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terça-feira, 10 de abril de 2012

FOI NA FESTA DO DIVINO


Ah, tempos bons aqueles!
Chegava o mês de maio, lá pelo meio, perto de junho, a cidade se animava. Quantas casas de fazendeiros, fechadas até então, se abriam para a rua, numa azáfama de arrumação, risos, providências.
Eram as donas de casa tratando de combater o pó sobre os móveis e deixando o sol entrar e acabar com o cheiro de mofo. Os donos descarregando a camioneta com mantas de carne, aipim, abóbora. As meninas dirigiam-se logo à costureira para provar os vestidos. Os rapazes tomavam o rumo do barbeiro e do alfaiate.
Debaixo da porta, a correspondência atrasada. Entre ela, convites para mordomos, pedidos de oferta para os leilões e quermesses.
Primeiro, a alvorada festiva. Sinos badalando, foguetes assustando as crianças e os cachorros, a banda rompendo em acordes. Os capitães do mastro é que ofereciam o primeiro churrasco.
De dia, senhoras e senhoritas da comissão da Festa do Divino batiam de porta em porta com as bandeiras. Eram tão bem acolhidas! A fé, o amor, a alegria entravam nos lares, saudando as famílias. Velhos sorriam lembrando seu tempo passado, revivido pelo evento religioso. Jovens alvoroçavam-se na expectativa das confraternizações da Paróquia.
À noite, a igreja iluminada, cheia de flores, recebia os paroquianos da cidade e do interior. Ladainhas ecoavam pelas espaçosas abóbadas. Perfumes variados misturavam-se ao cheiro gostoso do incenso. A igreja era pequena para tanta gente. E depois aquela multidão seguia os festeiros com as bandeiras, a banda, o fogueteiro, pela cidade, até o salão da festa.
Aí começava a quermesse: a roda da fortuna premiando galinha assada aos vencedores. Pescaria, sorteios diversos, concursos, música. E uma confraternização alegre de gente que se quer bem e que se sente à vontade junto.
Naqueles tempos as mamães vigiavam as meninas. Mas seu olhar compreensivo fingia não ver o “flirt” de sua filhinha com o rapazinho simpático. Era o amor chegando devagarinho. Quanto moço tímido teve na Festa do Divino a primeira oportunidade de declarar-se à jovem de seus sonhos!...
É verdade. E para isso contribuíram os “telegramas” – mensagens anônimas, na maioria das vezes, pelo menos para iniciar – que algumas meninas nomeadas “telegrafistas” da festa se encarregavam de levar e trazer.
Havia também um programa de dedicatórias. A mocinha ruborizava-se quando ouvia seu nome irradiado pelo alto falante: “Alô, alô, senhorita Clarice, seu admirador dedica-lhe com muito amor a música Céu Cor de Rosa.” As amigas vibravam solidárias. Que emoção!
Ontem eu vi o antigo admirador, hoje um senhor respeitável, de cabelos grisalhos, passando por mim. E aí me lembrei: eu estava com a Clarice de seus sonhos naquela distante Festa do Divino. Ela recebeu um telegrama tímido, mas amoroso. Olhamos à volta, e foi o olhar dele que o denunciou.
Hoje eles são um casal feliz, com alguns filhos bem criados e vários netinhos. Tudo por amor e graça do Divino Espírito Santo em sua Festa.

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