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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

RESPEITO É BOM





Até que enfim encontrei algo que me alegrou em edições de jornal de segunda-feira. Foi neste último domingo: fotos das torcidas do Grenal confraternizando sob a tutela do bloco do bairro Medianeira, de Porto Alegre, na sua “passarela do futebol”. Mais tarde, as câmeras da mídia captaram imagens de sorridentes torcedores de ambas as facções na maior harmonia. Casais, um gremista, outra colorada, ou vice-versa, no maior carinho. E um bebê no colo do pai vestindo uma camisa bicolor, de um lado, vermelha e do outro azul, e a mamãe ali perto, gremista assumida.
Respeito é bom e faz bem.
O que seria dos torcedores se todos fossem do mesmo time? E não houvesse um rival?  Não haveria o confronto. E a torcida? Deixaria de torcer, é claro.
As guerras acontecem por divergência de opiniões, de interesses, de egoísmo. Por falta de respeito ao próximo, às suas origens, maneira de ser, mentalidade e modo de agir.
 O grande filósofo Voltaire costumava dizer: “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres.”
Foi nesse espírito que se fundamentou a grande revolução francesa. Para defender esse direito de ser diferente. “Liberté, Égalité, Fraternité”. Mas vacilaram ao ridicularizar os ídolos do islamismo. Deu no que deu.
Na vida comum, como é bom encontrar pessoas de respeito, que merecem a nossa confiança e que respeitam as nossas opiniões, a identidade de cada um, as diferenças.
Estamos no século XXI, e os preconceitos, em vez de desaparecerem, parece que crescem a cada dia. Torcedores dos maiores times do país digladiando-se e até matando-se. Perseguições a homossexuais, a pretos, e agora a muçulmanos aqui radicados que não têm nada a ver com o terrorismo. Bullying nas escolas e nos locais de trabalho e de lazer. Todo o mundo precisa ser igual?
Nas estradas e vias públicas, quantos motoristas embriagados ceifando vidas ou ao menos ameaçando pessoas inocentes, que não desobedecem às leis de trânsito e são colhidas por eles. Falta de respeito.
Chegamos a pensar que não há mais o que fazer. Puro engano. As transformações para um mundo melhor começam em casa, no trabalho, na sociedade.
Se aquela doméstica deixasse de colocar o lixo no bueiro ali da esquina; se os passantes evitassem sujar as ruas com latas, papéis e plásticos de seus lanches atirados fora nas calçadas... Ao redor de nossa Matriz há um mar desses objetos jogados por irresponsáveis que não aprenderam a portar-se em via pública. O clima seria melhor.
Ah, se as indústrias pensassem menos em seus lucros e mais na segurança de seus funcionários, familiares, e comunidades próximas... E usassem de todas as precauções para evitar que a tragédia de Mariana trouxesse efeitos tão devastadores à natureza e à nossa combalida Mãe-Pátria...
Tanta coisa poderia ser diferente se houvesse respeito. Que tem faltado a nossos representantes nas suas malfadadas ingerências nos bens públicos; nas leis que só favorecem a eles e a seus parceiros endinheirados; na condução da política que protege aos corruptos;
que não resolvem nada, acabam em pizzas.  E as verbas faltando à Saúde, à educação e à infraestrutura das estradas, dos bens públicos, e vão beneficiar com auxílio-alimentação, auxílio-moradia à classe que deveria proteger-nos e julgar os ilícitos?
 Tantos escândalos envolvendo fraudes nos leites e outros alimentos adulterados causando doenças e até a morte. Remédios vencidos ou falsificados enriquecendo laboratórios e matando pacientes do SUS.
Tudo porque as consciências adormeceram. Só pensam no seu bem próprio, sua ganância quer sempre mais.
Quanto desperdício! Prédios públicos inacabados, planos de casa própria para trabalhadores e moradores de áreas de risco ficando só no papel. Hospitais sem recursos materiais, financeiros e humanos que cheguem para a demanda. Escolas desabando ou apresentando perigos para os alunos, e sempre faltando material didático e motivação para seus professores.
Nada disso aconteceria se houvesse por parte de governantes e governados o respeito que se deve ao outro, às vidas humanas que precisam de nós, de nossos cuidados e apreço.

Respeito é bom... e nós merecemos.

sábado, 10 de outubro de 2015

POR DOIS VINTÉNS APENAS





Nossa memória é como um computador. Ou devo dizer, ele é que nos imita. Assim sendo, ela armazena dados até o limite, por isso as recordações têm prazo de validade, não cabem todas no mesmo lugar de nosso cérebro.  Em triagens contínuas, a tendência é gravar apenas o que nos interessa mais de perto. O restante vai para o subconsciente, ou seja, a chamada “nuvem” do computador. Só assim a “máquina” fica mais leve, flui com maior rapidez.
Quem é capaz de lembrar dos seus candidatos em eleições passadas? Eu esqueço logo. Até para cobrar as promessas não cumpridas fica difícil. Mas me lembro com certeza do candidato a presidente Cristiano Machado que no dizer da época ficou “arrastando caixão”. Uma decepção para a eleitora iniciante.
Outra coisa que a gente esquece, porque muda muito, é a moeda brasileira. Tento lembrar a que vinha antes do real. Cruzeiro, cruzeiro novo... Há mais tempo, os mil réis. Os tostões e os vinténs eram as moedas dos cofrinhos das crianças.
Meu irmão bem novinho ainda não pronunciava o erre das palavras. Nosso tio brincava com ele e, mostrando-lhe uma moeda, provocava-o: Diz rato, ratinho, ratão, p´rá ganhar um duzentão. Essa moeda era enorme, e para as crianças, parecia valer mais. Mas o mano não acertava e dizia: lato, latinho...
 Adão, o folclórico cortador de lenha da cidade, só aceitava o pagamento pelo seu trabalho com moedas de mil réis. Não aceitava as prateadas, fazia questão do dourado.
Meu pai tinha um pequeno cofre de madeira que ia enchendo de moedas de mil réis para os presentes de Natal. Nós os sacudíamos de vez em quando, calculando seu peso. Os  salários de funcionários públicos repetiam-se ano após ano sem aumento. Ficava fácil prever a receita, e o orçamento de nossa família era calculado de acordo. Mas impossível prever as despesas extraordinárias por conta de doenças e outros transtornos. Nosso presente de Natal, entretanto, nunca falhava, ficava sempre garantido.
As contas de armazém, anotadas em cadernetas, eram pagas mensalmente. Mas não havia inflação, e os preços dos produtos consumidos eram os mesmos do começo ao fim do ano.
Uma vida simples, mas tinha o seu encanto. Para comemorar os aniversários das crianças, não faltava o bolo e alguns docinhos, às vezes rapaduras partidas e enroladas em papéis de seda de diversas cores, com franjas recortadas. Davam o tom alegre à mesa.
Depois, muito tempo depois, veio a inflação, as compras a crédito, os empréstimos. Quando comprei meu primeiro carro – um dauphine – foi financiado a longo prazo. Meu irmão também trocara o seu por outro novo, nessas condições que já eram as de agora. Meu pai se assustou e disse: “Fui pobre toda a vida, mas tenho filhos milionários: eles devem milhões...” Ele tinha um grande senso de humor...
A economia mudou a partir da vontade de gastar antes de receber. A inflação foi aumentando, aumentando. Lembro que ao preencher cheques a gente escrevia um mundo de zeros. Qualquer comprinha custava uns mil e tantos cruzeiros.
Funcionários públicos e empregados de empresas privadas, logo ao receber o salário do mês acorriam aos mercados para fazer seus mantimentos. No dia seguinte os preços já estariam mais altos, pois a maquininha não parava nunca de reajustar os valores. As despensas tornaram-se peças indispensáveis nas casas de família.
A poupança teve seus dias de glória. Os juros favoreciam do lado do cliente também, uma raridade hoje em dia. Mas veio o Collor no seu combate aos Marajás confiscando os depósitos bancários.
Veio o Real, e só tirar os zeros dos cheques já foi um alívio. Mas a moda de gastar antes de adquirir, e os desmandos dos governantes, nos trouxeram esta triste realidade: estamos falidos.
Que fazer? Começar tudo de novo. A vida é urgência. E viver é lutar.



