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sexta-feira, 30 de março de 2012

LÁGRIMAS DO CÉU




Eu a vejo seguidamente nas missas de sábado. É fácil localizá-la, pois temos hábitos arraigados: ela fica umas duas filas à minha frente, uma figura apagada, dessas que não chamam a atenção.
Até há pouco não sabia quem era. Mesmo agora, desconheço seu nome, a família. Mas sei onde mora, e acho que ela e a casa formam uma história conjunta.
Idade? Seguramente já deve ter passado todos os cabos da Boa Esperança.
O que me intriga nessa figura de mulher são os cabelos brancos sem viço, diferentes dos grisalhos azulados das vovozinhas das primeiras filas. E aquele ar de desolação. Parece que ela secou todinha, carnes, olhar, cabelos, pele, tudo. E eu fico pensando na seca assolando nossos campos e nossas vidas. E ao escutar comentários sobre a seca que nos castiga neste início de ano, sua figura me vem à mente.
À saída da missa, quando as pessoas se abraçam, conversam, saem aos pares, nunca a vejo, pois ela desaparece discretamente, como um fantasma.
Sua casa distingue-se das outras da quadra pela varanda de colunas em arcos seguindo a mesma linha das janelas e portas. Ela tem um ar de mistério, de história inacabada. Conserva uma certa altivez de quem viveu melhores dias. Antes havia um caramanchão de glicínias que aos poucos foi desaparecendo. Assim como o jardim cujas ervas foram crescendo na medida em que escasseavam as forças daquela mulher na luta pela preservação das flores que foram morrendo.
Soube que ela vive só, depois de anos de dedicação à mãe doente. Não casou, mas deve ter sonhado lindas histórias de amor naquele jardim antes disciplinado.
A casa envelhece, as goteiras se multiplicam, bem como as rachaduras das paredes. Imagino-a por dentro, bem limpa, os móveis antigos conservados com zelo, sofás de palhinha, bibelôs na cristaleira da sala, no “pichichê” dos dormitórios. Sempre os mesmos até que se quebrem. Em algum baú, aqueles vestidos que foram da mãe, das irmãs e que agora são ajustados para o seu manequim. Por isso a vejo com roupas bicolores, com barra e pala de um tecido e o resto do corpo de outro. Ah, se conheço esses métodos de economia caseira! Quantos vestidos de babados tive na minha infância e adolescência, herdados de irmãs e tias! Aqueles tecidos não se acabavam e eram aproveitados, colocadas golas de renda, punhos de bordado inglês...
Meu desejo é que a chuva caia em cascatas dando fim a esta seca que tanto demora. E que a mulher solitária volte a sorrir vendo crianças pulando nas poças d´água e dando nova vida àquele jardim devastado.
Na missa de sábado, por certo, ela estará dando graças a Deus pela chuva bendita e na saída trocará palavras de otimismo e de alegria com seus irmãos de fé.

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