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segunda-feira, 19 de março de 2012

ENCOMENDAS VIA PORTADOR


Último dia de verão. Que será lembrado como o mais quente de que se tem notícia. Até que os próximos sigam o exemplo. Deus nos livre!
Não sinto mais o cheirinho da figada de tacho nos pátios das casas. Agora as mulheres têm outras tarefas a desempenhar, mas aquele gostinho nunca mais foi igualado. Deixou saudades.
Fim de férias, os bares vão aos poucos esvaziando-se, pois aquela turma alegre retorna aos estudos nas cidades vizinhas. Ou aqui mesmo, pois já temos campus de duas Universidades, Urcamp e Unipampa. Quem diria nos meus velhos tempos!
No milênio anterior (que horror, como ele já está ficando longe!) os estudantes secundários tinham de emigrar para outras cidades, e nessa época tomavam o ônibus de destino crivados de recomendações. E mais ainda: cheios de encomendas para entregar a parentes ou pessoas conhecidas.
As viagens eram raras, não tinha essa de voltarem a cada fim de semana a casa dos pais. E os adultos também só viajavam a negócios, para tratar da saúde e outros assuntos importantes. Assim sendo, aquele que partia era encarregado de levar pacotes, cartas, notícias.
A figada entra nessas reminiscências porque muitas vezes tivemos de levar caixotes dela para felizes destinatários, que por certo não se davam conta do incômodo que causavam.
Às vezes as encomendas eram mais leves, mas não menos embaraçosas. Tinham de ser jogadas pela janela do ônibus, depois que se avisava o motorista e pedia-se ao cobrador que o lembrasse para buzinar chegando perto. Quando ele tinha cara de poucos amigos, a nossa timidez passava maus bocados. A gente sofria durante todo o trajeto de medo de passar do ponto de “lançamento” da encomenda. Mas felizmente sempre havia uma pessoa esperando à beira da estrada, que ficava depois acenando agradecida o nosso obséquio. Eram geralmente parentas de terceiro grau recebendo roupas usadas que depois ajustariam para a sua magreza. Outras vezes eram cartas ou pacotes misteriosos que tínhamos de entregar a domicílio logo depois da chegada, não importando se tínhamos compromisso nosso para atender.
Mas, de todas essas encomendas, a que mais nos sobrecarregava era receber na Rodoviária uma velhinha cheia de malas pesadas e embarcá-la horas depois no trem para Santa Maria. Ela ia visitar a filha casada com um ferroviário para quem levava sacos de farinha, de feijão, rosquinhas, pães e queijos caseiros, rapaduras de leite. Dava para imaginar a turma de netos aguardando deliciada aquele regalo. E para nós, nem uma prova...
Imaginem se hoje alguém teria coragem de levar qualquer encomenda sem saber do que trata! Pode acontecer de na chegada ser surpreendido pela Polícia à cata de drogas, carta bomba ou contrabando.
O que ficou em mim foi essa vocação de portadora que até hoje me acompanha. Antes de sair de casa, nunca me esqueço de perguntar: “Querem alguma coisa do centro? Uma carta para o Correio, pagar água, comprar um retrós, botões? E nunca saio de mãos vazias...

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