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

TRAVESSURAS DE "EL NIÑO"





Agora não há perigo de faltar assunto. Quando duas pessoas conhecidas se encontram lado a lado em salas de espera ou fila de banco, falar do tempo enche os espaços, pois se não são novidades – todo o dia chove – as circunstâncias mudam um pouco. Ora é o granizo destelhando casas, ora as ruas e estradas  alagadas e cheias de buracos dificultando o trânsito, quando não é a roupa molhada que não tem jeito de secar. Donas de casa, então, essas reclamam bastante. Sem falar nas enchentes...
Nossa primavera, este ano, esperada com tanto ânimo como desfecho de um inverno cheio de vaivéns na temperatura e na cara do tempo – verão em julho, imaginem! Pois é, agora ela surge com raios, trovões e promessas de ventanias em nossa região.
Mas não há um dia igual ao outro. Cada manhã, à chegada da Lígia, eu pergunto se está frio ou faz calor, se chove ou tem sol, tudo é uma incógnita. Guio-me pelo que ela está vestindo, japona pesada ou blusa leve, varia muito.
Acho até graça quando observo a vitrine de uma loja de modas nova que prometia tantas novidades de inverno. De manhã, aparecem roupas quentes, e à tarde seus manequins já mudaram para estações mais amenas. Pobres proprietárias! Precisam estar bem atentas para a demanda de sua freguesia.
Mesmo assim, temos de pôr as mãos para o céu e agradecer a Deus por nossa cidade não ter sofrido males maiores, nem enchentes nem deslizamentos. Nosso solo é firme, e os ventos frios servem é para enrijecer ainda mais nossa têmpera de gaúchos dos pampas sul-riograndenses.
O que vem acontecendo este ano, não falando em economia e política, é por culpa de El Nino. Dá para entender por que o chamam assim. É um menino p´rá lá de travesso. O terremoto no Chile deve ter tido sua mão, não sei, não entendo de meteorologia, mas... Destruição de centenas de casas em diversas cidades da Região Sul, pessoas perdendo tudo, teto e o que estava dentro. Anos e anos para adquirir esses bens, e de uma hora para outra lá se vai tudo água abaixo. Em geral, essas catástrofes acontecem onde moram pessoas humildes, trabalhadores de baixo salário, pessoas que mal conseguem ficar em dia com o projeto Minha Casa, Minha Vida. Agora o governo está retomando os imóveis de quem não paga por mais de três meses. Sanar as dívidas de que jeito? E o desemprego aumentando...
Enquanto isso, os cidadãos deste país procuram adaptar-se não só às mudanças climáticas como às novas leis que, via de regra, não os beneficiam. Pelo contrário, estão exigindo de sua parte mais e mais sacrifícios. Mas, se é para que o Brasil volte a ser respeitado como país livre e bom pagador, e possa disponibilizar com plenitude os serviços indispensáveis a seu povo – educação, saúde e segurança – tudo bem. Vamos viver dentro da realidade, produzindo mais do que consumimos para equilibrar as finanças. E compartilhando do que temos com quem mais precisa.
O bom é saber que o crime não compensa. E todo dia novos figurões que viviam nas alturas lesando nossos bens públicos agora estão algemados e seguindo para o cativeiro. E aqui fora, no núcleo da classe média baixa e dos pobres, como nas novelas da Globo, é onde se notam mais risos e amor, numa vida simples de ajuda mútua e feliz.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

SETEMBRO GAÚCHO





Duvido que outro Estado do Brasil cultue tanto um mês como nós o fazemos com setembro. É o mês alvissareiro de novos dias, mais claros, luminosos, alegres, cheios de festas. Só quem vive os invernos gaúchos, o frio, noites longas e dias  que logo se acabam, pode apreciar as mudanças que ocorrem nesta época. Acordamos mais cedo com o canto dos pássaros, e pelas frestas das janelas podemos ver a claridade que o sol vai espalhando. Antes de pôr os pés fora da cama, já sentimos a urgência do que nos espera. Tanta coisa por fazer! Arejar a casa, deixar a “luz do céu entrar”, tirar o mofo das roupas, das paredes... E sair, porque o colorido das ruas e aquele ar morninho nos chamam para o convívio dos irmãos.
Aquelas árvores que pareciam mortas há pouco já ostentam novas folhas. Com uma luminosidade própria, um verde transparente que só este comecinho de Primavera consegue exibir. É a mesma translucidez que percebo no olhar puro olhar do adolescente que espera muito da vida.
Os passarinhos parece que enlouquecem de tanta alegria. Logo aos primeiros alvores saem dos ninhos e fazem uma enorme algazarra junto a nossas janelas.
De vez em quando são os quero-queros que passam em bandos ruidosos em busca de espaços mais amplos nas nossas coxilhas.
Mas ainda não se ouvem os cascos de cavalos desfilando pelas ruas. Tal como aconteceu na Semana da Pátria, a ausência dos tambores, do bando alegre de estudantes mostrando a pujança de nossa juventude – nossa esperança de futuro – foi uma nota triste no cenário gaúcho.
Entretanto, temos razões para animar-nos. Nosso Estado, este coração pulsante na pontinha sul do mapa do Brasil, é o berço de gente brava que não se entrega diante das adversidades. Nossos campos verdejantes, vales, coxilhas – agora recebendo o toque de arte das geadas -, o gado pastando tranquilamente, de fazer inveja aos apressados e angustiados humanos; as culturas de grãos e outras crescendo sem desfazer as expectativas mais otimistas; e este céu tão azul que inspira nossos poetas e cantadores, tudo isso nos enche de orgulho e alegria.
Por isso, aviem-se, cultores de nossas tradições. Botas e bombachas, vestidos de prenda e saias de armação, arreios e esporas: fora já do armário! É hora de festejar o Rio Grande, esta terra “onde tudo que se planta cresce. E o que mais floresce é o amor.”
Quem suportou os longos anos da Guerra Farroupilha sem perder sua dignidade e bravura, não é agora que vai entregar-se às crises do país que parecem insuperáveis.
A alma gaúcha renasce a cada mês de setembro.  E continuaremos sendo o celeiro do Brasil, com nosso trabalho, nossos sonhos, nosso empenho

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MODERNISMOS





Era o casal mais idoso da quadra. Beirando os setenta. Os demais moradores, famílias com filhos pequenos, passavam a maior parte do dia sumidos. Os adultos no trabalho, e as crianças e jovens estudando. Por isso frequentemente batiam à sua porta, quando uma jovem mãe vinha recomendar um filhinho a seus cuidados, porque a empregada ainda não chegara. Ou uma  jovem procurava pela chave da casa que deviam ter-lhe deixado ali. Coisas de vizinhos.
Dona Isaura servia a todos de boa vontade, o mesmo não acontecendo com seu Aníbal que não gostava de ser incomodado. Desde que sofrera aquele sequestro relâmpago, há anos, ele ficara desconfiado de tudo e de todos. Aposentou-se e passava o inverno de pijama e roupão.  Era preciso a esposa observar-lhe que já era hora de usar bermuda e camiseta quando começava o calor. Aí ele se entretinha pelo pátio procurando formigueiros e matando lesmas. Dona Isaura sorria satisfeita de vê-lo assim ocupado, em vez de só andar de radinho de pilha colado ao ouvido, sofrendo com as desventuras do Grêmio. Ela suspirava recordando o quanto ele fora alegre e brincalhão no tempo em que viajava com sua caminhonete de entregas pelos municípios vizinhos. Por onde passava ia fazendo amigos. E não negava caronas pelo caminho. Cuidado, ela vivia dizendo. Até que o assaltaram, roubando a carga, o dinheiro e deixando-o ferido e amarrado a uma árvore longe da estrada. Só dois dias depois foram encontrá-lo em estado de choque. Alguma coisa morreu dentro dele. Ficou arredio e  desde então preferia ficar sempre em de casa. Não saía nem para visitar os filhos. Assim, todo o serviço de rua ficou para dona Isaura que teve de aprender a lidar com caixas eletrônicos, cartões de crédito, compras e pagamentos. Na hora de aplicar as economias, ela precisava informar-se do melhor sistema, entre CDBs, FRF, até descobrir o que fosse isento do CPMF. Quando precisavam de algum conserto doméstico, ela é que procurava o profissional. Chegou a organizar uma agenda com endereços por serviços em ordem alfabética, dando graças a Deus que quase todos, marceneiros, encanadores, eletricistas, jardineiros e até empregadas domésticas tinham telefone celular.
Quando já ia saindo de carro da garagem, dona Isaura ouviu seu Aníbal fazer uma encomenda: Me traz veneno para formiga. Que tipo, cortadeiras ou aquelas que correm de um lado para outro sem carregar nada? Aquelas são as dançarinas, diz ele. Vendo que nada sobrara de suas lindas violetas, não foi preciso mais explicações. É para as cortadeiras.
À tardinha ela foi aguar as flores da frente. Marilda ia passando com sua graça juvenil. Oi, dona Isaura. Tudo bem? Tudo bem, e o namoro continua firme? A menina chegou mais perto e falou baixinho: Ainda não rolou nada, só em janeiro é que vamos transar. Ainda aturdida com a novidade – agora marcam data pra isso? – a senhora entrou em casa e esbarrou no marido que ouvira a conversa. Notou que sorria. Nisso a campanhinha tocou, e ele desapareceu como um fantasma. Vizinha, diz Rosélia, tenho vergonha, mas preciso de panela para uma feijoada. Meu novo amor vai chegar e está de aniversário. E se não for pedir demais, pode me emprestar este vaso com as flores? Que lindas! Vai ficar bonito sobre a mesa. Já pus candelabros com velas vermelhas. Que acha? Meus filhos foram lá para a minha irmã. Hoje a noite é minha.

