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terça-feira, 21 de agosto de 2012

EXCLUSIVIDADE






Ah, exclusividade! Palavra mágica da propaganda comercial. Produtos exclusivos, atendimento exclusivo, todo o mundo quer para si. Mas, não sendo possível, aí vêm a pirataria, as clonagens, e as gatinhas dos morros e periferias ficam tão na moda como as “patricinhas”. As fitas e discos são ouvidos com o mesmo enlevo das originais. Claro que para o bom conhecedor, a distância é grande, mas...
A democracia manda que cada um aguarde sua vez na fila, e os “furões” sempre acham uma maneira de passar alguém para trás. Antes, eram os cartões de assessores de assessores de autoridades que abriam as portas. Agora, felizmente, já não se vêem muito desses procedimentos, pelo menos tão explícitos.
Entretanto, como é bom a gente ser reconhecida numa multidão, convidada para passar à frente e ter aquela atenção especial, com exclusividade! Até que chegue alguém mais importante e te deixem novamente à espera, com a cara no chão. É bom proceder como Cristo ensinou: coloca-te no último lugar, para que sejas convidado a subir para mais perto do anfitrião. Do contrário, podem pedir-te que dês um passo atrás para deixar passar alguém mais importante do que tu. Seria muito humilhante.
Este mundo está cheio demais, dizem os entendidos. E por isso nos tratam como massa, atribuindo-nos apenas um número. Aliás, sem esse número, o do CPF, não somos  ninguém, mais.
Mas para alguém muito querido ainda somos uma pessoa especial, única no mundo, tratada por isso com toda a exclusividade. É para nossa mãe.
Agora as mães geralmente têm um filho só. Mas no meu tempo de infância as famílias eram numerosas, de seis, cinco, oito, dez irmãos, e a mãe achava sempre um espaço para tratar cada filho com atenção especial. Sabia seu prato predileto, e todos eram brindados em dias certos, como o do aniversário ou do início de suas férias, ou a despedida para nova jornada de estudos fora de casa com seu prato preferido. Até agora lembro o guisado com farofa e rodelas de ovo que me deliciava.
Mas o melhor mesmo era quando eu adoecia, o que acontecia seguidamente antes de extrair as amígdalas. Aí eu tinha minha mãe todinha para mim, contando estórias, fazendo-me bonecas novas de pano e vestidinhos para as antigas. E mamãe sabia brincar, inventar novos enredos, como festas de casamentos e batizados. Quando ela saía de perto para atender aos demais, eu ficava esperando ansiosa. E ela voltava com um mingau de maisena polvilhado de canela ou uma banana esmagada, com açúcar. Era tão bom que faltava a vontade de ficar boa, de voltar a levantar cedo para a escola, deixar a cama quentinha e, principalmente, aquele carinho exclusivo.
Agora não tem graça adoecer. Por isso é que tenho mais saúde.
Exclusividade gratuita só existe mesmo no amor de mãe, que distingue a respiração irregular do nenê febril no meio da noite. Que pelo tom de voz ao telefone percebe que o filho está com problemas. Que pressente o momento certo e a palavra certa para dizer e agir nos momentos incertos. Só mãe, mesmo, sabe usar de exclusividade com sabedoria e muito amor.

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