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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MODERNISMOS





Era o casal mais idoso da quadra. Beirando os setenta. Os demais moradores, famílias com filhos pequenos, passavam a maior parte do dia sumidos. Os adultos no trabalho, e as crianças e jovens estudando. Por isso frequentemente batiam à sua porta, quando uma jovem mãe vinha recomendar um filhinho a seus cuidados, porque a empregada ainda não chegara. Ou uma  jovem procurava pela chave da casa que deviam ter-lhe deixado ali. Coisas de vizinhos.
Dona Isaura servia a todos de boa vontade, o mesmo não acontecendo com seu Aníbal que não gostava de ser incomodado. Desde que sofrera aquele sequestro relâmpago, há anos, ele ficara desconfiado de tudo e de todos. Aposentou-se e passava o inverno de pijama e roupão.  Era preciso a esposa observar-lhe que já era hora de usar bermuda e camiseta quando começava o calor. Aí ele se entretinha pelo pátio procurando formigueiros e matando lesmas. Dona Isaura sorria satisfeita de vê-lo assim ocupado, em vez de só andar de radinho de pilha colado ao ouvido, sofrendo com as desventuras do Grêmio. Ela suspirava recordando o quanto ele fora alegre e brincalhão no tempo em que viajava com sua caminhonete de entregas pelos municípios vizinhos. Por onde passava ia fazendo amigos. E não negava caronas pelo caminho. Cuidado, ela vivia dizendo. Até que o assaltaram, roubando a carga, o dinheiro e deixando-o ferido e amarrado a uma árvore longe da estrada. Só dois dias depois foram encontrá-lo em estado de choque. Alguma coisa morreu dentro dele. Ficou arredio e  desde então preferia ficar sempre em de casa. Não saía nem para visitar os filhos. Assim, todo o serviço de rua ficou para dona Isaura que teve de aprender a lidar com caixas eletrônicos, cartões de crédito, compras e pagamentos. Na hora de aplicar as economias, ela precisava informar-se do melhor sistema, entre CDBs, FRF, até descobrir o que fosse isento do CPMF. Quando precisavam de algum conserto doméstico, ela é que procurava o profissional. Chegou a organizar uma agenda com endereços por serviços em ordem alfabética, dando graças a Deus que quase todos, marceneiros, encanadores, eletricistas, jardineiros e até empregadas domésticas tinham telefone celular.
Quando já ia saindo de carro da garagem, dona Isaura ouviu seu Aníbal fazer uma encomenda: Me traz veneno para formiga. Que tipo, cortadeiras ou aquelas que correm de um lado para outro sem carregar nada? Aquelas são as dançarinas, diz ele. Vendo que nada sobrara de suas lindas violetas, não foi preciso mais explicações. É para as cortadeiras.
À tardinha ela foi aguar as flores da frente. Marilda ia passando com sua graça juvenil. Oi, dona Isaura. Tudo bem? Tudo bem, e o namoro continua firme? A menina chegou mais perto e falou baixinho: Ainda não rolou nada, só em janeiro é que vamos transar. Ainda aturdida com a novidade – agora marcam data pra isso? – a senhora entrou em casa e esbarrou no marido que ouvira a conversa. Notou que sorria. Nisso a campanhinha tocou, e ele desapareceu como um fantasma. Vizinha, diz Rosélia, tenho vergonha, mas preciso de panela para uma feijoada. Meu novo amor vai chegar e está de aniversário. E se não for pedir demais, pode me emprestar este vaso com as flores? Que lindas! Vai ficar bonito sobre a mesa. Já pus candelabros com velas vermelhas. Que acha? Meus filhos foram lá para a minha irmã. Hoje a noite é minha.

Dona Isaura depois comentou com o marido: Ela troca de parceiros como se fosse de carro do ano. Será que desta vez ela acerta? Seu Aníbal dirige-se aos formigueiros com o veneno. Mas sobre o ombro ainda diz: Essa é das dançarinas.

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