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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

VENTURAS E DESVENTURAS DE MORAR SOZINHA





Já experimentei de tudo: a casa de meus pais cheia de irmãos e primas; outra com colegas de pensionato; mais tarde com marido, filhos, enteada e uma tia; por último, sozinha.
Posso falar “de cadeira” o que é viver só ou acompanhada.
Lembro os guarda-roupas abarrotados de cabides com nossos vestidos e casacos. A gente ia procurar um e deixava caírem diversos, sempre na hora de maior pressa, quando os namorados chegavam para buscar as manas. Resultado: ficava tudo amontoado e amassado no fundo do roupeiro. Azar o meu, a “titia” que me deparava com os estragos e me sentia obrigada a desfazer a desordem. Fui a última pomba a sair do ninho, em compensação fiquei com os espaços todos para mim.
Hoje o meu closet é uma beleza: seções de inverno, verão e meia-estação. Não há como perder-me. Até de olhos fechados eu me localizo nele.
No pensionato, banheiro sempre ocupado, fila de espera prolongada, cosméticos fora do lugar. Que fazer? As pensionistas tinham que manter a calma em nome da convivência pacífica, senão seria o caos.
Certo dia uma delas avisou, cedo, que logo iria tomar banho. Era preciso marcar hora para providenciar a água quente. E eu na espera. Mas não sei por que ela saiu e não disse quando voltava. Então resolvi que chegara a minha vez. Foi uma tragédia. Voltando da rua a mocinha ficou uma fera. Passamos quase um mês sem falar-nos. Muitos e muitos anos depois nos reencontramos em Porto Alegre. Bem amáveis, perguntando por filhos e netos. Mas tenho a certeza de que o episódio do banho esteve pairando em nossos pensamentos. Desculpado, mas não esquecido.
Com os manos era gostoso conviver. As desavenças se resolviam logo com carinho e bom humor.
Do tempo de casada nem falo. É segredo de Estado.
Hoje moro sozinha. Sobram-me quartos de dormir e de banho. Posso escolher. Mas continuo a preservá-los para receber meus filhos, noras e netos em datas especiais e nos feriadões.
Atualmente, porém, preciso impor-me certas regras para a boa convivência comigo mesma. Hora de levantar antes das oito e meia e arrumar a cama em seguida (para não dar tentação de ficar mais um pouco), hora de tomar remédio. O que uso em jejum fica no caminho para o banheiro, assim não há perigo de esquecê-lo. E sempre achar um motivo para sair de casa, o que não tem faltado. Assim eu fujo da monotonia e da solidão, pois nunca sei o que vou encontrar logo ao dobrar a esquina.
Difícil é marcar hora com eletricista, encanador ou técnico de micro, pois tenho de ficar à sua espera. Recebo poucas visitas – elas se queixam de não me encontrarem em casa. Quando vou ao banheiro, levo celular e telefone sem fio. Assim não perco as chamadas. Mais demorado é atender à campainha da porta.
Passei por um momento difícil, uma vez, quando fazia sagu. Não conseguia abrir a garrafa de vinho, a rolha não saía. Da área dos fundos olhei para as janelas dos meus vizinhos em busca de socorro. Nenhum à vista. Como último recurso fui para a rua, e o primeiro cidadão que passou eu abordei. Num abrir e fechar de olhos o problema ficou resolvido.
Notei que ele se dirigiu de cara amarrada a um carro ali na frente.
Momentos depois a campainha da porta tocou: era o meu salvador pedindo que eu servisse de testemunha da batida que deram em seu Monza – parachoque amassado e um dos faróis em estilhaços. Foi no estacionar de ré que o sujeito me bateu, disse. Mas eu não vira nada, como sair dessa? O dono do outro carro dizia que ele é que batera no seu ao estacionar de frente. A discussão prometia ir longe até que saíram dois cidadãos das igrejas do outro lado da rua, cada um com sua versão. Felizmente me esqueceram, e eu continuei a fazer minha sobremesa. Mas fiquei curiosa: será que chegaram a um consenso? Um dos protagonistas – vi quando entrava no templo – era da Igreja Internacional. O outro devia ser da vizinha, a Mundial. Acho que faltou a Igreja Interplanetária para resolver o caso.
Há quem me pergunte se tenho medo de ficar sozinha à noite. De bandidos? Minha casa é bem segura, trancas e cadeados não faltam. De fantasmas? Os meus são tão amigos, gosto de senti-los à minha volta. São bons fluidos.
Programas não me faltam, filmes, seriados, documentários, livros. E ficando sozinha, não há ninguém para mudar de canal na TV como fazem os homens da família. A música é uma suave companhia. Ao entrar em casa, vou ligando o rádio e fazendo minha trilha sonora.
Viver só ou acompanhada, qual o melhor? A conclusão a que cheguei é que o mais importante é aprender a viver.

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