Dona Isaura depois comentou com o marido: Ela troca de parceiros como se fosse de carro do ano. Será que desta vez ela acerta? Seu Aníbal dirige-se aos formigueiros com o veneno. Mas sobre o ombro ainda diz: Essa é das dançarinas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

E AS FLORES?





Olho com desesperança meus pés de Alegria de Jardim que não crescem, apenas sobrevivem, mas já suportaram geadas, granizos e muita umidade. E ainda o ataque de lesmas e formigas. O pacote de venenos já está quase vazio, mas a guerra continua, ou então é a terra que está esgotada. Meu “dedo verde” é a Lígia, mas nem o seu dom foi eficaz desta vez. Todas as manhãs abro a janela e fico observando como estão minhas flores, se já deram sinal de  recuperação. Dizem que o olhar do dono é que engorda a boiada, então é o que faço com elas, que na primavera sempre vieram me alegrar...
Chego a pensar que não são nem os moluscos nem os insetos os principais vilões de nossos canteiros, mas é o clima dos últimos dias, ou melhor, deste ano que começou bem humorado e agora se arrasta com protestos e greves de uma multidão indignada e traída.
Dá vontade de remexer o tacho do tempo e equilibrar temperaturas e umidades por todo o território nacional. Enquanto aqui faz um verão de rachar, o nordeste sofre um frio que suas roupas leves e despreparadas não conseguem amenizar. E as chuvas em demasia por aqui, no sul, e faltando água nas grandes cidades como S. Paulo.
O eixo da Terra deve ter dado uma guinada não programada, e  foi isso que aconteceu.
Mas a primavera vem aí, e as azáleas não falharam mais uma vez. São o prenúncio de outras colegas suas que ainda não deram as caras. Mas as coitadas duram pouco, logo vão despetalar para nosso desgosto.
Da janela do quarto vejo uma delas embalando-se contra a vidraça, naquela dança que o vento sul sabe improvisar. Parece que me acena desejando bons tempos. Oxalá.
Crianças sem aula, repartições a meio expediente, comércio sem movimento, ruas semidesertas, os bandidos aprimorando-se nos golpes, é preciso fazer alguma coisa. Onde estão os heróis?
Fico lembrando outras primaveras. Alunos do Colégio SS. Nome de Jesus em fila dirigindo-se para um piquenique. Logo ali, na atual Rua Coriolano Castro, na época tomada de terrenos vazios, onde se podia acampar. Era uma alegria poder sair das salas de aula severas para o ar livre, a luz do sol, as flores pelo caminho. Dálias, cravos, tufos de grinaldas de noiva, as primeiras a aparecer. No trajeto, uma velhinha sempre nos esperava à janela e oferecia um ramo de violetas à Irmã que nos acompanhava. Ficamos sabendo que aquela senhora era sobrinha neta do General Osório.
Certa vez o Colégio apresentou à cidade um grande espetáculo que representava a chegada da primavera. Todos os alunos participaram, alguns eram flores, outros, besouros, havia também os raios de sol, a Mãe Terra... E o Inverno que se despedia. Com uma capa branca que se estendia pelo palco. Era a neve. Representei a grinalda de noiva. Um príncipe  estava sendo esperado com  a maior expectativa. Ele escolheria a esposa entre as flores que se enfeitavam para o evento. A violeta tão quietinha é que foi a eleita.  E nós, as vencidas, só tivemos de aplaudir.
O festival teve um grande final – uma apoteose de tirar o fôlego. Aprendi então o significado dessa palavra, que achei linda.  Foi quando todos os participantes desceram do palco e seguiram pelo corredor do cinema –  era o do Mirandinha – até a saída do prédio. Sob os aplausos calorosos da platéia. Pétalas de flores, luzes coloridas piscando, e a música entoando hinos à Primavera. Lindo espetáculo que ficou na lembrança dos artistas mirins que fomos nós.
Onde andarão os meninos soltando pandorgas? O vento sul não falhou neste inverno, quase primavera. É hora. Devem estar ocupados com os jogos eletrônicos  de novidades que não cessam de aparecer e  que nós, de outras eras, temos dificuldade de assimilar.
É a vida, outros tempos.  Mas nem tudo está mudado. Eis que, abrindo a porta dos fundos, uma lufada de vento me traz o cheiro gostoso de flores de laranjeira. Deus seja louvado!



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

EM ESTADO DE GRAÇA



O concerto da OSPA neste último domingo deixou-nos em estado de graça, provando que somos mais do que um corpo que necessita de pão. Nosso espírito embebeu-se da beleza da música erudita sob a batuta de um exímio maestro e executada por profissionais de elite. Foi o presente de aniversário de nossa querida Matriz nos seus 200 anos de fundação – 15 de agosto de 1815.
A igreja esteve lotada, e o comportamento do público mostrou mais uma vez que somos um povo que aprecia a cultura e sabe reverenciá-la. Embalados pela valsa “O Lago dos Cisnes” ou vibrando com ritmos violentos de batalhas e tragédias passionais, os presentes corresponderam plenamente ao brilhante desempenho da Orquestra.      
A cidade viveu dias e noites inesquecíveis na comemoração da data. Uma novena que reviveu os anos de fundação e construção deste inigualável templo barroco-colonial uniu fiéis e conterrâneos na devoção à Padroeira e na rememoração do passado desta Paróquia que nos dignifica e enternece . Não é toda cidade de interior que possui uma igreja tão magnífica como a nossa. Idealizada por religiosos de vocação e construída pedra sobre pedra com os recursos precários da época, e muitas vezes interrompida por circunstâncias adversas, nossa  Matriz é hoje um  cartão postal da cidade  bastante visitado e admirado pelos forasteiros. É o ponto mais alto avistado na chegada à cidade, e ao contemplá-lo lembro sempre de agradecer por reencontrar tudo nos seus devidos lugares, e a querida Padroeira Nossa Senhora da Assunção velando por nós.
Nas noites, as homilias lembravam pessoas que foram parte da história desta igreja. Os sacerdotes, as religiosas do Colégio SS. Nome de Jesus e do Hospital. E também as devotas presentes em seus ritos, atuantes nas Associações Religiosas, que zelavam pela ornamentação dos altares, cuidando das alfaias e vestes litúrgicas...Cada presente à novena deve tê-las sentido  ali perto, recebendo “in memoriam” esta homenagem tão merecida. Foram momentos de plena comunhão, todos vivendo as mesmas emoções. No coro, músicos e cantores entoando hinos que ecoavam pelas abóbadas e inspiravam a devoção, lembraram os corais de outrora, quando tocavam órgão e algumas vezes  se ouvia um violino.
No tempo em que o padre falava do púlpito, suas mãos se apoiavam na toalha rendada e bordada com esmero, e eu ficava admirando aquela brancura,- como era bem engomada,- o trabalho que devia dar às zeladoras.
Elas partiram, hoje são anjos que velam por nós, com certeza. Mas antes da última noite da novena, tive a graça de ver outras seguidoras, igualmente dedicadas, preparando as brasas e essências para o incenso. Num trabalho humilde e ignorado, mas que dá um realce à devoção. Outras se ocupavam de colocar nos devidos lugares os objetos rituais, acender velas, pôr água nas jarras e outras tarefas. Todas se ajudando mutuamente, numa alegria contagiante de quem aguarda uma bela festa.
E os músicos partiram contentes com os aplausos, apenas algumas queixas do frio e do vento da noite bem caçapavana.
Mas disso já se queixara D. Pedro II de sua visita à Caçapava. “Não deviam ter construído aqui a cidade. Mal resguardada dos ventos.”
Mas Caçapava é uma cidade profundamente protegida. Nem enchentes, nem tufões, só as bênçãos da Padroeira a protegê-la de todos os mal

