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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O GRITO





Não entendo muito de arte, menos ainda de pintura. Mas sei admirá-la. E quantas vezes desejei pintar o por de sol caçapavano! Sumindo atrás daquelas serras azuis que se estendem no horizonte além do cemitério. Ou na esquina da Rua Coriolano Castro com a General Osório, donde se avista um pinheiro recortado contra o fundo cor de ouro do poente. Lindo!
Mas conheço minhas limitações. E o quadro dos meus sonhos fica apenas gravado na imaginação.
Sentir a arte, no entanto, é sentir a vida. Outra maneira de ser artista.
Lembro-me da primeira vez que me vi diante de um quadro expressionista. Naquele tempo nem sabia o que isto queria dizer. Mas aquela figura humana envolta em panos, apenas mostrando o horror estampado nos olhos, na expressão da boca, como se gritasse num pedido mudo de socorro! Não lembrava em nada a beleza que se espera encontrar numa obra de arte, porém marcou-me fundo. Era a figura de alguém indefinido, não sei se homem ou mulher, jovem ou velho. O que havia para ver e admirar era a expressão do rosto que só tinha olhos e boca. Um vulto indistinto plantado no meio da ponte por onde passavam outros vultos escuros, indiferentes ao seu desespero, pois davam as costas àquele suicida em potencial. Consumido na luta silenciosa entre o medo da vida e a vontade de morrer. Em preto e branco, o quadro era mais inquietante ainda. E quanto mais eu olhava, mais sentia o horror daquela noite na vida de alguém. Sozinho no meio da ponte, sem poder recuar por aquele caminho escuro já percorrido. E sem poder avançar, porque nada mais havia à frente.
Nenhuma luz. Ninguém.
O quadro era “O Grito”, do pintor expressionista norueguês Edvard Munch.
Anos se passaram. Mas a figura patética ficou adormecida nas minhas lembranças.
Eis que numa tarde chuvosa e fria ela me bate à porta. Naquela magreza extrema, parecia apenas olhos e boca num esforço de fazer-se entender. A voz mal saía. As palavras eram buscadas com dificuldade na memória enfraquecida. Era o desespero em pessoa à minha frente, tentando contar sua história de tristezas, morte, doenças, miséria. Nenhuma solução à vista. Ninguém para ajudá-la. Só ela no meio da ponte.
Não foi fácil reconstituir os pedaços de vida que iam sendo jogados como se retirados de um saco de retalhos. A narrativa era feita aos tropeços, com intervalos para respirar, sem uma sequência, misturando fim com o meio.
Mas desta vez o “grito” foi ouvido. Porque a figura dolorosa venceu a vontade de atirar-se naquelas águas turvas do quadro expressionista e estendeu a mão para avançar um passo à frente. E aqueles vultos que estavam de costa ouviram o grito, e cada um fez a sua parte.
Hoje o vulto já tem contornos mais definidos. Fala, pede, agradece. Conta o martírio de sua existência, mas também tem planos para o futuro. Até já trabalha. Dá gosto ver o quintal de sua casinha todo plantado com as escassas forças de seus braços que ainda amparam os filhos moços, porém irremediavelmente doentes.
As perspectivas de vida ainda não lhe sorriem. Também, pudera. Os entes que amava, estão mortos ou estão perdidos nas brumas da insanidade.
Mesmo assim ,agora ela sente que não está mais sozinha. Sabe que pode contar com seus semelhantes. Basta, quando precisar, que dê... o Grito.

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