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segunda-feira, 25 de maio de 2015

HABILIDADES ESQUECIDAS






Atualmente, quando toca a minha vez de fazer o almoço de domingo, o cardápio não muda muito. Geralmente asso frango na panela Bom Apetite - coxas e sobrecoxas que já vêm em separado, do Supermercado - e mais uns acompanhantes, como massa ou arroz e salada de maionese. Uso a industrializada. Nada que me canse, pois as facilidades das novas tecnologias já trazem os ingredientes semi-prontos.  
Fico lembrando os velhos tempos na casa de meus pais. O frango assado não era uma tarefa nada fácil. Passava uma semana, pelo menos, em que o mesmo ficava numa encerra em separado para ser “amilhado”, o que deixava sua carne bem cevada e macia. Coitadinho, nem desconfiava que estava no “Corredor da Morte”.
No domingo, a Marcina, nossa cozinheira na época, levantava mais cedo para matar e preparar a ave. Pegava o bichinho na horizontal, a mão esquerda segurando as pernas, e a direita o pescoço. Num golpe certeiro, ela pressionava o polegar no ponto exato do pescoço, e a galinha ou frango nem piava. As vizinhas da quadra, sem coragem, recorriam à sua habilidade nesse ofício. Chegavam com o bichinho lá na porta de casa, e a gente já sabia: Marcina, é contigo...
Esta não era sua única habilidade. Entre várias outras, nenhum de nós consegue esquecer o guisadinho cortado a capricho. Melhor do que o “mastigado” de hoje nos multiprocessadores de cozinha.
As chaleiras bem cedo no fogão preparavam a água para depenar o frango. Então, era a vez de cortar corretamente as partes, que na opinião de alguns da época chegavam a doze. Tenho minhas dúvidas. Mas contando com os miúdos, coração, moela, fígado, pescoço, até pode ser. Nessa hora é que ela lembrava que seu Fincão andava sumido, por isso as facas estavam sem fio. Ninguém sabia onde morava, mas ele costumava aparecer com seu carrinho semana sim, outra não. E a buzina igual à dos pipoqueiros e picoleteiros  chamava as donas de casa ou suas domésticas com seus objetos cortantes. A cena se prestaria para um filme de horror: mulheres desgrenhadas ou com papelotes (usados antes dos rolinhos), conforme haviam levantado da cama, saindo de suas casas atraídas pelo som da carrocinha, com aquelas armas brancas.  
Minha mãe costumava servir-lhe café. Mas preto, porque o leite comprado era a conta certa para a família. E ele costumava dizer, pobrezinho: Gosto tanto de café com leite!
Ah, seu Fincão, que falta eu sinto do senhor. Hoje não sei a quem recorrer para ter facas e tesouras afiadas.
Nos domingos, o almoço costumava atrasar um pouco. Pudera! Com tantas tarefas complicadas... Porém os jovens da casa, de volta da missa das dez, achávamos um passatempo. Como fãs dos programas da Rádio Nacional. Papel Carbono, de calouros já classificados em edições anteriores, era o nosso preferido naquele horário. Era uma torcida pelos nossos candidatos que muitas vezes saíam vencedores. Ao meio dia em ponto Francisco Alves, o Rei da Voz, nos emocionava com músicas românticas. Sua característica “Na carícia de um beijo/ que ficou no desejo/ Boa noite, meu grande amor”  eu nunca esqueci.
Enquanto isso, minha mãe preparava a sobremesa, geralmente um creme que levava leite condensado cozido com antecedência umas duas horas no fogão a lenha. Nas cremeiras, ele ficava cercado pelo mingau com gemas e coberto pela merengada bem batida. Costumávamos chamá-lo de “doce do meio”, e ele era degustado por último, para alongar o prazer.
Bem na hora do almoço meu pai ia buscar as bebidas – suco de fruta, refrigerante, às vezes um vinho para os domingos especiais – que deixara refrescando num balde dentro do poço - a nossa geladeira.
Cada época com seus costumes e ofícios. Substituídos por outros mais práticos, que levam menos tempo para executar. Mas alguém pode me dizer quem substituiu os hábeis consertadores das varetas dos guarda-chuvas?  Minhas sombrinhas estão sempre quebrando...