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

FIGURA DE PAI





Na casa que guardo na memória, eu vejo meus fantasmas queridos em toda a parte. Vários anos sem o prazer de levar-lhe um presente no Dia dos Pais, é a sua figura em especial que eu revivo nesta data. Hoje releio os cartões de felicitações que ele guardava como um tesouro. Diziam coisas muito ternas, saídas do fundo de nossos corações: “Pai querido/ nós precisamos de ti./ Dos teus valores, que a vida nunca modificou; /da tua dignidade, que nos torna orgulhosos de sermos teus herdeiros;/ de tua bondade, de teu imenso amor.” Ou assim: “Teus cabelos brancos, que te distinguem de longe, são para nós um símbolo do verdadeiro e heróico Pai.”.
Com saudade revejo meu pai no seu dia-a-dia em todos os estágios de nossa vida abençoada, pois que o tivemos até nossa 3ª idade entre nós. Revejo o pai preocupado com a segurança do lar, verificando se as aberturas, portas e janelas, estavam bem fechadas quando alguma tempestade se anunciava. Ou ao sair com toda a família para o passeio dos domingos. Da porta da rua ainda voltava para desligar a chave geral.
Meu pai preocupado com os assuntos do trabalho, e minha mãe pedindo silêncio à mesa de refeições para não perturbá-lo.
Meu pai preocupado com nossos estudos e a economia forçada no lar para poder mantê-los, no tempo em era preciso migrar de Caçapava para conseguir um diploma.
Naquele tempo, a Rua Sete ainda descalça via-nos passar nas tardes de domingo para a visita aos avós, como um ritual. Parecia tão longe, mas o percurso se fazia agradável, os pequenos à frente, e o casal de braço dado logo atrás, naquele diálogo sempre eloquente de quem tinha muito a compartilhar e que prosseguiu até a morte.
Vejo meu pai, mais tarde, preparando-se para a aposentadoria que ele temia como a morte em vida. Mas, qual! Foi quando ele se entregou ao prazer de observar seus netos e bisnetos nas brincadeiras infantis. A mãezinha podia ficar descansada conversando com as mulheres da família, nos seus encontros quase diários. Pois o vovô se responsabilizava prazerosamente pela segurança dos pequenos.
Nos veraneios da família na praia e nas festas conjuntas de todo o “clã”, ele era a figura bem humorada e prestativa, providenciando refrigerantes para os netos, oferecendo caronas para sanar algum imprevisto, ou buscar a torta encomendada e os frios para a comemoração de algum aniversário.
Ninguém se lembra de tê-lo visto acomodado na melhor poltrona pedindo que lhe alcançassem qualquer coisa, como um copo d´água. Ele mesmo se servia e ainda se levantava ligeirinho para arrebatar algum pacote pesado que uma das senhoras da família carregasse.
Meu pai era a visita diária, chovesse ou fizesse sol, à netinha doente que já conhecia seus passos e se alegrava com a sua chegada.
Meu pai era uma pessoa feliz, porque seu coração só continha bondade e vontade de ajudar a todos.
Como dizia um dos cartões que descobri em seus guardados, repito ainda hoje:
“Ao nosso pai sempre jovem de espírito, que nos deu a vida e exemplos de como honrá-la e alegrar-nos com ela, o nosso amor e gratidão.”




domingo, 2 de agosto de 2015

VELHAS ÁRVORES






Hoje eu vejo aquelas pessoas apressadas atentas ao celular ou alongando a vista na espera ansiosa do ônibus que demora.  À sombra das centenárias árvores da Praça José Bonifácio - que nem percebem . Não olham para cima... O tempo não para, e os compromissos difíceis de cumprir nesta crise que nos envolve não as deixam sentir aquele hálito amigo, a sombra que as protege do calor e dos raios agora tão temíveis – a camada de ozônio desaparece...
Mas aquelas velhas árvores têm sua história, e sabe bem apreciá-las, com todo o carinho e respeito, quem sobreviveu aos anos dourados do século que passou.
Ah, noites quentes do verão cachoeirense! Suas árvores eram um refrigério.  Difícil conseguir bancos para tanta gente ficar gozando de seu frescor. Nós, as meninas da época, íamos mais cedo reservar lugar para nossas tias e mães que iam chegando e trocando-se beijos  e exclamações de alegria.
Os maridos estavam ali em frente, no Clube Comercial, para uma “carpeta” entre amigos. De vez em quando um e outro chegavam até elas para oferecer-lhes um refresco e para nós um picolé e ouvir alguma novidade. Algo de que aquelas senhoras se orgulhavam de serem as fontes.
Ainda escuto no túnel da memória suas gargalhadas divertidas.
Do coreto da praça, em determinadas noites, vinha o som da banda de seu Rosinha, que alegrava as ruas do centro da cidade. “(...) Anda o mundo a girar/ quantas voltas deu o mundo/ que eu cansei de tanto amar. (...) Músicas melódicas, suas letras tinham profundo significado.
Também vindo do restaurante do quiosque aquele aroma gostoso dos filés com fritas. Nosso apetite adolescente ficou sempre desejando saboreá-los. Mas a hora era para os vaivens das meninas pelas calçadas – o chamado footing - enquanto os rapazes seguiam também em turmas de amigos pelo meio da rua. E os olhares se cruzavam entre eles nos “flirts” da noite - os inocentes namoros daquela época.
Atravessando a rua, as meninas ficavam olhando as vitrines das Casas Pereira e Bidone, fortes lojas de modas e armarinhos de famílias tradicionais da cidade.
De dia, as árvores pareciam outras. Mas sempre acolhedoras assistindo aos movimentos dos carros, aos passantes pelas lojas, clube, Banco da Província da esquina – a potência econômica da época – enfim, como parte da vida que pulsava com todo o orgulho bairrista dos concidadãos da Princesa do Jacuí, “a capital do arroz”.
Do alto dos postes, ouvia-se por toda a área a “Voz Sonora da Princesa do Jacuí” – precursora das rádios locais - onde jovens talentosos, mais tarde transformados em importantes expoentes das TVs de S. Paulo e Rio de Janeiro – mantinham programas de música e notícias bem elaborados. Um locutor apaixonado mandava mensagens cifradas para sua “princesinha.”
Nos grandes acontecimentos, as árvores mantinham o clima de frescor para o público das calçadas. Semana da Pátria, ah, quanto garbo! As escolas principais, João Neves, Roque Gonçales e Imaculada Conceição disputavam os aplausos do público com suas apresentações impecáveis. Uniforme, postura, brilho.
Os carnavais desfilavam sob sua sombra amiga os criativos carros alegóricos, que iam desde as Baianas – e a Lovely, seus olhos verdes e pele cor de canela encantando com sua graça – até os cortejos de Faraós e seus escravos com aquelas ventarolas enormes abanando as rainhas cheias de luxo.
Nos comícios políticos, quanta vibração! Os cidadãos acreditavam em seus candidatos. Fernando Ferrari e suas “mãos limpas”. Além disso, ele era um “gato” como diziam as mocinhas da época que se aglomeravam a seu redor.
Getúlio Vargas e seu carisma também se apresentaram ali, ocupando a sacada da casa ao lado do Clube Comercial que as proprietárias, umas senhoras idosas e simpáticas, cediam com prazer e muito orgulho.
Momentos emocionantes os das procissões da Semana Santa. O encontro de Jesus carregando a cruz, ensanguentado, trôpego, com sua mãe, Nossa Senhora Maria das Dores. E os sermões do padres  Paulo Kédi e Achilles Sponchiado! Quem não chorava?
As Águas Dançantes, o Orquidário. Projetos maravilhosos que vieram para dar mais brilho à praça e àquelas árvores que a cobriam ternamente!
A vida mudou, a cidade deixou de ser a Capital do Arroz. O centro agora não é mais o que foi - o coração - mas apenas uma passagem para outras áreas, outros bairros, outras atividades. Onde os usuários dos ônibus urbanos, cansados, apressados e perdendo muitas de suas esperanças, ainda mantêm um último privilégio: esperar a condução sentados na praça sob a copa das velhas árvores. Mas até quando?



