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sábado, 24 de março de 2012

QUARESMAS DE OUTROS TEMPOS


Ah! Quaresmas de meu tempo, que saudades! Será que o mundo então era melhor, quando se falava em pecado, penitência, inferno?
“Pecador, agora é tempo,/ de pesar e de temor./ Serve a Deus, despreza o mundo...”
Parecia tão fácil. Umas vias sacras, abstinência de carne, jejum. As imagens dos santos cobertas de panos roxos, a igreja silenciosa à luz de velas, o incenso, as ladainhas.
Agora, entra Quaresma, sai Quaresma, a gente não sente a diferença.
Antes, à meia noite da terça feira gorda, era sagrado: os devotos retiravam-se do Carnaval.
A todo momento a jovem perguntava a seu par no baile: “que horas são?” E ele, para retê-la mais um pouco atrasava o relógio. Ai, que pecado!
A vida parecia mais simples, com regras fixas, horas marcadas, tempo de rezar, tempo de dançar.
As férias eram aguardadas com tanta expectativa” . E gozadas como recompensa pelo esforço dispendido, mil exames, madrugadas insones, nervos à flor da pele à espera dos resultados. Agora as férias são um problema a mais para a família, pesam no orçamento, no relacionamento entre irmãos, nos programas nem sempre tão benvindos dos jovens.
E as preocupações vão -se acumulando à medida que o ano adentra.
Acontece tanta coisa ao mesmo tempo no mundo, que direta ou indiretamente nos afeta, que é impossível assimilar as notícias, já vêm outras em cascata ou numa grande carambola.
Por isso eu gostaria de voltar às Quaresmas de antigamente. O sino batendo, chamando à reflexão, ao desapego do mundo exterior.
Como é bom poder desligar-nos deste mundo e descobrir o que há de essencial na vida. Mas um dia que se descuida da folhinha na parede, já se perde o prazo da prestação, o vencimento de imposto, de taxas, o juro aumenta, os concorrentes roubam nossos fregueses, a casa cai...
E as ladainhas já não se cantam. Na Missa, quando são lidas as duas epístolas, os fiéis acham o culto longo.
Pensando bem, enquanto eu estivesse de joelhos extasiando-me com as imagens de um céu cheio de anjos, de música e de Deus em seu trono, meu irmão estaria à procura de emprego, sentiria fome, o amargor da injustiça, a incompreensão dos poderosos.
Por isso estou dando razão às orações mais curtas neste mundo tão cheio de coisas para consertar.
“O que fizeres a ele, a Mim o fareis.”
Foi o que vi um dia destes: “Alguém me escuta? Alguém me escuta?” Era um pobre ceguinho, tão frágil como sua voz. E o senhor bem apessoado que entrava no restaurante deu meia volta e perguntou-lhe? “Que é, meu amigo? E ele: “Estou com fome”.
O senhor chamou o garçom e recomendou-lhe o pobrezinho:
“Faça-o sentar-se, o almoço é por minha conta.”
Nesse dia, aquele gesto pareceu-me mais santificado do que as quaresmas dos meus velhos tempos.

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