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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ONDE O CÉU COMEÇA





Fica escondidinho da rua. É um pequeno jardim suspenso. A cada degrau que se sobe para o apartamento, novas flores, novas cores nos vasos do corrimão da escada. E lá no topo outras folhagens de matizes variados enfeitam a área. Em todo o ambiente é pressentida a presença de sua criadora – Dona Violeta. Que fada madrinha teria escolhido seu nome quando nasceu? Só podia ser esse, ou Rosa, ou outro nome de flor, pois cuidar de jardim tem sido sua grande paixão.
A tarde é fria prenunciando o inverno já próximo. Por isso vou encontrá-la dentro de casa assistindo à sessão de filmes na TV, com a estufa ligada. Seus noventa e nove anos requerem cuidados. Mas mesmo na sala ela está acompanhada por suas queridas: em toda a extensão de uma parede estão quadros com fotos ampliadas das flores que plantou, emprestando um calor que aquece o coração da gente. E aqui e ali são vasos com folhagens verdes que trazem consigo mensagens da natureza.
Dona Violeta tinha outra companhia, uma caturrita que ficou me olhando desconfiada. Do lado de fora da gaiola, ela subia e descia nas grades com total desenvoltura. Parece que não gostou de minha presença, uma intromissão na rotina da casa. Pois logo a seguir dirigiu-se à dona e ficou aninhada a seus pés.“ É a hora do colinho”, disse dona Violeta. E no mesmo instante a doméstica surgiu com uma toalha que colocou sobre seus joelhos. E o bichinho logo se acomodou, olhando-me desafiadoramente. “Ela dorme comigo”, continuou a senhora, “eu ponho uma toalha no ombro e ela fica li quietinha a noite toda.”
Dava para notar o carinho compartilhado entre aqueles dois seres tão puros e companheiros, cúmplices até. Unidos contra a indiferença do mundo.
- Desde quando ela está com a senhora? perguntei.
- Foi meu sobrinho Paulo Afonso que me trouxe há dois anos.
Os momentos seguintes foram de um silêncio comovido. Ambas ligadas pelas recordações daquela pessoa querida que nos deixou há pouco. E, dentre as muitas qualidades que ele tinha e eu admirava tanto, descobri mais esta: o cuidado que ele teve com a velha tia, tendo-lhe proporcionado uma companhia divertida e constante para a sua solidão.
Ao despedir-me daquele recanto de paz e carinho, não pude deixar de pensar: aqui deve ser a entrada do paraíso.

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