sábado, 25 de julho de 2015

A GALINHA DO VIZINHO







A galinha do vizinho é sempre mais gorda, diz a sabedoria popular.  E o mundo está cheio de Cains invejosos deixando de apreciar o que é seu para cobiçar o alheio.
Além de a situação nacional estar péssima, a baixa auto-estima do povo ainda a torna pior.
Ficamos enaltecendo outros países que conseguiram sair do aperto que parecia impossível de ser resolvido, enquanto nós só fazemos lamentar. Os exemplos nos esmagam, em vez de dar ânimo. Até a Argentina que estava na miséria agora pararam de falar em cobranças ou que ela deu calote. O Japão, que sofre seguidas catástrofes climáticas, vazamentos nucleares e erupções de vulcões que destroem tudo a seu redor, logo repara os estragos, e a vida continua crescendo em recursos e qualidade. A Alemanha, vilã da 2ª Guerra Mundial, tão detestada e castigada por seus crimes, agora é uma das mais fortes nações da Europa, bancando até de benfeitora dos países em crise, como o Brasil.
Não bastassem as crises política e econômica do país e do Estado, S. Pedro não teve piedade. As águas extravasaram, é flagelado por todo lado, dá pena ver tanta gente sofrida chorando pelos bens perdidos. E as estradas, meu Deus. Buracos, deslizamentos, pontes interditadas, um caos!
Mas, como disse um comentarista da TV, pior do que isso, impossível. Abaixo do pior não existe outro superlativo.
Portanto, é arregaçar as mangas e resolver aquilo que governo algum, estadual ou federal, está resolvendo.
Os gringos da Serra Gaúcha estão dão o exemplo. Começaram a tapar os buracos. Conseguiram salvar o acesso a suas cidades, e os prejuízos no comércio e distribuição de produtos que chegam e saem estão diminuindo. É isso aí, não adianta chorar sobre o leite derramado.
Entretanto, outro dia fiquei triste de assistir a esta cena: uma mulher varrendo a calçada ia jogando o lixo para dentro do bueiro da esquina. Interpelada, ela sacudiu os ombros e disse: “não tô nem aí.” E outra, saindo de seu carro novinho em folha – bem trajada e maquiada – espalhou latas vazias de bebidas de uma sacola cheia pelo meio da rua e saiu dizendo: “Que se lixem.”  Só porque perdeu na eleição.
Mas precisamos apreciar nossas galinhas. Nosso patriotismo não pode arrefecer porque o Inter perdeu o jogo no México. Foi um golpe a mais, porém, não dizem que o importante não é ganhar, mas competir?
Temos muitas coisas de valor nesta pátria amada. Não caberiam nesta página. O que nos falta é memória para lembrar de uma eleição até a seguinte quais foram os malfeitores, os corruptos, os aproveitadores “representantes” do povo que nos levaram à atual situação que parece incontrolável. E votar certo, após muita pesquisa e ponderação, nos próximos pleitos. Então, não haverá galinhas mais gordas do que as nossas.


Anna Zoé Cavalheiro

sexta-feira, 17 de julho de 2015

APELOS DA TERRA






A gravura no calendário ilustrava o mês de agosto. Um campo verdinho prenunciando a primavera, com terneirinhos e cordeiros saltitando cheios de vida junto a suas mamães satisfeitas.
Lembrei que era esta a paisagem que me encantava nas minhas viagens de serviço ao interior do município nos anos sessenta. Foi quando aprendi que agosto era o mês em que tudo começava a acontecer. A terra, os campos e os animais, castigados pelas intempéries do inverno, agora renasciam em todo o seu esplendor. Um espetáculo lindo e cheio de esperança.
As estradas de terra batida, às vezes barrentas, outras com buracos e muita poeira, nada incomodava os passageiros do ônibus acostumados à vida na campanha. Todos se conheciam, e a conversa se estendia versando sobre o tempo, os cuidados com a criação, as plantações e as notícias sobre os acontecimentos familiares e de amigos. De longe em longe o motorista deixava encomendas nas porteiras, ora um tarro de leite, que ele largava porteiras adiante ou levava até a cidade, ora para receber encomendas da farmácia ou correspondência para postar no Correio, tudo em perfeita sincronia. Também parava para receber seus presentes que um agricultor ou criador lhe oferecia. Pernil de porco, dúzias de ovos, queijo, sacos de laranjas, até galinhas, que ele recebia agradecido, mas sabendo que bem os merecera pelos serviços prestados.
A cada passageiro que desembarcava, o condutor ajudava a descarregar a bagagem e esperava pacientemente que terminassem as despedidas e recomendações às famílias. Ninguém tinha pressa, o importante era se comunicarem e sentirem que a viagem até a cidade rendera o fruto esperado. Voltar são e salvo aos pagos, tirar a roupa domingueira e colocar-se à vontade para os trabalhos do campo - mas antes dar uma mateada para contar as novidades – era um instante de grande satisfação.

Apesar de ser uma alienígena no meio deles –  era a única passageira “sem terra” – eu me sentia parte daquela história, pois quantas vezes desejei descer em alguma propriedade que tivesse arvoredos e açudes e ali fixar raízes.Uma saudade atávica da vida no campo que meus antepassados devem ter deixado no meu DNA.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

PROCURANDO A SAÍDA





A vida era tão simples. Ou parecia. As famílias criavam seus filhos, estes cresciam, estudavam, escolhiam o meio de vida para o qual sentiam vocação e saíam da casa paterna preparados para enfrentar o mundo. Não totalmente prontos, porém. Porque a realidade traz sempre novos saberes que muitas vezes se chocam com a bagagem de lições trazidas da família. Mas eles venciam pela honestidade e competência.
 Novos lares, novas famílias, novas profissões, novos valores. A sociedade se modificando aos poucos. Isso antes do salto vertiginoso que surpreendeu o mundo após os anos sessenta ou setenta. Por aí, que a minha memória atualmente é mais sentimental do que cronológica. Pois bem, hoje vivemos na tal “Aldeia Global” anunciada pelos filósofos do Século XX, onde os males, por mais longe que aconteçam, se refletem na economia do país, nos costumes, nas mentalidades. E servem de pretexto para os desmandos de nossos poderosos nacionais. Nossas conquistas pelo trabalho honrado vão desaparecendo.  Mas os bens destinados aos que fazem as leis, comandam as fontes de riqueza e gozam de todos os privilégios, esses nunca se perdem. Porque eles “trabalham” mais do que o povo. “Cansam” suas augustas cabeças. De fato, o cidadão comum, como eu, jamais seria capaz de arquitetar os engenhosos esquemas de captação de recursos, desvios para caixas dois, mais lavagem de dinheiro e domínios de mercado. Eles herdaram a arrogância dos reis da antiguidade, que se  julgavam escolhidos por Deus para governar. Era um legado divino. E o povo acreditava...
Este ano que começou para nós brasileiros com tantas esperanças... Foi só os dirigentes eleitos sentarem em suas “sagradas” cadeiras que a realidade começou a aparecer. Tão bom sonhar que éramos cidadãos livres gozando do direito de escolher nossos representantes. E que estes procurariam atender ao bem estar do povo. Durou pouco nossa ilusão. A realidade mostrou logo sua cara.
Mas há um elemento, a nosso favor, interferindo nos planos dos mandantes. É a tal transparência apregoada pelos políticos - uma satisfação para os eleitores - que extrapolou os limites que eles previam. As redes sociais, a imprensa, os trabalhos jornalísticos, as câmeras flagrando em pontos estratégicos os fatos, pode-se dizer sem medo de errar que vivemos numa aldeia global. Os segredos estão vindo à luz com rapidez, aos borbotões.
As crises se sucedem. Desempregos e inflação nos mais altos índices de todos os tempos. Faltam verbas para os setores sagrados da população: saúde, educação, segurança.
Há diversas maneiras de reagir, cada qual com seu jeito e experiências de vida e estrutura moral. Os pessimistas clamam por um dilúvio que acabe com o mundo que não tem mais jeito. Os otimistas acreditam numa virada espetacular: um herói surgindo com a fórmula certa. Quem pende para o mal se alia aos bandidos, rouba, mata, trafica. Os menos violentos trapaceiam, sonegam impostos, porque a vida para eles é aqui e agora e não se conformam em esperar para gozar os resultados de um trabalho honesto, de uma vida digna que respeite os direitos dos outros. Não querem ser solidários, ajudar nas crises.
Nós, cidadãos comuns, vamos levando nossa vidinha pacata, sem descrer do bem que ainda existe. É só praticá-lo e servir de exemplo. A sementinha é boa de vingar e dar frutos.
Enquanto isso, vamos enfrentando com bom humor as altas dos preços, dando graças por ainda não faltarem produtos alimentícios nas prateleiras e gôndolas dos Supermercados. Também é bom ir à feira livre para abastecer-nos das hortaliças cultivadas sem agrotóxicos. E as abóboras e mogangos da terra, não há melhores nas grandes cidades. Nossos filhos que já não moram na terrinha que o digam. As bergamotas – mexericas – só se encontram aqui. As importadas de outras  localidades não têm o mesmo gosto, nem o cheiro...
Tudo isso faz a nossa vida ainda parecer o que era antes: uma jornada que devemos percorrer com simplicidade e alegria, procurando conviver bem com nossos semelhantes e boa vontade de ajudar onde e como for preciso ou estiver a nosso alcance.

