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domingo, 2 de agosto de 2015

VELHAS ÁRVORES






Hoje eu vejo aquelas pessoas apressadas atentas ao celular ou alongando a vista na espera ansiosa do ônibus que demora.  À sombra das centenárias árvores da Praça José Bonifácio - que nem percebem . Não olham para cima... O tempo não para, e os compromissos difíceis de cumprir nesta crise que nos envolve não as deixam sentir aquele hálito amigo, a sombra que as protege do calor e dos raios agora tão temíveis – a camada de ozônio desaparece...
Mas aquelas velhas árvores têm sua história, e sabe bem apreciá-las, com todo o carinho e respeito, quem sobreviveu aos anos dourados do século que passou.
Ah, noites quentes do verão cachoeirense! Suas árvores eram um refrigério.  Difícil conseguir bancos para tanta gente ficar gozando de seu frescor. Nós, as meninas da época, íamos mais cedo reservar lugar para nossas tias e mães que iam chegando e trocando-se beijos  e exclamações de alegria.
Os maridos estavam ali em frente, no Clube Comercial, para uma “carpeta” entre amigos. De vez em quando um e outro chegavam até elas para oferecer-lhes um refresco e para nós um picolé e ouvir alguma novidade. Algo de que aquelas senhoras se orgulhavam de serem as fontes.
Ainda escuto no túnel da memória suas gargalhadas divertidas.
Do coreto da praça, em determinadas noites, vinha o som da banda de seu Rosinha, que alegrava as ruas do centro da cidade. “(...) Anda o mundo a girar/ quantas voltas deu o mundo/ que eu cansei de tanto amar. (...) Músicas melódicas, suas letras tinham profundo significado.
Também vindo do restaurante do quiosque aquele aroma gostoso dos filés com fritas. Nosso apetite adolescente ficou sempre desejando saboreá-los. Mas a hora era para os vaivens das meninas pelas calçadas – o chamado footing - enquanto os rapazes seguiam também em turmas de amigos pelo meio da rua. E os olhares se cruzavam entre eles nos “flirts” da noite - os inocentes namoros daquela época.
Atravessando a rua, as meninas ficavam olhando as vitrines das Casas Pereira e Bidone, fortes lojas de modas e armarinhos de famílias tradicionais da cidade.
De dia, as árvores pareciam outras. Mas sempre acolhedoras assistindo aos movimentos dos carros, aos passantes pelas lojas, clube, Banco da Província da esquina – a potência econômica da época – enfim, como parte da vida que pulsava com todo o orgulho bairrista dos concidadãos da Princesa do Jacuí, “a capital do arroz”.
Do alto dos postes, ouvia-se por toda a área a “Voz Sonora da Princesa do Jacuí” – precursora das rádios locais - onde jovens talentosos, mais tarde transformados em importantes expoentes das TVs de S. Paulo e Rio de Janeiro – mantinham programas de música e notícias bem elaborados. Um locutor apaixonado mandava mensagens cifradas para sua “princesinha.”
Nos grandes acontecimentos, as árvores mantinham o clima de frescor para o público das calçadas. Semana da Pátria, ah, quanto garbo! As escolas principais, João Neves, Roque Gonçales e Imaculada Conceição disputavam os aplausos do público com suas apresentações impecáveis. Uniforme, postura, brilho.
Os carnavais desfilavam sob sua sombra amiga os criativos carros alegóricos, que iam desde as Baianas – e a Lovely, seus olhos verdes e pele cor de canela encantando com sua graça – até os cortejos de Faraós e seus escravos com aquelas ventarolas enormes abanando as rainhas cheias de luxo.
Nos comícios políticos, quanta vibração! Os cidadãos acreditavam em seus candidatos. Fernando Ferrari e suas “mãos limpas”. Além disso, ele era um “gato” como diziam as mocinhas da época que se aglomeravam a seu redor.
Getúlio Vargas e seu carisma também se apresentaram ali, ocupando a sacada da casa ao lado do Clube Comercial que as proprietárias, umas senhoras idosas e simpáticas, cediam com prazer e muito orgulho.
Momentos emocionantes os das procissões da Semana Santa. O encontro de Jesus carregando a cruz, ensanguentado, trôpego, com sua mãe, Nossa Senhora Maria das Dores. E os sermões do padres  Paulo Kédi e Achilles Sponchiado! Quem não chorava?
As Águas Dançantes, o Orquidário. Projetos maravilhosos que vieram para dar mais brilho à praça e àquelas árvores que a cobriam ternamente!
A vida mudou, a cidade deixou de ser a Capital do Arroz. O centro agora não é mais o que foi - o coração - mas apenas uma passagem para outras áreas, outros bairros, outras atividades. Onde os usuários dos ônibus urbanos, cansados, apressados e perdendo muitas de suas esperanças, ainda mantêm um último privilégio: esperar a condução sentados na praça sob a copa das velhas árvores. Mas até quando?



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