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sábado, 10 de março de 2012

A VIDA EM RETALHOS


O calor deste verão chega a dar medo. Será que daqui em diante vai ser pior ainda? É o aquecimento da Terra tão anunciado que já chegou até nós?
O melhor é não precisar sair à rua nas horas da tarde. Até dentro de casa é difícil achar o que fazer que não dê mais calor. Por isso a gente procura o lugar mais fresquinho, com ventilador ou ar condicionado ligado, e fica pensando. E o pensamento atravessa fronteiras, detendo-se aqui e ali no passado. Para não incomodar os mais moços dizendo que “no nosso tempo era melhor”, é bom lembrar as dificuldades do trabalho caseiro de então. Tirar água do poço, antes do encanamento; não ter água gelada, antes do surgimento dos refrigeradores; dormir de janelas fechadas – sem venezianas. Sem ventiladores nem ar condicionado. A sede! Quando a água potável vinha de pipa e demorava a chegar. Corria-se à vizinhança com uma jarra, pode ser que ainda tivessem uma sobra para acalmar as crianças da casa. Noutra ocasião a gente retribuía.
A vida era bem simples, todos se conheciam pelo nome. Até os loucos das ruas, o Pedrinho, o Adão. Ninguém os molestava. E se alguma criança zombava daqueles doentes mentais, por certo levava uns puxões de orelha dos pais. No Bar Meu Cantinho ficou entronizado uma foto do Pedrinho, o mais querido deles. Que sabia aonde chegar na hora do café e do almoço. Gostava de brincar com boizinhos de osso que guardava em seus bolsos.
Adão era um pouco agressivo. Quando passava na rua de chapéu desabado, um machado num ombro e no outro uma mala de garupa, não mexessem com ele. Mas geralmente respondia bem humorado às empregadinhas, no açougue de Seu Carlos, quando lhe perguntavam - Quando é que vai casar, Adão? - Não dá, a banha está cara.” É preciso esclarecer que ele tinha profissão: era quem cortava lenha nos pátios das famílias.
Na igreja os fiéis, sempre os mesmos, ficavam nos lugares de sempre. Era fácil reconhecê-los de costas, por isso e porque usavam, inverno após inverno, os mesmos agasalhos.
Depois da missa das sete dos domingos, velhas lavadeiras moradoras do subúrbio costumavam visitar as ex-patroas para o café da manhã. E as crianças e jovens da casa cediam-lhes o lugar na mesa com todo o respeito.
Agora os pobres são rostos desconhecidos. E os doentes mentais já não têm aquela mansidão e são retirados das ruas.
Os domingos, naqueles tempos do Pedrinho e do Adão, começavam para nós com a missa e terminavam com uma sessão de cinema. Era tão bom aguardar toda a semana pelo filme anunciado. Quando é que se ia imaginar ter um dia cinema em casa, como hoje na televisão!
Com todo esse progresso na tecnologia, as gangues de classe média das capitais não acham com que entreter-se e saem pela madrugada a incendiar índios e moradores de rua.
Estou-me contendo há tempos para não dizer como os idosos na minha juventude: “No meu tempo não era assim...” E não era mesmo. Os jovens sonhavam e procuravam a “fuga” nos livros, na poesia, nos ideais de uma vida melhor.
A biblioteca do Clube União ocupava as paredes de uma ampla sala e era bem organizada e atendida. Havia dias especiais para a retirada de livros, e no local se formava um grupinho de leitores que conversavam coisa que se aproveitava, e não essa conversinha de bar que se ouve hoje.
Por favor, me desculpem. Acabo de descobrir que estou ficando velha, mesm

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