E um dia, sei lá quando, é possível que nossos netos, bisnetos ou tataranetos encontrem a saída que agora em vão estamos procurando.

terça-feira, 16 de junho de 2015

DOCES LEMBRANÇAS



A casa de meus amigos numa das praias de Florianópolis é uma graça. De frente para o mar, no alto de uma colina, goza de uma vista maravilhosa.
O terraço com piscina de águas morninhas até o entardecer ameniza o calor do verão e o cansaço, depois dos passeios pela ilha. Essa com novidades interessantes para se descobrir cada dia. Até ostras vendidas à beira do mar, por preços bem acessíveis. E lojas sem fim com artesanatos variados e gosto para todos. E as paisagens, meu Deus, que beleza! Inesquecível o dia passado na Lagoa da Conceição e o almoço no restaurante sobre as águas da Lagoa.
No interior da casa de meus amigos, a decoração é feita com lembranças de fatos e viagens dos donos e tem um encanto todo especial. Lembra um cenário de filme ou telenovela. Alegre, colorido, acolhedor.
As refeições parece que nem dão trabalho à Sílvia, nossa anfitrioa perfeita, que se movimenta com graça da sala para a cozinha -  separadas apenas por um balcão -  sem perder o fio de nossas intermináveis conversas. E à mesa, pratos à base de frutos do mar, cada dia uma novidade. Não faltaram as ostras, com receitas do Google... Os assuntos continuam, principalmente depois da sobremesa. Então, os mais jovens levantam-se discretamente para lavar a louça. E nós, os adultos, damos largas à memória cruzando acontecimentos que nos ligaram mesmo antes de nos conhecer pessoalmente. Só de nome. E os personagens reais de nossas histórias animaram essas lembranças, unindo-nos na saudade e no reconhecimento de como foram importantes por nossa profunda afinidade. Moema e Dadá – que representam honrosamente uma e outra família de nosso passado genealógico do Durasnal - foram as pedras angulares dessa nova amizade e, de lá onde se encontram agora, tenho a certeza de que estão nos ouvindo, abençoando e rindo conosco dos episódios divertidos que lembramos. E intercedendo por graças pelo casalzinho da nova geração que se formou, depois de tantas voltas que o mundo dá, alicerçado por essas origens tão ternas e edificantes.
À tardinha, que gostoso ficar na piscina, ou à sua volta, admirando o entardecer e o movimento dos pássaros fazendo a refeição da noite. Júlio não esquece de abastecer de grãos a casinha que fez para eles no terraço. Em forma de capelinha e rodeada de belas folhagens. Eles vêm em bando, primeiro os menores, e se revezam naquele espaço em perfeita harmonia até que surgem as pombas rolas que os espantam logo, sem piedade. Vencem pelo tamanho bem maior. E eu que as julgava humildezinhas como minha mãe contava. Maria e José ofereceram um casal de rolas quando apresentaram seu divino filho no templo. Eram pobres, não podiam pagar por ovelhas para o sacrifício de praxe. Ah, safadinhas, agora vocês me desencantaram.
Mas não ficou por aí. De repente, surgido não sei de onde, um gato preto avançou sobre a casinha, que balançou com força, afugentando os passarinhos. Foi uma debandada geral, mas eles saíram ilesos. Porém não voltaram naquele fim de dia. Ficou a sensação do perigo que nos rodeia, em qualquer parte, porque o mal existe até nos coraçõezinhos dos animais.
E o nosso assunto prosseguiu para o assassinato do surfista ali bem próximo, no paraíso da classe, onde os mais famosos se acham donos das ondas e afugentam os amadores com violência. Mas dessa vez foi um campeão a vítima. Os jornais da Ilha não falaram outra coisa por dias e dias.
Hoje, lembrando aquela semana encantada em Floripa e os novos amigos tão queridos, parece que foi um sonho. Que pretendo guardar para sempre na lembrança como uma jóia preciosa que não posso perder.



segunda-feira, 25 de maio de 2015

HABILIDADES ESQUECIDAS






Atualmente, quando toca a minha vez de fazer o almoço de domingo, o cardápio não muda muito. Geralmente asso frango na panela Bom Apetite - coxas e sobrecoxas que já vêm em separado, do Supermercado - e mais uns acompanhantes, como massa ou arroz e salada de maionese. Uso a industrializada. Nada que me canse, pois as facilidades das novas tecnologias já trazem os ingredientes semi-prontos.  
Fico lembrando os velhos tempos na casa de meus pais. O frango assado não era uma tarefa nada fácil. Passava uma semana, pelo menos, em que o mesmo ficava numa encerra em separado para ser “amilhado”, o que deixava sua carne bem cevada e macia. Coitadinho, nem desconfiava que estava no “Corredor da Morte”.
No domingo, a Marcina, nossa cozinheira na época, levantava mais cedo para matar e preparar a ave. Pegava o bichinho na horizontal, a mão esquerda segurando as pernas, e a direita o pescoço. Num golpe certeiro, ela pressionava o polegar no ponto exato do pescoço, e a galinha ou frango nem piava. As vizinhas da quadra, sem coragem, recorriam à sua habilidade nesse ofício. Chegavam com o bichinho lá na porta de casa, e a gente já sabia: Marcina, é contigo...
Esta não era sua única habilidade. Entre várias outras, nenhum de nós consegue esquecer o guisadinho cortado a capricho. Melhor do que o “mastigado” de hoje nos multiprocessadores de cozinha.
As chaleiras bem cedo no fogão preparavam a água para depenar o frango. Então, era a vez de cortar corretamente as partes, que na opinião de alguns da época chegavam a doze. Tenho minhas dúvidas. Mas contando com os miúdos, coração, moela, fígado, pescoço, até pode ser. Nessa hora é que ela lembrava que seu Fincão andava sumido, por isso as facas estavam sem fio. Ninguém sabia onde morava, mas ele costumava aparecer com seu carrinho semana sim, outra não. E a buzina igual à dos pipoqueiros e picoleteiros  chamava as donas de casa ou suas domésticas com seus objetos cortantes. A cena se prestaria para um filme de horror: mulheres desgrenhadas ou com papelotes (usados antes dos rolinhos), conforme haviam levantado da cama, saindo de suas casas atraídas pelo som da carrocinha, com aquelas armas brancas.  
Minha mãe costumava servir-lhe café. Mas preto, porque o leite comprado era a conta certa para a família. E ele costumava dizer, pobrezinho: Gosto tanto de café com leite!
Ah, seu Fincão, que falta eu sinto do senhor. Hoje não sei a quem recorrer para ter facas e tesouras afiadas.
Nos domingos, o almoço costumava atrasar um pouco. Pudera! Com tantas tarefas complicadas... Porém os jovens da casa, de volta da missa das dez, achávamos um passatempo. Como fãs dos programas da Rádio Nacional. Papel Carbono, de calouros já classificados em edições anteriores, era o nosso preferido naquele horário. Era uma torcida pelos nossos candidatos que muitas vezes saíam vencedores. Ao meio dia em ponto Francisco Alves, o Rei da Voz, nos emocionava com músicas românticas. Sua característica “Na carícia de um beijo/ que ficou no desejo/ Boa noite, meu grande amor”  eu nunca esqueci.
Enquanto isso, minha mãe preparava a sobremesa, geralmente um creme que levava leite condensado cozido com antecedência umas duas horas no fogão a lenha. Nas cremeiras, ele ficava cercado pelo mingau com gemas e coberto pela merengada bem batida. Costumávamos chamá-lo de “doce do meio”, e ele era degustado por último, para alongar o prazer.
Bem na hora do almoço meu pai ia buscar as bebidas – suco de fruta, refrigerante, às vezes um vinho para os domingos especiais – que deixara refrescando num balde dentro do poço - a nossa geladeira.
Cada época com seus costumes e ofícios. Substituídos por outros mais práticos, que levam menos tempo para executar. Mas alguém pode me dizer quem substituiu os hábeis consertadores das varetas dos guarda-chuvas?  Minhas sombrinhas estão sempre quebrando...