O PRESENTE

Anna Zoé Cavalheiro





Chovia muito. Mesmo assim, Silvana recusou a carona da filha da patroa. Precisava chegar a algumas lojas e escolher seu presente do Dia das Mães. Por isso, findo o trabalho, pendurou o avental e aprontou-se para sair.
Abriu a sombrinha e dispôs-se a enfrentar o mau tempo. Por uma boa causa, pensou, pois levava consigo o dinheiro que sua filha lhe dera para que escolhesse uma blusa bem bonita, que servisse para os dias de festa. Seria o primeiro presente dela que conseguira o  emprego desejado, pois era uma boa moça, trabalhadeira e honesta. Isso a enchia de orgulho de mãe.
Na primeira loja não encontrou o número certo, nem a cor. Por isso andou mais umas quadras para chegar a outras que poderiam servir-lhe.
Estava difícil atravessar as ruas, sarjetas alagadas, o passo tinha de ser bem largo. Mesmo assim, seus pés se afundavam nas águas. Mas finalmente Silvana se achou recompensada, vendo que chegara ao lugar certo.
Escolhida a blusa, ela se encantou com as promoções do mês das mães, crédito facilitado em módicas prestações - naturalmente que o pagamento seria em oito a dez meses. Mas achou que valia a pena adquirir roupas íntimas, camisetas, pijamas e camisolas para enfrentar o inverno que promete...
Satisfeita com as compras, Silvana dirigiu-se à parada de ônibus. Mas no caminho ainda chegou ao Supermercado e comprou pão cacetinho para acompanhar a sopa de legumes que a filha adorava.
E, assim, foi colocando sacola dentro de sacola para diminuir os volumes. Na parada, sentou-se no banco, dando graças por ainda achar um lugar.  Foi quando se deu conta de seu cansaço. Tudo bem, logo estaria em casa, onde trocaria roupas e sapatos molhados e esperaria a filha vinda do trabalho para saborearem juntas aquela  sopa que já lhe dava água na boca. E lhe mostraria as compras que certamente a filha aprovaria.
Quando o ônibus se aproximou, surgiram passageiros apressados de todos os lados da rua e foi um empurra-empurra para embarcar. Felizmente achou logo uma poltrona e quando se disponha a relaxar é que se deu conta: cadê o sacolão das compras? Deixara no banco da parada, ou alguém o furtara sorrateiramente?
Na primeira parada Silvana apeou e percorreu o caminho de volta. Ia perguntando se alguém encontrara suas compras, mas todos que via eram-lhe desconhecidos e mostravam-se indiferentes.
Desencantada, contendo o choro, tomou o caminho de casa. Desta vez a pé, pois não lhe sobrara troco para a passagem.
Ao chegar, sua filha recebeu-a assustada. Por que demorara tanto? Mas a mesa já estava posta, e a sopa que ela sonhara apresentar à filha querida já estava à mesa a sua espera.
Depois, bem depois dos desabafos, as duas aconchegaram-se no sofá sob um cobertor quentinho para assistir à novela.
Vamos pôr na Rádio, amanhã, mãe. Pode ser...
Mas uma semana se passou, e alguém que ficou com a sacola deve ter-se sentido feliz com o “presente”, que irá custar muitos meses de pagamentos da pobre Silvana. Impossível não ter identificado a dona, pois até o recibo das compras estava ali.
Silvana já se consolou. Caráter e o nosso amor ninguém nos pode roubar, disse ela abraçando carinhosamente a filha.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

