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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NAS ESTRADAS DA VIDA






A vida não é moleza. Porém existem momentos preciosos que valem uma existência. E esses momentos se devem à amizade.
Quando me dei conta, haviam-se passado onze anos sem ver minha amiga, tão longe nos trezentos quilômetros que nos separam. No entanto, chegando a sua casa, foi como se a tivesse visto na véspera.
Os dois dias de visita foram insuficientes, até mesmo para “condensar” em intermináveis diálogos os acontecimentos de nossas vidas. O que não foi dito ficou subentendido no sentimento fraterno que nos levou a rir e a chorar juntas, pelo que a vida nos concedeu ou nos tirou.
O mundo retrocedeu dez, vinte, vinte e cinco anos, nas reminiscências evocadas.
 E vimos que, apesar da distância, do tempo decorrido, dos acontecimentos, da falta de cartas e notícias, nossa amizade continua intacta, ou melhor, cada vez mais sólida, tendo amadurecido conosco.
            Na volta, olhando pela janela do ônibus, vinha pensando na riqueza de ter amigos. E lembrei Rui Barbosa que não os tinha em grande conta quando dizia que os nossos adversários é que nos desafiam à luta, e por causa deles nos empenhamos em vencer. Ao passo que as pessoas que nos querem bem se contentam com nosso jeito de ser, não nos incentivam a ser melhores. Talvez temendo desagradar-nos.
Pois é. Até nisso minha amiga é perfeita. Ela sempre usou de franqueza, apontando-me esse ou aquele defeito que eu deveria corrigir.
Não me senti só no longo trajeto do ônibus “pingapinga”. Apesar de os companheiros de viagem se sucederem a cada parada, mudos, indiferentes. Pensava quantas preocupações supérfluas (e ocupações) temos todo o dia, que nos roubam tempo para o essencial: a convivência com nossos queridos. Com os amigos da mesma época, de passado comum. Com os mais velhos da família, os mais jovens, as crianças...
Quantos amigos distantes que não vemos há tanto tempo por falta de recursos. As viagens caras, a falta de conforto dos ônibus, a insegurança dos coletivos. Enquanto outros viajantes mais folgados, talvez ainda à procura de um amigo, viajam sozinhos nos carros velozes. Por companhia, o som.
Lembrei, num momento, um romance de Machado de Assis (ou Monteiro Lobato? - eu sempre confundo) que contava uma viagem de trem na segunda classe. Ele dizia que o pobre tem de sofrer mesmo! Não bastasse a falta da poltrona estofada de couro da primeira classe, ele ainda era obrigado a sentar-se em banco de madeira, sem nem uma inclinação no encosto. Teria custado o mesmo aos fabricantes. Porém as leis parecem ditar que o pobre não merece conforto, e as costas do coitado ficavam em ângulo reto com o assento. E o torcicolo depois!....
Se os coletivos tivessem melhores condições de trafegabilidade, se os passageiros deixassem de ser tratados como gado – mais um passinho pra frente – quem sabe diminuiriam as tragédias. Não haveria tantos veículos ultrapassando nas estradas. Alguém a meu lado comentou que o preço das passagens é que não lhe permite usar os coletivos quando viaja com a esposa e os filhos. Sai muito caro. Assim sendo, coloca mais um automóvel na estrada.
Talvez voltasse aquele clima de festa das viagens de trem ou de ônibus de outrora, quando os passageiros se condicionavam à morosidade da marcha do veículo, tratavam-se com urbanidade, oferecendo-se mutuamente jornais e revistas, balas, bolachinhas, e até carne assada ou linguiça frita enrolada em farofa, nas viagens mais longas.
 Mesmo nessa viagem desconfortável de agora, apesar do torcicolo e do cansaço, valeu a pena.
Fazer amigos é uma grande glória. E conservá-los, um privilégio sem par!
            

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