O PRESENTE

Anna Zoé Cavalheiro





Chovia muito. Mesmo assim, Silvana recusou a carona da filha da patroa. Precisava chegar a algumas lojas e escolher seu presente do Dia das Mães. Por isso, findo o trabalho, pendurou o avental e aprontou-se para sair.
Abriu a sombrinha e dispôs-se a enfrentar o mau tempo. Por uma boa causa, pensou, pois levava consigo o dinheiro que sua filha lhe dera para que escolhesse uma blusa bem bonita, que servisse para os dias de festa. Seria o primeiro presente dela que conseguira o  emprego desejado, pois era uma boa moça, trabalhadeira e honesta. Isso a enchia de orgulho de mãe.
Na primeira loja não encontrou o número certo, nem a cor. Por isso andou mais umas quadras para chegar a outras que poderiam servir-lhe.
Estava difícil atravessar as ruas, sarjetas alagadas, o passo tinha de ser bem largo. Mesmo assim, seus pés se afundavam nas águas. Mas finalmente Silvana se achou recompensada, vendo que chegara ao lugar certo.
Escolhida a blusa, ela se encantou com as promoções do mês das mães, crédito facilitado em módicas prestações - naturalmente que o pagamento seria em oito a dez meses. Mas achou que valia a pena adquirir roupas íntimas, camisetas, pijamas e camisolas para enfrentar o inverno que promete...
Satisfeita com as compras, Silvana dirigiu-se à parada de ônibus. Mas no caminho ainda chegou ao Supermercado e comprou pão cacetinho para acompanhar a sopa de legumes que a filha adorava.
E, assim, foi colocando sacola dentro de sacola para diminuir os volumes. Na parada, sentou-se no banco, dando graças por ainda achar um lugar.  Foi quando se deu conta de seu cansaço. Tudo bem, logo estaria em casa, onde trocaria roupas e sapatos molhados e esperaria a filha vinda do trabalho para saborearem juntas aquela  sopa que já lhe dava água na boca. E lhe mostraria as compras que certamente a filha aprovaria.
Quando o ônibus se aproximou, surgiram passageiros apressados de todos os lados da rua e foi um empurra-empurra para embarcar. Felizmente achou logo uma poltrona e quando se disponha a relaxar é que se deu conta: cadê o sacolão das compras? Deixara no banco da parada, ou alguém o furtara sorrateiramente?
Na primeira parada Silvana apeou e percorreu o caminho de volta. Ia perguntando se alguém encontrara suas compras, mas todos que via eram-lhe desconhecidos e mostravam-se indiferentes.
Desencantada, contendo o choro, tomou o caminho de casa. Desta vez a pé, pois não lhe sobrara troco para a passagem.
Ao chegar, sua filha recebeu-a assustada. Por que demorara tanto? Mas a mesa já estava posta, e a sopa que ela sonhara apresentar à filha querida já estava à mesa a sua espera.
Depois, bem depois dos desabafos, as duas aconchegaram-se no sofá sob um cobertor quentinho para assistir à novela.
Vamos pôr na Rádio, amanhã, mãe. Pode ser...
Mas uma semana se passou, e alguém que ficou com a sacola deve ter-se sentido feliz com o “presente”, que irá custar muitos meses de pagamentos da pobre Silvana. Impossível não ter identificado a dona, pois até o recibo das compras estava ali.
Silvana já se consolou. Caráter e o nosso amor ninguém nos pode roubar, disse ela abraçando carinhosamente a filha.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

AGRADECENDO A HOMENAGEM






No meu tempo de aluna do Primário, era costume os boletins virem com um cabeçalho em letras maiúsculas que dizia o seguinte:
Comportamento
Aplicação
Pontualidade
Comparecimento
A palavra assiduidade ainda era desconhecida ou pouco usada.
Depois é que vinham as notas nas diferentes disciplinas.
Fui uma aluna comportada, aplicada e assídua. Só não conseguia a nota máxima em Pontualidade. Problemas meus da época...
Cada fim de ano era uma alegria receber os resultados finais. E com eles os cartões de louvores que a escola confeccionava em cartolina, pintados com muita arte pela Irmã Laurentina, que chegara recentemente da Alemanha.
Outra moda da época eram os exames de consciência que a gente fazia antes da confissão mensal. Havia uma listinha de prováveis pecados, entre os quais um que me chamava redobrada atenção: Dei mau exemplo?
Meu herói e personalidade exemplar foi desde cedo Tiradentes. Eu também sonhava salvar o meu povo -  até o martírio - ou descobrir fórmulas milagrosas para erradicar doenças e evitar outros males, ou viajar por todo o mundo, desbravar novas terras, enfim, fazer da minha vida algo espetacular e digno de ser lembrado.
Hoje me contento com meu espaço e com as atribuições que me couberam na vida. Compreendi que não há maior satisfação do que a do dever cumprido, ainda que humilde e ignorado.  O sentimento de pertencer a um grupo, interagir com os semelhantes, fazer a sua parte, que felicidade maior pode existir?
Esta homenagem, que me comove profundamente, recebo como um gesto de carinho desta  equipe admirável que coordena a Feira do Livro liderada por Pedro Vanolim. Sinal de que sou aceita por esta comunidade cultural, que faço parte da cidade, da Paróquia. O que muito me orgulha.
Dou graças por ter nascido e vivido nesta terra, de aqui ter minha família e criado meus filhos. Exercido minha profissão, meu ideal de vida. E pelo cultivo de preciosas amizades.
Muito obrigada, Rosane, querida colega de Oficina Literária, seu belo discurso e as palavras de carinho me tocam fundo. Obrigada a meus familiares e amigos -  pelo prestígio de sua presença. E aos leitores de minhas crônicas – com esses venho mantendo uma sintonia de ideias e afetos. E à brilhante equipe organizadora que me presta esta homenagem.
Pedro Vanolim, valoroso coordenador desta Feira, fala de minha conduta exemplar. Creio que, então, posso tirar de minha lista de pecados aquele que me preocupava muito na minha meninice: Dei mau exemplo?
Obrigada a todos por esta noite inesquecível.

PS- Este foi meu agradecimento pela homenagem recebida na 25ª Feira do Livro de Caçapava do Sul, edição 2015.