AGRADECENDO A HOMENAGEM






No meu tempo de aluna do Primário, era costume os boletins virem com um cabeçalho em letras maiúsculas que dizia o seguinte:
Comportamento
Aplicação
Pontualidade
Comparecimento
A palavra assiduidade ainda era desconhecida ou pouco usada.
Depois é que vinham as notas nas diferentes disciplinas.
Fui uma aluna comportada, aplicada e assídua. Só não conseguia a nota máxima em Pontualidade. Problemas meus da época...
Cada fim de ano era uma alegria receber os resultados finais. E com eles os cartões de louvores que a escola confeccionava em cartolina, pintados com muita arte pela Irmã Laurentina, que chegara recentemente da Alemanha.
Outra moda da época eram os exames de consciência que a gente fazia antes da confissão mensal. Havia uma listinha de prováveis pecados, entre os quais um que me chamava redobrada atenção: Dei mau exemplo?
Meu herói e personalidade exemplar foi desde cedo Tiradentes. Eu também sonhava salvar o meu povo -  até o martírio - ou descobrir fórmulas milagrosas para erradicar doenças e evitar outros males, ou viajar por todo o mundo, desbravar novas terras, enfim, fazer da minha vida algo espetacular e digno de ser lembrado.
Hoje me contento com meu espaço e com as atribuições que me couberam na vida. Compreendi que não há maior satisfação do que a do dever cumprido, ainda que humilde e ignorado.  O sentimento de pertencer a um grupo, interagir com os semelhantes, fazer a sua parte, que felicidade maior pode existir?
Esta homenagem, que me comove profundamente, recebo como um gesto de carinho desta  equipe admirável que coordena a Feira do Livro liderada por Pedro Vanolim. Sinal de que sou aceita por esta comunidade cultural, que faço parte da cidade, da Paróquia. O que muito me orgulha.
Dou graças por ter nascido e vivido nesta terra, de aqui ter minha família e criado meus filhos. Exercido minha profissão, meu ideal de vida. E pelo cultivo de preciosas amizades.
Muito obrigada, Rosane, querida colega de Oficina Literária, seu belo discurso e as palavras de carinho me tocam fundo. Obrigada a meus familiares e amigos -  pelo prestígio de sua presença. E aos leitores de minhas crônicas – com esses venho mantendo uma sintonia de ideias e afetos. E à brilhante equipe organizadora que me presta esta homenagem.
Pedro Vanolim, valoroso coordenador desta Feira, fala de minha conduta exemplar. Creio que, então, posso tirar de minha lista de pecados aquele que me preocupava muito na minha meninice: Dei mau exemplo?
Obrigada a todos por esta noite inesquecível.

PS- Este foi meu agradecimento pela homenagem recebida na 25ª Feira do Livro de Caçapava do Sul, edição 2015.



sábado, 9 de maio de 2015

A HORA É SAGRADA





O forasteiro transita tranquilamente  em nossa cidade. Longe dos engarrafamentos da capital gaúcha onde mora, respira aliviado. Cedo da tarde terá cumprido suas tarefas de representante comercial, e à noite já estará em casa, depois de enfrentar as agruras da estrada e o não menos caótico trânsito da cidade grande.
Fica admirando a calma da manhã, transeuntes passando sem pressa, lojas e estabelecimentos de portas abertas funcionando normalmente.
De repente, aquele susto. Veículos em disparada congestionando as ruas e avenidas. Não dá para o pedestre atravessar assim no mais. É preciso muita cautela.
Não só carros, automóveis, caminhonetes, caminhões nesta corrida. Há também uma avalanche de motos - pilotadas em geral por graciosas mocinhas, balconistas, secretárias, comerciárias... Parecem uns besourinhos coloridos zumbindo na paisagem clara da manhã.
Por fim, as bicicletas. É a vez dos operários com suas sacolas a tiracolo fechando aquele desfile apressado.
Eis que, assim como começou, aquele movimento barulhento teve fim. As ruas ficaram desertas, os estabelecimentos fecharam as portas. Um que outro transeunte carregando viandas nas calçadas. Depois, o silêncio.
 Passando pelas casas em direção ao restaurante, o forasteiro foi sentindo um cheiro bom de comida caseira. E o apetite foi aumentando.
 Saciada a fome, agora era a curiosidade que o espicaçava. Por que aquela correria desenfreada -  todos ao mesmo tempo?
- É a hora do almoço, disseram-lhe os garçons que o atenderam. Todos que trabalham em dois turnos têm esse privilégio. Vão correndo para suas casas. Almoçam e ainda lhes  sobra um tempinho para um cochilo. 
Que inveja lhe deu! Na cidade grande, o representante comercial mal tem tempo para um lanche quando consegue um espaço entre as andanças e atividades. E aqui!... Ficou imaginando as famílias reunidas em torno da mesa. A toalha estendida, os pratos servidos, a prosa. A mãe comandando. Ela é que entende do que cada um gosta ou desgosta. Se ela também trabalha fora, então em vez de toalha usa joguinhos americanos na mesa. É mais prático, não precisa lavar todo o dia.
Havendo crianças em casa, é hora de levá-los à escola. Alguém se dispõe. Com sorte, na volta, ainda lhe sobrará uns minutos para uma sestinha.
Nas cidades menores, ganha-se menos. Mas é nelas que a gente vive e sente que está vivendo. E curtindo...





