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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LIÇÕES DA TERRA






Quando há dias arranquei a folhinha do calendário, tive uma alegre surpresa: a gravura mostrava um punhado de ovelhas mães confinadas em uma mangueira com seus cordeirinhos recém nascidos. Lembrei-me de décadas atrás, das minhas viagens mensais ao interior do município e a Santana da Boa Vista, que então pertencia a Caçapava. Foi quando aprendi que agosto – e não setembro – é o mês do renascimento da natureza, a antevéspera da Primavera. É quando nascem os cordeirinhos, os terneiros e cabritinhos. Os pessegueiros florescem, os campos ficam empapados de umidade, preparando a terra para a ressurreição que se dará em setembro.
 Por isso, olhando a rua lá fora, o mau tempo e as consequências da seca não me deixam abatida. Sei que debaixo da aparência desolada, a terra está sendo realimentada para que os brotos renasçam com toda a força da vida.
Lembro aquelas viagens que faziam parte de meu ofício, nas estradas de chão, tendo-se às vezes de abrir porteiras em campos particulares. O ônibus parando a toda a hora para embarcar ou desembarcar passageiros.
Gostava de ouvir os recados dos moradores de beira de estrada – pois o motorista era o “menestrel” que levava e trazia as notícias. Davam-lhe encomendas diversas, desde missas a remédios, avisos para a Rádio local, até a entrega de leite, ovos, carne, para o destinatário que esperava porteiras e quilômetros adiante ou na Rodoviária.
Não passava uma vez sem que visse o motorista ser agraciado com presentes de valor: um quarto de rês, charque, linguiças, dúzias de ovos, carne de leitão. Mas ele merecia, e muito. As paradas do ônibus tinham também outros motivos: às vezes porque ele via um animal em perigo na estrada. Então, logo que avistava alguém da propriedade, parava o ônibus e avisava.
Os passageiros não reclamavam, porque compreendiam. Eram fatos de sua vida. Eu, talvez a única estranha ao assunto no ônibus, ia assimilando aquela realidade da vida rural. E admirando a serenidade dos passageiros. A alegria daquela gente quando embarcava um amigo! As conversas intermináveis – Quem nasceu? Casou? Morreu? – Para quem Fulano arrendou o campo? Como foi a safra? A venda do gado?
Ao desembarcar um passageiro, o motorista esperava pacientemente as despedidas, as recomendações – abraços à comadre...
Não havia pressa. A natureza estava completando o ciclo das estações. E continuava trabalhando em silêncio.
Quantas vezes desejei ficar em alguma daquelas casas rodeadas de campo bem verde, rebanhos pastando, laranjais florescendo, e os últimos raios de sol dourando aquela paisagem.
Mas eu pensava na noite sem luz elétrica. Sem a leitura, o cinema, pois naquele tempo ainda não havia televisão.
Neste mundo de agora, de tanta tecnologia, tenho saudade daquela vida simples do campo, de onde nos vêm os alimentos e as matérias primas de nossas indústrias. E fico pensando que é preciso a mão do homem, a vontade do homem, seu suor para que haja o que colher. Para lavrar, semear e ver brotar ramos verdes “naquele tronco que o lenhador desprezou”, conforme disse o poeta. Porque haverá sempre primaveras. E o prêmio chegará mais cedo ou mais tarde àquele que souber ouvir e atender aos apelos da terra.

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