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terça-feira, 4 de outubro de 2016

CAROLINAS À JANELA





Na tarde calma de um meio de semana sem movimento e sem pressa – intervalo do mês em que os salários já foram pagos e os compromissos saldados – eis que aquela cena me chamou a atenção. Eram duas velhinhas entretidas à janela, com as fisionomias abertas em sorrisos vendo as pessoas passarem. As duas tão semelhantes, talvez irmãs, com o mesmo tipo de óculos, daqueles redondinhos que nossas avós usavam. E parecia que estavam de coque, pois com os cabelos puxados para trás.
Da loja onde eu estava, na calçada em frente, passei a contemplá-las, admirando aquela alegria quase infantil de quem se reencontra, depois de um longo tempo afastado. Quando pode constatar que nada mudou em seus sentimentos nem em suas lembranças. Por isso agora, olhando à frente, elas recordam os antigos prédios de sua juventude, substituídos por construções modernas, ou reformadas, lojas com portas de vidro, sobrados, estacionamentos para carros. Imagino-as lembrando antigos namorados passando a trote no seu cavalo para fazer-lhes “avenida”. Elas riem talvez de um fato engraçado daqueles tempos, daqueles namoros quase em segredo, de como era tudo na vida e de como mudou. Devem estar supondo o que fariam agora, diante de novos costumes? De outros valores? Ainda bem que nada as aflige, parecem bem contentes com o passado e divertidas contemplando o presente.
Penso em minhas tias que já se foram. Eu gostava de descobrir seus tesouros, guardados em latas improvisadas em porta-joias. Só que não havia joias, mas cartas, cartões, alguma flor murcha, um retrato apagado, quase irreconhecível. Dinda, quando me surpreendia  nos seus relicários, ficava zangada e os escondia ligeiro. Ela, que era tão doce!
E o Passinho da Aldeia me vem à lembrança, pois na primavera ela nos levava, eu e minha mana, para aquele passeio que parecia tão longe. Conosco iam os livros - era em vésperas de exames - e precisávamos estudar.
Havia flores às margens, e seu perfume nos agradava. E a água correndo num ritmo calmo dava até um soninho na gente, que atrapalhava o estudo. A Dinda às vezes cantava: “Primavera de meus vinte e um anos”.  Havia uma nota nostálgica na sua voz. Talvez um amor não correspondido...
Tudo isso aquelas duas Carolinas à janela me proporcionam lembrar, naquela tarde em que nada parecia acontecer.
Anna Zoé da S. Cavalheiro




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