A HORA É SAGRADA






O forasteiro transita tranquilamente  em nossa cidade. Longe dos engarrafamentos da capital gaúcha onde mora, respira aliviado. Cedo da tarde terá cumprido suas tarefas de representante comercial, e à noite já estará em casa, depois de enfrentar as agruras da estrada e o não menos caótico trânsito da cidade grande.
Fica admirando a calma da manhã, transeuntes passando sem pressa, lojas e estabelecimentos de portas abertas funcionando normalmente.
De repente, aquele susto. Veículos em disparada congestionando as ruas e avenidas. Não dá para o pedestre atravessar assim no mais. É preciso muita cautela.
Não só carros, automóveis, caminhonetes, caminhões nesta corrida. Há também uma avalanche de motos - pilotadas em geral por graciosas mocinhas, balconistas, secretárias, comerciárias... Parecem uns besourinhos coloridos zumbindo na paisagem clara da manhã.
Por fim, as bicicletas. É a vez dos operários com suas sacolas a tiracolo fechando aquele desfile apressado.
Eis que, assim como começou, aquele movimento barulhento teve fim. As ruas ficaram desertas, os estabelecimentos fecharam as portas. Um que outro transeunte carregando viandas nas calçadas. Depois, o silêncio.
 Passando pelas casas em direção ao restaurante, o forasteiro foi sentindo um cheiro bom de comida caseira. E o apetite foi aumentando.
 Saciada a fome, agora era a curiosidade que o espicaçava. Por que aquela correria desenfreada -  todos ao mesmo tempo?
- É a hora do almoço, disseram-lhe os garçons que o atenderam. Todos que trabalham em dois turnos têm esse privilégio. Vão correndo para suas casas. Almoçam e ainda lhes  sobra um tempinho para um cochilo. 
Que inveja lhe deu! Na cidade grande, o representante comercial mal tem tempo para um lanche quando consegue um espaço entre as andanças e atividades. E aqui!... Ficou imaginando as famílias reunidas em torno da mesa. A toalha estendida, os pratos servidos, a prosa. A mãe comandando. Ela é que entende do que cada um gosta ou desgosta. Se ela também trabalha fora, então em vez de toalha usa joguinhos americanos na mesa. É mais prático, não precisa lavar todo o dia.
Havendo crianças em casa, é hora de levá-los à escola. Alguém se dispõe. Com sorte, na volta, ainda lhe sobrará uns minutos para uma sestinha.
Nas cidades menores, ganha-se menos. Mas é nelas que a gente vive e sente que está vivendo. E curtindo...





