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quinta-feira, 22 de março de 2012

ENQUANTO HOUVER LUAR


“Enquanto houver luar,/ enquanto a luz brilhar/ e o sol tiver calor...”
Quando ouço essa música do filme Casablanca, lembro aquela paineira perto da Escola João Neves, num dia de junho: as folhas parece que choravam derramando gotas de chuva da véspera. O dia era cinzento, frio, como o coração de quem fica. E ele se fora.... naquela manhã!
Quantos adeuses depois desse! Mas a lembrança do primeiro é mais forte.
O amor é um mal (ou bem) que ataca quando menos se espera, atingindo toda classe de gente, os bonitos e os feios, os poderosos e os humildes, os esclarecidos e os ignorantes.
Lembro Maria uma empregada minha quase perfeita, que cozinhava, passava que dava gosto. E que tempero picante e gostoso naquela sopa russa de beterraba que só ela sabia fazer.
Ela era uma apaixonada incondicional.
Ainda bem que o namorado trabalhava numa fazenda e só vinha de vez em quando à cidade. Porque era só ele chegar, no fim ou no meio da semana, Maria esquecia as panelas no fogo, o ferro de passar ligado, a torneira do tanque aberta. Trancava-se no quarto para enfeitar-se e depois corria ao encontro do amado.
E eu ficava pensando: Pobre Maria. Será que ela é correspondida com o mesmo ardor? Ela tão magrinha, nem bonita era. Tinha uma enorme cicatriz de queimadura desde o pescoço. Uma perna ligeiramente mais curta. Tudo isso resultado de um acidente da infância. Que ficara sem o devido socorro.
Sua mãe mexia o tacho onde fazia sabão, e a menina Maria brincava por perto. Ao retirar o tacho do fogo, a mãe não viu que a filha pulava a fogueira e caiu em cima das brasas. A patroa não quisera (ou seu marido fazendeiro é que impediu?) dispensar a empregada, nem lhe ofereceram uma condução para levar a menina ao Hospital.
O sofrimento foi grande. E o defeito ficou: cicatrizes e uma perna mais curta.
Maria cresceu, passou por muitas patroas. Seu aprendizado da vida foi: trabalhar e servir.
Veio para a cidade. Foi num baile de fim de semana que o milagre aconteceu. Maria conheceu alguém que pousou os olhos nela e a fez sentir-se especial. Maria, a criança deserdada da sorte, conheceu o amor.
Fiquei feliz com seu convite de casamento. Depois, a festa na casinha simples da Vila Sul - achei tão bonita. Os presentes complementavam o enxoval: louças, talheres, utensílios domésticos.
Maria feliz no centro da mesa, era uma rainha. Ao lado, o noivo amoroso, sorrindo.
Desejei que aquele amor tão verdadeiro durasse toda a vida.
Meses depois foi com muita tristeza que a vi novamente: no caixão, rodeada de flores, seu amado em soluços segurando sua mão. Alguém comentou: complicações com a gravidez.
Procurei consolar-me pensando: Maria amou e foi amada até o fim.

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