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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AQUELA NOITE DE LUA CHEIA

Recordo aquela noite como quem assiste a um filme antigo que não saiu de moda. Daqueles que deixam marcas no coração. Vejo a lua cheia iluminando nossos passos nas ruas desertas. Ouço o latido dos cães atrás das grades das casas adormecidas. Nós, um bando de jovens à saída de um baile, sentindo-nos os donos da madrugada. A música ainda ressoava em meus ouvidos, e seu ritmo fazia meu corpo vibrar. Ficamos para trás, nós dois. Eu, tímida e emocionada. Tu, o rapaz esbelto, astro do basquete do clube esportivo da cidade, quem diria, foi-me escolher como par daquela noite. Lembro-me do olhar admirado de Maristela, a irresistível loirinha, quando a deixaste de lado por mim.
Enquanto dançávamos, sentia teu contato em cada segmento de meu corpo. Tua mão que me dirigia, a outra com a minha entrelaçada. Nossas respirações confundindo-se, e aquele toque especial de vez em quando, a chamar a atenção para a música romântica. Como num sonho de Cinderela, eu me embalava consciente de tua presença. Só vultos à nossa volta. Nós, os protagonistas, os outros, apenas figurantes. Que tristeza quando os músicos romperam os acordes da última partitura. O baile terminava.
Mas uma grata surpresa na saída: ainda estavas a meu lado enquanto eu procurava as colegas para voltar ao pensionato. E empreendemos juntos aquela caminhada que não devia acabar nunca.
O bando era alegre e ria por qualquer coisa. Não faltaram as brincadeiras de Carlão, o palhaço da turma, que chutava latas vazias e gritava como Tarzan.
A lua brilhava em teus olhos que me fitavam com ternura. Nossas mãos se tocaram, e de repente elas se uniram num ímpeto emocionado. Foi como uma corrente elétrica que me trespassasse o corpo, e eu desejei morrer naquela hora. Porque pressenti que jamais gozaria de outro sentimento tão intenso.
Quando chegamos ao portão, as madressilvas exalavam um doce perfume, e a lua parecia querer despedir-se de nós. Nossos acompanhantes parece que só então perceberam “aquele clima”, e discretamente se afastaram cantarolando bem alto para disfarçar. Não me lembro se me falaste. Acho até que foi só o teu olhar que me pediu um beijo. Que eu neguei. Ainda não estava pronta. Eram outros tempos aqueles.
O que passou depois daquela noite foi apenas o despetalar de uma ilusão. Nas quadras de esporte, voltavas a ser o ídolo cobiçado pelas bonequinhas da moda. Maristela te arrebatou em seguida, mas eu ainda lembro o olhar queixoso que me dirigiste. Vais deixar? ele me indagava. Minha timidez te entregou. Mas aquela noite...ninguém conseguiu me roubar.

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