quarta-feira, 6 de maio de 2015

A VOZ DO VENTO





O vento daquela noite pareceu-me o Minuano. Há quantos anos não o escutava. Lembrou-me cenas de minha infância. Assobiando pelas frestas das janelas, batendo as velhas portas fechadas com trancas de ferro, mesmo assim ele invadia os domínios da casa, fazendo minha mãe levantar para cobrir-nos melhor, e meu pai verificar se as aberturas estavam bem protegidas.
Esse vento gaúcho passava assustadoramente pela cidade e, na praça da Matriz, vergastava as raquíticas árvores que parecia nunca crescerem.
Dentro da igreja, ele soprava gelado, fazendo as devotas levantarem as golas de seus pesados casacos de lã. Mamãe, com o seu de carapinha, “herdado” de uma irmã sua, e mais tarde “legado” à siá Eva, nossa lavadeira – como diria o sábio Lavoisier, “nada se perde” -  nem por isso deixava de ir diariamente à missa das sete. Suas preces, tenho a certeza, não perderam a validade. Foram aceitas e atendidas ainda hoje.
O tempo passa. E o vento vai levando esses ecos para longe.
A Igreja Matriz de então era sombria. E os nichos dos altares, principalmente do altar mor – cheio de degraus de madeira trabalhada, de um azul forte, porém já desbotado – davam tratos à imaginação infantil. Era como se Deus, os santos e todos os espíritos celestes ali habitassem.
O incenso que se elevava às alturas fazia pensar em anjos voando em torno do altar.
As ladainhas em latim, enquanto o vento soprava, soavam como invocações misturadas à tênue fumaça do incenso em direção aos céus. 
Lá do coro vinham os sons do harmônio e das vozes dos cantores nos seus hinos de louvor. Minha mãe costumava dizer que cantar é rezar duas vezes.
No púlpito, o padre fazia a pregação sem microfone, e até os fiéis que ficavam lá no fundo o escutavam. Ele falava da misericórdia divina, mas também se demorava a descrever os castigos eternos para os pecadores não arrependidos. E alertava sobre os perigos das modas, bailes, carnaval e todas as festas pagãs. Na igreja, as mulheres não podiam entrar de mangas curtas, decotes ou trajes impróprios. E usavam véu, branco para as solteiras e preto para as casadas. As mocinhas casadoiras ficavam invejando as recém casadas quando  mudavam de cor o seu véu.
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Os sinos badalavam o Toque de Finados, tão triste, quando um corpo ia chegando à igreja para ser encomendado. Os homens mais fortes da família e amigos subiam a escadaria carregando o caixão e depois o levavam ao cemitério em procissão a pé.
Mas nas comemorações religiosas, o sino, ouvido até as chácaras mais próximas, chamava festivamente os fiéis. Seu Américo, o fogueteiro oficial da Matriz, esmerava-se no seu ofício, e os moleques corriam atrás dos cartuchos vencidos.
Nos domingos, a missa das sete destinava-se a quem desejava comungar, pois tinha de estar em jejum. Seguidamente alguma senhora desmaiava, de fome, ou era uma grávida que se sentia mal. Seu Osvaldo Medeiros costumava acudi-las, pois, além de ser muito educado e solícito, era um dos únicos homens presentes àquela hora.
Na missa das dez, as freiras do colégio das Irmãs ocupavam lugares reservados com suas alunas internas.
 Depois da celebração, as crianças ficavam para o catecismo, que a dona Vicentina – uma santa – com dona Cota e outras senhoras ensinavam com todo o zelo. Catequista e seus alunos ocupavam duas a três fileiras de bancos, e por todo o espaço a gente ouvia aquelas vozes em tom bem baixo para não atrapalhar os grupos próximos.
Estas senhoras faziam parte, também, da arrumação e conservação da igreja. Lembro de ver dona Vicentina subida nos altares arrumando simetricamente os vasos com flores e os castiçais. Suas “canelas” fininhas sobressaindo do vestido comprido, a magreza de seu corpo, parecia que ela só tinha espírito. De caridade e oração.
As comemorações religiosas movimentavam a cidade. Festas do Divino, com as figuras do Imperador, da Imperatriz e seu séquito abrilhantavam as novenas e procissões. Anjinhos também. Havia quermesses em torno da igreja e leilões nos salões cedidos graciosamente pelos donos.
Os fazendeiros doavam capões e ovelhas, e os comerciantes contribuíam com brindes de suas lojas.  E o povo se divertia.
A Igreja Matriz era o centro da vida social da cidade. E da fé do povo caçapavano.

