primeiro. Ao contrário dos jovens, que passam o ano sonhando com o abrasante verão das praias... Não é de admirar, eles têm seu calor próprio, conseguem até namorar debaixo das marquises, enquanto a chuva e o frio castigam os demais, mal amados.
Mas, voltando à minha amiga do Rio, melhor será esperar a primavera, que ressuscita todo o verde das folhagens que parece estar morto. Que traz de volta as flores, as borboletas, os passarinhos. E também os ventos e as enchentes, verdade seja dita.
Em todo o caso, há um colorido novo na primavera, que convida a renascer das cinzas.
Entretanto, é preciso antes ter passado pelos rigores do inverno para entender toda a mensagem. Quem chega atrasado, é como assistir a um filme pela metade.
Mas minha amiga é muito sensível. Ela vai entender.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

PRECISA-SE





Outro ano eleitoral. Desta vez, nos municípios, o que nos atinge mais de perto. Breve começarão as propagandas no rádio e na TV alterando horários de nossos programas. Para dizerem o quê? Promessas de melhoria na educação, na saúde, na economia, comunicação e transportes.
Cada vez menos otimistas, os eleitores ficam desejando que surjam Diógenes da lâmpada à procura do parlamentar ou administrador honesto, consciente de suas responsabilidades. Que projete e execute ações para o bem público e não para o seu próprio bolso. Que priorize as obras com maior alcance para o beneficiamento das populações, ainda que não lhes rendam mais votos, porque são as que menos aparecem. Como saneamento básico, coleta do lixo, melhoria nas estradas e outras tantas coisas que dão uma qualidade melhor de vida ao cidadão.
O que apavora mesmo é o aumento sempre crescente da  dívida  do Estado. Parece até comos “negócios” das crianças: há sempre um perdedor ingênuo – no caso, nós-  como aquele Joãozinho dos livros infantis, que trocava uma vaca por um porco, o porco por uma galinha... até chegar ao fim dos fins: ninguém negociava a pedra – última aquisição que ele trocara, provavelmente por um ovo.  
O surpreendente é que ele saía sempre contente, assobiando pelo caminho, com esperanças de novas surpresas na primeira curva da estrada.
É isso que nos está faltando: a alegria pura e simples de viver. Os jovens, hoje, vivem momentos tão cheios de correrias, horas marcadas, competitividade no mercado de trabalho! Tempo é dinheiro, e a vida se conta pelos sacos de ouro acumulados. Não é bem assim, mas acontece que o povo nem das preocupações administrativas fica livre: tem de acompanhar pela mídia, passo a passo, as tentativas infrutíferas do governo para debelar a dívida, acabar com a pobreza, revitalizar a produção, a economia.
Por isso fiquei a invejá-la, quando antes me dava pena: aquela velhinha que voltou ao passado, antes de se falar em mal de Alzheimer. Era mesmo caduquice. Sempre que me encontra, fala comigo. Uma vez me chama pelo nome de minha mãe, outras, sou a vovó. Ela me conta que está vindo da casa de dona Engrácia, sua amiga de mocidade. E eu sei que nem dona Engrácia nem sua casa existem mais. Depois fala nos filhos pequenos. Precisa voltar para preparar a papinha, a mamadeira do Joãozinho. E eu sabendo que o seu João, a estas alturas, é um vovô bem sucedido, quase a aposentar-se.
A velhinha esconde nos recessos da memória os acontecimentos tristes, para reviver  as horas mais felizes, quando as crianças eram pequenas, e ela esperava um futuro róseo para todas.
É uma anestesia natural que vem depois de tanta luta! Quando o coração ou a memória não pode mais assimilar as emoções e  sem sofrer as grandes dores da existência.
Mas ainda não chegamos a isso. Precisamos estar com boa cabeça para repensar a vida, salvar dos escombros o que ainda palpita. Precisamos confiar em Deus, em nós mesmos e  naqueles que nos representam no governo democrático.
Precisamos do governante que não se acomode no cargo após lançar tantas esperanças ao povo sofrido.
Que os jovens encontrem o trabalho de sua vocação. E encontre nele satisfações pessoais e materiais. Que plantem com otimismo e colham com alegria. Que criem,  consertem, que inventem e construam. Que possam amealhar para o futuro como as formigas. E viver o momento presente alegrando-se com o canto das cigarras.
Pois a vida bem vivida não é só o pão, mas  as flores, a música, risos, sonhos e muito amor. Não só em branco e preto, mas a cores.
Certas músicas são como o vento, que traz de volta aquilo que já passou.
É preciso ouvi-la e renascer, sentindo aquela emoção que parecia apagada. E reacendeu.
Precisamos de sorrisos jovens. Da alegria pura das crianças.... e dos velhinhos.
O ano já está pela metade. Vamos confiar e vivê-lo intensamente. E v