sábado, 9 de maio de 2015

A HORA É SAGRADA





O forasteiro transita tranquilamente  em nossa cidade. Longe dos engarrafamentos da capital gaúcha onde mora, respira aliviado. Cedo da tarde terá cumprido suas tarefas de representante comercial, e à noite já estará em casa, depois de enfrentar as agruras da estrada e o não menos caótico trânsito da cidade grande.
Fica admirando a calma da manhã, transeuntes passando sem pressa, lojas e estabelecimentos de portas abertas funcionando normalmente.
De repente, aquele susto. Veículos em disparada congestionando as ruas e avenidas. Não dá para o pedestre atravessar assim no mais. É preciso muita cautela.
Não só carros, automóveis, caminhonetes, caminhões nesta corrida. Há também uma avalanche de motos - pilotadas em geral por graciosas mocinhas, balconistas, secretárias, comerciárias... Parecem uns besourinhos coloridos zumbindo na paisagem clara da manhã.
Por fim, as bicicletas. É a vez dos operários com suas sacolas a tiracolo fechando aquele desfile apressado.
Eis que, assim como começou, aquele movimento barulhento teve fim. As ruas ficaram desertas, os estabelecimentos fecharam as portas. Um que outro transeunte carregando viandas nas calçadas. Depois, o silêncio.
 Passando pelas casas em direção ao restaurante, o forasteiro foi sentindo um cheiro bom de comida caseira. E o apetite foi aumentando.
 Saciada a fome, agora era a curiosidade que o espicaçava. Por que aquela correria desenfreada -  todos ao mesmo tempo?
- É a hora do almoço, disseram-lhe os garçons que o atenderam. Todos que trabalham em dois turnos têm esse privilégio. Vão correndo para suas casas. Almoçam e ainda lhes  sobra um tempinho para um cochilo. 
Que inveja lhe deu! Na cidade grande, o representante comercial mal tem tempo para um lanche quando consegue um espaço entre as andanças e atividades. E aqui!... Ficou imaginando as famílias reunidas em torno da mesa. A toalha estendida, os pratos servidos, a prosa. A mãe comandando. Ela é que entende do que cada um gosta ou desgosta. Se ela também trabalha fora, então em vez de toalha usa joguinhos americanos na mesa. É mais prático, não precisa lavar todo o dia.
Havendo crianças em casa, é hora de levá-los à escola. Alguém se dispõe. Com sorte, na volta, ainda lhe sobrará uns minutos para uma sestinha.
Nas cidades menores, ganha-se menos. Mas é nelas que a gente vive e sente que está vivendo. E curtindo...





A HORA É SAGRADA






O forasteiro transita tranquilamente  em nossa cidade. Longe dos engarrafamentos da capital gaúcha onde mora, respira aliviado. Cedo da tarde terá cumprido suas tarefas de representante comercial, e à noite já estará em casa, depois de enfrentar as agruras da estrada e o não menos caótico trânsito da cidade grande.
Fica admirando a calma da manhã, transeuntes passando sem pressa, lojas e estabelecimentos de portas abertas funcionando normalmente.
De repente, aquele susto. Veículos em disparada congestionando as ruas e avenidas. Não dá para o pedestre atravessar assim no mais. É preciso muita cautela.
Não só carros, automóveis, caminhonetes, caminhões nesta corrida. Há também uma avalanche de motos - pilotadas em geral por graciosas mocinhas, balconistas, secretárias, comerciárias... Parecem uns besourinhos coloridos zumbindo na paisagem clara da manhã.
Por fim, as bicicletas. É a vez dos operários com suas sacolas a tiracolo fechando aquele desfile apressado.
Eis que, assim como começou, aquele movimento barulhento teve fim. As ruas ficaram desertas, os estabelecimentos fecharam as portas. Um que outro transeunte carregando viandas nas calçadas. Depois, o silêncio.
 Passando pelas casas em direção ao restaurante, o forasteiro foi sentindo um cheiro bom de comida caseira. E o apetite foi aumentando.
 Saciada a fome, agora era a curiosidade que o espicaçava. Por que aquela correria desenfreada -  todos ao mesmo tempo?
- É a hora do almoço, disseram-lhe os garçons que o atenderam. Todos que trabalham em dois turnos têm esse privilégio. Vão correndo para suas casas. Almoçam e ainda lhes  sobra um tempinho para um cochilo. 
Que inveja lhe deu! Na cidade grande, o representante comercial mal tem tempo para um lanche quando consegue um espaço entre as andanças e atividades. E aqui!... Ficou imaginando as famílias reunidas em torno da mesa. A toalha estendida, os pratos servidos, a prosa. A mãe comandando. Ela é que entende do que cada um gosta ou desgosta. Se ela também trabalha fora, então em vez de toalha usa joguinhos americanos na mesa. É mais prático, não precisa lavar todo o dia.
Havendo crianças em casa, é hora de levá-los à escola. Alguém se dispõe. Com sorte, na volta, ainda lhe sobrará uns minutos para uma sestinha.
Nas cidades menores, ganha-se menos. Mas é nelas que a gente vive e sente que está vivendo. E curtindo...





quarta-feira, 6 de maio de 2015

A VOZ DO VENTO





O vento daquela noite pareceu-me o Minuano. Há quantos anos não o escutava. Lembrou-me cenas de minha infância. Assobiando pelas frestas das janelas, batendo as velhas portas fechadas com trancas de ferro, mesmo assim ele invadia os domínios da casa, fazendo minha mãe levantar para cobrir-nos melhor, e meu pai verificar se as aberturas estavam bem protegidas.
Esse vento gaúcho passava assustadoramente pela cidade e, na praça da Matriz, vergastava as raquíticas árvores que parecia nunca crescerem.
Dentro da igreja, ele soprava gelado, fazendo as devotas levantarem as golas de seus pesados casacos de lã. Mamãe, com o seu de carapinha, “herdado” de uma irmã sua, e mais tarde “legado” à siá Eva, nossa lavadeira – como diria o sábio Lavoisier, “nada se perde” -  nem por isso deixava de ir diariamente à missa das sete. Suas preces, tenho a certeza, não perderam a validade. Foram aceitas e atendidas ainda hoje.
O tempo passa. E o vento vai levando esses ecos para longe.
A Igreja Matriz de então era sombria. E os nichos dos altares, principalmente do altar mor – cheio de degraus de madeira trabalhada, de um azul forte, porém já desbotado – davam tratos à imaginação infantil. Era como se Deus, os santos e todos os espíritos celestes ali habitassem.
O incenso que se elevava às alturas fazia pensar em anjos voando em torno do altar.
As ladainhas em latim, enquanto o vento soprava, soavam como invocações misturadas à tênue fumaça do incenso em direção aos céus. 
Lá do coro vinham os sons do harmônio e das vozes dos cantores nos seus hinos de louvor. Minha mãe costumava dizer que cantar é rezar duas vezes.
No púlpito, o padre fazia a pregação sem microfone, e até os fiéis que ficavam lá no fundo o escutavam. Ele falava da misericórdia divina, mas também se demorava a descrever os castigos eternos para os pecadores não arrependidos. E alertava sobre os perigos das modas, bailes, carnaval e todas as festas pagãs. Na igreja, as mulheres não podiam entrar de mangas curtas, decotes ou trajes impróprios. E usavam véu, branco para as solteiras e preto para as casadas. As mocinhas casadoiras ficavam invejando as recém casadas quando  mudavam de cor o seu véu.
.
Os sinos badalavam o Toque de Finados, tão triste, quando um corpo ia chegando à igreja para ser encomendado. Os homens mais fortes da família e amigos subiam a escadaria carregando o caixão e depois o levavam ao cemitério em procissão a pé.
Mas nas comemorações religiosas, o sino, ouvido até as chácaras mais próximas, chamava festivamente os fiéis. Seu Américo, o fogueteiro oficial da Matriz, esmerava-se no seu ofício, e os moleques corriam atrás dos cartuchos vencidos.
Nos domingos, a missa das sete destinava-se a quem desejava comungar, pois tinha de estar em jejum. Seguidamente alguma senhora desmaiava, de fome, ou era uma grávida que se sentia mal. Seu Osvaldo Medeiros costumava acudi-las, pois, além de ser muito educado e solícito, era um dos únicos homens presentes àquela hora.
Na missa das dez, as freiras do colégio das Irmãs ocupavam lugares reservados com suas alunas internas.
 Depois da celebração, as crianças ficavam para o catecismo, que a dona Vicentina – uma santa – com dona Cota e outras senhoras ensinavam com todo o zelo. Catequista e seus alunos ocupavam duas a três fileiras de bancos, e por todo o espaço a gente ouvia aquelas vozes em tom bem baixo para não atrapalhar os grupos próximos.
Estas senhoras faziam parte, também, da arrumação e conservação da igreja. Lembro de ver dona Vicentina subida nos altares arrumando simetricamente os vasos com flores e os castiçais. Suas “canelas” fininhas sobressaindo do vestido comprido, a magreza de seu corpo, parecia que ela só tinha espírito. De caridade e oração.
As comemorações religiosas movimentavam a cidade. Festas do Divino, com as figuras do Imperador, da Imperatriz e seu séquito abrilhantavam as novenas e procissões. Anjinhos também. Havia quermesses em torno da igreja e leilões nos salões cedidos graciosamente pelos donos.
Os fazendeiros doavam capões e ovelhas, e os comerciantes contribuíam com brindes de suas lojas.  E o povo se divertia.
A Igreja Matriz era o centro da vida social da cidade. E da fé do povo caçapavano.