A FALTA QUE ELAS FAZEM







As mãezinhas de hoje saem da maternidade com seu bebê adorável e um manual de instruções de como criá-lo. Tudo pelos métodos modernos e práticos. Aos poucos, porém, as situações novas fogem do controle, e ela tem de apelar às avós ou às tias e aos seus costumes  que julgara ultrapassados.
E quem não tem uma mãe ou uma sogra nesta hora, coitadinha dela!
O pior vem depois, quando a licença-maternidade está por acabar. Quem vai ficar com o bebê? Como conciliar sua carreira, seus hábitos, sua vida, o próprio casamento, com este novo serzinho que pede tanta atenção?
Aí vêm as amigas sugerindo escolinhas -  as antigas creches - que se  atualizam a cada dia. Com educadoras de formação especial e atendentes bem qualificadas para lidar com os pequenos. São confiáveis em alto grau.
E antes que a licença acabe, segue-se uma peregrinação do casal em busca da escolinha mais conveniente para o seu bebê. Onde ele esteja bem protegido e receba carinho e as atenções que merece.
São muitas noites sem sono até chegar à decisão final. É preciso não demorar muito na escolha, pois há o risco de perder a vaga.
Estas situações são comuns hoje em dia, com as mudanças sociais das famílias. Mães profissionais que não podem abandonar suas carreiras -  um direito que lhes assiste -  mas que não abdicam de sua maior glória, a maternidade.
Os primeiros dias nas creches – hoje elas têm outros nomes – não são nada fáceis. No próprio trabalho, as mães ficam à espera de algum telefonema dizendo que a criança está chorando. E suas tarefas ficam prejudicadas pela tensão sofrida. Não vêem a hora de ir buscar seu pimpolho e saber  tim-tim por tim o que fizeram todo o tempo com as “prófi” e os coleguinhas. Esperando ouvir boas notícias: que se ambientaram bem e até nem choraram.
Tenho dó das coitadas e fico lembrando que nada disso acontecia nos tempos idos. As  proles eram numerosas, mas sempre havia umas tias -  as Dindas - que ajudavam a reparar as crianças na própria casa. Morando com a família, ajudavam no banho delas, nas refeições, nos entretenimentos, no dia a dia.
Quando chovia ou fazia frio, nenhuma era retirada de casa pelo pai ou pela mãe quando se dirigiam ao trabalho. Como hoje acontece. Coitadinhas! Saem do berço quentinho e enfrentam as intempéries do tempo. Bem agasalhadas, é verdade. Mas deixando o aconchego do lar para trás.
As avós de hoje, ou são bem moças e ainda trabalham fora – quando os pais são jovens -, ou idosas demais para tomar conta das crianças, no caso de casais que adiaram o nascimento dos filhos. Reumatismos, dores na coluna, os males da idade.... Elas só se prestam para dar carinho, fazer bilu-bilu e organizar os álbuns com fotos de cada etapa dessas vidinhas graciosas.
Lembro as casas cheias do meu tempo. Sobrinhos que se hospedavam ali para estudar e cunhadas solteiras que não tinham nenhuma profissão e eram as madrinhas das crianças. A mãe não ficava sobrecarregada com os cuidados dos pequenos. Sobrava-lhe tempo para cuidar da casa, do marido e curtir a infância dos pequenos. Não se falava em estresse.
Hoje, a família encolheu bastante. Pai, mãe e um filho único, geralmente. Com quem deixá-lo em segurança e conforto? Não esquecendo o carinho... Sobram as escolinhas.
 É preciso marcar entrevistas – parecem até procura de empregos - em que ambas as partes são analisadas meticulosamente. O interesse dos pais em achar o lugar ideal para o seu pequeno ficar, enquanto eles trabalham, e as exigências da própria escolinha que não quer aceitar criança com problemas de saúde ou comportamento que venham prejudicar o ambiente.
Finalmente entrados em acordo, o bebê vai formando seu perfil “novo milênio” que é  bem diferente daquele dos anos passados. Adaptação rápida, novos amores, a “prófi”, a”tia “ e os coleguinhas.  Mas os bracinhos estendidos e o sorriso aberto para os pais que o “recolhem” a cada final de tarde, depois de seus expedientes cumpridos, comprovam que o amor deles é insubstituível. E o seu lar também.

Ah, tias de outrora! Que falta que elas fazem!