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Adeus à cadeira de balanço








Na cadeira de balanço, xale sobre os ombros curvados, um coque despretensioso prendendo seus ralos cabelos, a vovó de cabecinha branca estende a mão para o beijo dos netos, que pedem cerimoniosamente a bênção, em sua visita domingueira.
A parede da sala tem vários retratos representando parentes mortos e chorados, que dão aquele ar de luto ao ambiente.
As crianças, em suas melhores roupas, não ousam passar da porta da sala, a não ser quando convidadas para o pátio, onde vovô e as tias solteiras apanham frutas da estação para oferecer-lhes, como laranjas e bergamotas ou maçã, figos e pêssegos.
É o único momento descontraído, quando as crianças se sentem mais soltas para brincar com o cachorrinho da casa.
Se ainda alguém duvida das grandes transformações ocorridas nos últimos cinquenta anos na vida da gente, é só comparar as figuras dos avós de décadas atrás com os de agora.
Hoje não há dia certo para visitá-los. Sua casa é uma creche compulsória, refúgio das crianças quando pai e mãe saem para trabalhar, e a empregada resolve não aparecer. Mas não é só nessa hora. Se o jovem casal resolve divertir-se em bailes, jantares e até em pequenas viagens de recreio, a solução já se conhece. Nem se cogita se o vovô precisa de sossego ou se a vovó está com seu achaque de reumatismo. Também, qualquer agradinho que os netos lhes façam, eles ficam logo derretidos.
A casa dos avós hoje é um prêmio para as crianças. Lá elas são tratadas com o grau de atenção que exigem inutilmente dos pais, sempre tão ocupados com os problemas de sua educação e do sustento do lar. É tão difícil acertar nos dias incertos de hoje!
Os avós já não têm essa preocupação. Tudo o que desejam é dar-lhes carinho e curtir suas gracinhas, pois sabem que as crises do crescimento passam, e um dia chega o juízo. Não foi assim com seus filhos?!
Mas os encargos dos avós - principalmente da vovó-  estão ficando cada dia mais complicados à medida que os netinhos vão crescendo
Trocar fraldas e fazer mamadeiras era muito fácil em comparação com as lições da escola que é preciso acompanhar. As matérias de estudo são outras.
O pior é controlar os horários de aulas de ginástica ou de música, e aquele entra e sai de netos e suas turmas de amigos, no turbilhão de programas que fazem parte de seu dia.
Os avós precisam ter boa cabeça para não se deixarem iludir quando chega a adolescência e começam os “segredos”.
Há momentos em que as vovós sentem uma saudade atávica da cadeira de balanço de suas ancestrais. Parecia tão tranquilo - fim de missão cumprida. Mas é só por um instante, porque logo a seguir essa mulher moderna, que pinta o cabelo, faz ginástica, usa a Internet e não se deixa vencer pela idade, é capaz de aceitar prazerosamente o convite do marido para uma “esticada” numa estação de águas ou algum outro programas semelhante.
Então é que os pais de agora sentem o quanto valem esses avozinhos. Mas que fazer? Não há nada perfeito neste mundo.
Mas se alguém se queixar de que “não há mais vovós como antigamente”, só pode  ouvir em reposta que os de hoje são muito mais prestativos e bem humorados. Ai dos netinhos sem eles!